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7.2 Interactive Vortex Region Analysis

7.2.3 Step 3: Delocalized Criteria

O processo de integração dos candidatos selecionados à empresa se inicia com a sua participação nas atividades de ambientação, as quais podem ocorrer antes ou depois da contratação do candidato. Geralmente são programas com periodicidade quinzenal ou mensal, de acordo com a quantidade de pessoas selecionadas.

78 De acordo com as chefias do RH, a indicação não é coibida por ocasião do recrutamento externo, mas também não privilegia o candidato no momento da seleção curricular ou nas demais etapas. No entanto, esclarecem que há sim vagas de todos os níveis que são preenchidas diretamente pelos proprietários, restando ao RH somente efetuar a contratação. A expressão “cair de para-quedas” foi usada para designar situações desse tipo.

Um estranho no ninho

Segunda-feira, duas horas da tarde. O local do encontro é o mini auditório da ASPAS, contendo cadeiras fixas dispostas em quatro filas horizontais, como numa sala de aula tradicional. Em frente às cadeiras há um quadro branco e tela; sobre a mesa, o projetor; à esquerda, um cavalete com álbum seriado; e à direita a tv. Esse auditório foi escolhido porque as instalações da empresa não comportavam os cerca de sessenta empregados de cargos operacionais recém contratados para uma nova loja, que seria inaugurada na semana subsequente. A previsão era de quatro horas de duração.

O público era formado de pessoas cuja aparência e linguajar indicavam origem modesta; a maioria apreensiva antes do início das atividades; consultando-se uns aos outros sobre o conteúdo do evento. Foi interessante constatar que o encontro já começa após o horário estipulado. Mesmo assim, seis novos empregados chegam ainda mais tarde, assim como a estagiária responsável pela dinâmica de grupo inicial.

O encontro compôs-se de quatro momentos, cada um deles organizado e conduzido por uma ou duas estagiárias diferentes, sob a orientação da gerente de RH: uma dinâmica de apresentação, uma dinâmica de sondagem, uma palestra cujo conteúdo tratou da filosofia, política de trabalho, normas e diretrizes da empresa e, finalmente, o momento para descontração, no qual foi servido um lanche. No processo de apresentação, foi solicitado que cada empregado fizesse um desenho que representasse a função que iria desempenhar no supermercado. Em seguida, deveria explicar o desenho e contar um pouco sobre si. As falas foram centradas na importância do emprego que iniciavam, e comportaram muitos jargões, tais como: “a empresa é uma grande família”, “estou à disposição para quem precisar de ajuda”, “pretendo construir amizades”, “o respeito é essencial”, “atender ao objetivo da empresa com honestidade”, “quantas pessoas ficaram para trás. Deus ajudou a gente”, “o sucesso do trabalho reflete na vida, em casa a gente está de visita”, “às vezes a gente acha um amigo no trabalho e não em casa”, etc.

Na dinâmica seguinte, o grupo foi dividido em duas partes. Cada subgrupo foi orientado a desenhar uma árvore contendo as expectativas de todos os integrantes para o novo emprego. Os pontos selecionados pelos grupos foram: eficiência (fazer as coisas certas), ter responsabilidade na função, respeito, dignidade, união, paz, criatividade, amadurecimento profissional, pontualidade, realização, cuidado com a aparência pessoal, liderança (mostrar um bom trabalho), sinceridade, honestidade, trabalhar em equipe, companheirismo, força de vontade, fazer o serviço com perfeição, agradecer ao cliente, crescimento de todos, sucesso na vida e no trabalho.

Logo após a apresentação dos subgrupos, foi iniciada a palestra que contemplou o histórico do supermercado, sua missão, organograma, fluxograma, público-alvo, normas – higiene pessoal, benefícios, frequência e avaliação do desempenho. As informações foram passadas com entusiasmo, através de mensagens atrativas de compromisso, tais como: “o crescimento da empresa permite criar os empregos de vocês”; “a missão da empresa é a razão de ser, que somos nós, que temos que fazer acontecer”, “é o cliente que faz o nosso salário”, “crescer, ter sucesso, só depende de você”, “você tem que ser o dono da tua história, olhar para frente”, etc. A maneira apoteótica como esse momento foi concluído, vale a pena relatar, por estar pautada nas recomendações de especialistas em gestão de recursos humanos, as quais servem para cooptar os empregados aos objetivos empresariais transmutados em objetivos comuns.

Apagam-se todas as luzes e escuta-se o seguinte comando: “Feche os olhos e pense numa coisa que tu queres muito fazer, conseguir. Mentalize, eu posso, eu vou alcançar”. Alguns segundos de silêncio absoluto, no qual se pode ouvir a respiração das pessoas. De repente, em som muito alto, começa a tocar o “tema da vitória” – música criada para celebrar a vitória de brasileiros na “Fórmula 1” de automobilismo. Ao mesmo tempo, as luzes são acesas e a palestra é encerrada com as frases “Só depende de você! É preciso planejar, se preparar”. Com o ânimo elevado, todos são convidados para o lanche, na sala ao lado, composto de café-com-leite e biscoitos.

