4.3.1 O mercado de trabalho musical e a educação profissional
As pesquisas acerca da temática que envolve o mundo do trabalho são vastas e possuem abrangências variadas. Ao buscar entender a relação que os músicos fazem acerca da formação e atuação, este estudo restringiu a categoria mercado de trabalho ao âmbito musical. O propósito foi oferecer subsídios para se compreender uma educação profissional, de um lado, voltada para os interesses dos indivíduos e, de outro, pela consideração de que eles não estão alienados do mercado de trabalho.
Este estudo buscou fundamentos nas considerações de Demo (2009), ao mencionar que, embora não possa estar alienado do mercado de trabalho e não restringir sua formação aos conhecimentos voltados para a competitividade, o profissional, hoje, deveria estar preparado para manejar conhecimentos para fins humanos e éticos.
Conforme a legislação brasileira em vigor, a educação abrange os processos formativos desenvolvidos em diversos aspectos das relações humanas e, dentre elas o trabalho. A LDBEN nº 9394/96, em seu artigo 1º §2º, estabeleceu que “a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social”.
Como mercado, entendeu-se a relação estabelecida entre a oferta e a procura de bens e/ou serviços e/ou capitais. O mercado de trabalho musical pode ser entendido como o relacionamento entre aqueles que oferecem o trabalho como músicos e aqueles que procuram o produto musical ou serviços ligados à música em época e lugares determinados. O estudo procurou perceber e prever os elementos de influência mútua entre a oferta de serviços no campo da música e as demandas, levando em consideração a situação econômica da sociedade em que se vive.
O entendimento deste estudo foi compreender o músico como um trabalhador inserido em um determinado contexto sócio-histórico, que enfrenta as dificuldades em qualquer atividade profissional dentro da realidade do mundo do trabalho atual. Desta forma, está sujeito tanto às pressões, oscilações na carreira, instabilidades financeiras, como também ao sucesso, prosperidade e crescimento das demandas como qualquer outro sujeito no mercado de trabalho contemporâneo. Neste aspecto, os participantes da pesquisa demonstraram a necessidade de buscar diferentes alternativas de trabalho para viver da
música e superar as instabilidades financeiras, de serem criativos, manterem uma rede de contatos e estar buscando a continuidade da formação.
O mercado de trabalho musical foi compreendido, ainda, como um contexto que se renova cada dia, pela ampliação dos mercados no mundo globalizado, pelo surgimento de novas tecnologias, pelas mudanças nas formas de se produzir e trabalhar com música e que se tornaram desafios para os músicos de nível técnicos. Por isso, o músico profissional acompanha e vive este rápido desenvolvimento tecnológico, bem como interpreta a ampliação dos mercados e busca alternativas para sua qualificação profissional.
Souza (2001) sublinhou que o impacto das novas tecnologias está influenciando, em parte, as transformações das formas de se aprender e trabalhar com a música. Por conseguinte, nas últimas décadas, devido à expansão dos espaços de atuação dos músicos, os Conservatórios estão revendo as orientações do currículo. Souza (2001, p. 85) ponderou que “até mesmo a profissionalização de professores de música ou profissionais que lidam com o ensino de música tem se realizado em espaços antes nunca pensados”.
O mercado profissional, como visto no presente estudo, também permitiu o entendimento de se configurar como um campo tanto de formação quanto de atuação, por estar caracterizado tanto pela mobilidade quanto pela simultaneidade de formações e atuações dos músicos.
Além de aulas particulares, os músicos, ao realizarem atuações em bandas municipais, da polícia militar, em orquestra, reconstroem conhecimentos. Os músicos fazem apresentações musicais e composições de trilhas sonoras. Tocam em casamentos, festas, banda baile. Dentre os espaços sociais da música na atualidade brasileira e nem sempre contemplados pela educação musical, Freire (2001) registrou: teatros, igrejas, estúdios de gravação, escolas, academias de dança, escolas de samba, estádios, bumbódromos, danceterias, boates e ruas.
Além desses espaços Zanon (2006) ainda citou as seguintes possibilidades de atuação profissional: concertista, professor, camerista, produtor de eventos, afinadores de pianos, e, às vezes, trabalhando em projetos sociais desenvolvidos pelas ONGs. O trabalho dos roadies11 também é requisitado e é uma das classes mais trabalhadoras na área musical. Dentre as habilidades que necessita ter estão: saber afinar as guitarras e os baixos, montar uma bateria, saber regular os amplificadores e, até mesmo, ser um pouco eletricista.
11 Zanon define roadie como o pau-para-toda-obra, que acompanha turnês de cantores ou bandas, carregando
Em estúdios de gravação, pode-se trabalhar como técnico de som, produtor ou como músico de suporte para gravações de música popular, trilhas sonoras de TV ou rádio, ou para publicidade.
No Catálogo dos Cursos Técnicos, elaborado pelo MEC, ainda foram citados outros espaços e atividades profissionais musicais como: conjuntos de música popular e folclórica, espaços alternativos de interação social, de lazer e cultura, grupos corais, produtoras comerciais, agências de propaganda, organização de arquivos e acervos musicais de orquestras, museus e arquivos históricos, editoras, empresas de radiodifusão e telecomunicações, agências de publicidade, provedores de internet, escolas de música, instituições de ensino, ateliê de construção e restauro de instrumentos, lojas de instrumentos musicais, museus, casas de espetáculo, teatros, festivais, mostras e eventos de naturezas diversas.
A diversidade de espaços vislumbrou, neste trabalho, que há um potencial rico de aprendizagens para os músicos, tendo em vista que suas atuações profissionais são variadas.