3. METODISKE TILNÆRMINGER
3.5. Metodiske refleksjoner
Outro dado que logo chegou a mim com extrema rapidez foi a ausência do valor moderno da “privacidade” em uma cidade como Colônia do Piauí, que eu descrevo aqui como “pré-moderna”. Nas palavras de Vale de Almeida, Colônia era uma dessas “(...) sociedades intrigantemente vistas como desprovidas de individualismo, modernidade e democracia.” (1996, p.5). E, talvez, pela própria formação histórica do Nordeste, a visão que se tem dessa região a partir de um posicionamento no eixo Sul- São Paulo é a de um local “tradicional” e distante do cosmopolitismo das grandes cidades.
Em Colônia, cada pequeno fato era narrado com o prazer de quem degusta um delicioso prato – somente até que acontecesse um novo evento digno de substituir o anterior. Logo que cheguei, o acontecimento era uma briga que ocorrera no bar da Kátia.
Um freqüentador do bar, que, segundo me diziam, estava sempre bêbado, indispusera-se com o marido de Kátia, sócio do bar, devido a dívidas de bebidas. Na manhã anterior à minha chegada, esse homem fora ao bar com um facão, e, na briga, o marido de Kátia ferira o rosto do homem. Esse fato era a novidade daquele momento e preocupava Kátia soberbamente, mas, após dois dias de minha chegada, logo foi substituído pelo acidente de carro em que Benedito Tapety, seu irmão, e sua atual esposa sofreram graves lesões. Como menciona Mia Couto, “Tão pouca coisa acontecia na vila que a mais pequena novidade assumia dimensão de uma revelação cósmica.” (COUTO, 2008, p.127), e coisas mínimas eram contadas com o rosto brilhante de “dona de um assunto” (2008, p.127). A cada dia na cidade, eu era informada sobre cada acontecimento (embelezado ou não pelas bocas de cada narrador@, que ostentava para mim a posse daquela notícia), o que se tornou, para mim, uma chave de acesso à subjetividade social18 local, tanto no que se referia aos acontecimentos, como no que se referia às formas de subjetivação. E, como nova participante da cena social, eu não escapava aos ditos e às fofocas. Em uma noite, fui apresentada a, no mínimo, dez pessoas e, em alguns dias, acredito que tod@s ali sabiam sobre minha existência. E dar-me conta de minha posição de prestígio ali me levou a observar a necessidade de acenar para tod@s, estivesse de carro ou a pé, o que levou a uma piada da família de Hilda de que eu deveria usar um “braço mecânico”, assim como Lúcia Moura, a recém-eleita prefeita de Colônia. Se eu, por acaso, passasse por uma pessoa e não acenasse, isso poderia se tornar um motivo de intriga. E, da mesma forma, eu também fui obrigada a perceber que meus movimentos cotidianos não passariam nunca desapercebidos. A sensação de falta de privacidade – para mim, um sujeito que sempre esteve em meio a um cenário burguês e individualista19 - tomou parte de minha paciência e de minha
capacidade de relativismo. E a compreensão da ausência do valor da “privacidade” – não como “falta de educação”, mas como habitus20 – tornou-se somente compreensível mediante três acontecimentos. No primeiro, eu estava cozinhando na casa que aluguei na primeira quinzena de minha estadia em Colônia. Como de costume, as crianças de Kátia estavam em minha cozinha, observando curiosas meus hábitos vegetarianos. Então avisei que iria ao banheiro. A menina foi atrás de mim e, quando percebi, ela me observava. Falei:
18 Uso o termo na acepção de Fernando González Rey (2004). 19 Uso esse termo na acepção de Dumont (1993)
20
“Yasmin, eu estou no banheiro!!!”, ao que ela me respondeu “e daí?!”. Praguejei para mim mesma, furiosa com o que eu supunha ser a “má-educação” das crianças. No segundo acontecimento, eu também estava cozinhando, quando uma conhecida minha me chamou à porta. Antes que eu fosse atendê-la, vi-a já em minha cozinha – ela pusera o braço por entre as grades e destrancara a chave da fechadura ela mesma. Mais uma vez furiosa com a “invasão de privacidade”, eu tentei ser dócil e delicada, enquanto me perguntava por que ali existiam portas. E no terceiro acontecimento (que, junto com estes, aponta as atividades cruciais da sociabilidade que são, em Colônia, o cozinhar e o comer), eu estava preparando o almoço, quando o filho de Kátia veio pedir-me “manteiga de gado”. Como eu já estivesse usando minha última porção para o almoço, tive que negar. No outro dia, Kátia comentou que estava precisando de “manteiga de gado” para preparar um remédio. Então me lembrei de que, numa noite anterior, preparando o jantar, enquanto era observada por uma meia dúzia de vizinhos que conversavam comigo em minha cozinha, eu usara manteiga – e depois percebi que a manteiga só era vendida em Oeiras, e em Colônia só se encontrava margarina vegetal. Assim eu compreendi que, tanto quanto os adultos, as crianças faziam e repetiam um hábito coloniense: a vida era, em princípio compartilhada; as conversas se referiam a tod@s; as casas (e também as comidas, como passei a perceber) eram da vizinhança; a vida de cada pessoa constituía a própria cena social.
