4. POLITIKERES TROVERDIGHET I TALKSHOW
4.4. Nærings- og handelsminister Trond Giske
Luiz Mott38 afirma que o Brasil é o campeão mundial de assassinatos de homossexuais. Por outro lado, ele também afirma que é o país da América Latina com maior liberdade para os gays nas ruas. Rita Segato (2007) analisa essa estatística sobre os assassinatos apontada por Mott afirmando que
(…) la consideración de los móviles de una gran parte de ellos mostraría que están más vinculados a la interpenetración de esa minoría con la sociedad como un todo, que a su segregación y opresión – pues revelaría la frecuencia con que crímenes de este tipo, siguen a encuentros entre un homossexual asumido y alguien no dispuesto a asumir su homosexualidad y que reacciona violentamente después de haber aceptado el encuentro (…) (2007, p.59)
Durante meu trabalho de campo com mulheres, travestis e transexuais que se prostituíam no SCS, procurei refletir sobre as questões subjetivas e identitárias envolvidas no processo, particularmente, da transformação corporal das travestis e no seu trabalho com a prostituição (voltarei a esse tema no capítulo 3). Esse tema levou-me, pelas contingências do campo, a abordar o que chamei de travesticídio, ou seja, as violências que eram exercidas, tanto simbólica como materialmente, contra aqueles sujeitos. Segundo Rogério Junqueira (2009a), “(...) de todos os setores sociais minorizados (...), os ‘homossexuais’
38 Extraído da entrevista “Sobre homofobia, violência anti-gay”, em
figuram, entre os que suscitam maior aversão.” (2009a, p.383) e “(...) nas estatísticas criminais, pessoas transgêneros (especialmente travestis e transexuais), embora não sejam forçosamente homossexuais, costumam figurar como o principal alvo de homofobia.” (2007, p.4).
Em Colônia do Piauí, como discutirei no próximo tópico, esse tema não comparecia como uma questão em geral para as pessoas com quem eu convivi. No máximo, quando comparecia, era em referência às agressões simbólicas, ao preconceito e à falta de oportunidades escolares e profissionais, mas isso pareceu ser a exceção nos relatos.
Acredito que, embora não se refiram às travestis, María Carman (2006), James Holston (2003) e Teresa Caldeira (2000) fazem leituras úteis para pensar-se a questão do travesticídio no SCS, em Brasília, e a aceitação das travestis em cidades como Colônia do Piauí e Santo Inácio.
Apesar da diferença cultural do local estudado (o bairro Abasto em Buenos Aires) e do enfoque (Carman não aborda especificamente as questões de gênero), vejo algumas semelhanças entre as posições em que se encontravam @s ocupantes de casas tomadas do Abasto e as travestis do SCS: amb@s são imigrantes vindos de estados vistos como “inferiores” em seus respectivos países, para uma capital vista como pólo econômico e cultural; amb@s se encontram numa posição física e simbólica relacionada ao tráfico de drogas e à prostituição; e amb@s, como sujeitos indesejáveis, são vítimas de violências simbólicas e materiais. Essa reflexão também se alinha com a de Bauman (2001, 2005b) quando o autor escreve sobre o refugo social. Houve uma época – que não presenciei -, além disso, em que as travestis do SCS foram expulsas de seu local de trabalho.
Uso aqui os conceitos de corpo abjeto de Butler (2004) e de estranho de Bauman (2001) para tentar analisar a violência que esses sujeitos sofrem – uma tentativa, parece-me, daquelæs que perpetuam a violência, de normatizar os corpos abjetos em uma forma de inteligibilidade e de “limpar” o território da presença daquelæs que, segundo Bauman (2001), sujam os mapas estético, cognitivo e social. A idéia, ainda, de Butler (2004) das vidas que não podem ser vividas, remete-me a algumas observações de María Carman a respeito d@s ocupantes e que podem servir para pensar a condição das travestis: por que @s ocupantes, diferentemente de outr@s habitantes precários, como @s “villeros”, eram transformados em sujeitos invisíveis pelo Estado? – e eu pensaria no contraste entre as
mulheres que se prostituíam e as travestis, que eram vítimas de violências materiais (estupros e tentativas de homicídio) e simbólicas (piadas, preconceito, discriminações, exclusão no acesso a determinados lugares públicos etc) em mais larga escala do que as mulheres. Por que, para o Estado, @s ocupantes não alcançavam o status de sujeito social, histórico e político? – e aqui podemos pensar em todos os benefícios e direitos básicos que as travestis de Brasília não possuem (como serem identificadas pelo nome que desejam). Podemos pensar que as travestis são também cidadãs que não merecem viver na cidade, e isso é marcadamente exposto quando refletimos sobre as agressões físicas, ou discretamente (para nós) percebido quando analisamos fatos como o de que raramente conseguem empregos fora da prostituição ou de que são discriminadas no ambiente escolar. Como @s ocupantes descritos por María Carman, uma frase comum das travestis de Brasília era que só estavam ali pela situação de extrema necessidade. Talvez a ilegalidade não seja um enfoque tão aparente no caso delas, mas a invisibilização (quando não são visíveis por meio da violência), sim. Outra comparação que se pode fazer entre @s ocupantes estudados por María Carman e as travestis do SCS é a falta de índices estatísticos, no caso destas, a respeito da violência. Para fins de exemplificação, remeto a um caso que ocorreu na época de minha pesquisa.
