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ALFENAS1, Rita de Cássia Gonçalves; PINTO1, Carina Aparecida; LIMA1, Mário Flávio

Cardoso; CÂNDIDO1, Flávia Galvão; OLIVEIRA1, Fernanda Cristina Esteves. 1

Universidade Federal de Viçosa - UFV/MG, Campus Viçosa.

Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Nutrição e Saúde. Av. PH Rolfs s/n., Campus Universitário, 36570 000, Viçosa, MG, Brasil. Correspondência para: ALFENAS, Rita de Cássia Gonçalves. E-mail: [email protected]

RESUMO

Introdução: Os resultados dos estudos sobre o efeito das fibras na ingestão alimentar ainda são inconsistentes. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da adição das sementes de abóbora e de linhaça sobre a ingestão alimentar em indivíduos adultos eutróficos. Metodologia: Tratou-se de um ensaio clínico randomizado, crossover (n=24), composto de três sessões experimentais, em que se avaliou o efeito do consumo de três refeições (desjejum) com teores semelhantes de macronutrientes: refeição controle (C), refeição adicionada de 65 g de semente de abóbora (SA) e refeição adicionada de 65g de semente de linhaça (SL) sobre a ingestão alimentar. As comparações entre os valores de ingestão em cada tratamento em relação à ingestão habitual foram feitas pela aplicação do teste t pareado (variáveis paramétricas) ou Mann-Withney (não-paramétricas). Todos os testes foram conduzidos com o auxílio do software Statistical Analysis System (v 9.0 - SAS Institute Inc., 2000). Adotou-se como critério de significância estatística p<0,05. Resultados: Verificou-se diferença significativa (p<0,05) apenas no teor de fibras das refeições SA e SL em relação à refeição C, mas não afetou a ingestão alimentar. A refeição SA também diferiu de forma significativa (p<0,05) em relação à ingestão habitual. Conclusão: Os resultados desse estudo indicam que a inclusão de alimentos ricos em fibras na dieta pode não afetar a ingestão alimentar em curto prazo.

Palavras-chave: semente de abóbora; linhaça; fibras alimentares; ingestão alimentar. INTRODUÇÃO

O consumo adequado de fibras alimentares tem sido apontado como uma das condutas que podem atuar na prevenção e no controle de várias doenças crônicas não transmissíveis (1,2,3). Além de atuarem no controle glicêmico, as fibras também podem promover o aumento da saciedade e a redução da ingestão calórica, favorecendo a adesão a planos alimentares hipocalóricos que visam a redução ponderal (4,5).

Apesar de todos esses efeitos benéficos, tem sido verificada uma ingestão de fibras abaixo das recomendações diárias na população em geral (6). As sementes de abóbora (Cucurbita maxima) e linhaça (Linum usitatissimum L.) são ricas em fibras alimentares. Além disso, a semente de abóbora também possui valor considerável de proteínas (7). Tem sido descrito que a ingestão de alimentos ricos em fibras e em proteínas pode favorecer a redução da ingestão alimentar (8). Apesar disso, a publicação de estudos em que se avaliou o efeito do consumo dessas sementes na ingestão alimentar é escassa na literatura. Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi avaliar o efeito das sementes de abóbora e linhaça na ingestão alimentar em indivíduos adultos eutróficos.

METODOLOGIA

Tratou-se de um ensaio clínico randomizado, crossover, em que após 10-12 horas de jejum, os voluntários participaram de 3 sessões experimentais, onde ingeriram uma das seguintes refeições em ordem aleatória: refeição controle (C), semente de abóbora (SA) e semente de linhaça (SL). As refeições apresentaram teores semelhantes de macronutrientes (Tabela 1) e foram compostas por bolinhos e shakes. Dentre outros ingredientes contidos em C, as refeições SA e SL continham 65g das sementes anteriormente citadas. Houve um intervalo de 1 dia entre as sessões do estudo.

Tabela 1. Teor de macronutrientes e fibras totais de cada refeição testada*

Refeição Carboidrato Lipídios Proteína Fibras

Controle 92,4 31,8 24,9 0,50

Semente de Abóbora 91,8 31,8 25,8 15,3

Semente de Linhaça 91,5 31,8 24,9 18,3

*A composição química das refeições foi calculada utilizando as informações contidas nos rótulos dos alimentos, com exceção dos valores das sementes que foram analisados em laboratório pelos métodos propostos pela AOAC (1997).

A ingestão habitual dos participantes foi avaliada pela análise de questionários de frequência alimentar semi-quantitativo. A ingestão em resposta aos tratamentos aplicados no estudo foi avaliada pela análise de registros alimentares de 24 horas.