As pessoas tinham, em média, seis cadeiras em sua calçada e passavam grande parte de seus dias ali. Muitas das cadeiras das casas de Colônia ficavam à porta, viradas para a rua, dando a entender que se assistia a um espetáculo. O espetáculo era a rua. Uma virada de uma pessoa em uma esquina não passava desapercebida. Com o tempo, eu me adaptei a esse modo de vida e passei a usá-lo de forma pragmática no meu acesso às pessoas, o que não excluía as relações que se constituíram no decorrer do período do trabalho de campo. Contar e ouvir uma novidade eram formas de sociabilidade. Receber e dividir o alimento eram formas de sociabilidade. Pedir uma opinião e ouvir outra eram também formas de sociabilidade. A vida se dava nas ruas, e a esfera doméstica era, por essência, compartilhada. Isso era exemplificado pela quantidade de tecidos pregados às paredes, em substituição às portas, ou mesmo pela ausência destas, no interior das casas.
Enquanto Lúcia mora em Oeiras e só vem nas festividades, a casa de Kátia mistura o público e o privado, o que é exemplificado pelo bar. Aqui, o privado acontece no público, a privacidade é um valor público; é diferente de Brasília, onde o público não existe, o que me lembra James Holston e Teresa Caldeira [essa questão será desenvolvida no capítulo 2]. As casas aqui são abertas. Em
Brasília, quando as pessoas não estão encarceradas nos prédios, estão nos condomínios murados. (Diário de campo, 22/12/08.)
Grande parte da vida d@s colonienses acontecia de fato no espaço público – por exemplo, nas calçadas e no bares, extensões das casas, onde se conversava e se bebia. Mais uma vez, cito Vale de Almeida, estendendo seu comentário para a população como um todo, embora a cidade pesquisada por ele esteja em Portugal e embora seu tema esteja voltado para a masculinidade: “(...) domesticidade e a solidão são mal vistas, como sintomas de anti-sociabilidade de virilidade diminuída. Não basta estar com os outros homens. O que se faz com eles – beber, fumar, partilhar, conversar, competir, brincar e discutir – são actividades coercitivas.” (1996, p.11).
De modo geral, em Colônia, as pessoas trabalhavam em suas próprias roças e fazendas, quando as possuíam, ou nas de outras pessoas, como era o caso de Hilda, que distribuía o leite das vacas de Benedito Tapety. E quando elas possuíam terra, elas comercializavam seus produtos informalmente, como alface, melancias, feijões e ovos. Outra parte da população trabalhava com o comércio de pequeno porte, principalmente os armazéns e as lojas de produtos alimentícios, vindos de Oeiras, e os bares – fosse como proprietári@s ou como empregad@s. Esses estabelecimentos comerciais funcionavam também como pontos de socialização. Eu nunca fui a um armazém de Colônia onde não pudesse escutar uma novidade ou uma fofoca, onde não visse pessoas conversando sobre suas vidas – e obviamente o mesmo ocorria nos bares. Era nesses estabelecimentos que as conversas ocorriam, e era para eles que eu sempre corria. E quando não estavam preocupad@s com suas atividades – que deixavam indistintas as esferas pública e privada -, @s habitantes de Colônia estavam imersos nas tarefas cotidianas e familiares – que nunca deixavam de fora @s vizinh@s mais próximos, sempre por perto para ajudar em alguma atividade.