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3. METODISKE TILNÆRMINGER

3.4. Operasjonalisering og gjennomføring

Em Colônia do Piauí, algo que de imediato chamou minha atenção foi a onipresença da política. A política era algo que permeava todos os diálogos e estava presente mesmo nas brincadeiras das crianças. As expressões “é taca” (situação, lado da recém-eleita prefeita Lúcia Moura de Sá) e “é arrocho” (oposição, lado da família dos Tapety) se descortinavam em cada brincadeira informal. A política movia a cidade. Logo quando

cheguei, fui tranqüilizada sobre a segurança de Colônia – lá não ocorria nenhum crime além de furtos de galinhas, e, quando havia algum crime, era relacionado à política. Recentemente, o irmão de Kátia, Benedito Tapety, dono da fazenda dentro da qual fui hospedada em minha estadia, segundo me contaram, teve sua casa e seu carro incendiados pelos seus oponentes. Grande parte das conversas e discussões referia-se à política, que estava inscrita de modo peculiar na vida de cada habitante da cidade – as associações informais, as amizades e inimizades, a solidariedade, os jogos e brincadeiras, tudo parecia dizer respeito à política e, peculiarmente, à oposição Sá versus Tapety, herança da característica do familismo na política do Piauí e do Nordeste como um todo. Fui informada de que todos sabiam a que “lado” cada um “pertencia” pelos cartazes com as fotos de candidatos, colados nos muros e nas portas de cada casa; assim as pessoas se reconheciam, segundo me disseram várias vezes.

Mesmo antes de chegar a Colônia (por meio dos telefonemas a Kátia) e até o último dia em que lá permaneci, ouvi falar sobre o “roubo de votos” de Lúcia Moura – com a mesma freqüência com que eu ouvi o mugido das vacas e dos bois e o balir das cabras, com a mesma freqüência com que eu senti o fétido cheiro do boi morto no caminho entre Colônia e Oeiras, rodeado por urubus. Os comentários afirmavam que mesmo os que a apoiavam sabiam que sem as “compras de votos” ela não teria sido eleita. A compra se dava principalmente por dois meios: pelo dinheiro (segundo uma interlocutora, Lúcia pagava cerca de 1000 Reais a uma família pequena e cerca de 2000 Reais a uma família grande) e pelas motos – o que mais me surpreendeu. Uma pergunta que trouxe comigo para depois do campo foi: por que aquelas pessoas, que sabiam dos tão elogiados trabalhos comunitários realizados por Kátia Tapety, durante dois mandatos como vereadora e durante um mandato como vice-prefeita, e por Selindo Carneiro (filho de Benedito Tapety e candidato que competiu com Lúcia Moura na última eleição para a prefeitura), durante vários mandatos como prefeito, por que aquelas pessoas que vivenciaram as épocas áureas desses políticos, tão presentes no cotidiano da população, escolhiam receber uma soma de dinheiro (que, depois percebi, era muito grande, tendo-se em vista o salário mensal das famílias em Colônia) ou uma moto para eleger uma política que, segundo diziam, nem morava em Colônia e só ia à cidade em épocas de festividades? Depois eu me apercebi de que uma moto, por exemplo, além de um meio de transporte – em uma cidade que há 16

anos era um povoado de Oeiras, que era praticamente ilhada, ainda dependente de Oeiras para a grande maioria dos serviços básicos e que não contava com nenhum meio de transporte oficial e regular que interligasse ambas as cidades – era um meio de trabalho. Ter uma moto significava uma maior comunicação com as cidades vizinhas de Oeiras, Picos e Teresina, bem como alguma garantia de chances de emprego. E, nas próprias palavras de minhas interlocutoras e de meus interlocutores, era melhor escolher o certo ao duvidoso.

Um fato recorrentemente narrado para mim e que era um grande motivo de queixa de Kátia foi a detenção de Selindo. Contavam-me que o candidato, que sempre teve por hábito, mesmo fora do período das eleições, auxiliar as pessoas com medicações e transportes para os hospitais em Oeiras, principalmente, foi detido na véspera das eleições de 2008 por transportar medicamentos em seu veículo. Segundo as pessoas da oposição, isso ocorreu porque aquelas da situação colocaram esses medicamentos em seu carro para que ele fosse detido. Um dia após as eleições, segundo me foi dito, Selindo foi solto.

