Defendemos que qualquer profissional de Lobbying deve estar preparado para apresentar aos decisores políticos (e a outros actores do campo político) informação especializada, e que seja credível, bem como preparado para argumentar os seus pontos de vista. Assim, tal como Nownes (2006) e Fallon (2011) defendem, os decisores políticos terão as ferramentas necessárias para decidir sobre determinada matéria. É inegável que a participação da defesa de interesses organizados no processo democrático não só é um facto, como é algo de salutar (Barroso, 2000).
Podemos encarar os profissionais de Lobbying como representantes de interesses particulares legítimos – têm um papel político demasiado especializado, que faz com que estes profissionais, enquanto ''profissionais da Política''160, sejam excluídos por alguns autores da noção de Participação Política (Verba, 1987; Martins, 2004). Muitas vezes os próprios grupos de pressão reorganizam-se internamente de forma a melhor dar resposta à representação dos interesses que advogam, o que mostra que cada vez mais é necessária a profissionalização da representação de interesses (Sauregger, 2006), sendo por isso importante realçar, neste trabalho, o que se entende por profissional de
Lobbying:
La profesionalizacion del lobby reconoce su ejercicio como un area de desarrollo especifica de la comunicacion estrategica y de las relaciones publicas, que requiere de capacidades y habilidades especificas, del uso de una diversidad de tecnicas y de una planificacion que interviene, generalmente, en el ambito de las decisiones estrategicas de las empresas. (Rios, 2010, p.102)
O aumento do grau de profissionalização do Lobbying, nos últimos anos, levou a que parte da literatura especializada na temática se dedicasse às relações entre estes profissionais e o sistema de tomada de decisão política. Sobre quem deve exercer a actividade de Lobbying surgem várias possibilidades, como veremos – por ser uma actividade cujo campo de acção é muito vasto e alargado, é rara a existência de
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categorias profissionais específicas para esta actividade, surgindo por isso pertinentes questões sobre o acesso ao seu exercício (Simão, 2012)161. Para Harsany e Schmidt (2012), é a função de Public Affairs e Lobbying que legitima o valor organizacional junto de diferentes públicos – assim, indicam várias razões para uma organização apostar nestes profissionais: o aconselhamento estratégico sobre como lidar com determinados assuntos; a possibilidade de antecipação de cenários e possíveis resultados; a existência de um background que permita à organização ter melhores estratégias de acção; a possibilidade de transformar problemas em oportunidades; a existência de vários tipos de recursos de forma a melhor comunicar com decisores políticos.
Concordamos com a categorização que Xifra (2007) faz entre diferentes profissionais de
Lobbying: o profissional consultor (profissional que é contratado por organizações para
desenvolver o seu trabalho, como as agências de comunicação), o profissional de empresas (profissional in-house de uma empresa com fins lucrativos, cujas competências são maioritariamente a representação dos interesses da empresa), e o profissional de grupos de influência (profissional in-house de uma organização ou associação, que tem também como principal papel a representação dos interesses dessa organização ou associação).
Na prática, quando pensamos em profissionais de Lobbying, falamos em quem actua em nome de um determinado cliente/interesse, actuando como um intermediário junto de outros actores políticos – a literatura mostra que esta intermediação tem efeitos positivos nas decisões políticas, o que mostra que o Lobbying pode ser encarado como uma forma de Participação Política que pode fazer a diferença (Rawnsley, 2005). Sem nunca esquecer que estamos perante uma actividade que muitas vezes é organizada por interesses privados, partilhamos a opinião de Warntjen e Wonka (2004) de que estes profissionais necessitam de ter uma postura institucional para que a sua lógica de influência legítima tenha sucesso. Assim, um profissional de Lobbying depende sempre
161 Recordamos que não estão em estudo, neste trabalho, os profissionais menos legítimos desta actividade, mas sim a legitimidade da actividade em si.
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de como leva a cabo as suas tarefas de informação e de persuasão junto dos seus públicos:
Lobbyists perform a very necessary function in a society, that of being a link between various organizations and groups with little understanding of government and policy making on the one hand, and on the other hand, government and officialdom with little trust in or experience of the activities of such groups or the expertise of private companies and individuals. (Fallon, 2011, p.120)
Nesta actividade há necessidade de conhecimentos profundos em três áreas fundamentais: conhecimentos jurídico-administrativos (devido aos aspectos regulamentares das diferentes questões); domínio perfeito de técnicas de comunicação; conhecimentos de gestão (análise estratégica macro) (Lampreia, 2005). Acima de tudo um bom profissional de Lobbying necessita de conhecer a fundo o processo político e os sistemas de tomada de decisão – um bom profissional deve conseguir perceber as diferentes ligações político-legislativas entre os variados mecanismos e actores políticos, e assim perceber como são tomadas as decisões e como podem ser influenciadas, visto que uma das regras primordiais de uma estratégia de Lobbying deve ser perceber onde está o verdadeiro centro da decisão do assunto em questão (Allern, 2011; Richardson e Mazey, 1993).