Foram utilizados os testes Kolmogorov-Smirnov e Bartlett para a verificação da normalidade e da homocedasticidade dos dados, respectivamente. Utilizaram-se análises de variância simples seguida pelo teste de Tukey (variáveis paramétricas) para detecção de diferenças entre as médias dos tratamentos, ou Kruskal-Wallis (variáveis não-paramétricas) seguido pelo teste de Dunn’s. As comparações entre os valores de ingestão após cada refeição testada em relação à ingestão habitual foram feitas pela aplicação do teste t pareado (variáveis paramétricas) ou Mann-Withney (não-paramétricas). Todos os testes foram conduzidos com o auxílio do software Statistical Analysis System (v 9.0 - SAS Institute Inc., 2000). O critério de significância estatística foi p < 0,05.

O protocolo do presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Viçosa, MG (n° 084/2011/Comitê de Ética). Todos os participantes foram esclarecidos quanto aos objetivos do projeto e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido antes de serem incluídos como voluntários.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram do estudo 24 indivíduos (14 mulheres e 10 homens), com média de idade de 22,73 ± 2,22 anos, índice de massa corporal (IMC) 22,15 ± 5,24 kg/m2 e gordura corporal 20,16 ± 8,00 %.

A ingestão de fibras após o consumo da refeição C foi menor (p<0,05) que a verificada nos dias em que as refeições SA e SL foram ingeridas. No entanto, a ingestão diária habitual de fibras foi menor (p<0,05) apenas no dia em que a refeição SA foi oferecida. (Figura 1). Destaca-se que a ingestão diária de calorias e macronutrientes não foi alterada pelos tratamentos do estudo.

Propõe-se que a ingestão de grandes quantidades de fibras alimentares no café da manhã favoreça o menor consumo de alimentos na refeição seguinte. Burley et al. (9) evidenciaram que o consumo de 29 gramas de fibras no desjejum resultou redução de 14%

nas calorias do almoço. Entretanto, no estudo de Delargy et al. (10), a ingestão de café da manhã contendo 22 gramas de fibras não afetou a ingestão alimentar na refeição seguinte. Esse resultado foi semelhante ao verificado no presente estudo. É possível que a quantidade de fibras ingeridas nesses dois últimos estudos não tenha sido suficiente para reduzir a ingestão alimentar, em curto prazo.

Entretanto, em outro estudo (11) apesar da ingestão de 41 gramas de fibra insolúvel pela amanhã ter reduzido de maneira significativa (p< 0,008) a ingestão alimentar na refeição consumida após 60 minutos, esse efeito não verificado após 120 minutos. Os resultados desses estudos sugerem que apesar das fibras reduzirem a ingestão alimentar na refeição seguinte, esse efeito pode não ser observado quando a ingestão diária é avaliada. No entanto, a ingestão de bebidas contendo entre 15,3 e 18,3 g de fibras não afetou a ingestão alimentar diária neste estudo.

Por outro lado, Guérin-Deremaux et al. (12) avaliaram durante 21 dias consecutivos o efeito da ingestão de 0; 8; 14; 18 e 24 gramas de fibras por dia na ingestão alimentar. As fibras foram adicionadas a uma bebida, sendo a metade das quantidades indicadas anteriomente ingerida em dois momentos do dia (3 horas após o café da manhã e 4 horas após o almoço). Constatou-se a redução significativa da ingestão alimentar nos grupos que receberam 14; 18 e 24 gramas de fibra em relação ao grupo que não recebia fibra (p<0,001 para os três grupos). Esse resultado sugere que para que o efeito supressor da ingestão alimentar exercido pelas fibras seja evidenciado, a ingestão aumentada das fibras alimentares precisa ser feita por vários dias.

CONCLUSÕES

A inclusão de semente de abóbora no desjejum propiciou o aumento do consumo de fibras alimentares quando comparado à refeição controle e à ingestão habitual. Por outro lado, a semente de linhaça possibilitou o aumento do consumo de fibras somente em relação à refeição controle. Apesar disto, a ingestão alimentar na refeição seguinte (almoço) e a ingestão diária não foram modificadas em resposta aos tratamentos do estudo.

Figura 1. Média ± EP da ingestão de fibras alimentares totais dos participantes do estudo. Consumo Habitual (CH); Controle (C); Semente de Abóbora (SA) e Semente de linhaça (SL).

*Diferença estatisticamente significante (p < 0,05)

Ao Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa – UFV/MG por ter fornecidos os meios para o desenvolvimento desse projeto.