4. POLITIKERES TROVERDIGHET I TALKSHOW
4.7. SV-politiker Inga Marte Thorkildsen og Arbeiderpartiets parlamentariske leder
4.7.1. Som mødre flest
Mesmo que eu sempre estivesse com roupas muito simples, sem adereços, acessórios ou bolsas, sem carro, portando apenas meu documento de identidade e algum dinheiro para o caso de ser roubada, minha sensação permanente era a de que eu nunca deixaria de ser uma estranha ali. Desde a fundação da antropologia - por exemplo, como se constatou com os diários de Malinowski (1997) - até o cenário atual - por exemplo, Bonetti, 2004; Carman, 2006 - observamos quão inúteis são as tentativas de passar-se desapercebido e toda a sorte de estratégias para mesclar-se à cena d@s chamad@s nativ@s. As tentativas para diminuir o estranhamento d@ antropólog@ ou d@s nativ@s não passam de maquiagens para disfarçar o choque, maior ou menor, no encontro das alteridades.
Entre as mulheres do SCS, eu era uma burguesinha do Plano Piloto que nunca havia passado fome ou necessidades básicas, que nunca havia se prostituído nem andado por ali.
Meu gravador era confundido freqüentemente com a câmera de jornalistas e estudantes de jornalismo anti-éticos que as entrevistavam em sigilo para depois publicarem suas gravações e fotografias63. Normalmente, eu era tomada com profunda descrença e desconfiança, com raras exceções. Às vezes existia uma agressão aberta, com respostas mais enfurecidas ou irritadas. Como analisarei na seqüência, isso era mais dificultoso do que espantoso, pois as vidas de todas essas mulheres não era carente de agressões, gozações, piadas e violência.
Mais do que uma possível jornalista xereta e intrusa, eu também poderia ser uma grande concorrente. Não foram poucas as vezes em que fui confundida (mesmo tão pouco produzida!) com uma garota de programa, seja por elas mesmas, seja pelos clientes. Certa vez, após um certo tempo de campo, uma garota de programa colocou-me contra a parede e perguntou-me (embora eu gastasse um longo tempo dando explicações sobre meus propósitos) o que afinal eu estava fazendo ali, pois as cafetinas precisavam certificar-se sobre isso para cobrar-me pelo ponto! Eu ainda não tinha noção da concorrência que o SCS abrigava. De outra feita, uma garota de programa amiga minha quis brincar e ofereceu-me para seus clientes por um preço muito maior do que o que elas cobravam, causando espanto e dúvidas nos clientes, e risos e brincadeiras para ela e para suas colegas.
O imaginário delas sobre mim era tão grande e tão repleto de dúvidas quanto o meu sobre elas. Entre as travestis, eu era fundamentalmente uma mulher, e as mulheres, como descreverei, para elas, poderiam ser amigas ou grandes rivais. Não foi infreqüente que, em
63 Esse foi verdadeiramente um dos maiores empecilhos que enfrentei no SCS. Tanto mulheres como travestis
passaram a relatar-me sobre experiências desastrosas de profissionais dessa classe, que levavam suas entrevistas a serem publicadas, sem a devida autorização, em jornais, revistas e até out-doors. Esse posicionamento fazia com que pesquisas de qualquer tipo, empreendidas por profissionais de qualquer tipo, tivessem o caráter de invasão de privacidade. Certa vez, Verônica perguntou-me sobre “os resultados da pesquisa”, se tinha “ajudado para ganhar nota”, e expliquei sobre o caráter daquela. Então ela me falou sobre uma pesquisa feita por estudantes da UnB, quando perguntei se elas desconfiavam de mim. Disse que não aceitava ser filmada, a título desse exemplo – mas não se importava em dar entrevista. @s estudantes supracitados tiraram fotos, filmaram-na etc, mas, depois, por meio de um deles, ela soube que todo o material circulava, “difamando-a” e “caluniando-a”. Ela procurou @s professoræs, o diretor, o reitor, disse que não sabe “que bagunça que deu, mas o material foi todo recolhido”. Uma interlocutora insistiu muito comigo sobre o tipo de abordagem que se faz às travestis, como uma forma de desculpa (pela desconfiança e pela saída ostensiva da amiga dela de perto de mim). Ela criticou bastantes pessoas da UnB, que, devido a sua abordagem na rua (como formas clichês e desrespeitosas de endereçamento) e ao resultado de seus trabalhos, deixaram marcas não muito boas nas travestis. Ela mencionou estudantes de jornalismo e artes cênicas, por exemplo. Não menos constrangedor do que ser confundida com jornalista era ser tomada por religiosa. O número de evangélic@s que faziam incursões ao SCS para salvar as almas de prostituas e travestis degradadas não era pequeno. Algumas vezes, mulheres e travestis perguntavam-me logo “é Igreja?”; algumas vezes, logo saíam apressadas.
meu campo, eu tenha sido confundida com uma espécie de x-9 (polícia secreta), pela constância de minhas visitas, pelo caráter de minhas perguntas e, sobretudo, quando ficou claro que eu não tinha clientes ali nem procurava um ponto.