O papel dos profissionais de Lobbying pode ser fulcral, se o encararmos numa perspectiva de homo narrans (Terry, 2001), ou seja, de um contador de histórias que constrói, simbolicamente162, uma representação partilhada por representantes e representados, na arena política. O profissional de Lobbying é alguém que dispõe de informação precisa, completa e actualizada, tendo também uma função de vigilância estratégica – o profissional de Lobbying não vai ‘criar’ eventos ou novas situações, não vai modificar a personalidade de um decisor político ou de qualquer outro actor político,
162 ''Storytelling provides the context for interactions, requests and proposed policies.'' (Taliaferro e Ruggiano, 2010, p.7)
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indo, ao invés, permitir uma melhor criação de uma política com cariz de interesse público (Romagni, 1994).
Apesar das diferentes categorias profissionais, importa perceber que há várias actividades que são comuns aos diferentes profissionais de Lobbying e que devem ser continuamente executadas (Harris, 1999) para que se tenha sucesso numa estratégia desenvolvida:
Monitorização de todo o ambiente socio-político em redor de determinado assunto, bem como de possíveis alterações legislativas que possam impactar determinada organização ou interesses163;
Aconselhamento político e sobre questões de decisões políticas, aconselhando sobre como reagir a diferentes cenários;
Facilitar a comunicação e o contacto com decisores políticos e com outro tipo de actores políticos;
Responsabilidade em formular toda a estratégia de Public Affairs e
Lobbying, desenvolvendo opções e táticas para se executar a vantagem
competitiva que se tem
A necessidade de conhecer a fundo procedimentos políticos e legislativos leva a que grande parte dos consultores de Lobbying tenha formação base164 em Direito, Ciência Política, ou Relações Internacionais, para além dos que têm formação em Relações Públicas ou noutras áreas adjacentes das Ciências da Comunicação (Carvalho, 2000; Lampreia, 2005; Simão, 2012). São também, muitas vezes, ex-políticos que a exercem – tal acaba por acontecer devido à reputação individual (profissional ou não) que a pessoa
163 O trabalho do profissional não passa apenas por comunicar juntos de diferentes players com informações que revelam a condição de cada um dos actores políticos na questão, bem como perspectivar acontecimentos futuros e trazer à tona informação que pode passar despercebida (Lobo, 2007).
164 Importa também frisar que muitos dos profissionais não tiveram formação académica na actividade (Franzén, 2011) – ''... we do not believe that everything a student needs for a successful Lobbying career, or advocacy career for those preferring the arguably broader term, can be taught in the classroom...'' (Holyoke et al, 2015, p.8)
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em questão pode ter. São os chamados revolving doors (Sgueo, 2015; Anastasiadis, 2006).
Para Holyoke et al (2015) e McGrath (2015), há três grandes áreas que não podem faltar num ensino da temática a futuros profissionais: conhecimento de processos políticos e de tomadas de decisão; comunicação persuasiva; ética e gestão de relações com stakeholders. Desta forma, os autores indicam que qualquer curriculum de um nível de estudos (de pós-graduação, ou de mestrado, por exemplo) em Lobbying tem de ter algumas áreas imprescindíveis165:
Noções sobre grupos de interesses e grupos de pressão
Conhecimento político legislativo e executivo
Direito
Escrita e Public Speaking
Comunicação Política e Advocacy
Comunicação Digital
Áreas especializadas consoante os ramos de actuação
No mesmo sentido, Marlowe (2015) indica que qualquer curriculum académico da actividade tem de começar por conhecimentos profundos e detalhados em matéria legislativa e em matéria de procedimentos e recursos políticos. Para além das táticas e técnicas de Lobbying, conhecimento sobre a regulamentação da actividade é necessário. Indepentemente da área académica de onde advêm, Thompson e John (2007) indicam algumas questões-chave de actuação que os profissionais devem dominar: línguas estrangeiras, tecnologias de informação e comunicação, comunicação interpessoas, técnicas de expressão escrita e oral, capacidade de iniciativa e trabalho de equipa.
Na prossecução da actividade de Lobbying a experiência acumulada tem um papel- chave – muitas vezes são tomadas decisões acertadas ou desenvolvem-se atitudes
165 Zetter (2011) indica que não é de estranhar vermos profissionais de Lobbying não com formação específica na área, mas com formação em Relações Públicas, Public Affairs, Ciência Política Administração Pública ou Relações Internacionais.
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proactivas em determinadas estratégias, num dado momento, devido ao conhecimento que se tem de situações similares. O facto essencial é que o Lobbying é, na realidade, um conjunto de relações que se estabelecem com determinados públicos, que terão sempre mais predisposição para ouvir profissionais credenciados, experientes e credíveis (Holyoke et al, 2015; Karlsson e Kunetsova, 2007). Embora a actividade possa não ser desempenhada apenas por profissionais próprios, tal não significa que outros actores não desenvolvam estratégias de Lobbying legítimas – por exemplo, os chamados think-thanks166, actores especializados que muitas vezes representam determinados interesses.