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4. POLITIKERES TROVERDIGHET I TALKSHOW

4.3. Høyre-leder Erna Solberg

“Nós não podemos baixar a cabeça pra nada. Nós somos gente acima de tudo, nós somos seres humanos. Cadê nossos direitos de seres humanos? Nós temos que ser respeitadas como nós respeitamos.” Ana Cristina

Voltando à cena da micro-região de Oeiras, passo ao exemplo de uma “travesti” (uso aspas pela forma como Ana Cristina se identificava, o que discuto na seqüência) que, como Kátia Tapety, adquiriu uma excelente inserção social em sua cidade, por meio do trabalho comunitário.

O encontro com Ana Cristina, como quase todos os meus contatos na região, foi agenciado por minha anfitriã e amiga Hilda. Naquela época, eu estava obstinada por conhecer Santo Inácio, a menos de 50 quilômetros de Colônia. Circulava uma forte lenda a respeito da cidade, mais uma entre outras que compunham o vasto universo mítico- religioso de Colônia. Dizia-se que, se uma pessoa conseguisse tirar uma foto do Santo Inácio, padroeiro da cidade, e se a imagem do santo aparecesse na revelação de quem a fotografara, essa pessoa morreria ainda naquele mesmo ano. Fiquei pessoalmente intrigada sobre a origem daquilo. Alguns desconversavam, quando eu perguntava sobre a lenda, e diziam tratar-se de uma crença ingênua; mas a maioria afirmava convicta a veracidade da lenda. Hilda mesmo tinha muito medo e chegara a dizer-me que um acidente de carro no qual ela estivera envolvida devera-se ao fato de alguém no carro em que ela voltava de Santo Inácio ter fotografado o santo. Alguns afirmavam que aquela lenda começara a circular por causa de um padre que não queria que a imagem do santo saísse da igreja e fosse divulgada. E, para aquelæs que acreditavam, a prova da “maldição” era o fato de não existirem imagens do santo disponíveis – pois aquelæs que o haviam fotografado morreram.

Certo feriado, eu estava terrivelmente entediada, acreditando poder ser vítima de uma insolação e irritadíssima com as muriçocas. Como em todo domingo ou feriado, a cidade estava “fechada”, havia poucas pessoas nas calçadas e não havia nem mesmo um estabelecimento aberto que me permitisse usar o expediente de comprar ovos para conversar com alguém. Então, seguimos a família de Hilda, Beatriz e eu para Santo Inácio,

a fim de que tentássemos fotografar o santo. Hilda e suas filhas estavam amedrontadas, e eu acreditava que a excursão pudesse distrair-nos. No final de tudo aquilo, eu fotografara a imagem, que saíra na revelação; tod@s na cidade ficaram estupefatos e acreditaram que eu morreria. Poucas pessoas dali em diante atrever-se-iam a tomar carona comigo, como era já um costume. Algumas pessoas pediram-me as fotos e expuseram-nas em suas casas. Mas a melhor recordação de Santo Inácio não foi a fotografia do santo, e sim o encontro com Ana Cristina.

Irritada com o número monstruoso de quebra-molas e com o calor, quando entrávamos na cidade, eu vi, na calçada do hospital, uma pessoa um tanto ambígua, que acreditei ser uma mulher, em princípio. Era Ana Cristina, a diretora do hospital. Ela lavava a calçada com uma mangueira. Surpreendi-me quando Hilda pediu-me para parar na calçada, para cumprimentar “um viado amigo seu” - e então apontou aquela pessoa que eu acreditara ser uma faxineira. Perguntei se elæ aceitaria conversar comigo, e Hilda encorajou-me. Pedimos uma entrevista a Ana Cristina, que a aceitou, apesar de ter relatado que não gostava “de televisão, de mídia, de destaque” e que já recusara muitos convites de Jovanna Baby – “enquanto Kátia pagava para ir a programas de televisão”. Ana Cristina aceitou dar-me uma entrevista com a ressalva sobre fotografias e filmagens, ainda que eu houvesse explicado meus objetivos. Soube então que elæ era há vinte anos diretor@ do hospital de Santo Inácio, que tinha cerca de 3000 habitantes. Era “filha de Santo Inácio”.

