4. HVERDAGSLIV I “INSTITUSJONEN” EL PARAÍSO
4.2 F ELTBESKRIVELSE
4.3.2 Avreise – grunner til å forlate Norge
Este capítulo contém os resultados do Caso Caroline considerando os seguintes itens: apresentação de elementos anamnésicos e de fragmentos dos relatos clínicos, avaliação das produções das personalidades, da Escala de Experiências Dissociativas, dos testes psicológicos e das entrevistas.
3.1- Elementos Anamnésicos e Relatos Clínicos
Primeiramente, ao modo do relato de um caso clínico, descreveremos informações previamente obtidas na primeira etapa da pesquisa, durante o percurso realizado com Caroline nos anos de tratamento psicoterápico conosco. Este relato justifica-se porque foi a partir deste processo que identificamos o quadro da personalidade múltipla.
Corria o final do ano de 1998... Caroline nos chegou por indicação de outra paciente. Era a sua primeira vez num psicólogo. Logo de início, verbalizou: “Estou com muito medo de ficar louca e de perder a memória. Sempre tive lapsos de memória e intensas dores de cabeça. Fui muito maltratada pelas pessoas que cuidaram de mim. Também por outras”.
Em sua catarse não manifestava ressentimentos. Exprimia e descrevia seus medos e sentimentos expondo os agravos sofridos. Ora sorria, ora engolia o choro. Interessante revelar que tal crise nervosa se apresentava como uma intensa descarga de afetos reprimidos há muito. Encontrou naquele ambiente uma forma de desabafo, sentindo-se livre para externar seus medos, suas dores e conflitos.
Já para o final da sessão, disse-nos: “Estou me sentindo melhor, mais leve e tranqüila, com sono”. A pressão mental diminuiu e a expressão verbal cedeu lugar ao torpor fisiológico.
Solicitamos que respirasse profunda e pausadamente. Aceitou o breve relaxamento e aparentemente adormeceu. Permaneceu nesse estado por alguns minutos. Despertou espontaneamente. Sorriu. Recomeçou a falar. “Interessante este lugar. Transmite paz, conforto. Gostei daqui. Talvez eu volte mais vezes”.
Agora, suas reações eram um tanto diferentes. Permanecemos em silêncio, na escuta clínica, procurando encadear associações a serem melhor analisadas. Atualmente, não deixaríamos de reconhecer e identificar mudanças naquela nova fala, nas diferenças fisionômicas, nas expressões da emoção, nos gestos. Entretanto, naquela ocasião, atribuímos tais alterações como sendo efeitos do breve relaxamento e das descargas psíquicas iniciais.
Diante do resultado satisfatório da intervenção sugerimos a continuidade do processo de relaxamento, fato que se deu de forma extremamente fácil, simples e direta, sem maiores esforços. Relaxou novamente, conservando-se neste estado por mais alguns minutos. No segundo despertar Caroline manteve mais fielmente as atitudes idiossincráticas do princípio, ou seja, os detalhes próprios do início se mostraram mais fidedignos. Verbalizou-nos: “O que o senhor fez? Parece que dormi! Como é bom se sentir bem. Lembro-me que lhe dizia estar me sentindo sonolenta”. Manifestou contentamento com o processo nunca antes experienciado. Encontrava- se melhor, um tanto refeita das emoções em desgoverno. Foi embora...
No dia seguinte, logo pela manhã, telefonou-nos solicitando novo agendamento. Tencionava iniciar um processo psicoterápico. Na clínica, foram palavras dela:
“Se soubesses como é difícil falar de mim, reviver situações, invocar imagens que guardei no fundo de um arquivo, sei que vivo, lá dentro de mim. Talvez seja uma catarse necessária para queimar ou adocicar fatos e pessoas que de uma forma ou outra foram
importantes nesta minha vida. Lembranças! Estas quando invocadas, vejo-me sempre só, olhando para o céu, sentindo dentro de mim a certeza de existir alguém muito querido que viria me levar para algum lugar feliz. Timidez! Muita. Por motivos não revelados. Paixão de adolescente! Este meu ser sonhado. Vontade de apaixonar! Sei que o coração não tem idade. As emoções são o bem de cada um. Paixão não. Mas, um grande amor. Daqueles que superam quaisquer barreiras. Tenho sempre necessidade de compreender as dificuldades das pessoas, não é difícil para mim”.
