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Sosial og inkluderende i samtale med andre gjester

4. POLITIKERES TROVERDIGHET I TALKSHOW

4.1. Statsminister Jens Stoltenberg

4.1.5. Sosial og inkluderende i samtale med andre gjester

Essa descrição da cena política, da esfera pública e da ocupação diária coloniense leva-me a ilustrar a atividade política de Kátia Tapety. Uma figura eminentemente pública, Kátia sempre era acessível a qualquer pessoa que passasse por sua porta. Quando ela saía

para o comércio de Colônia ou de Oeiras, cumprimentava e era cumprimentada por cada um@. Isso poderia ocorrer nos postos de gasolina dessas cidades, nos armazéns, nas farmácias, nas oficinas mecânicas, nas papelarias, nas padarias ou nos bares. Certa vez, estávamos Kátia, eu e Beatriz no mercado municipal de Oeiras. Procurávamos verduras, frutas, cereais e temperos. Kátia examinava os maracujás, fruta que sua filha adorava, com a mesma volúpia com que examinava as nádegas dos homens, jovens ou mais velhos. Ali, ela passava de forma distinta, como uma rainha, parecendo caminhar, com seu andar soberano, acima da sujeira e da imundície que atravessavam o chão. Ela se requebrava e seguia, ao mesmo tempo séria e sorridente, dona de um ar majestoso, entre os restos de grãos e as folhas de alface amareladas e pisadas. Exibiam-se grandes sacos de cereais, “cadeiras de macarrão” (típicas cadeiras nordestinas feitas de ferro e de delgados tubos de plástico), bileiras (móvel de madeira entalhada, suporte de potes de barro para armazenar água, filtros de barro e copos, sempre exibidos nas cozinhas colonienses, com copos de alumínio muito bem areados), verduras, frutas, panelas de alumínio e de ferro e colheres de pau. Kátia parecia incólume àquele burburinho, às pessoas imprensadas umas às outras, àquela sujeira. Tod@s a conheciam. Ela passava a mão nos rapazes, fazia gracejos. Os homens brincavam e diziam “esse aqui ainda tem honra. Quer fazer ele homem não?”. E no entanto aquelas brincadeiras tinham um tom de respeito e de reverência, mais do que de insulto, como poderia pensar algum@ leitor@ desavisad@ que prestasse atenção meramente às frases dirigidas a ela. Kátia era uma mulher, e talvez muito mais cotada do que as outras, que circulavam rápidas e preocupadas, com suas bolsas e sacolas.

Kátia sempre buscava notícias de tudo e contava apenas aquilo que queria, com seu filtro particular. Kátia não admitia ser posicionada fora de nenhum acontecimento, o que se relacionava à sua função política. Sempre que eu ia visitá-la, como o fazia rotineiramente, pelas manhãs e após alguma ida a Oeiras, ela me interrogava sobre tudo, para que eu a pusesse a par de qualquer notícia, principalmente se fosse relacionada a ela – mesmo que fossem apenas comentários das pessoas com quem eu falara durante o dia, para examinar se haviam mandado-lhe lembranças ou o que pensavam sobre ela. Ela sempre exigia algo como um boletim diário. E, quando estava em casa (normalmente seu dia era dividido entre sua roça e sua casa, à qual estava anexado o bar), se estava no interior, qualquer pessoa poderia entrar e chamá-la; e, se estava na calçada, respondia sempre, altiva, aos

cumprimentos d@s que passavam. Uma pessoa poderia entrar na casa de Kátia porque precisava de seu auxílio para um parto (farei referência à profissão de parteira de Kátia de forma mais extensa adiante), porque queria saber o que beber ou comer para uma indisposição física, porque queria saber as últimas notícias, porque queria usar seu telefone21 ou simplesmente porque queria cumprimentá-la.

Em uma tarde, eu estava na sala de Kátia, sentada em seu sofá, com ela, enquanto tentava obter um mapa genealógico da família Tapety. Um homem entrou, ao que ela interrompeu nossa conversa prontamente, mesmo usando o expediente de dizer que estava conversando com “as meninas de Brasília”. Para o rapaz, ela demonstrava o prestígio de receber aquelas pesquisadoras, que haviam ido lá “só para conhecê-la”; para nós, ela demonstrava o prestígio de ser procurada por cada habitante, para auxiliá-l@ nas necessidades mais básicas. O homem pedia para providenciar ovos de pata porque estava “fraco e desestruturado”. Ela disse: “isso é porque você é namorador!”. Ele se queixou do calor e disse que não agüentaríamos Colônia nem por uma semana. Quando ele saiu, Kátia disse: “um rapaz novo desse assim não tem jeito mais não”.

Não havia nenhuma pessoa em Colônia que não conhecesse Kátia. Afinal, além de ser a primeira travesti vereadora do Brasil, ela teve uma participação na cena social e política da cidade desde muito jovem.

