SCIENCE AS SOCIAL AND THE ARGUMENT FOR VALUE-FREEDOM
3.3 A good, sober sociology of science: A different suggestion
Por meio das entrevistas, observei que o desenvolvimento profissional dos egressos do Curso Técnico do CEMCPC tem sido uma constante procura pelo aperfeiçoamento profissional. Isto significou entender uma abordagem de formação que mostrou que os próprios sujeitos pensam suas atividades e procuram melhorá-las profissionalmente. Essa interpretação permitiu compreender que, na relação entre formação e atuação, existe um exercício reflexivo dos sujeitos.
[...] eu desenvolvo mais e aprendo mais quando eu parto para essa outra busca, eu acho, [...] grande parte da minha formação foi fora da sala, a compreensão de conteúdos, porque na sala é muito pincelado [...] só quando você está fora com um colega, com outro professor, você tem essa liberdade de questionar. [...], mas eu acho que a melhor coisa que uma pessoa faz, ao encontrar com os outros, é perguntar o que não entendeu. Nossa! O que eu mais faço é isso! [...] (Sócrates, C E., p.209).
Fazer perguntas ou questionar são tipos de ações que Sócrates, ao elucidá-las, fez- me notar o lado reflexivo das relações entre formação e atuação. Ele ainda me fez enxergar que a busca pela formação é prazerosa.
[...] mas é conscientização sobre o que está sendo ensinado, porque quando você tem [...] essa consciência da necessidade desse conteúdo não depende mais da instituição, não depende mais do professor. A busca se torna pessoal, prazerosa. Assim como eu entendi a necessidade de me aprofundar na harmonia, ninguém precisa me mandar estudar harmonia. [...] (Sócrates, C. E., p. 191).
Ainda para Sócrates, ouvir e ver o outro tocar é ambiente para aprender. Os festivais são importantes locais de formação musical.
[...] eu acho que ouvindo, vendo os outros, eu aprendo muito mais, e reflito também. Nos festivais que tem acontecido aqui em Uberlândia, o Festival de Cordas, eu participo sempre também. Cursos de trompete, quando teve um curso de improvisação com o professor G.O. eu participei, e de outros... Sempre que tem cursos, o que eu posso, eu faço. (Sócrates, C. E., p. 204-205).
Outra forma de dar continuidade à formação referiu-se ao curso livre. Beto ingressou no curso livre de clarinete do CEMCPC. O Curso Livre do Conservatório não tem o caráter da formação com certificação. É livre também nesse sentido. O aluno só pode fazer um instrumento diferente do que se formou. Para Beto:
[...] a gente considera esses cursos como bonificação depois da formação pronta do conservatório, hoje eu estou em um curso fazendo clarinete, que é um instrumento que eu ainda não conhecia. Eu já estou estudando clarinete há dois anos e estou tentando entrar num projeto da UFU agora também, porque eu gosto de buscar [...] Melhora, porque quando você fala sobre técnica, quase todos os instrumentos desenvolvem-se as mesmas técnicas em base de coordenação motora, muda-se as posições [...] precisamente você pegando outro instrumento, muitas vezes você consegue, com certa facilidade, acelerar um processo que você está [tentando desenvolver] no outro há dez anos, [...], no clarinete então significa que eu estou treinando mais, então, quer dizer, está me ajudando sim. (Beto, C. E., p. 110-111).
Para Hermes, os resultados quanto ao coletivo são melhores.
Com as novas habilidades que você adquire fazendo cursos, você consegue focar mais isso: você consegue um resultado melhor na sua interpretação e no seu relacionamento também. Porque se você consegue fazer bem com um pequeno grupo de pessoas, cada vez esse grupo de pessoas vai aumentando, e quando você percebe, já tem um público, uma comunidade, que está ali, do seu lado, até mesmo te ouvindo e respeitando as suas opiniões. (Hermes, C. E., p. 56).
Sérvio Túlio discorreu sobre o enriquecimento na formação.
[...] master-class, workshop, geralmente são de assuntos bem definidos, então se você se interessa você se matricula, eu acho que enriquece muito. Tive contatos com vários músicos famosos, assim, pessoas muito importantes dentro da área do violão, da guitarra, que estiveram no Conservatório fazendo palestra, workshop, eu participei [...], então isso eu sempre busquei. (Sérvio Túlio, C. E., p. 153).
Ainda pude verificar que os egressos buscam a continuidade de sua formação profissional no curso superior de música. “[...] quando eu saí de lá (curso técnico do
conservatório) imediatamente eu vim procurar a universidade, eu prestei a prova específica, passei e comecei a fazer o curso [...]. (Sérvio Túlio, C. E., p. 153).
Hermes considerou que há muitos músicos que nasceram em um meio musical prolífico e que não necessitam ligar-se a uma instituição ou passar pela educação musical acadêmica para ingressarem no mercado e viverem da música. Enfatizou que existem “grandes personalidades da música que nem tiveram uma educação musical tão privilegiada...” Assim falou dos que nasceram no meio do Olodum.
se você nasceu no Olodum, se você é filho do organizador do Olodum, você com certeza, vai ser músico! E não vai precisar participar do Conservatório. Você já vai viver da música, você já vai ter um emprego, mais ou menos organizado na sua vida, como músico! Então, eu acho que tudo é válido! (Hermes, C. E., p. 42).
