5. Sosiale indikatorer
5.10. Helseforhold og funksjonsevne
(um grito da consciência ou simples sublevação?)
Os afro-descendentes da comunidade "Linha 8" tiveram, ao longo de suas histórias de vida, que enfrentar adversidades de todas as espécies, como um espaço geográfico, na sua grande parte acidentado e alagado com suas ribanceiras e seus brejos; a falta de ocupações remuneradas, que lhes proporcionassem viver e morar com o mínimo de conforto e dignidade; e os olhares preconceituosos e discriminadores que lhes eram dirigidos, imputando-lhes estereótipos e estigmas, acuando-os nos limites dos seus territórios.
Nas escolas do bairro, assim como seus assemelhados de quaisquer outros lugares, os afro-descendentes recebiam informações depreciativas de suas imagens, negativadoras dos potenciais de suas capacidades, destruidoras da auto-estima. O estágio de submissão, a que foi levada a quase totalidade dessas pessoas, provocou uma situação de quase letargia, levando-as à inibição de suas potencialidades de luta pelos seus interesses cultural, político e econômico de forma direta, desestimulando-as para o exercício efetivo da plena cidadania. Por outro lado, não obstante a força destruidora do sentimento positivo da auto-estima, gerada pelas manifestações dos preconceitos e das discriminações, uma pequena parcela desses afro-descendentes não se deixou abater de tudo frente às devastadoras conspirações alimentadas pela presunção de superioridade: uma centelha de
"inconformismo" e "rebeldia" permaneceu resistindo aos ataques depreciativos do "ser afro-descendente" nas concepções das elites soteropolitanas. Sugere Ferreira (2000, op. cit.), o indivíduo no estágio de submissão tende a permanecer nessa situação até o momento em que alguma experiência relevante o desperte para uma reflexão profunda da sua realidade, fazendo-o enxergar-se como "ser vivente" no meio social a que está inserido. A partir daí, inicia-se uma tomada de consciência estimuladora de impactos estruturais no ser, levando o próprio indivíduo a posicionar-se como sujeito no seu contexto, aceitando ou não o status que lhe é atribuído pelos outros. No caso específico dos afro-descendentes da Liberdade, a situação de impacto produzida no confronto das suas experiências os levou a rejeitar as discriminações sofridas, rompendo as barreiras das limitações e impondo-se, aos seus depreciadores, na relação de igualdade.
Desde cedo, muito antes dos movimentos culturais dos anos 70, os moradores do bairro da Liberdade organizavam e desenvolviam suas estratégias de luta e afirmação através das suas manifestações vitais – como já foi dito na nota de rodapé número 18 da página 16: religião e ludicidade sempre têm sido duas vertentes significativas nas resistências culturais da comunidade da "Linha 8". Era e continua sendo, nas práticas ritualísticas do Candomblé, que os moradores afro- descendentes adeptos perpetuaram e perpetuam seus laços com as suas ancestralidades. O mesmo se pode dizer em relação aos blocos afros e aos afoxés do lazer carnavalesco que têm servido de mecanismos de afirmação social na apropriação e no uso do espaço público. Gradativamente essas manifestações foram ganhando perfis estratégicos de sociabilidades. É possível que essa tendência lúdica do bairro tenha reforçado, na ótica preconceituosa das elites, a imagem estereotipada de "malandro" que passou também a identificar os seus moradores. Sabe-se que se costuma associar a "malandragem"35 a um conjunto de gestos corporais – muitas vezes interpretados também como "boçalidade". A esse respeito, Rolnik também assim se expressa: "[...] a freqüência com que se dança, umbigada,
requebro e abraço publicamente desafia os padrões morais". Referindo-se também
à atmosfera festiva do bairro, Manoel dos Reis – testemunha ocular dessas animações –, lembra desse lado carnavalesco da comunidade: "A Liberdade era um
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carnaval da pesada, né. Quer dizer, depois é que surgiu esse negócio de Trio Elétrico. Mas, antes tinha as batucadas. Tinha a 'Fortaleza'. Tinha não sei o que lá... Em outros lugares, bairros também, tinham outras batucadas" (Entrevista, 1997). O
mesmo depoente, arrematando a sua narrativa, continuou em tom enfático:"[...]
batucada mesmo, diziam que era de negros, de pobres, né. Tinha batucada na Favela acho que era a 'Fortaleza do amor'“ (idem). Aqui, as palavras de Manoel dos
Reis são reforçadas pela afirmação de Rolnik (op. cit.) quando relaciona os "requebros" e as "umbigadas" à quebra dos padrões morais. Sendo a batucada uma modalidade de passos e jeitos de corpo comumente praticados por afro- descendentes, fica também explícita a visão pessimista e preconceituosa de milhares de pessoas da cidade do Salvador em relação às formas de sociabilidades das populações desfavorecidas, principalmente pobres e negros". Pai Lídio, rememorando o seu tempo de rapaz envolvido nas festas do bairro, assegurou: ”o
que eu tenho na lembrança é minhas mulé (sic), meu samba e muitas escolas de samba que fiz aqui: Ritmo da Liberdade, Bafo da Onça, Filhos da Mangueira [...]”
(Entrevista, 1997).
As escolas de samba lembradas por "Pai Lídio" juntavam-se aos "ternos" e "ranchos" já existentes que circulavam o bairro, de rua em rua, congregando a mocidade fazendo a alegria de todos. Dona Valquíria, em tom saudoso, deixou escapar sua lembrança daquele tempo: "Antigamente, tinha a 'Viuvinha' que saía d'aqui. Tinha o
'Trança-fitas' [...] Aqui no Japão era tão influente que nem precisa sair para a Liberdade..." (Entrevista, 1977).
