• No results found

Falar sobre sociabilidade remete necessariamente a Georg Simmel7, para quem caberia à Sociologia o estudo das formas de ação recíproca que tornam possível a sociedade. Para ele a sociedade não é uma substância, algo para si mesmo: é um acontecer (2006, p. 18). Com efeito, em sua análise sobre a perspectiva sociológica de Simmel, Cohn (1998) destaca:

“sua visão visceralmente sociológica está orientada para ver a sociedade na perspectiva das aproximações e dos afastamentos, do jogo sutil das distinções entre o estar mais próximo ou mais longe.”

O que concretiza de fato a sociedade é a ação de associar-se a outrem – sociação. Considera o autor que é sempre a partir de certos impulsos, ou a busca de finalidades diversas, que levam os indivíduos a atuarem uns com referência aos outros. Simmel distingue entre conteúdo, ou motivos das interações, e a forma em que ocorrem. Cita como exemplo de forças para a ação recíproca o amor, a fome, o trabalho, a religiosidade, a técnica, as funções ou os resultados da inteligência. Estes não são, em si mesmos, sociais, como explica a seguinte passagem.

São fatores de sociação apenas quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro que pertencem ao conceito geral de interação. A sociação é, portanto, a forma (que se realiza de inúmeras maneiras distintas) na qual os indivíduos, em razão dos seus interesses – sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados – se desenvolvem conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam... (grifos meus).

Assim, os interesses ou conteúdos materiais estão em jogo nas relações sociais, mas tomam formas específicas para atingirem sua finalidade ou para serem vivenciados, formas essas que adquirem vida própria e orientam como transacionar em determinado espaço social. Por um lado, os conteúdos mais divergentes podem ser idênticos quanto à forma na qual se realizam; por

7 Para Simmel (2006, p. 33), caberia à Sociologia o estudo das formas de ação recíproca que tornam possível a sociedade.

outro, um mesmo conteúdo pode estar presente em várias formas, como explica Simmel (Ibid, p. 34):

Por mais que sejam variados os interesses dos quais resulta a sociação, as formas nas quais eles se realizam podem ser as mesmas. Por outro lado, o interesse por um mesmo conteúdo pode se apresentar em sociações formadas de maneiras distintas. Por exemplo, o interesse econômico [conteúdo] se realiza tanto na concorrência como na organização planejada dos produtores [forma]; em um acordo [forma] contra outros grupos econômicos ou com esses próprios grupos. Os conteúdos religiosos da vida demandam – embora permaneçam os mesmos em seu conteúdo – uma forma social livre ou uma forma social centralizada. Os interesses [conteúdo], que estão na base das relações entre os sexos, precariamente se realizam numa quase multiplicidade de formas familiares.

É oportuno referir que, simultaneamente a cada forma objetivada, manifesta-se uma forma lúdica ou autônoma de sociação, sem finalidade prática que não seja a de tornar agradável o instante: a sociabilidade (SIMMEL, Ibid., p. 65). Para ilustrar com uma situação específica, pode- se pensar numa reunião regular de empresa (forma de sociação), com a presença de gestores e empregados, na qual se encontram necessidades e interesses partilhados e individuais (conteúdos) em jogo. Há uma forma esperada socialmente para se viver este momento, que inclui desde a possibilidade de participar deste tipo de evento, definida pela estrutura hierárquica organizacional, até o sentimento pessoal de pertencer à empresa. É na naturalidade de agir e na vivência dessa forma objetivada – reunião e comportamentos prescritos interiorizados – que aparece o “sociável” da organização, que torna lúdico o momento e faz emergir, do interior do conteúdo pragmático da reunião e para além dele, o prazer de interagir e estar naquele local e com aquelas pessoas.