Nesse período, fiquei sabendo sobre um caso violento e brutal envolvendo duas travestis que se prostituíam naquela área. Uma delas fora assassinada (Luciana, apelidada de “Bracinho”), e a outra (Juliana) permaneceu gravemente ferida após uma tentativa de assassinato. Eu ouvi a versão de uma travesti que as conhecia e em seguida li uma notícia no jornal a respeito do crime. Segundo o relato de Verônica, uma de minhas interlocutoras no SCS, o homem que matara Luciana era namorado dela. Tanto ele quanto dois colegas dele estavam no apartamento (usado exclusivamente para programas) de uma delas, acompanhados das duas. Segundo Verônica, todos os três homens haviam feito uso de crack. O antecedente que ela me relatou a título de justificativa foi o seguinte. Luciana fora reformada pela aeronáutica quando ainda não se havia transformado. Como recebia uma boa aposentadoria, pôde economizar e ir à Europa, onde passou três anos. Na Europa, trabalhara com prostituição e com isso conseguira assegurar um bom rendimento econômico. Com isso, segundo Verônica, seu namorado atual tentou conseguir sua senha bancária para roubá-la. Nesse incidente teria ocorrido o assassinato de Luciana pelo
namorado. A facada na garganta que Juliana recebeu atingiu seu esôfago e, por isso, segundo Verônica, ela conseguia falar muito pouco e baixo. Suas nádegas foram esfaqueadas também. Seu pulmão foi perfurado. O namorado de Luciana ainda teria conseguido roubar 500 Reais com o cartão da Juliana, sua amiga. Ele teria sido preso no banco ao tentar sacar 30000 do cartão da Luciana, diante da desconfiança do gerente. Verônica atribuiu o crime ao uso das drogas por todos os envolvidos.
No entanto, as notícias divulgadas eram bastante superficiais. Os crimes pareciam ser disfarçados para o público. Verônica concordava com isso. Algo parecido se dera com o assassinato de Kelly pouco tempo atrás, outra travesti conhecida minha. Como ela “morrera no hospital, com traumatismo craniano”, o incidente não foi caracterizado como crime, ainda segundo Verônica: “Ela teve traumatismo craniano, e quando levaram ela pra retirar o problema lá no hospital ela morreu. Já o delas duas deu notícia porque todo mundo sabia que ali era um apartamento de programa.” (Diário de campo, 08/03/08.). Kelly havia sido golpeada na rua com barras de ferro.
Segundo um cliente conhecido meu, que freqüentava o SCS, após o homicídio da Luciana e a tentativa de assassinato da Juliana, houve uma grande repercussão, e “todas as travestis” teriam “desaparecido” do SCS. Os crimes me pareceram numerosos e seguidos uns dos outros para que eu acreditasse ser casualidade.
Diante dessa suspeita de minha parte, decidi conversar sobre essa situação de violência com os garis do SCS. Para meu desalento, eles sempre me respondiam que “não viam nada de errado na rua” e que “tudo continuava como antes”. Depois admitiram que talvez “as travestis tivessem dado um tempo [na freqüência com que iam ao SCS] por causa destas mortes”. Mencionaram a morte da Luciana e da Kelly e a tentativa de homicídio da Juliana, mas sem entrar em detalhes. Mencionaram também uma travesti cujas pernas haviam sido quebradas quando ela fora atropelada contra uma árvore, no SCS. Parecia tratar-se novamente de uma tentativa de homicídio, mas eles sempre me ocultavam as informações.
