A utilização da telefonia móvel como ferramenta de aprendizagem em escolas públicas é quase inexistente, pois as normas e as regras das instituições de ensino não permitem o seu emprego durante as aulas mesmo que essas ferramentas tecnológicas tenham objetivos educacionais (OBRINGER e COFFEY, 2007). Assim, a revolução tecnológica revela os desafios que os administradores (diretores e vice-diretores), educadores e professores vivenciam para a implantação e implementação dos recursos tecnológicos em suas instituições educacionais.
Similarmente, as salas de aula são ambientes de aprendizagem que enfrentam dificuldades relacionadas com a insuficiência de recursos tecnológicos, com a ausência de professores qualificados, com salas de aula numerosas, que possuem excesso de alunos matriculados, com alunos que possuem diferentes estilos de aprendizagem e com altos requisitos para a sua aprovação (CHRISHOLM, 2005). Esses desafios dificultam o desenvolvimento de um processo de aprendizagem bem sucedido, pois os métodos tradicionais de ensino são ineficientes para motivar os alunos a participarem das tarefas propostas em sala de aula, provocando uma lacuna em seu engajamento na realização das atividades curriculares (NG’AMBI, 2005).
Como a maioria dos jovens nas sociedades contemporâneas utilizam dispositivos móveis e outras ferramentas tecnológicas para a realização de suas atividades diárias, é provável que muitos alunos tenham adquirido mais experiência com a utilização dessas tecnologias do que os seus professores. Nesse sentido, existe a possibilidade de que os professores estejam despreparados para responder os questionamentos relacionados com
a exploração de um determinado recurso tecnológico (BORBA e PENTEADO, 2005). Então, a capacitação do corpo docente é uma ação fundamental para proporcionar aos professores conhecimentos aprofundados com relação à utilização dos recursos tecnológicos disponíveis nas escolas (MORAN, 2007).
Por outro lado, os administradores, educadores e professores expressam preocupações com relação aos efeitos negativos da utilização dos recursos tecnológicos, como, por exemplo, os dispositivos móveis em sala de aula. Esses efeitos incluem o ruído que os telefones celulares e smartphones podem causar ao tocar em sala de aula, ao promoção do cyber-bullying e o acesso aos conteúdos inapropriados. A utilização inadequada desses recursos tecnológicos pode provocar distrações indesejadas que estimulam o desenvolvimento de comportamentos desregrados nos alunos (OBRINGER e COFFEY, 2007).
Com relação aos pais, as suas objeções estão relacionadas com a acomodação dos alunos que não possuem os dispositivos móveis ou que não dispõem de suas versões mais atualizadas para realizarem os trabalhos propostos em sala de aula (ENGLE e GREEN, 2011). Nesse direcionamento, ressalta-se que, neste estudo, um participante não dispunha de um dispositivo móvel para a realização das atividades propostas em sala de aula. Assim, para evitar constrangimentos, houve a formação de grupos com 4 (quatro) e 5 (cinco) participantes de maneira que, pelo menos um deles, tivesse acesso a um telefone celular ou smartphone para tirar fotos e/ou produzir vídeos relacionados com as tarefas de matemática propostas no registro documental.
Por outro lado, a lacuna no acesso aos dispositivos móveis e à conexão da Internet também podem ser considerados como empecilhos na utilização dessas ferramentas tecnológicas em sala de aula (MOTLIK, 2008). Similarmente, os problemas técnicos com esses dispositivos e com os computadores, os espaços físicos insuficientes, as configurações inapropriadas dos softwares e a escolha de softwares adequados para os objetivos dos planos de aula são dificuldades enfrentadas pelos professores na utilização desses recursos nas escolas (BORBA e PENTEADO, 2005).
Nesse direcionamento, a interpretação dos resultados obtidos neste estudo mostra que 9 (50,0%) dos 18 (100,0%) participantes tiveram dificuldades para utilizar os dispositivos móveis, pois a maioria dos professores não permite a utilização de telefones celulares e smartphones em sala de aula. Por exemplo, o participante B7 argumentou que em “outras aulas o uso do telefone celular não é permitido, mas se fosse, essas aulas seriam mais interessantes e todos iriam participar mais” enquanto a
participante A2 afirmou que “alguns professores não deixam os alunos usarem o celular em sala de aula, mas outros deixam para fazer as contas”.