Portanto, a abordagem de Simmel sobre a sociedade valoriza o nível das interações sociais sob uma ótica peculiar. Quando ele trata da sociabilidade, está focalizando as interações entre pessoas movidas pelo processo da interação em si, pelo prazer de interagirem, uma “relação que não quer ser nada além de uma relação”. Daí ele dizer que seu fim é a forma, muito mais que o conteúdo. Não por acaso, lembra ele, é próprio em uma conversa sociável mudar-se facilmente de assunto. Simmel destaca, então, o clima social das interações, envolvendo amabilidade, cortesia e troca. Essa é uma dimensão, que em parte independe das posições ou funções dos agentes na sociedade, que fica clara no trecho a seguir:

Quando os homens se encontram em reuniões econômicas ou irmandades de sangue, em comunidades de culto ou bandos de assaltantes, isto é sempre o resultado das necessidades e de interesses específicos. Só que, para além desses conteúdos específicos, todas essas formas de sociação são acompanhadas por um sentimento e por uma satisfação de estar justamente socializado, pelo valor da formação da sociedade enquanto tal. [...] o ‘impulso de sociabilidade’, em sua pura efetividade, se desvencilha das

realidades da vida social e do mero processo de sociação como valor e como felicidade, e constitui assim o que chamamos de ‘sociabilidade’ em sentido rigoroso. (Simmel, Ibid, p. 64)

Simmel define precisamente sociabilidade como a “forma autônoma ou lúdica de sociação”. As implicações dessa forma para a tessitura do corpo social são profundas e permitem compreender a importância de que se revestem os momentos de sociabilidade para a maioria das pessoas, como ocorre, por exemplo, em conversas descomprometidas, em momentos nos quais se suspendem momentaneamente as coerções da vida em sociedade. Para Simmel, um aspecto a ressaltar é que os participantes no “jogo da sociabilidade” são, eles mesmos, os construtores dessa relação, diversamente do que ocorre nas interações dadas pelas posições na estrutura de classes, ou das funções no sistema econômico. Estas posições ou funções exprimem correlações de forças que transcendem em parte aos agentes e nas quais sua margem de autonomia é reduzida. Já na sociabilidade, de uma maneira muito peculiar, Simmel estima que se resolve aquele que é o problema perene da sociedade, o da força do indivíduo diante das circunstâncias objetivas ou das amarras de sua vida.

À medida que a sociabilidade, em suas configurações puras, não tem qualquer finalidade objetiva, qualquer conteúdo ou qualquer resultado que estivesse, por assim dizer, fora do instante sociável, se apoiaria totalmente nas personalidades. Nada se deve buscar além da satisfação desse instante – quando muito, de sua lembrança. Assim, o processo permanece exclusivamente limitado aos seus portadores, tanto em seus condicionantes quanto em seus efeitos. (p. 66)

Cohn (1998) faz uma reflexão sobre Simmel que merece ser reproduzida aqui, pois auxilia a compreender seu foco sobre a sociabilidade. Ele lembra que, tal como os clássicos da sociologia, Simmel tinha uma percepção nítida da trágica dimensão da vida social, que é o fato de ela ser produto dos homens e, ao mesmo tempo, dominá-los. Nas palavras de Cohn, a vida em sociedade produz “as condições mesmas que irão subtrair aos homens o gozo daquilo que a própria sociedade promete, a começar pela possibilidade de sentir-se nela chez soi.”. Compreende-se assim sua maneira de abordar a sociedade a partir da convivência. Desse ponto de vista (PAIVA, 2007, p. 7), indivíduo e sociedade não se tratam de essências qualitativamente diferentes; antes, revelam uma diferença de níveis de realidade, que refletem o locus de observação mais próximo ou mais distante do fenômeno social.

Simmel criticou o desdém dos analistas da sociedade para com a dimensão lúdica da vida social. Ele considerava que sua importância era especialmente evidente na situação do homem

comum, que era talvez mais privado de oportunidades de aproveitar o prazer da convivência pela convivência, em momentos de lazer. É o que exprime o seguinte trecho:

...quanto mais perfeita for como sociabilidade, mais ela adquire da realidade, também para os homens de nível inferior, um papel simbólico que preenche suas vidas e lhes fornece um significado que o racionalismo superficial busca somente nos conteúdos concretos. Por isso, como não os encontra ali, esse racionalismo sabe apenas desmerecer a sociabilidade como se ela fosse um conjunto oco. Mas não é desprovido de significado o fato de que, em muitas – talvez em todas – as línguas europeias, ‘sociedade’ signifique exatamente ‘convivência sociável’. (Ibid, p. 65; aspas e itálicos do autor)

