Qualquer investigação científica deve ser conduzida utilizando, de forma sistemática, procedimentos para o alcance de resultados (Graber, 2004). Para que tal seja possível, o problema teórico tem de corresponder ao conjunto de questões que se colocam a cada situação, ou seja, as suas fronteiras delimitadoras. É graças a esta problemática (que
201 Em contraste com pressupostos de análise quantitativa mais voltados para a predição e o controle de dados, a análise qualitativa não procura, por norma, a generalização estatística (Holanda, 2006; Martins, 2004).
202 ''... a investigação qualitativa tem como critérios centrais a fundamentação dos resultados obtidos no material empírico, e uma escolha e aplicação de métodos adequados ao objecto de estudo.'' (Flick, 2005, p.5).
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funciona como um ponto de partida para a investigação) que se decide o que se pretende investigar. Procura-se conhecer a realidade social (Leite, 2004) – logo, é importante construirmos instrumentos que nos vão proporcionar diferentes informações sobre essa mesma realidade e sobre a forma como o nosso conhecimento sobre ela pode ser alterado e transmutado. Na prática, é o nosso objecto de pesquisa que possibilitará descobrir respostas para diferentes perguntas, através de processos científicos (Selltiz et
al, 1974)
Qualquer investigador em Ciências da Comunicação, de forma a entender as diferentes disciplinas e áreas de estudo, necessita de perceber como funcionam quer estudos quantitativos, quer estudos qualitativos, e qual a importância de ambos na (e para a) sociedade (Daymon e Holloway, 2011; Gunthër, 2006; Luque, 1986; Erisen, 2012) – esta polarização entre uma metodologia qualitativa e uma metodologia quantitativa tem sido comum nas investigações desde meados do século XX (Sampieri et al, 2006). Ambas abordagens têm vantagens e desvantagens e podem ser complementares, sendo que é importante percebê-las, relacioná-las e distingui-las – nenhum objecto de análise é, por definição, quantitativo ou qualitativo, nem certo ou errado.
Para Bryman (2012), existem nove grandes semelhanças entre os dois tipos de metodologia: a redução de dados (de forma a melhor concluir e dar resposta ao que se está a investigar); a resposta a questões de investigação (embora diferentes, qualquer investigação terá um foco prioritário de responder a questões sobre a natureza da vida em sociedade); a relação entre a análise de dados e a revisão bibliográfica (as conclusões serão mais robustas quanto mais suportadas pela literatura estiverem); a preocupação com a variação (descobrir novos conhecimentos e representá-los); a análise frequencial (perceber a frequência de certo tipos de comportamento ou de temas catalisadores); a preocupação com a cientificidade da investigação (evitamento de uma má representação consciente da realidade); a importância da transparência (total clareza relativamente aos procedimentos de investigação); a importância do erro (redução ao máximo do erro para uma melhor construção científica); e a utilização de métodos
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próprios tendo em conta a investigação. Há, porém, algumas diferenças entre estas duas abordagens.
A metodologia quantitativa, em termos de estudos de Comunicação, é tida como a mais convencional e a mais utilizada por diferentes investigadores. Este tipo de investigação remete para um estudo mais voltado para as descrições e conclusões generalizáveis – descrição e explicação de processos e teorias que possam ser aplicáveis e replicáveis.
As comparações estatísticas feitas quantitativamente requerem uma hipótese (que muitas vezes é derivada da teoria), de forma a entender de forma retrospectiva um determinado fenómeno – logo, envolve à partida menos expectativas a priori (Strijbos
et al, 2006). Uma das principais características da metodologia quantitativa é a sua
replicabilidade, sendo uma metodologia muito indicada para explicar complexas relações entre variáveis. Outros critérios quantitativos importantes são a flexibilidade, a quantidade de dados e a amostra (Luque, 1986).