O programa consiste de palestras e dinâmicas de grupo, conduzidas pelo setor de RH, com o objetivo de facilitar a adaptação dos selecionados ou novos funcionários ao ambiente organizacional, orientá-los quanto aos deveres e direitos, e conquistar sua adesão às metas e resultados da empresa. Em duas empresas o programa de ambientação é pré-contratual e, nas outras duas, pós-contratual, assim que se forma um grupo de dez ou mais novos empregados. Em apenas uma das empresas analisadas o programa de integração comporta palestras e dinâmicas de grupo, estendendo-se por quatro horas, conforme relato do Quadro 21. Nas demais, o processo de ambientação é mais simples, com palestras de curta duração sobre segurança do trabalho e aspectos gerais da empresa.

Nas duas empresas que recorrem à ambientação pré-contratual, os candidatos aprovados no processo seletivo são, primeiramente, convocados para um encontro coletivo, em que lhes é explicado quais os documentos necessários e a melhor forma de obtê-los, além de estabeleceram o prazo para entrega da documentação completa no setor de pessoal. Somente após o recebimento da documentação completa que é feita a ambientação propriamente dita. O processo consiste em duas palestras: uma sobre segurança do trabalho e outra sobre o histórico da empresa, normas e direitos dos empregados, com a duração de uma hora cada.

Nos dois encontros desse tipo que esta pesquisadora participou, a atividade começou com a explanação do Técnico em Segurança do Trabalho sobre a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (CIPA) e sobre os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), além de apresentar slides das situações mais frequentes de acidentes em supermercados. O palestrante enfatizou o acidente de trajeto (casa-trabalho-casa), resultante do uso da bicicleta como meio de transporte para chegar ao trabalho, porque, caso o empregado use a bicicleta, e tenha optado pelo sistema de Vale-transporte, receberá advertência formal, passível de ser transformada em demissão por justa causa (Anexo A). O vale ao qual o empregado se refere é o vale-transporte, em parte subsidiado pela empresa. Quando o sistema de utilização era em papel impresso, muitos empregados o utilizavam como moeda no dia-a-dia para pequenas compras ou o convertiam em dinheiro em espécie; depois de implantado o sistema de cartão, esse processo não foi mais possível. É preciso notar que, mesmo com a orientação, o uso do meio de transporte “indevido” ocorre frequentemente, como se pode confirmar na fala de Luís, repositor do supermercado S4:

I – Então, tu pegas a bicicleta e vens. Demora quanto tempo pra chegar aqui? L – 10 minutos.

I – 10 minutos? E não tem problema? Porque ganhas vale-transporte, né? L – Ganho.

I – E não tem problema? Eles não...?

L – Não. Sempre eles fazem isso, mas só que... Esse vale-transporte... O salário da gente está defasado. Está defasado, então esse vale-transporte ajudava bastante a gente, agora com essa lei de passe-fácil, né? Que inventaram. Sempre é mais pra... quando as pessoas estão querendo melhorar um pouquinho, eles só fazem piorar.

I – Tu não vais usá-lo?

L – Eu vou usar. Por exemplo, eu pego 24 vales [por semana], dá um total de cento e poucos reais, mais ou menos, ou noventa e pouco por mês, isso vem descontado no meu contracheque. O vale-transporte eu vendia, ganhava um dinheiro, porque eu venho de bicicleta, economizava uns 24 reais. O dinheiro ficava pra minha família. Agora nem isso eu consigo ter. Aí vou passar pra 12 vales. Vou passar pra 12 e venho de ônibus (Luís, repositor, união estável, 27 anos, 1 filho).

O conteúdo da segunda palestra é de responsabilidade do setor de RH. Neste caso, foi conduzida pela psicóloga do setor, mas esta atribuição poderia ser delegada à estagiária, se necessário. A sequência da explanação foi a seguinte: 1) história da empresa 2) normas da empresa e deveres dos empregados; 3) direitos do empregado. No primeiro tópico foram relatados os momentos mais importantes da trajetória da empresa, desde sua fundação até o momento presente. Foi também mostrado o organograma da empresa e de uma loja de supermercado, sendo ressaltada a interdependência entre os setores e funções dos empregados. Em seguida, trataram da apresentação pessoal do empregado, mostrada como forma de marketing pessoal, mas também como parte importante da imagem da empresa. Notou-se que, de acordo com a fala da palestrante, quanto à aparência, a regra é o comedimento; quanto ao comportamento, a discrição. Para homens, barba feita e cabelos cortados; para mulheres, cabelos presos sempre, jóias ou bijuterias pequenas, maquiagem discreta. Para ambos, uniformes completos e limpos (“nada de ‘customizar’ o uniforme”), o uso permanente e adequado do crachá, além de falar em tom baixo e gentil com colegas de trabalho de todos os níveis e clientes, e nunca mascar chicletes.