Em Oeiras, eu pude conhecer Rita Campos, uma prima de Kátia. Ela era considerada, informalmente, como uma das “moças-velhas”22 da família Tapety e era já setuagenária. Foi secretária de cultura de Oeiras entre 1997 e 2000 e entre 2000 e 2004, foi professora primária por oito a nove anos e foi professora de fundamentos psicológicos da educação por 30 anos, foi coordenadora do centro de supervisão pedagógico do município de Oeiras e era, na época de meu trabalho de campo, membro do Instituto Histórico de Oeiras, onde já havia sido secretária por 20 anos. Rita tinha muito interesse em alfabetização e participou da implantação da reforma de ensino na época da ditadura. Ela analisou que não era uma surpresa o fato de Kátia ser uma figura presente na política da

21 Pouquíssimas pessoas possuíam telefone em Colônia, não existia sinal de telefone celular, e a maioria dos

telefones públicos não funcionava; o acesso ao telefone particular, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, em Colônia do Piauí, em 2000, era de 3,1%.

22 Quando eu tentei formar uma genealogia da família de Kátia Tapety, as pessoas se referiam às “moças-

velhas” da família com alguma ironia. Para uma análise aprofundada da representação da figura da “solteirona” ver MAIA, Cláudia de Jesus (2007).

cidade – a posição de Kátia na política seria uma conseqüência “normal”, já que a política era uma atividade da família Tapety. Segundo Rita Campos, também, a aceitação de Kátia seria normal porque “ele23 tem compromisso, conhece a realidade, vem da base do povo, ajuda a resolver os problemas”, tinha sensibilidade com os problemas da cidade, amor e interesse. Rita ainda afirmou que “se ele quiser ser político para mostrar que era gay era uma coisa (...) [mas] ele era um gay que se tornou político24. (...) Já vivia inserido na comunidade prestando serviços, por isso foi aceito.” Para Rita, essa inserção ocorreu desde a infância de Kátia, e isso era comum na formação das crianças. Em sua época, as crianças ajudavam os adultos em tudo, mesmo nos serviços eleitorais. Ela própria passou por isso como cabo eleitoral, o que não excluía Kátia, nascida em uma família de políticos. Rita marcou a diferença entre as crianças “criadas em apartamento, em famílias pequenas, com mordomias”, e as crianças de sua região, em sua época25. Acrescentou que a característica solidária e prestativa de Kátia era uma “conseqüência natural do processo de educação”. A família Tapety, segundo Rita Campos, era católica e “sensível ao trabalho comunitário” – “[a inserção na comunidade] acontece naturalmente (...) Kátia é exatamente isso aí.”.

No entanto, Rita Campos apontou a necessidade de um maior grau de instrução de Kátia, mas, segundo esta me relatou, quando era criança, seu pai proibiu-a de estudar por sua orientação sexual - “meu pai dizia que bicha tem que morrer. Ele era muito machão.”. Contou que isso acontecia desde os nove anos, e ficava triste, mas dizia “mata não, ômi, que o povo vai precisar de mim”. E a mãe a defendia: “mamãe era ótima. Mãe sempre defende o filho do jeito que ele é”. Um interlocutor que morava em Oeiras há três anos e que conhecia Kátia relatou-me que o pai dela, muito repressor e com vergonha da filha, que “desde que se entende por gente” se travestia, não a deixou ir à escola. Kátia era semi- analfabeta, mas “muito inteligente”, segundo ele, e teve que enfrentar a oposição política, que a chamava de analfabeta, mostrando que sabia escrever seu nome. Um primo de Kátia me falou que ela “andou muito para chegar onde está”. Rita Campos relatou que a mãe de

23 Algumas pessoas, principalmente as mais velhas e @s familiares de Kátia, referiam-se a ela com pronomes

masculinos ou mesmo com seu nome civil, José (Zé).

24 Esta afirmação de Rita ecoa a diferenciação estabelecida por Santos (2007) entre um “intelectual negro” e

um “negro intelectual”.

25 O discurso de Rita Campos pareceu-me apontar para uma diferença da concepção da infância na região

(mais equivalente à falta de uma noção de infância na pré-modernidade) e nas capitais (semelhante à concepção de infância moderna). Para uma análise profunda da criação do conceito de infância, ver ARIÈS, Philippe (1981).

Kátia “não tinha interesse em mandá-‘lo’ para a escola”, e que Kátia preferia ajudar nos serviços domésticos. Embora Rita não tenha participado diretamente da infância de Kátia, é compreensível que, em um cenário de tanto preconceito, ela tenha preferido permanecer na esfera doméstica de sua casa. Ainda sobre a inserção política de Kátia, Rita Campos observou que não lhe causou transtorno ter “uma bicha na família Tapety,” e que toda a família reagiu assim.