• No results found

Retorno ao SCS. Como já apontei, era comum que as travestis fossem conhecidas pelas mulheres, entre elas mesmas e pelos clientes (eu entrevistei alguns pela internet) pelo roubo e pelo uso de drogas. Esse era um motivo para elas se associarem entre si, em pequenos grupos, muitas vezes fechados, que difamavam uns aos outros. Em muitas das falas que pude ouvir de todos esses sujeitos, a violência consensual no SCS devia-se ao roubo, à drogadição e ao “mau-comportamento” das travestis. Júlia disse-me que a violência no SCS ocorria porque as travestis, em geral, assaltavam os clientes e acabavam sendo violentadas – um comentário comum na rua, mas que não pode deixar de ser pensado junto à discriminação que origina o travesticídio, junto à discussão sobre o desejo mesclado de ódio, sobre a impossibilidade de aceitar a existência destes corpos (BUTLER, 2004). Júlia falou que esse é um “comportamento péssimo”, e muitas comentavam que isso denegria a imagem de todas num conjunto e gerava a violência para todas elas. Como ocorria com todas as travestis que faziam esse tipo de comentário, esse não seria o caso

dela, mas de outras87. Fernanda comentou que “as próprias travestis ‘sujavam as outras’ porque roubavam os clientes”. Adriana falou que as travestis roubavam muito, mas depois ficavam expostas na rua. Em algum momento Ivete assumiu para mim que roubava, e isso sempre era confirmado por quase todas as travestis, que a viam com suspeita.

Não era apenas o roubo, mas também a droga que contribuía para a aura de “perigo” das travestis do SCS. Júlia conversou comigo, em um tom de crítica e de lamentação, sobre as pessoas do SCS que, “quando ela menos esperava, já estavam viciadas, gastavam tudo que ganhavam e perdiam todas as noites com o vício”. Disse-me que “ali havia muitos casos assim, mais da metade”. Narrou que as pessoas “vacilavam”, “cheiravam pó”, e ela sabia que a pessoa “já estava nas últimas quando estava na pedra” (como abordarei adiante, o movimento no SCS sofreu uma grande alteração devido ao comércio do crack, droga que ultimamente tem invadido as grandes capitais brasileiras). Júlia falou que “na rua vendiam não só maconha, merla e crack, como também cocaína”. O local, como apontado com alguma reserva por todas, era o Ponto Diversões – o grande centro de distribuição das drogas, além de alguns intermediários. Paola e Ivete, quando as interroguei sobre o narcotráfico, disseram: “aqui todo mundo usa”. E o marido de Paola completou: “aqui só se salvam estas [elas duas] e mais umas quatro”. Paola falou: “fora umas cinco, todo mundo aqui usa droga. E usam crack, que é o pior.” Na verdade, sempre que esse assunto surgia, a pessoa com quem eu conversava, junto com “mais umas quatro”, era das únicas que não usava drogas, e o comentário repetia-se, do mesmo modo, com todas...

Certa vez, quando conversei com Joana, junto com outra pesquisadora, ela me disse: “quando eu vi vocês chegando mesmo eu já pensei, vão me perguntar onde vende bola. Muita gente vem aqui de carro, mas não é pra nada, é pra perguntar onde vende droga. Eu nem quero saber disso, que eu não me envolvo, eu digo, vai mais pra lá que as meninas te informam. (...) Aqui eu nem quero saber destas coisas. Mas todas as travestis aqui usam drogas”. Ela enfatizou bastante, como a maioria, que não tinha nenhum vínculo com o tráfico; e que sua única droga era o cigarro.

Verônica, falando sobre seus momentos de diversão, disse que costumava ir à “Blue Space”, uma conhecida boate LGBTTT, antiga Garagem. Sobre o Bar Barulho, ela falou

87 Essa situação assemelha-se à lógica das acusações zande de bruxaria, na obra de Evans-Pritchard (2005):

brux@s são sempre, ou ao menos em primeiro lugar, rivais ou inimig@s, ou seja, pessoas com quem se tem alguma indisposição ou conflito prévio.

muito mal. Comentou que o Barulho era um ambiente das “drogas mais baixas” – crack e cocaína. Já a Blue Space era um local “requintado”, “diferenciado”, onde ela encontrava “até homens empresários”. Disse que lá conseguia muitos bons programas – “eles chegam e dizem, quero fazer um programa, mas quero a noite toda, aí eles te dão 500 Reais (...) Outro dia mesmo eu vim aqui pro Metropolitan [um hotel]. Aí sempre tem, é 100, 150 [Reais]...”.

