Del 3: Klinikkenes HMS-årsrapporter
3.1 Akuttklinikken (AKU)
O contrabando foi assumindo, ao longo dos tempos, múltiplas formas e múltiplos protagonistas. Normalmente, os autores distinguem dois tipos de contrabando: o contrabando familiar e o contrabando profissional ou “assalariado” (Cunha, 2006; Amante, 2007; Gonçalves, 2008; Domingues & Rodrigues, 2009). O primeiro é normalmente protagonizado pelas mulheres e, também, pelas crianças; o segundo é, sobretudo, do domínio dos homens, incluindo os grandes contrabandistas e vai muito além da linha delimitadora da fronteira (Amante, 2007: 142).
O contrabando praticado pelas mulheres era, geralmente, o pequeno contrabando17; estas, recorriam ao comércio ilegal além-fronteiras para assegurar a subsistência familiar e comunitária. Este contrabando envolvia, sobretudo, bens de primeira necessidade como ovos, galinhas, azeite, arroz ou massa e, também, a venda de barras de sabão e pastas de chocolate, sendo que a motivação da mulher que praticava este tipo de contrabando era sobretudo a de “tirar os filhinhos, cheiinhos de fome, das portas do mundo” (Clara, Lamas de Mouro).
Ainda que em pequena escala, este tipo de contrabando era visto como o mais arriscado de todos, por ser praticado por mulheres que eram consideradas mais frágeis e suscetíveis de sofrer com os abusos das autoridades. Assim, referiu um informante:
As mulheres faziam outro tipo de contrabando, que era um contrabando mais de galinhas, ovos e essas coisas todas assim, que acabava por ser um contrabando mais arriscado do que o outro, (…). Quando os guardas apanhavam alguém lá com os ovos, com as galinhas, ou
com nada, aí é que exerciam a autoridade toda e tu podias ter circunstâncias em que, uma mulher, por estar a passar ovos, ir para a cadeia, por exemplo. (A. Gonçalves)18
As mulheres utilizavam, na prática do contrabando, sobretudo as suas redes próximas de conhecimento, nomeadamente, os círculos de vizinhança e de parentesco. Era com pessoas de confiança que realizavam as suas jornadas além-fronteiras, crendo que nenhum entrave inibia os seus intentos.
Por sua vez, o contrabando mais profissional era sobretudo da competência masculina, estando ligado a redes de poder e a grandes empresários do contrabando. Este tipo de contrabando envolvia regras e procedimentos relativamente complexos, desde passar a mercadoria de um lado ao outro da fronteira, às vezes a distâncias consideráveis, a ocultação das cargas, a comunicação entre fornecedores, chefes e clientes, a ligação com as forças de autoridade e, por fim, a sua venda e a obtenção do respetivo lucro. Assim, o contrabando “profissional” envolvia um saber prático e uma logística muito apurada, presente em códigos e combinações estratégicas, como me foi relatado:
Havia [códigos]. Usar sempre um pano branco à janela e nós já de cá víamos. Depois, o pano branco era para levar trinta quilos e, se puxava o pano e depois abria o pano, mais um, puxava o pano, mais outro; depois, a gente espreitava os guardas fiscais de cá e lá passávamos a salto. Lá íamos de noite, às vezes até íamos de dia, quando eles recolhiam e ouvíamos a pareja do lá de lá, andavam os carabineiros pela linha de comboio… via-se bem do lado de lá. A pareja dos carabineiros vinha por ali abaixo, quando ia para o quartel, havia uma extensão grande, que a gente via-os passar e passávamos para lá, passávamos e era logo um dos nossos clientes. (José, Paços)
Em termos de mercadorias, podiam ser ouro, prata, volfrâmio (muito importante sobretudo durante a Segunda Grande Guerra), cobre, gado, acessórios de automóveis, sucata, tecidos, parafina, tabaco, bananas ou café, sendo que estes últimos marcaram o contrabando de grande escala em Melgaço, nos anos setenta e oitenta (Domingues & Rodrigues, 2009).
Em Melgaço praticou-se essencialmente o contrabando “às costas” (Domingues & Rodrigues, 2009: 231) com homens a carregar cargas que podiam chegar ao peso equivalente ao de um animal19, mas também coexistiam outros tipos de meios de
18 Vd. Excerto 5 (completo) no Anexo 8; 19 Vd. Excerto 12 no Anexo 8.
transporte das mercadorias. Estas podiam ser “cordeadas”, ou transacionadas com o recurso a animais, a batelas, através do comboio, do carro, ou, mais recentemente, de camiões, envolvendo sobretudo redes organizadas e não somente a iniciativa individual20. Este facto é importante, pois o contrabando, tal como outras atividades, vivia sobretudo das circunstâncias, havendo uma constante mudança nos tipos de produtos contrabandeados e nas formas de transação dos mesmos (Cunha, 2006; Gonçalves, 2008). Na memória dos informantes, o contrabando é quase sempre uma prática associada ao género masculino, conotada com valores como a força, destreza física e psicológica, virilidade e respeito. As narrativas são pautadas por um tom de heroicidade – “era uma coisa sempre com medo, mas a gente éramos afoutos, rapazes novos!” (José, Paços) – que dá uma visão quase que romântica da prática do contrabando, sobretudo do “tradicional”, segundo a qual “o heroico contrabandista…passava as noites ao relento arriscando a vida e a fazenda para levar uma carga de contrabando por vezes mais de uma centena de quilómetros para além da fronteira” (Cunha, 2010: 3), preservando-se na memória coletiva os tempos de coragem e valentia.