Esses participantes também afirmaram que existem outras dificuldades que estão relacionadas com a utilização excessiva dos dispositivos móveis em sala de aula. Assim, a interpretação dos resultados deste estudo mostra que essa utilização excessiva pode transformar-se em um vício que contribui para desconcentrar os alunos na realização das atividades curriculares propostas. Por exemplo, a participante A8 argumentou que o excesso nessa utilização “pode prejudicar o ensino e a aprendizagem da matemática por que quando você está acessando o WhatsApp vem mensagem e isso atrapalha os alunos de entenderem quando os professores estão explicando”. Nesse sentido, de acordo com o ponto de vista dos professores, a utilização dos dispositivos móveis contribui para distrair os alunos, inibindo-os de ouvirem atentamente as explicações ou de anotarem os conteúdos explicados em sala de aula (MARKETT, SANCHEZ, WEBER e TANGNEY, 2006).
Nesse contexto, a interpretação dos resultados obtidos neste estudo mostra que 16 (88,9%) participantes argumentaram que a utilização excessiva dos dispositivos móveis em sala de aula pode prejudicar o processo de ensino e aprendizagem em matemática, pois os telefones celulares e os smartphones fornecem oportunidades para que os alunos se distraiam na sala de aula, desviando-os de focarem nas tarefas matemáticas propostas pelos professores. Por exemplo, a participante A12 afirmou que esse prejuízo ocorre “por que os alunos ficam somente nas redes sociais e se esquecem dos estudos e eu acho que eles têm que ter limites” enquanto a aluna A6 argumentou que “prejudica porque quando você vai aprender precisa estar concentrado em só uma coisa e se estiver com o celular você não vai aprender nada”.
Porém, para que se possa minimizar os desafios e as dificuldades para que as tecnologias sejam incorporadas de uma maneira efetiva no cotidiano escolar, é necessário que os professores também revejam os métodos tradicionais de ensino para utilizar essas mídias tecnológicas para auxiliar os alunos no desenvolvimento de suas habilidades cognitivas (BORBA e PENTEADO, 2005). Nesse direcionamento, é importante que os professores juntamente com os alunos determinem normas e regras para a utilização das ferramentas tecnológicas em sala de aula. Por exemplo, existe a necessidade de que os telefones celulares e os smartphones sejam utilizados somente para a troca de mensagens relacionadas com a realização dos trabalhos escolares. Nesse sentido, os textos trocados devem ser relevantes e respeitosos para que possam
promover o debate e a discussão dos conteúdos propostos em sala de aula (ENGLE e GREEN, 2011).
Contudo, apesar dos desafios e dificuldades enfrentados em sua implantação e implementação em sala de aula, a utilização dos dispositivos móveis no processo de ensino e aprendizagem caracteriza-se como uma promissora possibilidade educacional. Dessa maneira, as pesquisas e investigações devem ser realizadas no sentido de compreender e desenvolver estratégias de ensino para a utilização desses dispositivos na Educação Matemática. De acordo com esse ponto de vista, a interpretação dos resultados obtidos nesse estudo mostra que a utilização dos dispositivos móveis pode complementar as ações pedagógicas dos professores frente aos desafios e dificuldades enfrentadas no processo de ensino e aprendizagem de conteúdos curriculares.
Nesse contexto, a utilização dos dispositivos móveis em sala de aula pode promover possibilidades de interação, de comunicação, de participação, de troca de informações e de colaboração entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem em matemática. Assim, as qualidades motivacionais e colaborativas da aprendizagem móvel podem minimizar os desafios e as dificuldades da utilização dos dispositivos móveis (NAISMITH e CORLETT, 2006) como os telefones celulares e os smartphones dentro e fora da sala de aula.