Durante o ano de 1999 investigamos a vida de Caroline intensamente. Registramos, inclusive, contextos traumáticos e dissociativos da vida dela desde o seu nascimento sem a menor noção de que estaríamos lidando com um caso de personalidade múltipla, um transtorno ainda desconhecido por nós.
A paciente relatou que sua mãe biológica, moça simples do interior de um estado do nordeste brasileiro, veio para o centro-oeste à procura de melhores oportunidades. Ela empregou- se como doméstica na casa de um juiz aposentado e viúvo, com filhos já criados, pertencente a uma família respeitável da cidade. No convívio, ocorreu o consentimento, em segredo, de intimidades entre patrão e empregada. E, nestas intimidades a gravidez se fez presente. Porém, o preconceito social culminou com a família tradicional mudando-se de cidade, ficando, sua mãe, sozinha, na pobreza. Foram palavras dela: “Ela chegou na cidade. Foi trabalhar como doméstica na casa dele e tiveram não sei lá o quê, o sexo mesmo. Eu acho que fui gerada pelo sexo, não pelo amor. Quando ele ficou sabendo, mudou de cidade, abandonou-a e ela me teve literalmente sozinha, no chão”.
Continuou dizendo que o cenário do nascimento era de extrema miséria. Apenas uma choupana construída a beira de um riacho. Um contexto simples, desolado e frio pela ausência do essencial. Enfatizou que nasceu literalmente no chão, através do esforço solitário de sua mãe, uma corajosa mulher que conseguiu realizar sozinha o próprio parto.
O motivo do seu abandono não é possível precisar. Talvez a pobreza superlativa de recursos da genitora, relegada pela importante figura do juiz da cidade que não assumiu o ato compartilhado, dispensando a doméstica na época da notícia da gravidez. Talvez um ato de amor materno em desesperança, ou mesmo almejando para a filha um futuro diferente do dela, talvez... Caroline mencionou ter sido acolhida por duas senhoras de certa idade, professoras da única escola da redondeza. Segundo informou, eram de recursos escassos e seus únicos haveres eram os valores morais com os quais ela procurou se identificar. Ambas eram católico- apostólicas-romanas, congregadas de algumas fileiras dentro da igreja, e seguiam metodicamente os rituais religiosos. Eram reservadas. Uma viúva (mãe) e a outra solteira (filha). Esta última, sua madrinha. Não havia figuras de referência masculina no contexto familiar-educativo. Esse papel era desempenhado pela madrinha.
A doação efetivada com poucos meses após o nascimento nunca foi sentida como um ato de amor por parte dela. Talvez tenha sido por dó, pela comoção do momento de angústia da pobre mulher. Talvez algum tipo de impulsividade. Talvez... Mas, conforme relatou, o certo é que Caroline dizia: “nunca ouvi delas que eu não seria devolvida pelo fato de ser importante, por já gostarem de mim, por não conseguirem viver sem mim, por já ser parte da família e da vida familiar-quotidiana. O colo me era muito raro e a comida o necessário à minha sobrevivência. Elas escondiam a comida de mim. Eu sentia o cheiro”.
Caroline também enfatizou que quando tinha dois anos de idade iniciaram processos sintomáticos de crises febril-emocionais relacionadas mais diretamente com a perda de uma colega que sempre a acompanhava nos rituais das procissões. Certo dia, “fui levada para ver minha amiguinha já morta, colocada em cima de uma mesa, pronta para o sepultamento, com as vestes típicas do cortejo. Não conseguia compreender o porquê da mãe dela chorar tanto sem colocar a filha no colo. Eu via a menina solitária e imóvel sobre a mesa que ficava justamente na altura dos meus olhos. Impressionada com o quadro passei a noite e alguns dias em choque nervoso. Nestes momentos, via a minha colega levantar-se da mesa, chamando-me para ir ao seu encontro”.