Ainda foram abordados assuntos relativos à pontualidade, assiduidade e produtividade (Anexo B). Por exemplo, o empregado deve se apresentar “pronto para o trabalho” para “bater o ponto” no horário determinado pela empresa, com permissão de fazê-lo até dez minutos para mais ou para menos. As empresas entendem como “pronto para o trabalho” o funcionário devidamente uniformizado e com boa aspecto de limpeza e higiene. A tolerância com relação ao atraso deve ser adotada eventualmente e não como procedimento usual. A falta ao serviço precisa ser autorizada pela chefia imediata, a qual, nos casos imprevistos, deve ser avisada tempestivamente, com prazo limite de quarenta e oito horas. Nas ausências por motivo de saúde, o atestado deverá ser obtido junto ao médico da empresa contratante, quando há esta prestação de

serviço ao empregado; nos outros casos, é válido somente o atestado da rede pública de saúde. As faltas computadas reduzirão os dias de férias, de acordo com o estabelecido pela legislação. Alertam também para evitar conversas pessoais durante o expediente de trabalho, como explica Raquel, operadora de caixa do supermercado S4:

Assim, eles dizem assim que a gente não deve estar conversando no decorrer do trabalho, tu estás passando compra, que evite. Até então, em alguns pontos eles têm razão, porque às vezes a gente está conversando, tu estás trabalhando ali com dinheiro, com cartão. Qualquer distração pode acontecer de tu ter um erro, ou tu vai passar um produto a mais ou a menos. Tu passa o produto e não registrou, não prestou atenção, né? Ou tu está dando um troco... Tá conversando e tá passando o troco, você não sabe o que está fazendo. Nisso aí, claro, eles têm plena razão, eles têm todo o direito de dar em cima. Mas fora disso, tu não está fazendo nada, eu converso normal, eu falo, eu converso aqui com os meninos, eu falo com cliente, normal. A interferência deles ali, é só nesse ponto, né? Porque eles têm que ter mais concentração no que está fazendo. Se eu estiver conversando, claro, qualquer local que tu estás conversando com alguém, distraiu, algo vai acontecer. Principalmente se tu estás trabalhando com dinheiro dos outros. Pois é. Aí nesse ponto, aí eu dou razão a eles. Pois é, estando ali, mesmo prestando atenção, já acontece uns e outros vacilos, dá falta, às vezes, no seu caixa, de perder um documento... (Raquel, operadora de caixa supermercado S4, 33 anos, união estável, 2 filhos).

O controle das conversas se estende a falar ao celular, assim como o uso do telefone da empresa deve se limitar aos assuntos de trabalho e situações emergenciais. Em uma empresa é proibido o uso do celular no posto de trabalho somente para empregados do nível operacional. Há uma série de outras proibições, mas algumas chamaram a atenção porque dizem respeito à natureza do negócio de supermercados, cuja reincidência torna o empregado sujeito à demissão por justa causa. Por exemplo, é vedado ao empregado durante o expediente:

entrar para iniciar o turno de trabalho pela frente da loja; fazer uso de quaisquer produtos comercializados pela empresa; servir-se de produtos de degustação;

ingerir alimento estando no recinto de trabalho (salvo no horário estipulado para o lanche).

Quanto aos direitos, foi recomendado “aprender a ler” o contra-cheque. Há direitos garantidos por lei e benefícios espontâneos que são oferecidos de acordo com política de cada empresa. Dentre os legais, constam: o salário mensal de acordo com o cargo ocupado; jornada de trabalho e descanso semanal, conforme convencionado no dissídio coletivo da categoria; 13º salário; trinta dias de férias a cada ano trabalhado e adicional de 1/3 sobre o salário por ocasião do gozo das férias; salário-família para empregados que têm filhos até quatorze anos de idade ou

inválidos de qualquer idade; pagamento de hora extraordinária ou compensação em banco de horas dentro dos limites legais; adicional de insalubridade, quando a função ocupada comportar; adicional noturno relativo a trabalho entre 22h e 5h; opção por vale-transporte, com o desconto de 6% sobre o salário; adicional por quebra de caixa para operadores de caixa (de R$ 18,00 a R$ 25,00, dependendo da empresa); e recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Os benefícios espontâneos são pontuais. Confrontou-se o conteúdo das palestras e os documentos das empresas e encontramos esta prática em três das quatro empresas pesquisadas. Três disponibilizam refeições (café, almoço ou jantar) com a cobrança de preço simbólico, em torno de 3% sobre o salário; duas distribuem vale-compra para ser descontado no mês subsequente ao mês do uso; e uma delas oferece serviço médico e odontológico para os empregados (não extensivo aos familiares).