• No results found

5. AVSLUTNING

5.5. Videre forskning

O que eu quero observar sobretudo é que as travestis de Brasília e as do interior do Piauí – e junto a elas menciono Patrícia, de Alagoas - situam-se em dois registros distintos. Por exemplo, Kátia e Patrícia, ambas definiam-se como travestis; mas, para ambas, as nomenclaturas “bicha” e “viado” eram comuns em seu círculo informal ou na comunidade.

76

E, como venho apontando, essa oposição “ativo-passivo” é estruturante como representação, mas não é uma realidade. Na prática, as relações são muito mais fluidas. Nos contextos urbanos, essa oposição aparece de modo muito mais mascarado. Afinal, a maioria dos clientes são passivos e não são de toda forma classificados como homossexuais. Nos contextos urbanos, eu diria que a performance é muito mais importante quando se fala de identidades. Já nos cenário rurais que estudei essa oposição era mais claramente definida.

Se, para as travestis de Brasília, em uma conversa informal, poderia ser injurioso o fato de eu chamá-las de “bicha” ou de “viado”, para as travestis do Piauí e para Patrícia isso não ocorria.

Para as travestis de Brasília é muito mais imperioso “parecer-se com uma mulher” do que para as travestis do Piauí e para Patrícia. Aliás, eu diria de outra forma – como analisarei no próximo capítulo, as travestis de Brasília e de outros grandes centros foram colonizadas por um certo modelo global do que deve ser uma travesti. Não é à toa que são elas, as travestis das grandes capitais, que são muito conhecidas em capitais européias, famosas pela prostituição de travestis brasileiras, como Milão. Nesse modelo, estão incluídos: as próteses, o silicone, os hormônios, os apliques de cabelos artificiais ou os cabelos naturais longos e bem arrumados, as maquiagens e toda a sorte de artifícios descritos nessas citações acima e por outros autores, como Benedetti (2005) e Kulick (2008). Em Brasília, há um modelo de como deve ser uma travesti, que atravessa a estrutura narrativa da personalidade, em oposição a um Outro heterossexual que só existe, mesmo historicamente, em contraposição aos modelos não-heteronormativos77, como descrevo no capítulo 4.

Nesse modelo global, a performance de gênero está muito mais pautada pela fixação de papéis e, portanto, pela heteronormatividade, do que pela abertura à circulação de papéis e à ambigüidade classificatória, mais admitidas nas áreas rurais. A travesti urbana é mais estereotipada, e suas referências são os estereótipos de gênero.

Como afirma Vale de Almeida (2004),

(...) é crucial, metodologicamente, distinguir comportamento homossexual, que é universal e trans- histórico, de identidade homossexual, que só se desenvolve em condições históricas específicas. (...) a heterossexualidade [como a homossexualidade] é também uma construção cujo significado depende de modelos culturais cambiáveis. Ora, nos finais do século XX, tanto a hetero quanto a homossexualidade foram naturalizadas. (VALE DE ALMEIDA, 2004, p.3)

E os modelos enlatados (isto é, globalizados, decorrentes da experiência colonial de mundialização do capitalismo e, conseqüentemente, de difusão do modelo de gênero

77 Eu soube recentemente, por uma comunicação pessoal de uma pessoa que trabalha na ouvidoria do

Ministério da Saúde, que uma pergunta que tem sido incluída com o fim de identificar o perfil d@s usuári@s do SUS é se elæs são heterossexuais. A maioria d@s usuári@s reagia à pergunta com respostas do tipo “não, eu não sou heterossexual, não sou isso não!”. Quando @ atendente perguntava se @ usuári@ sabia o que era ser heterossexual, normalmente, a resposta era não. E, quando se explicava a elæ o significado da palavra, a resposta era “ah, eu vivo com meu marido” ou “eu vivo com minha mulher”, num tom de “eu sou normal”.

binário moderno) – sejam os de um@ homossexual, o de um@ heterossexual ou o de uma travesti - ofuscam quaisquer variações entre as travestis e assassinam a imagem da “bicha”, do “viado” – nomenclaturas, que, para elas, nos cenários urbanos, não passam de recursos discursivos e retóricos de manipulação da injúria; não que elas se considerem assim! Analiso essa questão extensamente no capítulo 4.