Procurei notícias sobre o crime cometido contra Luciana e Juliana e encontrei pela internet39. A notícia dizia: “Distrito Federal – 15h38 – Travestis são atacados em
39 Acesso ao site www.correioweb.com.br em 24 de fevereiro de 2008, às 22h13, referente à atualização de 22
apartamento na Asa Norte”. Mas eu copio aqui um trecho referente à fala do delegado- chefe da 2ª DP, Antônio Romeiro, que me chamou muito a atenção, tendo em vista minha permanência, por dois anos, no campo, sendo sempre informada de crimes contra travestis:
Para Romeiro, apesar de alguns pontos da Asa Norte serem conhecidos por concentrarem um grande número de travestis e garotas de programa, o crime é um caso isolado. “Há muito tempo não temos um fato como esse registrado”, afirmou. De acordo com o delegado, de vez em quando são registradas ocorrências de menor gravidade na 2ª DP envolvendo garotas de programa e travestis. (Grifos meus.)
A fala do delegado contradiz minha experiência no SCS e os relatos de minhas interlocutoras. Todas as travestis eram unânimes em dizer que, quando ocorria algum crime, não adiantava levar a queixa à Delegacia da Mulher, por exemplo, pois, mesmo quando eram consideradas mulheres, os casos eram ignorados por tratar-se de um “risco inerente à profissão”. A morte de Kelly, em um hospital, após ter sido vítima de golpes com barras de ferro, imediatamente antes da de Luciana, não causou nenhuma repercussão. Quanto às “ocorrências de menor gravidade”, cujos relatos eu ouvia cotidianamente, elas continuavam sendo consideradas como questões indignas de visibilidade, de notícia, de dados estatísticos. Na reportagem e na fala do delegado, não havia nenhuma menção ao SCS (apesar de que rotineiramente eu via carros de patrulha policial na área). Não havia nenhuma menção aos últimos assassinatos e crimes contra travestis; havia um silenciamento, quer dizer, uma negação. Quanto ao caso da Luciana e da Juliana, as circunstâncias descritas mostravam passionalidade, como um enforcamento e como um espancamento – o que não parecia relacionar-se somente ao tráfico ou ao “acerto de preço”. O preço é acertado antes do programa, e um cliente não ficaria até às 9h30 na casa de uma travesti, normalmente. As pessoas eram obviamente conhecidas das travestis (como Verônica descreveu). Como discuti, não vinha tanto ao caso que fossem clientes, traficantes ou clientes e traficantes, mas importava, sobretudo, a significação dada a esses assassinatos. Retorno à discussão anterior. Com relação a James Holston (2003), podemos pensar como fica a prostituição numa cidade sem ruas e sem esquinas, como é o caso de Brasília (restrinjo a discussão ao Plano Piloto). Em outras cidades, prostitutas, sejam mulheres ou travestis, permanecem em locais estratégicos – esquinas, semáforos, bares, portos (por exemplo, em Maceió, um campo que também conheço). Em Brasília, particularmente no
Plano Piloto, qual é o lugar da prostituição? O SCS40, fechado durante a noite, era41 o local onde os clientes buscavam aquelas que, pela necessidade financeira, geralmente, estavam em pé ao longo da via, independente do frio, da chuva ou do perigo gerado pelo tráfico (nem sempre as prostitutas, mulheres ou travestis, estavam envolvidas no tráfico). Não havia bancos para elas se sentarem, havia poucos semáforos para que a velocidade dos carros fosse diminuída, e não havia bares. A socialização, que beirava o nulo, dava-se entre elas (quando não havia competição) e com os garis. Ao contrário do campo que Marcos Benedetti (2005) descreve na sua etnografia sobre travestis, no SCS, não havia um espaço de convivência com as travestis42. Não havia um espaço de troca entre clientes e prostitutas – como o bar43, por exemplo -, e os programas, quando não eram feitos em motéis, eram
nos carros ou nos becos que, pela manhã, funcionavam como depósitos e área de lixo dos prédios comerciais. Aqui, o espaço da negociação das travestis ocorria no lugar do comércio fechado e do lixo, numa espécie de gueto. A rua não era freqüentada por ninguém, a não ser pelos clientes que passavam em carros e por um@ ou outr@ trabalhador@ que saltava de um ônibus e caminhava amedrontado pela única via possível para seu destino. Mulheres e travestis comiam num posto de abastecimento próximo à via principal e evitavam os pontos em dias ou períodos considerados perigosos (em minhas últimas visitas ao SCS, muitas não compareciam ao trabalho devido à violência gerada pelo comércio do crack e dos últimos assassinatos e agressões).