O mais interessante de seu caso é sua identidade, que pode ser descrita como fluida. Elæ se definia como homossexual, mas usava brincos, arrumava os cabelos de forma “feminina” e vestia-se “como uma mulher”. No entanto, como elæ mesma falava, tinha a voz grossa e não fizera transformações corporais – nem queria. Mudou seu nome do masculino para o feminino – e era reconhecid@ assim pela população -, mas às vezes referia-se a si mesm@ no masculino, às vezes, no feminino, de modo oscilante e aparentemente “indeciso” e ambíguo. Portanto, a categoria travesti é usada aqui por mim, mas Ana Cristina também era mencionad@ assim pela cena LGBTTT do Piauí, onde elæ era conhecid@.

Depois de dar uma “volta pelo mundo” (viveu um período em São Paulo, onde fez diversos cursos), Ana Cristina voltou ao Piauí, com o objetivo de fazer um “trabalho de conscientização”, com palestras e atividades educativas - “eu poderia ser útil a essa

comunidade (...) mesmo sendo quem eu sou. (...) Isso não vem a prejudicar a comunidade.”. Teve um emprego na área da educação por dois anos e estava no hospital desde 1985. Como Kátia, Ana Cristina fazia partos - “faço coisas que os médicos não fazem”. Segundo dizia, “fazia de tudo um pouco”, mas seu cargo era o de diretor@ do hospital, onde era chamad@ de “Dona Ana Cristina” ou de “Dra. Ana Cristina”. Correlacionava seu trabalho a uma missão designada por Deus, assim como Mãe Osana - “Sou um homossexual, sim, assumido, mas eu tenho uma interligação com Deus (...) porque todos nós temos [pecados]”. Ana Cristina tinha um discurso voltado para o tema do respeito, da cidadania, da coragem, contra as bebidas, as drogas, a “vulgaridade” e a pedofilia (uma travesti muito conhecida na região já teve seu acesso a Colônia interditado por ter sido acusada de pedofilia) - “pelo fato de eu ser quem eu sou, não significa que eu não sou um ser humano. (...) Não é pelo fato de eu ser quem eu sou que eu tenho que viver jogado na droga, na prostituição...”. Não é preciso ressaltar que a “escolha” de Ana Cristina comparecia para elæ de um modo negativo, ou seja, referenciada assim por aquelæs que “não eram homossexuais” e no seu “desvio”.

Ana Cristina falou que não era vítima de discriminação e que nunca presenciara nem sofrera violência. Reconhecia, abominava e tinha medo da violência, “mas não tinha do que se queixar da população de Santo Inácio”. Tinha o desejo de ser como era “desde criancinha” (um discurso freqüente entre as travestis; voltarei a esse ponto), mas tinha medo dos pais. Perdera o pai em 1992, quando já era formada, já havia ido a SP, já estava trabalhando e ainda se vestia como um homem – “sem que a população soubesse 100% [que elæ era homossexual]”; quando perdeu o pai, em 1994, passou a performar como Ana Cristina – “eu vou ser quem eu quero ser”. Elæ enfatizou o valor da mídia para diminuir a discriminação, dando o exemplo da Rede Globo, mas afirmou que “não era fácil”, porque “tinha que viver duas personalidades”. Por outro lado, quando citou casos de travestis e homossexuais em cargos importantes, disse que “não era tão difícil”. Ana Cristina já recebera, como mencionado, convites de Kátia e de Jovanna Baby para eventos midiáticos, mas sempre negara - “não gosto de mídia (...), de destaque, eu gosto de trabalhar, de ajudar o próximo, eu quero fazer alguma coisa pelas pessoas, principalmente na minha área, que é a saúde. (...) Meu maior objetivo (...) é ajudar o próximo (...) Conquistar a população

mostrando trabalho e educação para que eles [me] vejam de uma forma diferente do que imaginavam”.

Como já mencionei, Ana Cristina não se considerava travesti, pois nunca transformara seu corpo com próteses, com silicone ou por meio de hormônios. Mas falava sobre uma grande “luta para não ser a pessoa que era hoje”. “Eu não pedi para ser assim.” E então elæ contou sobre ter tido a constatação da predominância em seu corpo de hormônios femininos, por meio de exames laboratoriais – e aqui é interessante voltar a lembrar o poder do discurso médico, capaz de sancionar o desejo do sujeito, bem como o pacote biologia- desejo-performance que a norma prescreve, discutido amplamente por Butler (2003, 2004, 2005) e por Berenice Bento (2003).

