Juntamente com a responsabilidade objetiva, entender a organização como um ator social é imprescindível para podermos analisar suas características únicas e sua individualidade em relação aos demais atores da sociedade atual.
Ao propor sua teoria, Teixeira et al. (2012) estabeleceu que as organizações são atores sociais, baseando-se na metateoria da organização como ator social, desenvolvida pelos autores Brayden G. King, Teppo Felin e David A. Whetten, publicada em 2009.
Estudos propõem que as organizações são atores sociais e fundamentam sua análise em dois pressupostos: atribuição externa e intencionalidade. “Embora haja um relacionamento causal da organização para o mercado ou outras forças sociais amplas, é evidente que, uma vez formada, uma organização tem as suas próprias propriedades únicas.” (KING; FELIN; WHETTEN, 2009, p.1).
As organizações devem ser vistas como atores sociais em seus próprios direitos, refletindo sua importância em nossas vidas, vez que podem tomar ações, utilizar recursos e estabelecer contratos, conforme se observa no texto abaixo:
Vamos deixar de perceber a importância das organizações para as nossas vidas se as olharmos como contextos – como arranjos que influenciam as atividades dos agentes individuais. As organizações também devem ser vistas como atores em seu próprio
direito, como "atores sociais coletivos". Elas podem tomar ações, utilizar os recursos, celebrar contratos e ter patrimônio próprio (SCOTT, 2003 apud WHETTEN; MACKEY, 2002, tradução nossa).
A identidade das organizações pode ser vista como a autodefinição de ator social, pois a identidade não é um atributo observável, mas sim uma necessidade da sociedade de prestação de contas das ações dos atores, tanto individuais quanto coletivas (CZARNIAWSKA, 1997 apud WHETTEN; MACKEY, 2002).
A autodefinição do indivíduo, visto aqui como um ator, reflete duas necessidades humanas: a necessidade de saber como somos similares aos outros e como somos diferentes dos outros. Essa reflexão previne autodefinições disfuncionais. Esse tipo de reflexão é vista no domínio organizacional como a maneira que as empresas se enxergam, observando as características comuns e as diferenças com outras organizações (BREWER, 1991 apud WHETTEN; MACKEY, 2002).
Em resumo, observa-se que atores sociais necessitam de identidade, estabelecida a partir de formas organizacionais escolhidas por seus fundadores e difundidas por declarações de identidade compartilhadas (WHETTEN; MACKEY, 2002).
Nesse sentido, a organização pode ser entendida como um tipo de ator social com a capacidade de agir de maneira intencional, diferentemente dos demais estudos que entendem a organização como uma estrutura individual, ainda associada ao mercado ou à comunidade (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
A análise das práticas de Dignidade Organizacional somente é possível quando se observa a organização em seus aspectos únicos, distintos daqueles relacionados aos seus componentes, o que é defendido por diversos cientistas sociais citados por King, Felin e Whetten (2009), como Ingram e Lifschitz (2006), incluindo sociólogos como Coleman (1983, 1990) e Perrow (1979, 2002); economistas conhecidos, como Galbraith (1967) e Williamson (1975); e juristas como Gierke (1922) e Maitland (1904) (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
Estudos demonstram que, após sua constituição, as organizações consolidam-se como atores e transformam seu ambiente, influenciando os indivíduos e suas comunidades, identificando pressupostos que fundamentam o conceito de organização como ator social.
Atores sociais organizacionais tomam decisões e agem, devendo, portanto, ser responsabilizados pelos seus atos. Justifica esse raciocínio a observação, na mídia ou nas salas de aula, da utilização de frases como: "A IBM transformou-se.", "A Westinghouse demitiu 1.000 funcionários." ou "A Nike agiu irresponsavelmente." (KING; FELIN; WHETTEN, 2009, p.3).
As organizações agem como atores porque a sociedade lhes atribui esse status, legalmente e na vida prática, o que também é decorrente do reconhecimento dos demais atores: indivíduos, Estado, interessados e o público em geral. Além disso, os atores também são capazes de agir com intencionalidade, que subsidia seu comportamento e as decisões tomadas (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
Dois componentes determinam a compreensão das organizações por parte dos demais atores sociais: a soberania e a responsabilidade (KING; FELIN; WHETTEN, 2009). Os autores citam Maitland (1904) ao observar que o entendimento da soberania nas organizações é claro, tendo em vista o conceito legal de organização, em que a soberania é atribuída pelas leis.