É interessante notar as diferentes visões de mundo das travestis e dos clientes88, a respeito da noção de perigo. Atentando para as ambigüidades, presentes em todo este trabalho, é necessário observar os subníveis no “mundo” das travestis. Para as travestis, como afirmei, o SCS era visto como um local perigoso, mas o cotidiano delas fazia com que isso aparecesse como algo quase “normal”. Para os clientes, era um ambiente perigosíssimo, misterioso, aonde eles iam com bastante cautela. O Barulho, para as travestis, era um local apenas de diversão (claro, existia a exceção supracitada, pois, para Verônica, o Barulho era perigoso, e as boates poderiam ser locais de trabalho); para os clientes, era um local do que, para as travestis, seria considerado trabalho. Por exemplo, sempre que eu ia ao Barulho, as travestis me diziam que estavam “paquerando”, “divertindo-se”, e que eu marcasse entrevistas na casa delas ou no SCS. Um interlocutor com quem eu sempre conversava no Barulho e que geralmente freqüentava as travestis recomendava-me não realizar minha pesquisa no SCS, um local “perigoso” – eu deveria pesquisar no Barulho, um lugar “mais adequado”.

Essa questão das drogas e do perigo merece uma reflexão específica. Se o narcotráfico era consensualmente uma característica do SCS; se normalmente se ouvia que “todo mundo vendia drogas”; se muitas pessoas (salvo as de maior poder aquisitivo, que possuíam redes de relações apropriadas à compra das drogas, sem ter que deslocar-se até o SCS) iam até lá para adquirir/ consumir drogas; se todos sempre falavam que “ali todo mundo usava drogas”; então, por que eram as travestis os maiores alvos de acusações, desconfiança, discriminações? Por que a aura de mistério delas? Será, então, porque as travestis estão diretamente sob a mira do ódio - sempre ambivalente -, como aqueles corpos inaceitáveis que mancham o mapa de inteligibilidade social?

88

Eu tive pouco acesso aos clientes – salvo uma exceção, apenas os entrevistei pela internet; a respostas para isso dos clientes de São Paulo (que também entrevistei pela internet) e dos clientes de Brasília era a presença de homens de classes altas e conhecidos publicamente, em Brasília, que freqüentavam as travestis e que não queriam ter sua reputação difamada.

Como venho apontando, apesar de que a grande parte das travestis que entrevistei falava da violência com um tom de normalidade cotidiana, essa parecia ser uma realidade bastante difícil e sofrida. Quase todas as travestis me relataram que precisavam saber proteger-se no SCS. O nível de violência poderia ser baixo, como no caso de piadas e xingamentos, ou chegar a níveis mais cruéis, como no relato de Verônica, que apresentei no capítulo 2. Precauções como a exigência de pagamento antecipado ou o porte de pedras ou facas eram comuns entre todas as travestis, como já descrevi.

Amanda, quando lhe perguntei sobre o que mais a marcava no dia-a-dia, disse que nada mais era forte, pois “tudo já se tornara comum”, o que aponta para o que venho discutindo a respeito da banalização da violência nesse meio. Quando lhe perguntei sobre os perigos, disse que “não havia”, que “nunca havia acontecido nada”, e “apenas” uma vez tentaram fazer algo com ela – alguns homens tentaram dar-lhe uma facada. Mas não “puderam com ela”. Júlia, sobre o perigo no SCS, disse que nunca passou por nada, exceto em duas ocasiões – uma vez tentaram assaltá-la, e, em outra, o cliente não quis pagar, e ela negou um programa para ele numa segunda vez. Esta fala dela é um pouco incoerente e chama mais uma vez atenção para a banalização da violência: “[Além de outras coisas, eu levo na bolsa] uma faquinha e o celular. Agora eu tô andando com uma faca, faca de cozinha”.

Paola e Ivete disseram-me que “não existia violência”, mas o que isso me pareceu, antes, como abordarei adiante a respeito do preconceito, foi uma atitude delas, como elas mesmas disseram, de “sobressaírem-se” e de “não levarem desaforo para casa”. Benedetti também comenta a respeito dos escândalos como uma forma de resistência cultural (2005). Joana não gostava do que fazia, pois ali era “um ambiente muito perigoso e violento”: “você tá aqui, chega um, faz piadinha, os caras passam, te batem, vem alguém aqui e dá um tiro. É uma coisa muito perigosa, você tar aqui e poder ser espancado, um cliente te levar pra não sei pra onde. Então é uma coisa que eu faço porque eu tô precisando”. Joana falou que o perigo era conseqüência tanto de a rua ser um local perigoso, muito em função do narcotráfico, quanto do preconceito – as pessoas “tiravam onda”, “faziam piadas”, “faziam gozação”. Elæ andava sempre com um canivete. “Mas é só pra me defender. As travestis têm essa fama de ser nervosa, de ser atacada, mas isso é se mexer com elas. Se chegar perto, elas conversam e tudo mais”. Disse-me que “ali era perigoso até pra gente

[pesquisadoras]”. Juliana também me disse que a rua era muito perigosa. Fernanda falou que “não queria esta vida pra sempre, pois isso não era vida”. De modo que todas as nossas conversas me sugerem que as travestis encaravam, sim, a rua como um ambiente perigoso, mas o que ocorria, pela necessidade do trabalho ali, era uma dissonância que se operava no cotidiano, como banalização da violência e da crueldade.

