Del 3: Klinikkenes HMS-årsrapporter
3.9 Kvinneklinikken (KVI)
Um dos âmbitos mais relevantes a ter em consideração é o que se refere aos aspetos fonéticos e/ou fonológicos que caracterizam a zona raiana em estudo. Estas particularidades são das mais consideradas por autores como José Leite de Vasconcelos, Manuel de Paiva Boléo e, também, Luís Filipe Lindley Cintra, que, em diferentes temporalidades históricas, tentaram definir as zonas dialetais portuguesas. Ainda que a definição dos limites dialetais do território português varie entre os autores considerados, é possível compreender, através dos seus estudos, a transversalidade na definição de duas grandes zonas dialetais: a zona norte, correspondente aos dialetos setentrionais (onde se insere a zona em estudo) e a zona centro e sul, correspondente à zona dos dialetos centro- meridionais. Lindley Cintra (1995: 140 e 141) ainda define mais uma grande zona dialetal, a que compreende os dialetos galegos, dividindo a área linguística galego- portuguesa em três grandes zonas dialetais.
Uma das formas de divisão do território português ao nível linguístico é realizada através do traçado de isófonas, de fronteiras linguísticas que separam “duas regiões em que comportamentos fonológicos diversos podem ser observados” (Castro, 2004: 26). Lindley Cintra (1995: 117), na sua “Nova proposta de classificação dos dialetos galego- portugueses”, estabelece alguns traços fonéticos distintivos que, segundo ele, distinguem um falante português do Sul de um falante português do Norte. Alguns dos traços distintivos referidos pelo autor, são observáveis também na comunidade em estudo, podendo destacar-se os seguidamente apresentados.
A inexistência de oposição fonológica entre os fonemas [v] e [b], característica dos falares setentrionais, onde se verifica, em termos mais rigorosos, o desvanecimento da distinção entre a fricativa labiodental sonora /v/ e a oclusiva bilabial sonora /b/ que, no Norte, pode oscilar entre [b] bilabial e fricativa bilabial [β], enquanto no Sul se mantém
a distinção entre a bilabial e a fricativa ([b] ≠ [v]). Nas entrevistas, várias são as evidências a este respeito, nomeadamente em algumas formas verbais, como vim (do lat. veni), pronunciado bim (“eu estou a dizer a verdade, porque sou filha de um Rei e o meu pai mandou-me matar e eu bim guardar patos” ‒ Paula, Prado) ou andava (do lat. *ambulabat? – origem controversa), pronunciado andaba (“fiquei sem a mai de seis aninhos… despois bim co’ meu pai, andaba a trabalhar por aqui” ‒ Anabela, Castro Laboreiro).
Além de ser evidente em algumas formas verbais, também é bem visível na pronúncia de alguns substantivos, como no feminino vaca ‒ vacas, pronunciado como bacas (“antes, a lavoira era com um sacho e com um arado, com as bacas e agora já é com tratores” – Adelaide, Castro Laboreiro) ou no masculino tavão ‒ tavões, pronunciado como tabão ‒ tabães (“…umas moscas grandes, que lhe chamávamos nós os tabães e, então, depois começavam a picar” – Margarida, Chaviães). Teyssier (1994: 47) aponta esta característica fonológica ‒ a utilização permanente das oclusivas bilabiais (b e β) ‒ como sendo idêntica à do espanhol.
Um segundo traço fonético distintivo enunciado por Lindley Cintra é a manutenção do ditongo [ow], que define como sendo característica dos falares setentrionais e também dos falares galegos. Enquanto nos falares centro-meridionais se observou uma monotongação do ditongo [ow] para [ọ], monotongação que, segundo Teyssier (1994: 52), se deu por volta do século XVII, no Norte essa monotongação não se verificou. Este caráter conservador do Norte é também reforçado por este mesmo autor, que define a manutenção de [ow] como um traço arcaico do português, a par da manutenção do ditongo [ej]50.