Conforme a paciente mencionou, outro fato singular que marcou profundamente a vida dela ocorreu quando contava cinco anos de idade. Sua mãe não biológica havia ficado viúva muito jovem, quando sua filha, madrinha de Caroline, estava com apenas dois anos. Ela e o marido, quando nos momentos extremos de agonia dele, fizeram juras de amor. Segundos antes de o companheiro falecer ambos juraram fidelidade eterna. Apertaram as mãos fortemente permanecendo assim por tempo relativamente longo. Sua mãe sempre conservou a fidelidade prometida. Segundo Caroline destacou, “essa história de amor verdadeiro me deixou vislumbrada. Praticamente, durante esta fase, tive a certeza de que um ser especial e exclusivo, o meu grande amor, viria me proteger e me salvar. Essa certeza passou a ser o meu estímulo de vida. A história fortaleceu ou fez iniciar sonhos que passaram a representar realidades dentro de mim”.
“Não sei quando comecei a sonhar porque vivia sonhando acordada”. Conforme Caroline relatou, com mais ou menos seis anos, começou a ter pesadelos. Acordava suando frio e com medo. Demorava a ser acalmada saindo dos sonhos para a realidade. Ainda assim, ficava
lembrando por muito tempo das imagens perturbadoras um tanto fixas na sua mente. Sonhava quase sempre caindo de lugares altos, em plena penumbra, ou em noites chuvosas que ventavam muito, pés descalços, procurando a sua casa que, no sonho, não sabia onde ficava, quase entrando em pânico. Seus sonhos eram sempre de noite, com poucas luzes, sem cores. As lembranças dos sonhos traziam uma sensação ruim, de cair de muito alto, quase no escuro, sem saber quando seria o final da queda. Tal queda nunca chegava ao fim. A seguir, como mostrado na Figura 3, apresentamos o desenho feito pela paciente, a nosso pedido, retratando o seu sonho recidivo.
Figura 3. Desenho do sonho recidivo de Caroline.
Caroline dizia que ficava “com medo de dormir e sonhar novamente como sempre acontecia. Acordava abatida e triste no começo da manhã. Rezava quase ininterruptamente para que Deus me protegesse porque, na interpretação delas [das duas senhoras], tudo acontecia por
causa deu não ter rezado suficientemente. Deus, então, não era poderoso.Se fosse, não deixaria
que tais acontecimentos continuassem”.
Além disso, a paciente verbalizou: “As pessoas achavam que eu vivia no mundo da lua”. Em algumas ocasiões, em suas distrações, não percebia quando “personagens” – crianças
desconhecidas conforme exemplificou – chegavam, conversavam e solicitavam respostas. Nestas ocasiões desconhecia fisionomias e não compreendia a linguagem. Tais situações eram ocorrências normais para ela. Desde antes de adquirir melhor precisão para as idéias próprias, deparou-se, sem saber explicar, com fenômenos inusitados. Experiências dissociativas, alterações de consciência, estados segundos e crepusculares, perda de sentido da realidade, confusões de identidade, lapsos de memória, amnésias e ouvir vozes eram ocorrências típicas, recorrentes, intermitentes e enigmáticas na vida dela. O invulgar dos demais era o comum dela. Segundo seu relato: “Eu via ‘pessoas’ chegarem, conversarem entre si, não compreendendo como aqueles estranhos adentravam minha casa estando as portas fechadas. Auto justificava-me achando que tais ocorrências se davam durante os meus lapsos”.
A casa dela parecia ser a continuidade da igreja. Estampas de santos, os mais variados, por quase toda a residência. Segundo a sua ótica perceptiva, dava a impressão de serem olheiros que a (per)seguiam permanentemente. As duas senhoras faziam orações freqüentes e sentiam-se ameaçadas com presenças que não viam nem percebiam. Presenças estas reveladas por Caroline, que também as acompanhava nas orações. Geralmente, pediam proteção contra as tentações do maligno. Os fenômenos descritos acima continuaram se intensificando. Entretanto, Caroline passou a segredar o que nela era autêntico e espontâneo. Só que agora acrescentados ao medo do diabo e da vontade de não querer ver mais nada. Segundo comentou: “Quando aconteciam as visões, encolhia-me e rezava como havia sido recomendado, tentando me livrar do demônio. Uma luta íntima constante me deixava conflituosa: Quem era mais poderoso, Deus ou o diabo?”
