Observou-se que 72% dos homens e 14% das mulheres, portanto um total de 86% da população estudada, apresentam valores de glicémia em jejum compreendidos entre 70 e 109 mg/dL, ou seja, valores normais segundo os critérios de diagnóstico; 9% dos homens e 1% das mulheres apresentaram glicémias entre 110 e 126 mg/dL, ou seja 10% da população, apresenta alterações da glicémia de jejum, ou seja, anomalias da homeostase da glicose, recentemente designada hiperglicémia intermédia (OMS, IDF), comportando factores de risco para uma futura diabetes e doença cardiovascular; e ainda 4% dos homens apresenta valores de glicémia em jejum, superiores a 126 mg/dL (Figura III.6.). Este último grupo de indivíduos apresenta risco de vir a sofrer doença micro e macrovascular, característica da diabetes.
Figura III.6. Comparação da percentagem de indivíduos do sexo masculino e feminino, segundo os
Deste modo, 14% dos dadores de sangue estudados apresentam níveis de glicémia plasmática de jejum elevados. É de realçar que no presente estudo foi usado como limiar diagnóstico de alteração da glicémia de jejum o valor de 110 mg/dL recomendado pela OMS e não o valor de 100 mg/dL proposto pela ADA, o que desencadearia o aumento do número de indivíduos com alterações da glicémia de jejum.
É também importante referir, que o diagnóstico nunca é feito apenas, com base numa determinação, sendo necessária a sua repetição num dia diferente para confirmar o diagnóstico; e que além deste critério de diagnóstico (glicémia em jejum) existem outros dois tais como: uma glicémia ao acaso (a qualquer hora do dia sem se levar em linha de conta a hora da última refeição), igual ou superior a 200 mg/dL, acompanhada dos sintomas clássicos (poliúria, polidipsia e perda de peso). Um outro critério de diagnóstico é a prova de tolerância à glicose oral (PTGO), não se tendo procedido ao seu doseamento. No entanto, deve ser efectuada a sua determinação nos indivíduos que apresentam alterações da glicémia de jejum (valores entre 110 e 125 mg/dL) para melhor definir o risco de diabetes (Associação Americana de Diabetes, 2002; Direcção Geral de Saúde, 2002; Associação Americana de Diabetes, 2007). A OMS recomenda mesmo a utilização da PTGO pelas seguintes razões: a glicémia plasmática de jejum falha o diagnóstico de cerca de 30% dos casos de diabetes ainda não diagnosticada, a PTGO é a única forma de identificar pessoas com DTG e é frequentemente necessária para confirmar ou excluir anomalia da tolerância à glicose em indivíduos assintomáticos.
Recentemente, foi efectuado um estudo no hospital de S, João do Porto (Rodrigues e colaboradores, 2006) cujo objectivo foi avaliar a prevalência da diabetes mellitus e outras alterações do metabolismo glicídico em doentes com síndrome coronário agudo (289 doentes, dos quais 94 doentes apresentava diagnóstico de diabetes mellitus e 195 apresentava diagnóstico desconhecido. Nos doentes sem diagnóstico prévio de diabetes e
com glicémia de jejum < 126 mg/dL, efectuou-se a PTGO (após ingestão de 75 g de glicose oral), como meio de diagnóstico. Sendo que, o metabolismo de glicose foi classificado como normal se a PTGO aos 0 minutos < 100 mg/dL e ao fim de 2 horas < 140 mg/dL, anomalia da glicémia de jejum, se os valores de glicémia aos 0 minutos se situam entre 100 e 125 mg/dL e ao fim de 2 horas < 140 mg/dL, diminuição da tolerância à glicose, se os valores de glicémia aos 0 minutos são inferiores a 126 mg/dL e ao fim de 2 horas se situam entre 140 e 199 mg/dL, diabetes mellitus, se ao fim das 2 horas os níveis de glicémia são > 200 mg/dL. Deste modo, a realização da PTGO permitiu identificar 112 novos casos de diabetes e alteração da tolerância à glicose, em 195 indivíduos com síndrome coronário agudo cujo diagnóstico de diabetes mellitus era desconhecido. Sabendo-se que o risco cardiovascular destes aumenta com as alterações da glicose, conclui-se que é importante implementar estratégias que visem a detecção precoce de alterações glicídicas em doentes com doença coronária aterosclerótica.
Um outro estudo no mesmo hospital (Neves e colaboradores, 2006), pretendeu averiguar a importância da PTGO na avaliação de pré-diabetes em 120 doentes (73% do sexo feminino e 27% do sexo masculino) com patologia tiroideia (bócio multinodular, tiroidite autoimune e hipotiroidismo), sendo determinadas a glicose e a insulina em jejum e às duas horas na PTGO. Verificou-se que o hipotiroidismo parece estar associado a hiperinsulinismo na PTGO, representando um factor de risco para desenvolver diabetes.
Fazendo uma revisão da literatura existente, pode observar-se que inúmeros estudos recorrem à PTGO para diagnosticar a pré-diabetes, em vez de utilizar a glicémia de jejum. No presente estudo, teria sido interessante proceder à determinação da PTGO nestes indivíduos, para ver se os resultados obtidos eram concordantes. O que não foi viável dado que se tratava de dadores de sangue que a seguir iriam efectuar a sua dádiva.
0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 3 4 5 6 7 8 9 10 % Hemoglobina Glicada [G lic os e] m g/ dL
Em Portugal a prevalência da diabetes tem vindo a aumentar, diversos estudos revelam números muito preocupantes. O estudo Saúde Centro, que englobou 24000 adultos de ambos os sexos, pertencentes aos seis distritos da região centro do país, veio comprovar a elevada prevalência da diabetes (10%) em Portugal. Um outro estudo realizado em 20005 utentes do S.N.S. com idades compreendidas entre os 55 e os 84 anos, revelou que a prevalência atinge os 30% agravando-se com a idade (Cardoso, 2006). Perante esta realidade, há que actuar no sentido de prevenir e/ou minimizar as complicações da doença, o só pode ser conseguido através da avaliação do controlo glicémico, utilizando-se para tal a determinação da hemoglobina glicada A1c.