Ana Cristina é mais um@ d@s interlocutoræs que associou a violência ao cenário urbano, particularmente às “grandes cidades”, como no sul e no sudeste. E, com relação à violência, elæ me disse: “Se eu pago nossos impostos (...) como qualquer outro ser humano paga, por que que eu tenho que ser agredido, por que que eu tenho que ser violentada, por que que eu tenho que ser maltratada? Por que é que eu não tenho direito a alguma coisa se eu faço tudo dentro da lei? (...) As pessoas têm que conquistar seu espaço. Nós não podemos baixar a cabeça pra nada. Nós somos gente acima de tudo, nós somos seres humanos. Cadê nossos direitos de seres humanos? Nós temos que ser respeitadas como nós respeitamos.” (ênfases delæ).

Eu quero destacar, como já sugeri ao comparar Ana Cristina e Kátia, o tipo de inserção social que estes sujeitos conseguiram em suas comunidades, fundamentalmente por meio do trabalho com a população, nas esferas da educação (no caso de Ana Cristina) e da saúde (no caso de amb@s). Amb@s eram parteir@s e exerciam funções ligadas à enfermagem, à medicina e ao cuidado com a saúde. Já as travestis que conheci na cena urbana de Brasília ocupavam funções eminentemente ligadas à prostituição. Conheci poucos casos de exceção em Brasília que não se prostituíam ou que nunca se haviam prostituído nas ruas, pela internet ou por meio de jornais, assim como poucos casos de exceção que tiveram acesso à educação formal. De modo geral, quase todas as travestis que pude conhecer em Brasília vinham de um cenário de marginalização, das camadas sócio- econômicas mais baixas, eram imigrantes e contavam com pouco ou nenhum apoio familiar, sendo que a prostituição se tornara seu único meio de sobrevivência. Aliás, foi

justamente minha insatisfação por observar, diariamente, essas vidas não-vivíveis em Brasília, alvo tantas vezes do que chamei de travesticídio, que me levou a procurar conhecer Kátia Tapety no Piauí.

Como já discuti, essas travestis do Piauí não se adéquam à norma predominante nos grandes centros urbanos, mas de alguma forma se adéquam à heteronormatividade. Acima eu falava sobre o fato de as travestis e as transexuais, de alguma forma, adequarem-se à norma, apesar da subversão de suas performances. Ana Cristina, apesar de não se reconhecer como travesti – possivelmente, por associar essa “categoria” às performances estereotipadas e exageradas das travestis dos grandes centros -, no entanto, era reconhecida como tal pela cena LGBTTT do Piauí, como já observei. Elæ usava roupas e acessórios femininos, mudara seu nome social para o feminino e era chamad@ pelo novo nome pela população, e sentia atração e mantinha relacionamentos com homens. Kátia também usava roupas e acessórios femininos37; era conhecida em sua cidade, no Piauí e até nacionalmente pelo nome feminino; e sempre namorara e relacionara-se com homens. Assim, Kátia pareceu-me também inserida nesse mesmo pacote heteronormativo. No caso de Kátia, isso era mais explícito: ela permaneceu casada 20 anos com um homem e também era mãe de dois filhos, como já apontei. O enquadramento de Ana Cristina e de Kátia em um certo modelo heteronormativo também contribuiu, seguramente, para sua aceitação social.

Acredito que todos esses fatores, como a inserção no trabalho comunitário e na rede de reciprocidade, a prevalência do feminino em um modo de organização social “pré- moderno” e a adequação à heteronormatividade, tenham contribuído para a aceitação de Ana Cristina e de Kátia em suas respectivas cidades, onde me pareceu haver um outro universo possível de vida travesti.

37

Quando estava em Colônia, ela usava roupas comuns, e algumas pessoas, como mencionei, fizeram-me críticas ao seu modo incomum de vestir-se quando dava entrevistas ou quando viajava para encontros LGBTTTs, trajando-se de modo mais performático, com maquiagem excessiva e apliques nos cabelos; esse seu padrão remete-me à colonização das bichas pelo modo enlatado das grandes cidades, o que ainda discutirei.