As leituras interpretativas sobre as relações comportamentais dos afro-descendentes da Liberdade, que construíram o imaginário coletivo citadino carregado de negatividade, foram também fatores que ajudaram a retardar, de certa forma, a eclosão de impactos provocadores de reações contrárias à atmosfera de preconceito e discriminação latentes por toda a cidade. Retardaram mas não a eliminaram: atravessados os momentos da ocupação efetiva e da estabilização e garantia do direito de permanência, a comunidade desenvolveu e acelerou suas estratégias de confrontos contra as situações de desigualdades social e racial que obstaculavam a marcha rumo à sua afirmação social.
Nas atividades do Colégio Estadual Duque de Caxias, assim como nas demais escolas públicas do bairro, um Projeto de Extensão Pedagógica entrou em ação a partir de 1995, capitaneado pelo pessoal do Ilê Aiyê, visando a conscientizar professores e alunos. O objetivo principal que é colocado é o de instrumentalizar docentes e discentes, principalmente os afro-descendentes, para lidar em sala de aula com a grande questão da discriminação racial, munindo-os de conhecimentos em relação à vida e à história do negro, desde a África até as Américas, dando ênfase especial ao território brasileiro. A professora Maria de Lourdes Siqueira, explicando bem o objetivo do projeto, informa:
[...] o projeto busca integrar dimensões que situam vida, riqueza, história e contexto social, sobre as quais se estrutura a realidade de crianças e adolescentes expostos ao não-cumprimento e aos limites das políticas públicas, em relação à população de ascendência africana na Bahia, mais especificamente, em bairros periféricos de Salvador, a exemplo do Curuzu, na Liberdade. (SIQUEIRA, 1996, p. 164).
No bojo dos movimentos iniciados a partir de 1974, que viria a provocar expressivas mudanças, a comunidade da "Linha 8" passou a receber as mais duras críticas. Logo de início foi o Ilê Aiyê, quando da sua primeira aparição pública no Carnaval de 1975, que despertou preocupações dos jornalistas, acusando-o de pioneiro numa postura racista que se dizia, até então, não existente no "paraíso racial" baiano. Pode-se abstrair essas insinuações a partir da nota a seguir, veiculada por um dos jornais da cidade:
BLOCO RACISTA, NOTA DESTOANTE. Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: 'Mundo Negro', Black Power', 'Negro para você', etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de 'Bloco do racismo', proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do 'Ilê Aiyê' - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observaram do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do 'Ilê' voltem de outra maneira, no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característico do carnaval.Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que seria entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constituiu, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classe o espetáculo da luta de raça. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do 'Ilê Aiyê'(A Tarde, 12/02/1975).
A transcrição, na íntegra, da nota acima, está mais em função da possibilidade que ela oferece de articular várias informações sobre questões polêmicas pertinentes ao tema em reflexão. Em primeiro lugar, atente-se para a expressão "[...] feio
espetáculo [...]" referenciado logo de início na nota. O que seria "feio" então, as
inscrições nos cartazes que naquele auge representavam os movimentos negros ganhando o mundo ou os negros organizados e irmanados, ganhando as ruas de Salvador, ameaçando o uso absoluto do espaço público pelas elites nos seus lazeres? Sabe-se que o padrão de beleza privilegiado no Brasil, portanto em Salvador, sempre foi centrado no modelo europeu, restando às características africanas a depreciação. Assim os negros foram rejeitados nas agremiações carnavalesca dos "brancos" e procuraram se organizar etnicamente em grupos específicos, recebendo a pecha de "bloco racista" e "destoante", como no caso do Ilê Aiyê – uma forma estratégica de se transferir para os discriminados todo o ônus das causas e conseqüências da discriminação, corroborando com Ferreira (2000, p. 72) quando afirma que "os problemas etno-raciais (...) são explicados sob o prisma da 'culpabilidade da vitima” (op. cit.). Em terceiro lugar, ao considerar a iniciativa dos negros da Liberdade em se unirem em Associação Cultural e Carnavalesca, uma postura explícita de estrutura ideológica racista o próprio jornal admite que, já em 1975, os afro-descendentes da comunidade "Linha 8" tinham consciência de que
estavam fazendo "política além de cultura" – conforme as palavras de Jônatas Conceição, um dos diretores do bloco Ilê Aiyê.
Assim, contrariamente às acusações de “negros revoltados”, o que se pode deduzir desse episódio é que os impactos provocados pelos estigmas da discriminação sociorracial despertou a consciência crítica dos afro-descentes da "Linha 8", encorajando-os a se organizarem mais efetivamente e a soltarem seus gritos de consciência libertária, entrando decisivamente num estágio de militância e confronto rumo à luta pela afirmação social dos seus valores. Contudo, não se pode perder de vista as dimensões estratégicas dessas lutas que não vêm se travando de forma monolítica e absolutamente consensual. Ao contrário, é uma peleja que, de certo modo, tem sua origem fincada num passado que remonta às iniciativas dos pioneiros moradores do bairro, dentro das condições de que dispunham, mas que legaram, às gerações futuras, contribuições valiosas para que se tornassem possíveis as mudanças culturais e políticas processadas a partir de 1970. O caráter “não-
consensual” dessas lutas pode ser explicado, considerando-se que o próprio bairro
teve o seu povoamento e desenvolvimento a partir da convergência de famílias oriundas de várias regiões do Estado da Bahia, levando consigo padrões culturais ecléticos, pondo-os a interagir, intersubjetivamente, dentro de uma dinâmica social que sempre se tem mostrado diversificada.
SEGUNDO CAPÍTULO
2 O BAIRRO DA LIBERDADE E SUA DIVERSIDADE
(entre igualdades e diferenças)