Whashington Bonfim analisa que

O saneamento, a limpeza, a saúde imediata, a escola, o transporte e a assistência social são temas vistos e sentidos diariamente, onde a população é capaz de opinar, reivindicar e forçar o poder público a dirigir suas ações. O município em muitas análises é o espaço primordial de aprendizado da convivência democrática. (...) A política no Piauí tem contornos muito próprios, marcados de modo enérgico por uma postura de subserviência do eleitor em relação ao candidato. (...) ainda é expressiva a parcela da população que opta por pequenos favores e compromissos, diante do exercício pleno de seu direito de cidadania. No entanto, tal argumento não pretende expressar um pensamento do tipo “o eleitor não sabe votar” (...). Seu objetivo é estabelecer um alerta, pois, mesmo quando um eleitor “trai” determinado político sufragando um outro candidato às expensas do favor recebido, ainda assim, permanece nesta atitude um raciocínio clientelista, que percebe a política e o voto como instrumentos de obtenção de favores e benefícios individuais. Os candidatos com poucos recursos financeiros e grande disposição para um exercício ético da política sabem (...) as conseqüências de sua aposta eleitoral (...). Carisma, dedicação reconhecida a uma determinada causa, forte expressão social em determinada atividade contam como elementos básicos para uma candidatura, mas são requisitos iniciais e insuficientes. (2004, p.95-96)

Esse excerto do autor ilustra muito bem os delineamentos da política local de Colônia do Piauí. Uma interlocutora me explicou que o motivo da perda de Kátia Tapety nas últimas eleições foi a falta de recursos financeiros. No entanto, como saliento ao longo deste trabalho, o serviço comunitário (que não prescinde do dinheiro) dela, aliado ao seu carisma e a sua presença junto às pessoas, fazia com que ela ainda se mantivesse como uma política de renome na região.

Outro fato que ilustra a micropolítica local é a abordagem que recebi do delegado, quando saía do hospital de Colônia, em uma de minhas tentativas de entrevistar um médico

que, como todos os três que atendiam a cidade, ia regularmente de Oeiras para Colônia, já que a cidade não possuía médic@s residentes, com já apontei no início. Quando eu saía do hospital, o porteiro avisou-me que o delegado queria falar comigo. Inicialmente, assustei- me, mas o delegado pediu que eu ficasse tranqüila, pois não era “nada demais”. Relato o incidente neste fragmento de meu diário de campo:

O delegado era sisudo, mas pediu para “não nos assustarmos”. Disse que “há algum tempo as pessoas vêm percebendo nosso movimento aqui e vêm procurando ele” (...), então ele “têm que tomar as providências necessárias”. “Você sabe, vocês estão no interior do Piauí, Colônia do Piauí é uma cidade pequena, e aqui vocês são forasteiras.” Perguntou-nos o objeto, o objetivo e o tema da pesquisa. De onde éramos. “Gênero? É, a Kátia foi a primeira vereadora travesti.” Onde estávamos hospedadas. Como conhecemos Hilda. Se fomos diretamente à casa de Kátia. “Então vocês tão respaldadas.” (...) Hilda disse que quem fez o delegado vir falar conosco foi o vice-prefeito Zé de João do Bar. Disse que, ainda agora, antes mesmo que ela comentasse, Raimundo [o vaqueiro da fazenda] falou que Zé de João do Bar vinha perguntando a ele se somos filhas de Benedito Tapety. Depois, (...) Eleonora [filha mais velha de Hilda.] falou sobre um episódio em que Zé de João do Bar teve problemas com uns “bandidos”. Houve um assassinato. Ele vive com medo de que seqüestrem seus filhos, sempre que chega alguém a Colônia. (Diário de campo, 14/01/09)

As providências necessárias, na verdade, eram verificar quem éramos, já que o vice- prefeito vivia assustado com uma possível retaliação pelo assassinato.

De modo geral, não consegui nenhum contato com nenhuma pessoa de destaque da facção dos Sá, talvez pelo fato de ser uma convidada de prestígio de Kátia. Mas, como tudo o que ocorria em Colônia do Piauí, cada um de meus movimentos era registrado, contado e recontado para cada habitante, o que não excluía as pessoas da família Sá.