Nos relatos dos informantes é visível esta manutenção do ditongo [ow], que vai oscilando com o ditongo [oj]. Uma das primeiras e mais interessantes marcas desta oscilação está presente no substantivo feminino dobadoura – dobandoira (com nasalização, por provável etimologia popular de banda), percecionado na transmissão de saberes orais; aqui, reforça-se a importância da língua também enquanto fonte de transmissão de tradições, como é visível na cantiga popular seguidamente transcrita:
50 Relativamente à manutenção do ditongo [ej], é possível verificá-la, entre os relatos dos informantes, no substantivo feminino passadeira, onde está patente a conservação de um sufixo arcaico e popular: “Nós combinávamos os que queríamos ir e íamos à passadeira que havia aí em Cousso e combinávamos com a
De manhã cedo, pelo ser dia Na minha aldeia, todos dormiam Tudo dormia, só eu acordada E a dobadoura sempre dobava
Doba, dobandoira, doba Não enlices a meada O novelo é pequeno
Tenho a minha mão cansada
Tenho minha mão cansada Tenho a minha presunção Doba, dobandoira, doba Dentro do meu coração
Tenho a minha mão cansada Tenho a minha presunção Doba, dobandoira, doba Dentro do meu coração. (Joaquina, Parada do Monte)
Além do exemplo referido, também é possível observar a oscilação [ow] / [oj] em
lavoura ‒ lavoira (“Tudo para a lavoura. O meu pai (Deus lhe fale na alma!), ainda ia
para a Espanha, coitadinho!” ‒ Margarida, Chaviães ≠ “a lavoira era com um sacho e com um arado, com as bacas e agora já é com tratores” ‒ Adelaide, Castro Laboreiro) ou ouro
‒ oiro (“eu só me queria casar para ter muito oiro, que os noivos davam muito oiro às
noivas naquela altura” – Clara, Lamas de Mouro ≠ “não te dou a minha filha, nim por ouro, nim por prata, nim por sangue de lagarta, que me custou a criá-la” – Fátima, Parada do Monte). Edwin Williams (1991: 95), explicita do seguinte modo essa alternância generalizada, embora diferentemente marcada caso a caso:
…o desenvolvimento de -oct- em algumas regiões para -oit- e noutras para -out- seguido de influência interdialectal, talvez tenha sido a origem da confusão de ou e oi (…) como consequência dessa confusão precoce, o uso de oi divulgou-se no século XVI para palavras que tinham originalmente ou e o uso de ou divulgou-se para palavras que tinham originalmente oi não proveniente de oc(t), com o resultado de que ou e oi se tornaram geralmente substituíveis entre si, embora ou seja mais literário e oi mais coloquial.
Um outro traço fonético distintivo que a meu ver se relaciona, em certa medida, com o anteriormente mencionado é a manutenção do u tónico do latim vulgar + semivogal [į ou j] (Williams, 1991: 52). Esta particularidade é observada nos relatos dos informantes em substantivos femininos e masculinos como fruita (frūctum > fruito > fruto; fructa > fruita > fruta51) e luito (lūctum> luito > luto), respetivamente (“eles ali deram-me, já me deram um biberão com leite, uma caixa de fruita … isto foi na fronteira de França” – Clara, Lamas e Mouro / “O marido foi para a França e ela não ficou de luito” – Fátima, Parada do Monte). Este caráter arcaico típico do galego-português, ainda mantém vestígios na fala dos melgacenses, estabelecendo uma certa proximidade com as formas galegas froita e loito. Além de se verificar nos substantivos referidos, o fenómeno também se regista na forma verbal escuitar (‘ouvir’, < auscultare), ocorrendo a semivocalização de [-l] antes de [t] (“Nós vimos pedir os reis, / nós vimos a cantar / vimos dar as boas festas, / a quem nos queira escuitar” ‒ Adelaide, Castro Laboreiro).
A manutenção de semivogal palatal, partilhando o que ainda se conserva no castelhano, também se verifica nos substantivos desgracia, Francia e sustância52 (esta
forma com a assimilação consonântica, típica do português arcaico e clássico, mas depois relatinizada).
Além dos traços fonéticos referidos, um outro que considero particularmente relevante em Melgaço é a constante ausência de nasalização em substantivos como home (por. homem, gal. home), birge (port. virgem, gal. virxe), orde (port. ordem, gal. orde), nuve (port. nuvem, gal. nube), viage (port. viagem, gal. viaxe), mai (port. mãe, gal. nai)53,
51 José Leite de Vasconcelos (1928: 318), já alertara para este fenómeno fonético: “o grupo latino -VCT-, como é sabido, tornou-se uit- em português arcaico; hoje somente -ut-: fructum> fruito> fruto. A linguagem de Melgaço mantém a fase arcaica -uit-: fruita, luita.”