Parte da soberania das organizações advém de seus próprios membros, que fazem concessões de seus direitos em favor dos direitos das organizações. Ao fazer isso, "pessoas singulares" (na terminologia de Coleman) limitam sua autonomia e permitem à organização agir como um ator autônomo (COLEMAN, 1983). Ao receber essa “autorização”, a organização passa a ter o poder de escolher e determinar quais comportamentos serão aceitos ou coibidos em seu ambiente, que recompensas ou sanções serão aplicadas, quem participará ou não de seus quadros, tudo isso independentemente da vontade de seus colaboradores e usuários, sempre respeitando o limite imposto pelo Estado (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
Tratando-se da responsabilidade das organizações, King, Felin e Whetten (2009) verificaram que o status legal da organização como ator impõe responsabilidades, tendo em vista sua posição como tomador de decisões perante a sociedade.
Observa-se que todo o regramento interno da organização, bem como suas práticas internas e externas, suas rotinas de trabalho, seus valores, sua missão e visão, as ações e papéis de seus colaboradores e as decisões tomadas pelos detentores dos diversos papéis dentro da estrutura hierárquica, são atribuíveis diretamente à organização e não a seus componentes (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
A intencionalidade é outro elemento importante da Teoria Organizacional. King, Felin e Whetten (2009) verificaram que as organizações têm objetivos e intenções que são, em tese, independentes das crenças, objetivos, preferências, e valores dos seus colaboradores.
King, Felin e Whetten (2009) citam Tollefsen (2002) que argumentou que as organizações são intencionais porque são criadas para determinados fins, o que torna as decisões de seus agentes previsíveis, pois suas ações são executadas a partir da visão da empresa.
Segundo King, Felin e Whetten (2009), a história da organização influencia de maneira determinante sua individualização enquanto ator social, demonstrando os fatos que levaram a organização a ter determinados valores e agir de determinadas maneiras. As decisões e ações tomadas ao longo de sua existência compõem um referencial que permite aos agentes membros da organização refletir sobre as ações passadas e futuras, de modo a manter uma coerência em relação ao procedimento normalmente aceito.
Podemos entender as organizações como uma ferramenta concebida para realizar uma ação coletiva e de uma maneira inacessível por um indivíduo isoladamente. Uma vez criada, as organizações têm vida própria e são mantidas de uma forma parecida aos indivíduos (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
Metas organizacionais, segundo King, Felin e Whetten (2009), servem como referência para o comportamento dos colaboradores e fornecem a terceiros um mecanismo de prestação de contas. Os autores observam ainda que as metas também permitem aos stakeholders avaliar o desempenho organizacional da instituição, pois são vistas como a principal motivação por trás do projeto organizacional.
Conforme constataram King, Felin e Whetten (2009), ao observarem a organização enquanto ator social, verificaram algumas implicações decorrentes dessa perspectiva: primeiro, as propriedades do ator organizacional devem estar no centro dos estudos organizacionais; segundo, o campo de estudos organizacionais deve distinguir entre a ação organizacional e as ações individuais do ambiente organizacional e; terceiro, uma vez criadas, as organizações passam a ter identidade social distinta, com elementos independentes das condições fundadoras. Os autores defendem que a implicação mais importante dessa perspectiva é que ela
gera uma melhor compreensão do que deveria ser central para a organização da teoria da organização [...] A teoria organizacional deve, de alguma forma, explicar o comportamento dos atores organizacionais e seu relacionamento com as pessoas e seus ambientes (p.10).
Os comportamentos dos atores organizacionais devem ser centrais nas explicações teóricas. Esta perspectiva leva a expectativa de que um ator pode mediar a sua capacidade de agir sobre o seu ambiente, criá-lo, ou superar as restrições ambientais (KING; FELIN; WHETTEN, 2009).
O Estado, através de mecanismos legais, trata a organização como um ator e permite a esta agir em relação aos stakeholders internos e externos e também ao próprio Estado, com responsabilidade e autonomia. Conforme discorrem King, Felin e Whetten (2009), soberania representa a capacidade da organização de agir sem o consentimento de seus membros,
mesmo que suas ações não se coadunem com as ideias ou, contrariamente, tragam vantagens a tais membros. Segundo os autores, nos limites atribuídos pelo Estado e os demais atores relacionados, a organização pode controlar seus membros e delimitar suas ações, tendo autoridade e poder de autorizar ou coibir atos que sejam contrários às determinações de seus próprios membros.
Estudos de King, Felin e Whetten (2009) verificaram que os stakeholders têm percepções diferenciadas da identidade da organização. Da mesma forma, os autores identificaram que os objetivos declarados também podem ser diferentes daqueles perseguidos no dia a dia pelos grupos internos da organização, conforme os autores verificaram no estudo de Cyert e March (1963).