Em Portugal, não encontramos dados suficientes que permitam fazer um mapeamento completo e exaustivo das iniciativas que envolvem a rádio nos estabelecimentos de ensino. Foi-nos dado acesso pela DGE a uma lista dos projetos de rádio escolar26. Esta listagem não dá conta, contudo,
de iniciativas que fiquem circunscritas às salas de aulas, de projetos de área disciplinar ou de bibliotecas escolares, da participação em programas das rádios locais, entre outros. Não existindo uma plataforma que reúna e sistematize este tipo de dados, a informação acaba por ficar dispersa e menos acessível. Ainda assim, é possível encontrar algumas informações que nos ajudam a traçar um quadro geral.
Em primeiro lugar, o Referencial de Educação para os Media para a educação pré-escolar, o ensino básico e o ensino secundário, o documento orientador para as escolas do qual já falámos no início deste capítulo, também abarca a aproximação dos estudantes ao universo radiofónico (Pereira et al., 2014), pelo que é expectável que existam atividades a decorrer neste âmbito. Neste documento, o meio sonoro surge associado a três objetivos: o conhecimento e a compreensão das diferentes tipologias e características dos media, o conhecimento dos principais grupos empresariais e profissionais da área e o desenvolvimento de estratégias de comunicação através dos diversos media. Porém, nos primeiros anos de ensino, o Referencial dá prioridade a outros meios de comunicação, sendo o conhecimento das características da rádio e a produção radiofónica relegados para o ensino secundário. Quanto ao 3º ciclo, apenas encontramos a referência ao conhecimento dos principais grupos empresariais e profissionais e à participação em programas de rádio por parte dos alunos deste nível de ensino. Ainda assim, importa desde já referir que consideramos que os descritores de desempenho do ensino secundário relativos à rádio se podem estender ao 3º ciclo, principalmente, tendo em conta a facilidade da produção já mencionada no ponto sobre a facilidade do ouvinte se tornar em emissor.
No quadro das iniciativas nacionais, existem algumas relacionadas com o uso da rádio na escola. Diretamente associada à temática, encontramos a “Rádios e Televisões Escolares na Net”, que “visa promover a criação e manutenção de rádios ou televisões em ambiente escolar com ou sem presença na rede, assim como divulgar experiências que têm sido postas em marcha por todo o
26 Lista gentilmente cedida pelo Dr. João Carlos Martins de Sousa, Diretor de Serviços de Projetos Educativos da Direção-Geral da Educação em
país”27 e é da responsabilidade da Equipa de Recursos e Tecnologias Educativas (ERTE). No âmbito
desta iniciativa, nos últimos anos, realizaram-se três encontros nacionais. Ainda neste domínio e relativamente às rádios escolares, através da consulta da lista que nos foi disponibilizada pela DGE, podemos verificar que, no ano letivo 2013/2014, existiam 47 projetos de rádio escolar em Portugal, que, no ano letivo seguinte (2014/2015), o número diminuiu para 41, e que desde aí aumentou. Em 2016/2017, eram 57 as rádios escolares em funcionamento, sendo Braga (8 rádio escolares), Lisboa (8), Aveiro (7) e Porto (7) os distritos com um maior número de emissoras em atividade, mas estes não eram os únicos. Em Beja (4), Santarém (4), Viseu (4), Coimbra (3), Setúbal (3), Évora (2), Vila Real (2), Castelo Branco (1), Faro (1) Guarda (1), Leiria (1) e Viana do Castelo (1) também decorreram projetos desta natureza.
Ainda associado ao som e a nível nacional, existe o concurso "Conta-nos uma história!", que “pretende fomentar a criação de projetos desenvolvidos pelas escolas de Educação Pré-Escolar e 1.º Ciclo do Ensino Básico que incentivem a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), nomeadamente tecnologias de gravação digital de áudio e vídeo” 28.
Num registo um pouco diferente, temos a iniciativa anual “7 dias com os Media” promovida pelo Grupo Informal sobre Literacia para os Media (GILM), que pretende sensibilizar para o papel e lugar dos meios de comunicação no dia-a-dia dos cidadãos29, pelo que neste âmbito se têm vindo
a enquadrar também atividades em torno da rádio como, por exemplo, uma das descritas por Bonixe (2015).