52 Esta particularidade é percetível nos seguintes exemplos:
“Depois, para me porem a mamar na minha maizinha, metiam-me pela jinela, olha que era desgracia” (Carmo, Roussas); “Viva lá o Senhor e a Senhora da abonância, / lhe traga o seu marido / daquela maldita
Francia” (Clara, Lamas de Mouro); “Ai, o meu comer não presta para nada, não sabe, não tem sustância,
não tem nada!” (Matilde, Paderne).
53 Esta frequente não nasalização das vogais é verificada em muitos dos relatos, de que são exemplo os seguintes:
“Contava-nos que não andássemos de noite, que não podíamos andar de noite, que as noites eram para os
característica típica do galego e que em Melgaço ocorre frequentemente, não só nos substantivos, mas também em adjetivos como “bom” (do lat. bonum), que é constantemente pronunciado como bô (Williams, 1991: 49) – ǫ tónico do lat. vulg. seguido de uma consoante nasal > [õ] ou [o], similar ao galego bo ‒ e nos advérbios como
“muito” (do lat. multum), sem nasalidade vocálica, alternando a sua utilização entre o
galego “moito” e o castelhano “muy”:
Andava muito [moito] a pé, que havia uma estrada só, unicamente havia esta nacional, para cima para os lugares, não havia estrada. (Emília, Castro Laboreiro)
Ela é mui [muy] milagrosa, mui [muy] milagrosa, é tudo o mais, mas da capela, não. (Clara, Lamas de Mouro)
Outro fenómeno fonético que também é verificado durante o discurso dos informantes e que não é exclusivo destes, mas se estende a todo o falar minhoto (Silva, 1962), é a frequente paragoge vocálica, em certas formas verbais como comprar(i), montar(i), buscar(i), comer(i) ou fazer(i)54. Além do fenómeno referido, também dois
outros caracterizam o falar das gentes do Minho, que é a prótese e a epêntese, que se verificam nas entrevistas em formas adverbiais como despois, adespois (formas antigas e populares, provenientes do lat. de ex post), ademais (com significado de “além disso”, similar ao galego «ademais» e ao castelhano «además») e em formas verbais como alevantar, ajuntam, advertimo-nos e arrecebe-se, ou em substantivos como arraianos55.
Por fim, é relevante elencar algumas das variantes fonéticas recolhidas ao longo das entrevistas. Estas variantes estão presentes em alguns substantivos utilizados pelos
“Eu digo-lhe assim para a minha mai: «ai, Jesus, que eu não sei que hai aí fora!», a minha mai já tinha
ouvisto, mas a mim… e diz assim minha mai: «não te assustes, que é uma vaquinha que anda por aí às
soltas.” (Fernanda, Castro Laboreiro)
54O exemplo seguidamente transcrito é um dos contextos onde ocorre a paragoge vocálica referida: “mas, ó menina, o seu paizinho mandou-me levar-lhe o coração numa bandeja e como é que eu vou fazeri?” (Paula, Prado).
55 De entre os contextos referidos, podem-se extrair os seguintes exemplos:
“Pronto, e a nossa vida continuou, adespois, eu tinha os meus avós…” (José, Paços); “A minha mai morreu de quarenta anos e ficamos nós pequeninhas. Adespois, fomos criadas com a avó.” (Clara, Lamas de Mouro); “…ainda para ter assistência médica e, ademais, a gente está a acabar, porque os novos vão para fora (…).” (Adelaide, Castro Laboreiro).
informantes, como cã/ can/ cam (do lat. canem)56, pã/ pan/ pam (do lat. panem) e fame (do lat. famem), e em formas verbais como van, 3ª pessoa do plural do presente do indicativo uadunt > vão (Williams, 1991: 230). Estas formas utilizadas pelos informantes são formas típicas do galego-português, ou português medieval, tendo acontecido que, no português médio e até ao clássico, “todas as palavras da língua que possuíam primitivamente -an (-am) e -on (-om) convergiram (…) para uma só terminação em -ão” (Teyssier, 1994: 46). A primeira das formas apresentadas ainda se mantém no galego e a segunda e terceira formas são típicas tanto do galego como do castelhano, sendo esta uma prova evidente de que ainda existe uma relativa proximidade e influência linguística entre os três falares ibéricos considerados (o português, o galego e o castelhano)57.