Outra característica a destacar da sociabilidade é que se trata de um tipo de relação que envolve a equivalência dos elementos que a compõem, ou seja, reciprocidade. Prova disso é o necessário sentido do tato que deve estar presente. Não devem pesar em cena nem os atributos externos à interação, nem a subjetividade de uma das partes em detrimento da outra. Vale atentar para as próprias palavras de Simmel sobre a “estrutura da sociabilidade”:

...não entram o que as personalidades possuem em termos de significações objetivas, significações que têm seu centro fora do círculo de ação: riqueza, posição social, erudição, fama, capacidades excepcionais e méritos individuais não desempenham qualquer papel na sociabilidade. (...) O mesmo se dá com o que há de mais puro e profundo na personalidade: tudo o que representa de mais pessoal na vida, no caráter, no humor, no destino, não tem qualquer lugar nos limites da sociabilidade. É uma falta de tato – porque contradiz os momentos aqui exclusivamente dominantes de efeitos mútuos – levar para a sociabilidade bons e maus humores meramente pessoais, excitações e depressões, a luz e a obscuridade da vida profunda. (p. 66/7; itálicos do autor)

Simmel, portanto, convidou a examinar os agentes sociais na dinâmica de suas relações cotidianas, chamando a atenção para um nível dessas relações que é relativamente independente dos papéis que eles desempenham na estrutura social. Um nível que envolve afinidade e elegibilidade entre seres “que se desapegam de seus conteúdos objetivos” e que, assim, se tornam “socialmente iguais” na sociabilidade.

Na sua proposta original, o autor se concentrou nos aspectos fugazes, contingentes e espontâneos das interações humanas e que, de algum modo, tomam forma para além dos conteúdos pessoais de origem e passam a servir de referência para outras relações. Esta perspectiva é particularmente importante para explicar as relações sociais de agora, porque, como esclarece Cohn (1998), incita averiguar nuances da experiência vivida e dos modos sociais de organizá-las, que não podem ser explicadas meramente pelo evidente teor econômico e normativo da sociedade contemporânea.

Nota-se aí que a sociabilidade requer certa reserva e estilização. Assemelha-se a um jogo de “faz de conta”, sem que isto, por si só, a transforme em dissimulação, mentira ou ficção. Exige

também que o resultado do instante de sociação beneficie a todos dentro dos padrões contextuais. Trata-se, neste caso, de uma aparente democracia das relações8, cujo reconhecimento social evita tornar a sociabilidade uma frívola brincadeira de formas vazias. Assim, como dito acima, as formas de sociabilidade marcam a suspensão momentânea das posições sociais, paradoxalmente, as mesmas posições que permitem a leitura contextual das relações, “tornando-se insuportável ou dolorosa quando vividas entre membros de classes sociais distintas, já que pressupõem um mínimo de valores (ou ‘capital social’) compartilhado” (FRÚGOLI, 2007, p. 13).

De todo modo, a expressão adequada de sociabilidade em dado contexto dá leveza ao convívio social por abstrair os conteúdos concretos da vida e transferi-los para o plano do jogo simbólico. Ao fazer isso, pode-se afirmar que a sociabilidade revela esteticamente – forma – o que dada sociedade exige em termos éticos – conteúdo (SIMMEL, Ibid., p. 78). E mais, a distinção entre forma e conteúdo leva a concluir que se deve ter cuidado ao analisar o conceito, para não incidir no erro de apreender todas as manifestações interativas como representações de sociabilidade e, então, rejeitar a especificidade dessa forma fluida de sociação.