Segundo seu relato, praticamente, embora tivesse crescido sempre em confronto com duas realidades, foi a partir dos nove anos que começou a distinguir mais detalhadamente o processo de divisão da consciência, de split mental que experienciava desde então. Principiou a
perguntar por que os outros não viam o que ela via já que tudo era tão real. Com inteligentes mecanismos começou a testar as pessoas, protegendo-se de julgamentos ou castigos canalizados para as novenas e compromissos impostos pela igreja na figura do sacerdote, que começou a
freqüentar a casa. Dava seqüência a processos indiretos cujo objetivo era investigar se os demais
estavam vendo o que ela via ou ouvindo o que ela ouvia. Diante da negativa de todos, constatava que as ocorrências circunstanciais somente eram provenientes do seu campo perceptivo. Aquelas impressões psíquicas eram interpretações mentais unicamente dela. Fazendo uso desse mecanismo foi conseguindo sobreviver sem retaliações e preparar-se para situações mais complexas que não tardariam. As ocorrências não eram verbalizadas diretamente. Eram camufladas em tons de autenticidade que ela percebia e sentia, nunca deixando de cumprir as recomendações e imposições das opiniões alheias e próximas. Não obstante, esta conduta benéfica aos olhos externos não impedia a continuidade dos fenômenos, nem favorecia explicações sobre os acontecimentos autênticos do mundo íntimo da realidade psíquica dela. Pelo contrário, desconfiava desde pequena das diferenças existentes entre ela e os demais.
Seu desespero era configurado com idéias recorrentes de suicídio. Segundo seu relato, “o suicídio, ou a idéia dele, sempre foi uma temática constante em minha vida”. Ciclicamente, desde a infância, essa fixação ainda ressurge em seu psiquismo, embora com menor intensidade nos dias atuais.
Em relação aos processos de aprendizagem e à escrita, Caroline relatou: “Sempre fui muito dispersiva. Tímida a ponto de quase não conseguir erguer os olhos. Apesar disso, na escola, eu não apresentava dificuldades em relação ao aprendizado, embora, constantemente distraída e ausente. Minha caligrafia sempre foi muito irregular”. Este último fato, conforme a paciente destacou, contrariava os professores que davam como castigo escrever frases em
páginas seguidas. Talvez professores mais qualificados e atentos às divagações infantis, teriam constatado nela indícios de natureza invulgar a serem investigados com maior profundidade. Suas coisas eram, no mínimo, mais impróprias ao comum das crianças. Apesar disso, segundo informou, sempre procurou ser dócil, compreensiva, cooperadora, responsável, afável e delicada. Sentia-se, entretanto, diferente.
Num dia, não se recorda o motivo, ainda com nove anos, Caroline relatou que foi surpreendida com revelações sobre a sua ascendência por meio de uma senhora de cor (sic), prestadora de serviços domésticos que freqüentava a casa. Vinha em troca de parca comida e fazia a lavagem da roupa. Achava, entretanto, que não deveria lavar a roupa dela. Que sua criação não estava correta. Que, para ela, deveriam ser ensinadas as tarefas simples do lar, a fim de substituí-la. Pelo fato de Caroline demonstrar não gostar de pessoas de cor – motivo não compreendido por ela mesma ou outras razões inconscientes (a paciente possui tez e olhos claros, parecendo descendência européia) –, a senhora, que possuía certa intimidade com as patroas, por sentir rejeição e confrontar origens, de maneira agressiva e de forma constrangedora, num ato impensado de retaliação, expôs a origem da menina de forma humilhante e reservada. Falou-lhe não ser ela grande coisa. Precisava saber que a sua procedência era mais humilde que a dela própria. O que quis dizer, e disse, era que Caroline não tinha nem mãe, nem pai. Era uma pessoa rejeitada na vida e que, por caridade, vivia naquela casa. No consultório, expressou-nos a sua dor da seguinte forma: “Quando recebi a notícia sobre a minha ascendência foi como se me tivessem quebrado em mil pedaços e depois soprado”.
A paciente mencionou sempre ter sido amiga dos livros. Apesar de muito dispersiva, quando contava doze anos de idade, colocou-se em condições, por concurso seletivo, de freqüentar um colégio público, tradicional pelo ensino e por capacitados e renomados
professores. Seu desconforto aumentou pelo nível social dos estudantes ali reunidos. Famílias tradicionais e ricas. Todas conhecidas entre si. Não tendo vaidades, nem poder aquisitivo, sentia- se isolada, desigual. O complexo e a inferioridade aumentaram. Talvez, afirmados pela postura já recalcada e reservada de sempre.
