9. RESULTATER, BETYDNING OG VISJONER
9.4 Effekter og visjoner – oppsummert
O antropólogo francês Marcel Jousse denominou de Antropologia do Gesto a ciência que estuda o papel do gesto e do ritmo no processo de cognição, memória e expressão humanas. Essa ciência visa fazer uma síntese de várias disciplinas, tais como a psicologia, a linguística, a antropologia, a psiquiatria, a educação secular e sagrada, os estudos religiosos e a exegética, através da descoberta de leis fundamentais que comandam os mecanismos lógicos específicos do homem, a quem ele se referia como o “Anthropos”. A principal dessas leis e mecanismos, é o "mimismo", que está na origem de todos os processos desde a formação da palavra, do pensamento ou da ação lógica nas diferentes origens étnicas.
O mimismo é a força específica do Anthropos, o fundamento da expressão humana, inata e espontânea que existe em todos nós. É uma tendência, uma conduta pela qual o indivíduo reage às ações que as coisas que o cercam exercem sobre ele refazendo-as à sua maneira, num mecanismo que ele chamava de “rejogo” 23.
Para Jousse, portanto, o homem é feito de maneira tal que registra tudo o que o circunda, imprime o universo que o rodeia, para depois expressá-lo, rejogá-lo. Essa tendência faz com que a criança “rejogue” (refaça) espontaneamente os sons, os movimentos, os gestos de seu universo.
Gesto, para Jousse (1974, p.58), abrange tudo o que pode ser registrado pelos sentidos. O pensamento não é nada mais do que a tomada de consciência desses gestos registrados, de suas aplicações, suas imbricações, suas transposições, suas inibições. O pensamento e a ação são gestuais, um microscópico e outro macroscópico.
O homem só conhece aquilo que ele recebe em si mesmo e o que ele rejoga. É o mecanismo do Conhecimento por nossos gestos de rejogo. Nós não poderemos jamais conhecer aquilo que está totalmente fora de nós. Não podemos conhecer senão aquilo que absorvemos mais ou menos perfeitamente. Cada indivíduo difere enquanto absorção. Depois que a absorção é rejogada e jogada em nós há a conservação pessoal dos “rejogos”. Essa conservação, vitalmente pessoal, depende da riqueza das absorções e a força da personalidade, pois não somos todos iguais. (JOUSSE, 1974, p.55)
23 No original, em francês, “rejeux”. Trata-se de um dos termos-chave utilizado por Jousse e também
por Lecoq. Optei em fazer uma aproximação na tradução para mantê-lo o mais fiel possível a seu significado original. Sendo assim, utilizo e conjugo o verbo “jogar”e “rejogar” como sinônimos de “jouer” e “rejouer” em francês.
Importante ressaltar que ao referir-se à absorção, Jousse emprega o termo- chave de seu pensamento que é a ‘intussepção’24. Segundo Houaiss (2001, p.164), refere-se ao modo de crescimento dos organismos vivos que se faz por transformação e incorporação dos elementos formadores; na medicina é a entrada de uma porção do intestino em outra, uma invaginação, ou ainda, algo que alcança uma absorção tão profunda que chega à parte interna do corpo, às vísceras.
Dizer antropologia do gesto é o mesmo que dizer antropologia do mimismo, para Jousse. Mimismo refere-se à busca da dinâmica interna do sentido, através de um mecanismo no qual há um primeiro momento de absorção daquilo que está fora, e um segundo, onde o indivíduo refazaquilo que percebeu, expressando-o à sua maneira. A reprodução ou a repetição podem ser inibidas, mas o certo é que aquilo que havia sido visto e gravado permanece disposto a ser reproduzido. É um conhecimento que permanece impresso no corpo todo, que é de alguma maneira inteligente e expressa pensamento, visto que o homem memoriza com todo ele. Conforme o antropólogo, a expressão humana acontece primeiramente com o corpo em sua totalidade, como um mimetismo global. Por conseguinte, a verdadeira expressão corporal não consiste em fazer exercícios de braços e pernas para exercitá-los, senão em exercitar todo o corpo para expressar a realidade que o indivíduo carrega em si.