Beto afirmou que mantém contato com colegas desde que se formou, mesmo com a diferença de idade existente entre ele e os egressos ainda adolescentes. São poucos que
atuam, eu tenho contato com praticamente todos, apesar dos quarentão nas costas, nós éramos meninos no MSN, Orkut, então eu tenho contato e convido eles direto para os meus eventos [...]. (Beto, C. E., p. 109).
Hermes falou, ainda, que os contatos são feitos em sala de aula, pelos corredores e pátio da escola onde se formam os laços de amizade. Estes são fundamentais para dar prosseguimento à formação.
É muito importante para a gente trocar informações, metodologias de ensino, dificuldades com certos tipos de alunos, como solucionar algumas questões, trocar material didático.[...] Então a rede de contato é muito importante. (Hermes, C. E., p. 55)
A manutenção de uma rede de contato com outros profissionais foi enfatizada por ajudar na resolução de problemas legais, direitos autorais, favorecer a redução de custos de produção e empreendimento e pela possibilidade de contar com material humano nas gravações, contatos com gravadoras e editoras e para registrar versões musicais de sua autoria.
Agora que eu estou gravando atrelei alguns contatos com músicos profissionais, até para conseguir registrar algumas musicas porque quando a gente é “Zé Ninguém da Silva”, você não consegue trabalhar com algumas versões musicais, com alguns estilos, quando você vai lançar um trabalho é interessante você ter outras contatos profissionais, [...] Eles vão te ajudar analisar de certa forma, não só pra qualificá-lo mas pra criticá-lo, pra esclarecer [...]conseguir fazer cópias de CD, quase um terço mais barato do que aqui
em Uberlândia, graças ao contato, [...] e vou ter que falar com um músico aí de conhecimento nacional também, pra ver se ele me ajuda a estar registrando uma música de versão, ou algum outro contrato da gravadora, da editora, (Beto,C. E. p. 109)
Os contatos fazem, segundo a visão dos entrevistados, enxergar a realidade sob diferentes ângulos, como neste exemplo:
você tem que ter contato, se você não tiver, só se você tiver o dinheiro, porque aí você faz com que tenha contato, você faz com que te escutem. Então, eu até voltei chateado de São Paulo porque o pessoal da produção do G. L., a P. M. em São Paulo, me pediu duzentos e oitenta mil. Eu tive que rir e falar assim: “se eu tivesse duzentos e oitenta mil você acha que eu estaria aqui?”. Hahaha estava na Bahia essas horas tomando Sol. (Beto, C. E. p. 109)
Ou neste:
Mas é muito interessante e importantíssimo você ter contatos com pessoas que já estão na lida [profissional da música], que já sabe o fruto do que planta-se na música, não é? Porque é duro é quando você planta e fica aquela arvorezinha ali a vida toda! Porque a maioria dos músicos fica na arvorezinha. Não, agora quando você pega alguém que já tem uma plantação e só abrem, só a questão de abrirem a porta para você para ouvirem o seu projeto, te indicar, esclarecer, é muito gratificante, muito. (Beto, C. E., p. 109)
Beto mostrou que:
Na realidade eu acho que é isso que sustenta o conservatório. Se não tivesse essa troca muitas pessoas [...] se hoje mais de quatro mil pessoas que fazem inscrição no conservatório anuais, formam menos de oitenta, se não tivesse essa troca não formaria nem dez, isso eu te asseguro para falar, nem dez não formariam. (Beto, C. E. p. 114).
Foi uma observação pertinente, uma vez que o próprio entrevistado ingressou na escola por intermédio de um amigo, uma conversa ocorrida fora dos muros da escola. Seu depoimento demonstra que a evasão estudantil é intensa, mas que a troca de experiência entre alunos se constitui em importante estímulo para a permanência no conservatório. Finalizando, apontou uma sugestão interessante para se pensar a reforma curricular do CEMCPC, tendo em vista suas experiências com a formação e a atuação. Sugeriu visitas dos estudantes que cursam o nível técnico em espaços de trabalho profissional, levando-os para se apresentar, por exemplo, enquanto estes ainda estão ligados à instituição.
[...] porque eu sempre estive no meio de empresários, sempre tocando em festinhas, e um indicando para o outro, pelo que eu me lembre eu nunca consegui fazer alguma coisa recebendo, assim, alguma coisa financeira ligada aos meus amigos de conservatório ou o conservatório, é aquela parte que eu te falo, faltou o conservatório apresentar as pessoas que estão lá dentro e em nome do conservatório fazendo para a sociedade. Não sei se no produto final eu também ajudaria tanto, mas é uma alternativa, eu acho que é uma alternativa (Beto, C. E. p. 108).
Demo (2009) ajudou a compreender os dados acerca de que o profissional, hoje, não deve ficar alienado do mercado, mas acima de tudo, precisa reconhecer as necessidades do indivíduo e saber pensar o aprender como uma atitude de vida. Relacionando formação e atuação, os egressos se fizeram e continuam se tornando profissionais, dando sentido às suas histórias, experiências, dúvidas e considerando que a formação é uma construção permanente.