Já os métodos qualitativos são métodos de análise de aspectos que são significativos e simbólicos no fenómeno em estudo. A análise de dados qualitativos permite descrições de fenómenos através da perspectiva dos participantes, enquanto que a análise de dados quantitativos traz evidências que permitirão suportar ou refutar teorias sobre o fenómeno, desenvolvidas por quem investiga (DeCoster e Lichtenstein, 2007):
... research into strategic and managed communication will more conscientiously accommodate different styles of enquiry so that both qualitative and quantitative approaches will co-exist on an equal footing. (Daymon e Holloway, 2011, p.12)
Assim, a metodologia qualitativa distingue-se e caracteriza-se por ser interpretativa e reflexiva, permitindo explicações mais ricas na análise de factos sociais – através da indução procura-se trazer novo conhecimento que permita explicar o fenómeno em estudo (DeCoster e Lichtenstein, 2007; Daymon e Holloway, 2011). Para Lindlof e Taylor (2002, em Daymon e Holloway, 2011) estas são as principais questões a que um estudo qualitativo em Comunicação deve responder: O que se está a passar? Que acção
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comunicativa está a ser desempenhada, e como? Qual o seu significado? Como se interpreta esse significado face a outros?
Para investigadores mais acostumados a pesquisar em prol da medição203 e replicabilidade de algo, de um fenómeno em concreto (como muitas vezes acontece na metodologia quantitativa), estas são algumas das críticas mais comuns feitas aos métodos qualitativos que se utilizam: a pouca representatividade da população geral; a dificuldade de generalização de resultados; a falta de explicitação dos procedimentos de recolha de dados; o possível pouco rigor na apresentação de resultados; a possível ''adulteração'' dos resultados devido às opiniões pessoais de quem investiga (Daymon e Holloway, 2011; Jankowski e Wester, 2002). Outra crítica feita à metodologia qualitativa diz respeito à sua representatividade (Martins, 2004) – por privilegiar o estudo em ambientes mais pequenos, mais focados num determinado tema ou fenómeno.204
Ou seja, a análise quantitativa distingue-se da qualitativa pois é uma análise onde a mensurabilidade é privilegiada, cujos critérios tentam ser ao máximos independentes do investigador (Graber, 2004; Flick, 2005). Para Schutt (2012), a primeira grande diferença entre metodologias quantitativas e qualitativas é o facto de uma analisar números e outra analisar texto. O foco no texto (ou seja, em dados qualitativos em vez de dados numéricos, quantitativos) é uma característica importante da análise qualitativa – qualitativamente privilegiam-se as ocorrências, quantitativamente privilegiam-se as recorrências (Jensen e Jankowski, 2012)
Para Sampieri et al (2006), embora seja objectivo primeiro de ambas as abordagens a produção de conhecimento sobre fenómenos sociais, o enfoque quantitativo tem como
203 A quantificação, como o próprio nome indica, mais é comum em metodologias quantitativas. Qualitativamente questiona-se, sobretudo, o que está em estudo, o como e o porquê.
204 Embora se possam pensar os métodos quantitativos como tendencialmente objectivos (Lara, 2011), para DeCoster e Lichtenstein (2007) a reivindicação de alguns investigadores de que os métodos quantitativos são mais objectivos que os qualitativos não é verdadeira – para os autores o facto de, a
priori, quantitativamente também ser necessário tomar decisões (o que perguntar ou a quem
perguntar, por exemplo) torna este tipo de análise tão subjectiva como a qualitativa. Em ambas os procedimentos e escolhas do investigador devem estar explicadas detalhadamente.
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meta o conhecimento de uma realidade, e o enfoque qualitativo a descoberta de uma realidade – quantitativamente parte-se da premissa de que a realidade social é algo que pode ser conhecida pela mente, enquanto que qualitativamente a realidade social é a própria mente, é algo construído pelos significados dos indivíduos. Assim, a análise quantitativa procura relatar o que acontece, para que se possa explicar e prever fenómenos, e a análise qualitativa procura entender o contexto e o ponto de vista do actor social205.
Os métodos quantitativos, ao serem muito mais associados à análise e descrição numérica, não costumam ser os mais indicados para a descrição de fenómenos – o que contrasta com os métodos qualitativos, cuja grande vantagem é a descrição mais profunda e rica dos fenómenos em estudo (Daymon e Holloway, 2011). Para Bryman (2012), a metodologia quantitativa vai dar um maior enfoque a um método dedutivo de teste de teorias, observando a realidade social enquanto uma realidade objectiva externa – a metodologia qualitativa irá predominantemente dar ênfase a uma abordagem mais indutiva de modo a gerar teorias, olhando para a realidade social de uma forma construcionista, enquanto algo emergente da criação individual.