Aluno de Bergson, Jousse dele herdou vários pressupostos, como o que sustenta que a inteligência não começa pelos livros, mas pela faculdade de manipular a matéria e que, portanto, deve-se desenvolver primeiramente a inteligência da criança nesse sentido, já que ela imita o que lhe rodeia de uma maneira espontânea, descrita em “O Pensamento e o Movente”. Educar uma criança, nessa acepção, é deixá-la explorar o mundo, entrar em contato com a realidade ao seu redor, interagir com ela para que, em seguida, passe a expressar o que recebeu: é permitir-lhe desenvolver o mimismo de seu espírito por um lado, por outro seu corpo e, por outro ainda, sua memória, sua linguagem, sua imaginação.
Através de seus estudos antropológicos, Jousse (1974, p.8) chegou ao entendimento de que há três grandes leis permanentes e universais que, através dos milênios e de realidades étnicas particulares, regem os desenvolvimentos das línguas, das mentalidades, das civilizações, das culturas: o Ritmo-mimismo, o Bilateralismo e
o Formulismo.
O Ritmo-mimismo é o ponto de partida de sua pesquisa, ao aprofundar a ideia inicial de Aristóteles de que o homem é o mais imitador de todos os animais. O que se observa no ser humano espontâneo é sua tendência de imitar, ou ainda mais exatamente, de mimar25 todas as ações dos seres vivos, todas as atitudes dos seres inanimados que o circundam. O Anthropos é o microcosmo que reflete como um espelho e eco do macrocosmo, segundo Jousse (1974, p.16).
Segundo o antropólogo (1974, p.54), é “pelo ‘mimema’ que o homem constrói sua primeira expressão que é, portanto, não aquilo que chamamos de linguagem, mas ‘mimagem’. É graças à mimagem que funciona o Pensamento. O pensamento sendo simplesmente uma intelecção de mimemas.” O Bilateralismo se refere à influência da distribuição dos mimemas em função de sua bilateralidade, não somente no plano dos gestos expressivos e equilíbrios corporais, no plano do paralelismo nas composições orais ou literárias, mas também nos domínios mais profundos e delicados da reflexão humana, já que o homem pensa com todo seu corpo. Isso se dá em função de sua estrutura bilateral tripla, na qual o homem separa o espaço em frente e trás, direita e esquerda, alto e baixo, com ele ao centro fazendo a divisão e mantendo-se em equilíbrio, ocupando um espaço.
O Formulismo, segundo o autor (JOUSSE, 1974, p.18), é a tendência biológica misteriosa, mas irresistível, à estereotipação dos gestos do homem, sendo também através dela que se cria a armadura da trama que faz a ligação entre as gerações e que constitui as mentalidades das culturas, são “formulações” musculares e sonoras, necessárias para que a interação aconteça. Neste contexto, o elemento essencial do cosmos é, de acordo com o antropólogo, ainda uma vez baseado em Bergson, uma ação que age sobre outra ação, e tudo que nos rodeia é, conforme os físicos, essencialmente energia. Essa energia não é difusa e estática, mas primordialmente dinâmica, cristalizada em interações universais. Nesse sentido, relaciono tal entendimento de base científica com a cristalografia, a física e as artes, como algo de fundo, que na pedagogia de Lecoq torna-se o Fundo Poético Comum.
Os estudos de Jousse são amplos e complexos, extensivos também à
25 Embora não tenhamos essa palavra em português com esse sentido, decidi mantê-la por achar que
traduzir por “fazer mímica” ou por “imitação”, por exemplo, muda bastante o sentido original, que se refere à capacidade de produção de gestos e de linguagem com o corpo todo. Portanto, ao longo de todo o trabalho mantenho e conjugo o verbo “mimar”.
questão da linguagem falada e escrita, relacionando-as com diferentes etnias e culturas, com as tradições de estilo orais, aspectos que, embora extremamente interessantes, vão muito além daquilo que toca minha questão de pesquisa. De qualquer maneira, o cerne de seu pensamento é o mimismo, portanto, ative-me a esse aspecto, àquilo que poderia relacionar diretamente com Lecoq e com as artes.