Como Holston (2003) menciona, “não há gente nas ruas”. O autor analisa a “falta dos ‘lugares normais de encontro’” (2003, p.113), a “importância social das esquinas (...) como ‘pontos de convivência social’” (2003, p.113) e comenta que a “falta de esquinas (...) tinha [em referência ao início de Brasília] um efeito de interiorização; forçava as pessoas a
40 Outros pontos de prostituição (mais de mulheres do que de travestis, no período de meu trabalho de campo)
são a via w3 Norte, em suas últimas quadras, com comércio quase exclusivamente diurno, e a quadra SCLN 315 – um ambiente também de comércio, onde todas as lojas estão fechadas à noite, onde os carros passam apenas como via de acesso a outros locais. Meu trabalho de campo não incluiu esses dois locais pelo predomínio das mulheres na época.
41 No capítulo 3 eu analiso a “morte da rua” no SCS. Nessa área quase não existe mais prostituição
atualmente.
42 O autor descreve que nos locais de prostituição que ele freqüentou havia vários restaurantes e bares aonde
as travestis sempre iam, o que lhe facilitou a convivência com elas.
43 O Bar Barulho, no Parque da Cidade, já mencionado, era também freqüentado pelas travestis. Mas, como
descreverei no capítulo 3, lá, elas preferiam não combinar programas, pois iam para divertir-se, em seus dias de folga. Além disso, muitas diziam não apreciar o ambiente, por tratar-se de um ponto de comércio de drogas.
ficar em seus apartamentos e substituía a espontaneidade dos encontros na rua pela formalidade das visitas à casa de alguém.” (2003, p.114), articulando esse efeito ao de “circunscrever o universo social” (2003, p.114) e à sensação de isolamento:
A eliminação da rua figural é um ponto básico do salvacionismo modernista. Ele a condena como o bastião de uma ordem civil corrupta, cujos valores públicos e privados se estiolaram, e que impõe à cidade uma arquitetura de velharias monumentais, ruas caóticas, ornamentações decadentes e habitações insalubres. (2003, p.139)
Holston (2003) fala da eliminação do pedestre em Brasília, uma “cidade sem esquinas” (2003, p.109), em que
(...) tanto pedestres quanto automobilistas precisam reaprender os códigos da locomoção urbana. (...) o balão ou o trevo substituem a esquina – não havendo, portanto, cruzamentos que distribuem os direitos de passagem entre o pedestre e o carro -, o perigo é (...) maior. (...) A ausência do rito de passagem das esquinas só vem indicar (...) a ausência das ruas. Brasília substitui a rua por vias expressas e becos residenciais; o pedestre, pelo automóvel; e o sistema de espaços públicos que as ruas tradicionalmente estabelecem é substituído pela visão de um urbanismo moderno e messiânico. (2003, p.109)
Um dos objetivos urbanísticos da arquitetura moderna seria eliminar a “rua- corredor”, um foco de doenças, um impedimento para o progresso da era da máquina:
(...) a arquitetura moderna ataca a rua porque (...) esta constitui uma organização arquitetônica dos âmbitos privado e público da vida social que o modernismo busca superar. (...) Brasília foi planejada com o objetivo de transformar, arquitetônica e socialmente, um modo de vida urbano que se cristalizou nas cidades pré-industriais. (...) A rua-corredor (...) constitui o contexto arquitetônico da vida pública, fora do âmbito doméstico, nas cidades brasileiras. Em sua forma pré-industrial, esse contexto se define pelo contraste entre o sistema de espaços públicos oferecidos pelas ruas e o sistema residencial dos prédios particulares. É esta relação entre o público e o privado, com suas conseqüências para a vida social, que Brasília subverte . (...) Os brasilienses atribuem (...) essa falta de vida nas ruas a diversos fatores, como as enormes distâncias que separam um prédio do outro, e a segregação das atividades em setores urbanos isolados. (...) Esta observação aponta para a inexistência, em Brasília, de todo o sistema de espaços públicos que as ruas tradicionalmente instituem nas outras cidades brasileiras; para a ausência não só de esquinas mas também de calçadas, onde se possa passar pelas fachadas de casas e lojas; para a inexistência de praças e das próprias ruas. É uma explicação que usa a esquina como metonímia para o sistema de intercâmbio, existente nas ruas, entre pessoas, casas, comércio e tráfego. Ele estabelece (...) uma conexão entre os espaços públicos de uma cidade e a vida pública existente nas ruas. (2003, p.111-113)
Na ausência de vida pública e de espaços de socialização, como praças e esquinas, sendo as “ruas” meramente vias de acesso, a esfera que as prostitutas ocupavam era a da exclusão (pois os bares e pontos famosos pela “noite” de Brasília são estrategicamente posicionados em locais “seguros”, policiados e limpos de qualquer presença que manche as noites elitistas de Brasília). Falo em exclusão porque, mesmo os locais conhecidos como pontos de prostituição estavam em bares ou boates que foram apropriados e subvertidos por
essa atividade, na ausência de ruas. Eram locais, quase sempre, que passaram a ser estigmatizados e freqüentados unicamente por prostitutas e clientes. Esses locais apresentavam-se quase como guetos. Era o caso do Barulho, da Blue Space, dos bares do CONIC, da New Aquarius e de outros espaços de strippers, além do cinema Ritz. Em oposição a esse processo, por exemplo, em Maceió, a prostituição de travestis ocorre em praias badaladas, como a do bairro de Jaraguá (que foi “revitalizado” exatamente para diminuir a atividade no local, sem sucesso) e a Ponta Verde, uma das praias mais famosas da cidade. No Rio de Janeiro, a prostituição também ocorre em bairros de alta sociabilidade.
