Del 3: Klinikkenes HMS-årsrapporter
3.6 Klinikk for laboratoriemedisin (KLM)
Além das histórias que envolvem a figura feminina, é importante atentar nas estórias que a incorporam e que preenchem um lugar particular no imaginário dos habitantes de Melgaço. O mundo do imaginário, apesar de construído e inspirado muitas vezes no mundo do fantástico, revela um especial fundo prático e permite aos melgacenses dar significado às práticas e expressar a sua visão do mundo. Assim, as narrativas são “uma espécie de código interpretativo da realidade social” (Geraldes, 1978: 43), uma criação cultural que permite alargar o olhar para lá do plano do discurso. A riqueza da oralidade e a capacidade inventiva levou-os a projetar a mulher também no seu imaginário, tendo em conta as mais diversas situações: umas vezes a mulher, surpreendentemente, assume uma função de domínio sobre o homem e sai fora do espaço real de submissão, outras era compreendida na sua posição real de sujeição e sofrimento, e ainda outras vezes, acabava por se reforçar o seu papel enquanto gestora e empreendedora, verificando-se, também no domínio da criação imaginária, uma multiplicidade de olhares sobre a sua posição social.
O mais interessante é que esta associação é inconsciente e não intencional, detentora de uma profunda riqueza simbólica. Já Jorge Dias (2004: 24) refletia sobre a capacidade inventiva do povo português, referindo-se a este como um “misto de sonhador e homem de acção, ou melhor, um sonhador activo, a que não falta um certo fundo prático e realista”, sendo que a sua atividade “não tem raízes na vontade fria, mas alimenta-se da imaginação, do sonho, porque o português é mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão”. No caso específico de Melgaço, o isolamento e o forte sentido de comunidade fizeram com que os melgacenses estabelecessem uma linha ténue entre a vida real e a realidade imaginada. Isto é muito notório nas narrativas orais referentes à mulher, como se pode verificar naquela que é seguidamente transcrita:
Bem, eu tinha uma tia na Ameijoeira e adepois a tia estava casada e ia com a rês, ia com as
Então, saiu-lhe uma rapariga, falou com ela e disse-lhe se lhe fazia um favor e a minha tia disse-lhe que si, que fazia, adepois foi e disse-lhe então o que era e dissu-lhe assim: “tem que me trazer o leite de uma cabra negra nove manhãs e deixa-me ali em tal sítio”, lá lhe ensinou onde havia de pôr a vasilhinha com o leite. Ela dissu-lhe que sim…, “mas você tem que sair do eido e que ninguém dê conta, tem que sair que ninguém a veja. Pronto, olhe, despois você fica milionária, não precisa de trabalhar mais!”.
A mulher, pronto, lá cumpriu, saía de noite, ia mugir as cabras, saía de noite até lá cima onde ela marcara para pôr. [A moura disse-lhe] “eu hei de ir na fulgura de uma cobra, faço muito ruído, mas você não me tenha medo, que eu não lhe faço mal, você depois deixa aqui a vasilhinha e você vai-se embora”.
Pronto, assim foi, mas a minha tia como tinha um marido que era muito desconfiado, dizia assim: “então, a minha mulher porque sai assim tão cedo todas as manhãs?” – cuidava que tinha algum amante – “assim tão cedo? Eu tenho que saber para onde é que ela vai!” Até que, a última manhã, foi atrás dela, foi atrás dela e viu para onde ia, viu o que fazia claro. Pronto, estragou-lhe o negócio, a rapariga saiu e disse-lhe assim: “você foi a minha
desgracia, que me dobrou o meu encanto, foi a minha desgracia e a sua, você dobrou-me
o meu encanto”.
Pronto, acabou, lá vai, o home desgraçou tudo à rapariga, que se lhe dobrou o encanto e à mulher, que não ganhou a riqueza. (Fernanda, Castro Laboreiro)
A mulher e a moura encantada referidas na narrativa representam, simbolicamente, a força do poder feminino: uma, é detentora de grandes riquezas, a outra é corajosa no empreendimento em que se lança para melhorar a sua condição de vida. Neste sentido, ainda que a estória se baseie em factos lendários, pode-se estabelecer quase de imediato uma analogia com a mulher rural minhota, que foi assumindo um importante papel de gestão das riquezas e do património familiar e, também, uma importante capacidade de resistência e de perseverança, fundamental para a afirmação da sua posição no seio da comunidade.
Além da narrativa referida anteriormente encontram-se, entre os discursos dos informantes, outras de maior fundo prático, transmitidas num tom anedótico e jocoso, que permitem compreender outras realidades que envolvem a figura feminina: uma, refere-se ao poder de sedução da mulher sobre o homem e outra, paradoxalmente, relaciona-se com o tradicional poder masculino sobre a figura feminina. A particularidade destas narrativas está nos seus transmissores – ambas foram transmitidas por mulheres, o que denota uma certa incorporação da sua dupla posição relativamente ao homem: uma posição de superioridade e outra de demarcada inferioridade, tendo-as aceite como realidade observada e vivida:
Era uma rapariga que namorava e o rapaz levava duas malas grandes e chegava lá à namorada e a mai dizia: «olha, este rapaz traz muito dinheiro, este é rico!», mas ele namorava com ela e não se mexia nada.
Chegava ao outro domingo, pousava as duas malas e dizia-lhe ela [a mãe] assi: «ó Maria, não te fez nada?»
[Maria] «Não, sentou-se à minha beira e não faz nada.»
Chegou o terceiro domingo e diz-lhe [a mãe] assi: «olhe lá, você já beu três domingos para a minha filha e não faz nada para ir com ela. O primeiro domingo apalpa-se os peitos, o segundo beija-se, depois apalpa-se as mamas e depois já se vai com ela para a cama.» Diz ele: «Eu só não fiz nada, podemos fazer nesta noite.»
[Mãe]: «Já pode ir com a filha para a cama!»
Ela foi para a cama, a mai foi lá à mala, abriu-lhe as malas e bateu à porta do quarto: «ó Maria, são latas, latões!»
[Maria] «Ó minha mai, já está enterrado até aos colhões!» (Paula, Prado)
Estavam duas senhoras a falar uma com a outra e a Maria dizia para a Rosa: – Ai, o meu marido quando bebe bebidas alcoólicas diz-me cada disparate! Diz a outra:
– Pois o meu é o contrário, ataca-lhe a mão direita e dá-me cada bofetada! (Joaquina, Parada do Monte)
A mulher aparece, ao mesmo tempo, como transmissora e personagem principal destas narrativas. Este facto é importante, porque permite compreender estas criações culturais como resposta e síntese à realidade vivida por estas mulheres, que transpõem para o imaginário os seus sentimentos e a sua visão do mundo.
A mulher sempre foi a grande transmissora dos valores e crenças da comunidade em que se inseria, assumindo o compromisso de manutenção da ordem tradicional e isso passava também pela transmissão às gerações mais novas das narrativas orais criadas e difundidas pela comunidade e que ainda permanecem vivas no imaginário dos melgacenses.