A nível regional, encontramos, por exemplo, na Madeira, o projeto “Webradio” do programa “Educamedia”30, que pretende apoiar o planeamento, transmissão e produção de programas nas
escolas.
No que diz respeito especificamente às webrádios, em 2010, Diegues (2010) afirmava que não era possível especificar a quantidade, mas que eram muito poucas ou inexistentes se falarmos de webrádios educativas implementadas no ensino básico. Contudo, seis anos depois, o autor evidencia uma mudança. “Se há uma década atrás os projetos de WebRádio estavam mais
27 Para mais informações, pode consultar https://dge.mec.pt/radios-e-televisoes-escolares-na-net
28 Para mais informações, pode consultar http://erte.dge.mec.pt/concurso-conta-nos-uma-historia
29 Para mais informações, pode consultar http://www.literaciamediatica.pt/7diascomosmedia/apresentacao
implementados nos meios universitários, a verdade é que num curto espaço de tempo muitos bons projetos surgiram nas escolas básicas e secundárias de Portugal” (Diegues, 2016, p. 111). Neste campo, importa fazer uma breve referência à Rádio Vale do Tamel31, um projeto de referência
através do qual é possível verificar algumas das potencialidades da rádio referidas anteriormente. A proximidade com o contexto desta investigação e o facto de lhe termos feito uma visita, a qual, como veremos, permitiu aperfeiçoar o plano da ação a desenvolver no âmbito deste estudo, justifica que lhe dediquemos algumas linhas.
A Rádio Vale do Tamel suscitou o interesse da imprensa regional e de vários departamentos do Ministério da Educação - Direção Regional da Educação do Norte, Portal das Escolas e Plano Tecnológico da Educação - logo no primeiro ano de funcionamento (Diegues, 2010) e serviu de exemplo para outras escolas, entre as quais a E. B. 2,3 de Pedrouços, na Maia, a Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, e a E. B. 2,3 Rosa Ramalho, em Barcelos (Diegues & Coutinho, 2011).
Nasceu no ano letivo de 2009-2010, no âmbito de uma dissertação de mestrado em Educação, cujo principal objetivo era criar e dinamizar uma webrádio e começou com uma turma de 24 alunos do 5º ano de escolaridade do Agrupamento de Escolas Vale do Tamel, Barcelos (Diegues, 2010). No início, o projeto foi desenvolvido no âmbito da área curricular não disciplinar de Área de Projeto e, ao longo do primeiro ano letivo, foram realizados cinco programas educativos compostos por várias rubricas. Concluído o primeiro ano, Diegues (2010) verificou que o tempo definido para o desenvolvimento do projeto (90 minutos semanais) era pouco, mas também observou vários elementos positivos. De acordo com o autor, a webrádio
promove múltiplas aprendizagens educomunicativas. Para além de proporcionar uma experiência lúdica, contribui para a formação do aluno, proporcionando-lhe a vivência em grupo, o contacto com novas ferramentas tecnológicas e ajuda-o, entre outros aspectos, na melhoria das competências essenciais como a leitura, a oralidade, a escrita, a criatividade e promove inclusivamente o exercício de cidadania. (Diegues, 2010, p. 140)
31 Durante o desenvolvimento desta investigação, tomamos conhecimento do projeto Rádio Vale do Tamel, o qual se desenvolve num local
relativamente próximo daquele onde decorreu o presente estudo, e, após o contacto com o responsável pelo mesmo, foi possível fazer uma visita ao espaço, o que permitiu conhecer melhor esta experiência e, consequentemente, aperfeiçoar o plano da ação que delineamos. Por isso, damos- lhe algum destaque neste ponto da dissertação. Para conhecer a Rádio Vale do Tamel, pode consultar http://radiovaledotamel.blogspot.pt/
No ano seguinte, o projeto foi alargado a um maior número de participantes e foi reforçado o circuito interno da rádio (Diegues & Coutinho, 2011). Atualmente, continua em funcionamento e envolve alunos desde o ensino pré-escolar até ao secundário, aos quais proporciona “novas experiências e novos formatos”, promovendo a Literacia Mediática (Diegues, 2016, pp. 116-117).