Torna-se essencial voltar a atentar no papel da mulher na prática do contrabando. Como referi anteriormente, o contrabando praticado pelas mulheres era descrito como um contrabando mais básico, de troca de bens essenciais ao quotidiano familiar cuja realização não envolvia grandes meios físicos ou redes organizadas. Contudo, durante a análise das narrativas dos informantes esta ideia foi sendo contestada, sobretudo pelas próprias melgacenses. Na sua opinião, a mulher melgacense sempre se mostrou capaz de enfrentar preconceitos e barreiras, mesmo num mundo dominado pelos homens gerindo, ainda que em desigualdade de circunstâncias, as suas causas, e acabando também por estar envolvida em redes de contrabando organizado.
Como referiu um informante, “numa terra onde não há homens, as mulheres são como os homens” e, de facto, durante a ausência prolongada dos maridos, as mulheres mostraram mesmo que eram tão ou mais capazes do que eles. Ao inserir-se neste tipo de atividades, a mulher tornou-se um agente ativo, ultrapassou fronteiras, não só físicas, mas também simbólicas inerentes à sua condição feminina (Silva, 2014: 239
).
A mulher, como se verá, foi muitas vezes dinamizadora de bens e de pessoas, construindo as suas estratégias, estabelecendo os seus contactos. Marta Silva (2014: 249) sublinha que a envolvência das mulheres num mundo tipicamente masculino dá a
conhecer “as mulheres que encontraram formas de combater a sua situação de subalternidade económica e social”. O mesmo é referido nas narrativas de alguns melgacenses, que reforçam a importância da mulher no contrabando em grande escala:
…as mulheres não estão desligadas, mesmo neste contrabando, as mulheres não estão desligadas da atividade, porque informam, porque vigiam os stocks, porque enganam ou não enganam a Guarda Fiscal, mas as mulheres têm um papel muito importante, nesse contrabando mesmo. Não era necessariamente uma parte de transporte até Espanha, mas era uma parte de gerir a retaguarda do contrabando (…). (A. Gonçalves)
Não é estranha para a população melgacense a presença das mulheres nas redes do contrabando; eu própria entrevistei duas antigas contrabandistas uma delas desde os seus onze anos. Aqui, revela-se outra particularidade essencial: a presença prematura dos mais novos num mundo laboral complexo como é o do contrabando21. As crianças eram vistas
como um adulto em ponto pequeno, que se esperava que começasse a trabalhar tão cedo quanto possível, por forma a suprir as necessidades familiares, amputando-se muita da sua infância e, também, da possibilidade de acesso à educação. Esta realidade é reforçada por Albertino Gonçalves (2008: 244), que num dos seus textos relativos ao contrabando, expõe, através do recurso a um comunicado de um docente, a preocupação e o descontentamento dos docentes face à falta de assiduidade das crianças às aulas:
Tenho a honra de comunicar a V. Exa. que, como o demonstra o mapa mensal referente a Maio, a frequência média da 3ª classe desceu de 33, em Abril, para 27. A causa desta anormalidade filia-se na razão de os pais de muitas crianças as mandarem para a “frota” – nome por que é conhecido o contrabando dos ovos e sabão para a Espanha. Tenho empregado os maiores esforços desde o pedido servil até à intimidação, mas como os lucros são fabulosos – uma criança chega a ganhar 30 e 40$00, e a miséria é grande, nada tenho conseguido. Sei que não é esta escola a única a sentir estes perniciosos efeitos do contrabando, pois o mal é geral.
É importante salientar ainda relativamente à posição da mulher na prática do contrabando, que o mesmo tom de heroicidade que encontrei nos homens relativamente a esta prática, também me foi transmitido por mulheres, reforçando uma vez mais a sua posição. Segundo uma das informantes:
… o contrabando era tipo um lazer, era uma coisa diferente. Ias para passear, a adrenalina a entrar-te no sangue, estás a ver? Vamos para o perigo, mas vamos a ele! Aqui era tipo «ai, hoje vou para a praia», não, mas nós íamos para o contrabando todos! (Ana, Castro Laboreiro).
O contrabando surgiu como uma oportunidade para todos; surgiu, sobretudo, como uma alternativa viável numa terra onde os recursos escasseavam. Para muitos foi uma solução, para outros um modo de vida; uns, garantiram a subsistência condigna para si e para os seus, outros, conseguiram grandes fortunas e estatuto social.