Talvez, para as travestis, a violência física sobre a qual venho comentando seja menor do que a violência simbólica, o preconceito e a posição subalterna. Em grande parte, como já apontei, as travestis são sujeitos que Bauman (2001) denominaria como “estranhos”, definição à qual eu acrescento a noção de Butler (2005) de “corpos abjetos”. Como as travestis não são sujeitos que correspondem ao padrão que é definido comumente como “normal” – e aqui eu incluo toda a discussão sobre a heteronormatividade e a binariedade, que já se tornou uma moda nos estudos de gênero -, elas são, freqüentemente, alvos da exclusão: exclusão moral, exclusão simbólica e exclusão física. Um primeiro ponto é o que já discuti: aparentemente elas não possuem um espaço para exercer uma profissão – exceto a prostituição, considerada uma profissão inferior, ou o salão de beleza, como manicures ou cabeleireiras -, que é uma atividade básica para a sobrevivência e para a subjetivação do ser humano. A isso se acrescente o fato de que elas raramente conseguem estudar – afinal, é na sala de aula onde acontece grande parte da socialização de crianças e jovens, e a pedagogia escolar, raramente inclusiva, conduz os estudantes a enquadrarem-se no esquema heteronormativo e binário89 e ao conseqüente desrespeito e intolerância pelas identidades que destoam da norma. Nas salas de aula, as travestis são alvo de preconceito e exclusão, a começar do fato de serem constrangidas a serem chamadas pelos seus nomes civis, para falar do mínimo. A educação formal está, obviamente, entrelaçada à questão profissional. E, como afirma Junqueira (2009b), as travestis terminam sendo vítimas de exclusão pelo fato de não terem atingido os requisitos mínimos para exercerem uma atividade profissional. A exclusão estende-se também aos meios sociais comuns, como estabelecimentos comerciais, hospitais, bancos, shoppings e transportes públicos. Ela se opera em um nível sutil e simbólico – nas piadas feitas em quase silêncio, nos olhares, nas posturas corporais de distanciamento, na ojeriza. Junqueira (2009b) escreve que

(...) a espacialização, que pressupõe interdições e naturalizações, é um dos procedimentos cruciais dos dispositivos de poder. (...) Essa invisibilidade a que estão submetidas lésbicas, gays, bissexuais,

89

travestis e transexuais comporta a sua exclusão enquanto tais do espaço público (...) configura-se como uma das mais esmagadoras formas de opressão. (2009b, p.25-30)

Esse conjunto de operações simbólicas de exclusão era, talvez, para as travestis do SCS, muito mais ostensivo e cruel do que a violência física.

Paola e Ivete, por exemplo, incomodavam-se bastante se percebiam risos escondidos ou comentários, mas logo “faziam um barraco” – “não tem nada que um escândalo não resolva”. Como já comentei, essa estratégia do escândalo era um recurso usado por algumas travestis do SCS.

A grande queixa de Juliana, além da inconciliação entre sentimento religioso e desejo sexual, a qual eu já observei, era o preconceito. Isso – que em geral era bastante encoberto por todas as travestis, com as costumeiras respostas evasivas de “é normal” -, era causa de grande sofrimento para ela. Ela repetiu bastante que “vida de travesti é difícil”, que “essa vida é muito sofrida”90. Nunca sofreu violência física, mas, segundo ela, uma agressão moral “dói mais do que um murro no rosto”. Verônica, sobre a violência que relatou e que transcrevi no capítulo 2, disse que “hoje em dia não é mais assim”, que “atualmente as pessoas ‘tão cabeça aberta’, ‘já aceitam’, que isso era antes, ‘há dez anos atrás’”. “Piadinha, mulher [em réplica a Fernanda, que, se lamentava bastante sobre o preconceito], isso sempre vai existir!”. Ela falou que no dia-a-dia “ninguém fazia nada com ela” porque, se tentasse, ela “abria a boca”. Segundo elas, não acontecia humilhação pela própria forma como elas se impunham. Verônica acrescentou: “no ônibus mesmo que eu venho, ninguém abre a boca, ninguém fala nada. E se alguém vem falar, aí já dizem, não fala isso pra ela não. Todo mundo já me conhece. Eu falo com todo mundo. Ou então eu chego e digo, ‘hoje eu tô azeda!’”. Fernanda parecia não concordar. Comentou que “as pessoas que fazem faculdades sabem mais das coisas e tratam melhor”, e “as pessoas de classe mais baixa são mais ignorantes”91.

Adriana, quando perguntei sobre como era para ela ser travesti no cotidiano, falou que as pessoas se acostumaram, principalmente sabendo sobre sua “índole”. Era “uma pessoa da paz”. Isso era identificado na rua – por exemplo, no começo, teve que se

90 Isso me lembra bastante Patrícia, a travesti que dava aulas para crianças no Selma Bandeira, em Alagoas

(capítulo 2), que constantemente me repetia: “bicha sofre”.

91 Esse parece ser um padrão de discurso comum às pessoas que vivem nos grandes centros, o que não exclui

acostumar em ser “testada”. Os clientes “passeavam” de carro, saíam com outras e observavam se ela “não aprontava” – essa questão remete ao que discuti anteriormente sobre o jogo de relações entre travestis e clientes, no que se refere à fama destas de perigosas.

3.3.4. Alianças e conflitos - as outras presenças da zona: policiais, garis, taxistas e