A atenção dada por Simmel à sociabilidade instigou todo um conjunto de pesquisas que passaram a enfocar as interações espontâneas entre pessoas em diferentes contextos sociais. Degenne e Forsé (1999, p. 28) apontaram inicialmente os “estudos de vizinhança” que analisaram a desintegração social nas cidades, uma linha de pesquisa que evoluiu na chamada Escola de Chicago. E, posteriormente, no interacionismo simbólico, dentre outras correntes teóricas. Eles citaram, ainda, os estudos de sociologia organizacional, que tratam da sociabilidade nos ambientes de trabalho, dentre os quais Sainsaulieu (apud Degenne e Forsé, 1999), considerando a sociabilidade como um modo de entender como as organizações funcionam - ou não funcionam. Os autores notam que o conceito de sociabilidade veio a ser definido de muitas maneiras

Para este estudo, pode-se destacar ainda Granovetter (1973) e (1983), que também deram especial atenção às interações, cada um sob uma perspectiva própria. Ambos buscaram interrelações entre o nível micro das relações pessoais – por exemplo, a composição das redes de contatos pessoais e os graus de proximidade e distância entre os contatos - e o nível macro, tais

8 O fato da sociabilidade carecer ser vivida entre iguais pode ser interpretado como uma qualidade intraclassista do conceito proposto por Simmel, posto que ficaria implícita a necessidade dos indivíduos partilharem os códigos e comportamentos para viver plenamente o momento, posicionamento diverso ao sugerido anteriormente, quando as interações espontâneas não teriam condição prévia. Com ou sem pré-requisito para acontecer, deve-se ter o cuidado de não restringir à sociabilidade o sentido de tato, polidez, urbanidade, fato que reduziria tanto a capacidade explicativa do conceito quanto a complexidade da vida social.

como, respectivamente, o funcionamento dos mercados de trabalho e a reprodução da estrutura de classes sociais. Ambos os autores contribuíram com a formulação de um conceito atualmente em voga, e também polêmico, o de capital social. Em linhas muito gerais, esse conceito refere-se a uma propriedade das relações de sociabilidade: o fato de as conexões sociais dos indivíduos representarem potencialmente recursos sociais disponíveis para eles. Os recursos são de múltiplas naturezas, podendo ir da ajuda mútua a uma credencial que abre a porta a um financiamento ou a uma promoção.

2.1.1 As capacidades humanas para a vida em sociedade

Vê-se que a sociabilidade compreende muitos aspectos, tais como: a forma como as pessoas se relacionam, como escolhem seu círculo social, os comportamentos, as premissas, o sentimento de pertencer, as interações individuais e coletivas colocadas em prática nos diferentes espaços de convivência, etc. Pode ser interpretada como capacidade associativa, em geral, a capacidade de estabelecer laços sociais, conforme se expressam diversos autores:

...a sociabilidade designa o princípio das relações entre pessoas e a capacidade de

estabelecer laços sociais... (Gurvitch, 1950, t.I, cap. 3)

...a sociabilidade indica seja a capacidade associativa em geral, seja as associações particulares que são os salões, os círculos, os clubes, os cafés, onde os homens encontram um meio de serem sociáveis... (Agulhon, 1977)

...a sociabilidade designa as redes que nascem espontaneamente das relações que cada indivíduo mantém com os outros (Granovetter, 1973; Forsé, 1981; Wellmann/Berkowitz, 1983; Bidart, 1988; Héran, 1988) (apud Baechler, 1995, p. 65) [grifos meus].

Todas as definições acima dão ênfase à criação e ao reforço de laços sociais com o intuito de viver o sentimento íntimo de satisfação, que essas interações propiciam, e, também, como forma de minimizar as dificuldades da reprodução social. Baechler (1995, p. 65-66) complementa nossa compreensão do fenômeno da sociabilidade, incluindo-a entre três aptidões humanas distintas que possibilitam a vida em sociedade: sodalidade, socialidade e, notadamente, sociabilidade. Cada uma delas consiste em um filtro conceitual para relacionar dada capacidade humana à forma específica com que se expressa na realidade social, seja de modo organizado (formal, duradouro, cristalizado) ou não, conforme o esquema disposto no Quadro 5.

A sodalidade9 está relacionada à capacidade humana de construir grupos em função de alguma atividade ou finalidade. Deste ponto de vista, os grupos são compreendidos como unidades de atividade, dotados de uma racionalidade própria e forjados para atingir um ou mais objetivos de acordo com a sua natureza. Esta capacidade viabiliza desde a formação do menor grupo possível, a díade, cujo exemplo mais comum é o casal, até formas com incontáveis membros, como as politeias10. O autor cita ainda os grupos de pressão e os partidos políticos como exemplos de formações organizadas.