Um tanto desconfortável, revelou-nos durante as sessões clínicas, que respondia questionamentos difíceis feitos pelos professores sem se dar conta das respostas verbalizadas. Como se as respostas saíssem prontas da sua boca sem que tivesse consciência das formulações expostas. Segundo ela, tal situação automática ou espontânea gerava espanto nos colegas e admiração nos profissionais. Contou-nos ainda que ocorrências dessa natureza aconteciam quando os professores notavam devaneios, adicionados a completa ausência dela do ambiente da classe, deparando-se, entretanto, com o equívoco de suas interpretações originais perante a desatenção percebida nela, não comprovada, principalmente, quando diante das “saídas” inteligentes e acima da média elaboradas. Outras vezes, decepcionava os mesmos por nada compreender do que lhe fora perguntado.
Por volta desse período sua madrinha se casou com uma pessoa bem mais jovem que fazia uso de alcoólicos, proveniente do mesmo tronco familiar. Vamos chamá-lo Sr. O. Segundo informações da paciente, era uma pessoa introspectiva e experiente sexualmente. Autoritária, temperamental, freqüentador de meretrícios e que gostava de festividades e comemorações. “Por ordem dele, novo comandante da casa, eu fui afastada da mesa durante as refeições por ser considerada de nível inferior”. Neste ponto, conforme salientou, acentuamos condutas sexuais conflituosas previamente existentes, sofridas por Caroline. Apesar da opção pela vida conjugal, antes de se casar, sua madrinha parecia ter relacionamentos homossexuais com uma amiga, velha conhecida, em ambiente reservado da casa, sob ciência da genitora. Nestas ocasiões Caroline
ouvia gemidos incompreensíveis. Confidenciou-nos achar ter sido vítima de algumas situações constrangedoras tais como acordar sentindo-se apalpada em zonas erógenas. Sobre esses momentos, Caroline mencionou: “eu permanecia em atitude passiva, fingindo continuar dormindo, sem compreender comportamentos daquela natureza. Entretanto, não deixava de ouvir, ao pé do meu ouvido, sussurros indiscretos de prazer por parte da minha madrinha, provavelmente concernentes a masturbações”.
Confidenciou-nos também não perceber as segundas intenções que lhe eram direcionadas pelo Sr. O. Sentia um ambiente desfavorável dentro da casa. Recebia dele esbarrões propositais que afetavam principalmente a região dos seios iniciantes. As datas comemorativas eram regadas com bebidas diversas, fato não existente antes do casamento. Nestas festividades era comum, por parte do Sr. O, insistências para que ela ingerisse alcoólicos. Diante de suas permanentes recusas as represálias se faziam maiores. Disse-nos que em uma dessas circunstâncias, em meio a vários convidados, o Sr. O lhe ofereceu insistentemente um “refrigerante” já no copo. Sem graça por estar rodeada de pessoas, ela aceitou desconhecendo tamanha cortesia, totalmente diferente das outras vezes em que era completamente ignorada. Sentiu-se constrangida a ingerir a bebida ante a insistência do agressor mal intencionado. Com um fragmento do seu relato, trazemos sua experiência: “Não me recordo como cheguei ao meu quarto. No despertar, ou no tentar ‘voltar’ que era obrigada, conseguia abrir os meus olhos com dificuldades e sentia mãos em meus seios e beijos na minha boca. Debatia-me fortemente e caía novamente em torpor. Alguém o interrompeu, não sei quem, afastando-o de lá e cerrando a porta”. Ainda hoje Caroline afirma não saber quem foi esse “alguém” salvador. Entretanto, guardou a certeza de uma interferência superior. Aquela dúvida da existência de Deus começou a abrir espaço para a idéia de uma proteção divina permanente que tomou forma em sua vida.
De acordo com as informações da paciente, válido salientarmos, a partir da adolescência, outras experiências insólitas ocorridas com ela, algumas vezes, no ambiente estudantil – experiências similares estão descritas em Watkins e Watkins (1997) no contexto de outra paciente múltipla. Em dias de exames escolares, após os professores distribuírem as provas, Caroline preenchia seu nome e adormecia imediatamente. Adormecia sem dormir. De repente, como num piscar de olhos, acordava assustada ouvindo o coordenador dizendo que o tempo da prova havia se esgotado. Sobre isso, Caroline comentou: “Para meu espanto, a prova estava toda respondida, muitas vezes, numa caligrafia estranha a minha. Para mim havia se passado