A compartimentalização e a segregação são uma característica dos grandes centros urbanos, particularmente no que se refere à guetificação dos espaços das sexualidades não normativas. Entretanto, o lixo e o perigo não estão necessariamente presentes, como observei no SCS, em Brasília
Se agregarmos a discussão de gênero, com relação às travestis, não se torna difícil entender o ambiente físico e simbólico a que elas são relegadas. Mesmo o uso de bebidas alcoólicas e de cigarros, que pode ser entendido como uma função de socialização, estava ausente – até um certo período, existia uma única pessoa (falecida no início de 2008) que cotidianamente ia ao SCS vender bebidas e cigarros para prostitutas e mendigos, que circulavam entre as quadras comerciais sujas e que se abrigavam da chuva em marquises de lojas fechadas. Isso ecoa a questão da estigmatização do uso da rua, pois, em princípio, o SCS, à noite (horário das negociações), não é entendido como um espaço de trocas. Voltarei a esse ponto.
Eu rejeito a postura otimista e utópica de Magnani (2002) de buscar as possibilidades de “novos padrões de troca e de espaços para a sociabilidade e para os rituais da vida pública” (2002, p.26) quando falamos de uma cidade como Brasília. Aqui, sua crítica de que “De pouco vale generalizar o desaparecimento da velha rua” (p.26) é de pouca utilidade, tendo em vista os padrões arquitetônicos que foram intencionalmente planejados com o fim de criar um outro tipo de “sociabilidade” entre @s brasilienses. Em Brasília encontramos justamente a “cidade desfamilizarizada” que Holston (2003) descreve, um ícone de “dissonâncias”, “desencontros”, “hibridizações”, “fragmentações” - uma descrição semelhante à de teóricos como Bauman (1998, 2001, 2005a, 2005b, 2008).
Magnani (2002), pelo contrário, critica a nostalgia pela “velha rua” e a “redução” da análise da experiência urbana ao cenário degradado, procurando outros cenários para o exercício da cidadania, das práticas urbanas e dos rituais da vida pública. Segundo ele, a perspectiva antropológica possibilitaria a vantagem de “evitar aquela dicotomia que opõe, no cenário das grandes metrópoles contemporâneas, o indivíduo e as megaestruturas urbanas” (2002, p.17); o autor critica os “discursos do senso comum sobre despersonalização, massificação etc” (2002, p.17), como encontramos em Simmel (1971), por exemplo, e a nostalgia por “laços sociais tradicionais”. Entretanto, acredito que Holston faz uma descrição precisa de Brasília como uma cidade onde não se vê gente nas “ruas”, da ausência da vida social esperada nos espaços públicos de uma cidade, da “ausência de uma multidão urbana [que] conferiu a Brasília a reputação de ser uma cidade em que ‘falta calor humano’” (HOLSTON, 2003, p.113).
O SCS, em Brasília, carece de uma rede de relações que represente laços definidos em torno da participação em atividades. Como observei, não existiam equipamentos ou estabelecimentos que constituíssem pontos de referência para a prática das atividades. O espaço do SCS, como a grande maioria das vias de Brasília, é meramente um corredor de tráfego motorizado, margeado por grandes edifícios comerciais e hoteleiros (o SCS está ao lado do Setor Hoteleiro Sul). Não existem bares, cafés, praças, cruzamentos, e as poucas esquinas são aquelas que conduzem a um hotel ou a outro, a um trecho ou outro do SCS.