Algumas vezes, minhas interlocutoras aconselhavam-me a evitar os dias de pico do tráfico, certos pontos ou mesmo certas pessoas. Algumas interlocutoras eram-me recomendadas por outras, e algumas me eram severamente desaconselhadas. Por vezes esse conselho era mútuo, e eu podia ter em mente as relações existentes no SCS, entre as travestis. E outras vezes essa recomendação ocorria simplesmente porque elas não queriam dar-me entrevistas ou conversar comigo. Certa vez, uma travesti disse que tinha um encontro com um cliente e pediu para que a entrevista fosse a outra hora. Sugeriu no dia seguinte, às duas da manhã... Lembrei-me imediatamente das ludibriações dos Nuer com Evans-Pritchard (2002).
O SCS fica em uma área extremamente movimentada do Plano Piloto, em Brasília. Pela manhã, é impossível, na maioria das vezes, estacionar por ali, e o trânsito é simplesmente insuportável. Aquela região concentra a grande parte do movimento comercial, bancário e hoteleiro da cidade. Em minhas incursões pelo SCS, nunca pude ver uma travesti (ao menos vestida como uma) ali, pelo dia. Em geral, elas chegavam à região quando o movimento comercial começava a cair. Com a progressão do anoitecer, no SCS, não vemos mais nenhum carro estacionado (com exceção dos estacionamentos de hotéis, que passaram, em determinado momento, a serem utilizados como pontos de programa, até que as reclamações dos hóspedes convencessem os proprietários dos estacionamentos a proibirem essa utilização); quase nenhum transeunte (com as exceções dos moleques que pareciam traficar ou usar drogas, d@s jovens que utilizavam aquela região como caminho para o Bar Barulho, um conhecido bar LGBTTT da cidade, e d@s transeuntes que voltavam assustad@s de seus afazeres); e poucos carros em movimento (em sua maioria, clientes que atravessavam as ruas lentamente e jovens que retornavam das “baladas” para fazer piadas com as travestis). Um shopping próximo ao SCS é responsável por alguma movimentação de pedestres até cerca de 22h. Algumas lanchonetes que funcionavam, em geral, até à meia noite, também. Mas, em geral, os pedestres costumavam evitar o SCS à noite, pois ele era uma conhecida região de prostituição, narcotráfico e violência.
Como expus no capítulo 2, o SCS, diferentemente de outras cidades como o Rio de Janeiro, Porto Alegre (BENEDETTI, 2005) e Maceió, não possuía bares, praças e bancos que reunissem pessoas, entre garotas de programa e clientes, que facilitassem a socialização, que fossem um ponto de convivência à noite. Quase sempre, as pessoas que estavam paradas naquelas ruas (e por isso eu era confundida com uma nativa) eram garotas de programa ou intermediári@s do narcotráfico. Os policiais, se não estavam em carros oficiais, estavam à paisana. E os clientes raras vezes estavam a pé. Em geral, eles passavam muito lentamente, de carro, abordavam travestis ou mulheres já conhecidas ou desconhecidas pelas janelas e levavam-nas para estacionamentos próximos ou para hotéis/motéis. Era extremamente difícil observar clientes dos hotéis no SCS à noite (e muitas vezes os hotéis possuíam a dupla função de hotel e de ponto de programa; o Hotel Bonaparte, por exemplo, era extremamente conhecido por sua boate). Outro dado era que clientes das classes mais altas, pelo relato das garotas de programa, nunca freqüentavam a rua – em geral, eles marcavam com as garotas de programa em locais previamente combinados; o mesmo se dava com a alta clientela do narcotráfico. O SCS era freqüentado, geralmente, pela classe média brasiliense e por empresários de outros estados em curtos períodos em Brasília.
Existiam apenas dois locais no SCS que funcionavam à noite com caráter de estabelecimento comercial. Um deles era um posto de gasolina, que merece alguma descrição, devido à alta circulação de pessoas. O posto de abastecimento podia ser um ponto interessante de observação, mas, pela sua rotatividade, era difícil que servisse como um ambiente de socialização. Como estava localizado entre o Eixo Monumental, uma avenida de intenso tráfego, e o SCS, o posto era freqüentado por diversas pessoas, desde proprietári@s de carros de passeio e táxis às garotas de programa, passando pelos guardadores de carro e moleques que circulavam pelo SCS, pel@s hóspedes dos hotéis e pelos clientes das garotas de programas. Era no posto de gasolina que normalmente as garotas de programa comiam ou bebiam algo, em seus intervalos. Entretanto, às 22h, todas as mesas e cadeiras da lanchonete do posto eram recolhidas, e sempre era mais fácil conversar com elas fora do ambiente do posto. O outro local mencionado por mim era o “Ponto Diversões”, recentemente fechado. Apesar de que parecia uma boate e de que servia bebidas, o Ponto Diversões era conhecido por todos no SCS como ponto de tráfico e como
local para programas. Eu entrei lá algumas vezes, mas a presença constante de policias e viaturas à frente do local tornou difícil minha inserção lá. Esses temas serão abordados na seqüência.