MODALIDADE CAPACIDADE DE... FORMA SOCIAL

SODALIDADE construir grupos casais, equipes famílias, esportivas, empresas, igrejas, exércitos, partidos políticos, etc. SOCIABILIDADE estabelecer redes para

exprimir interesses, gostos...

vizinhos, públicos, salões, círculos sociais, cortes reais, mercados, classes sociais, civilizações, etc.

SOCIALIDADE manter coesos grupos e redes tribo, a cidade, a nação. Fonte: adaptado de Baechler, 1995, p. 65-66.

Quadro 5. Modalidades e formas do Social, segundo Baechler

A modalidade seguinte, a sociabilidade, é a capacidade humana de conectar, através de redes sociais, indivíduos pertencentes a grupos diferentes. Por sua vez, a socialidade assegura aos grupos e às redes a coesão e coerência dos modos de solidariedade social, os quais permitem aos indivíduos e aos grupos se perpetuarem como sociedades, através de formas sociais tais como a nação e a tribo. Tanto esta última forma social organizada – nação (socialidade) – quanto àquela – grupos (sodalidade) – transmitem impressão de serem configurações cristalizadas, mesmo que se reconheça o dinamismo cultural que caracteriza as sociedades históricas.

Não é o que se divisa na sociabilidade, cuja forma de rede social apresenta o caráter mais fluido das interações que se assentam espontaneamente entre os indivíduos. Adverte Baechler

9 Neologismo, criado a partir da palavra sodalício, que significa a sociedade de pessoas que vivem juntas ou em comum.

10 Convém ser cauteloso na distinção entre politeia e dois outros conceitos decisivos para a sociologia histórica: a morfologia, que é o princípio da coesão e da coerência que reúne os homens em sociedade, e o regime político, que é a regulamentação das relações de poder de uma politeia. [...] É preferível evitar o emprego de termos mais correntes, como “país”, demasiado vago e com uma aplicação inadequada à cidade e à tribo, ou “estado”, que deve ser reservado para designar a organização da coisa pública nas politeias nacionais democráticas

(Ibid., p.77) que mesmo as redes podem ser mapeadas (e, portanto, objetivadas), perguntando-se às pessoas com quem se relacionam. A partir das respostas a esta questão, torna-se possível materializar os laços que se estabelecem em função das afinidades, dos gostos, dos interesses, dos afetos. São os conteúdos veiculados na rede que aproximam ou afastam os indivíduos intra ou entre grupos e que abrem ou fecham caminhos para outras relações e outros grupos, sem que estes aspectos estejam necessariamente relacionados com a estrutura ou as finalidades grupais.

Baechler (Ibid., p. 78) salienta que o foco da análise das redes sociais deve ser o conjunto de laços estabelecidos entre pessoas e não o conjunto de pessoas com as quais um indivíduo particular está ligado. Este ponto é importante porque diminui a atenção sobre o indivíduo e a dirige para a articulação entre instâncias sociais (grupos), que passam a ser percebidas como atores coletivos. Portanto, convém

determinar não apenas quais as associações que, numa determinada área, desenvolvem relações entre si, mas sobretudo quais de seus membros pertencem a várias dentre elas e asseguram a continuidade e a realidade da rede.

Tem-se assim um conceito de sociabilidade que a toma como um atributo do ser humano, através do qual os indivíduos constroem o tecido social, e que se expressa plenamente no processo interativo de formar redes sociais. Na definição de Baechler (p. 77), as redes de um indivíduo, um grupo ou uma organização, compreendem um nicho de laços mais próximos e permanentes e outro de contatos mais fluidos e com maior grau de escolha.

Designamos, de um modo geral, por redes os laços, mais ou menos sólidos e exclusivos, que cada ator social estabelece com outros atores, os quais estão também em relação com outros atores, e assim por diante. A priori, podemos pressentir que a amplitude, a exclusividade e a densidade da trama das redes variará inteiramente conforme se tenha em consideração as redes de parentesco, de vizinhança, de classe... Uma segunda categoria poderia ser definida por redes de algum modo deliberadas, no sentido de que são definidos espaços sociais, onde se encontram, por opção, atores sociais que têm prazer e interesse em ser sociáveis uns com os outros. (p. 77/8)