No Piauí, e mesmo em casos como o de Patrícia, em Alagoas, não é a norma da travesti globalizada urbana que informa as experiências e as posições identitárias. E, além do mais, elas possuem outros elementos que as legitimam em suas escolhas, como a inserção comunitária. Para travestis que se prostituem em grandes centros urbanos, alvos da segregação, da violência, do travesticídio, essas narrativas e a absorção dos termos injuriosos podem ser bastante úteis.

Talvez o que ocorra no Piauí é que isso não seja necessário. Em uma região onde mesmo o acesso a cargos políticos e públicos pode ser mais fácil para identidades que não se ajustam à norma, encontrei uma Kátia vestida com bermudas, com blusas folgadas, com chinelas, dona de um corpo que não correspondia ao ideal “sarado”, sem maquiagens e sem acessórios - inclusive porque esse ideal não era normativo lá para as próprias mulheres! Nunca encontrei travestis loiras e exageradas. Aliás, como já observei, os próprios colonienses criticavam Kátia em suas aparições midiáticas performáticas, ali onde ela tentava corresponder a um imaginário da travesti maquiada e exagerada, desse hiper- feminino, desse mais-além do feminino. Acredito até mesmo que Kátia e Ana Cristina possam ser um exemplo daquilo que tradicionalmente se chamava “bichinha” – o homem que se veste de mulher e que gosta de “ser comido” por outro homem78 - e talvez por isso é que Ana Cristina não estivesse muito preocupada se, usando um nome feminino, batom, brincos e roupas femininas, era chamada de travesti ou de homossexual.

Para as travestis do Piauí, em geral, também não existiam grandes elucubrações acerca do que definia uma identidade travesti nem o mandato de conceituações identitárias tão vastas e detalhadas como ocorre em Brasília. Para mim, isso não significa que lhes falte uma reflexão nesse nível – apenas que esse registro não constitui um problema central, como ocorre com as narrativas do eu em Brasília. No Piauí, inclusive, parece-me, existem menos reflexões dedicadas a ofuscar o emparelhamento que existe entre o modelo “ativo”/

78

“passivo”, “heterossexual”/ “homossexual”. Se eu perguntasse a qualquer travesti, homossexual ou heterossexual no Piauí, sobre o que era uma travesti, a resposta seria simples: um homem que se veste, que se comporta, que age como uma mulher, que é passivo, que gosta de ser comido. Como as mulheres e como os homossexuais, as travestis são passivas porque estão no registro do feminino. Os registros são puramente binários. Como observa Albuquerque Júnior (2009b),

Numa cultura sexual como a nordestina, muito centrada no ato sexual e no papel que nele se exerce, a atividade ou a passividade na relação sexual é de importância decisiva para definir o lugar de sujeito de cada indivíduo. Toda prática que se aproxima da passividade é associada ao feminino (...). (2009b, p.5)

Eu acredito inclusive que as travestis desses centros urbanos menores sejam mais sinceras no que se refere a aceitarem-se como um sujeito que de todo modo está conforme à matriz, sem interpretarem algum hiper-real da mulher dos grandes centros, algo de tão diferente e “pós-moderno”, grandes subversivas das normas e dos padrões.

Acredito que uma breve mirada nas fotos abaixo79 pode ser mais esclarecedora do que essas análises, quando se trata da comparação do que discuto aqui como as travestis enlatadas dos grandes centros e as bichas do Piauí:

79

A primeira foto foi retirada aleatoriamente de um site público da internet de acompanhantes da “categoria” travesti e não possui vínculo com meu trabalho de campo nem com qualquer uma de minhas interlocutoras. O objetivo é meramente ilustrativo. As duas outras fotos são de Kátia Tapety. A primeira foi feita por mim, com autorização da própria Kátia, e a segunda encontra-se no site

Figura 5: Kátia Tapety em 2008, segurando uma foto sua em torno de seus 18 anos, na praça central de Oeiras, onde está localizada a primeira Igreja do Piauí (ao fundo)

Figura 6: Kátia Tapety em Colônia de Piauí andando de jegue