5.3 Evaluation
5.3.4 T-Junction
Quando se volta o olhar para estudos sobre diferentes áreas e atividades da Amazônia, por exemplo, percebe-se que o processo de desenvolvimento capitalista regional foi marcado por características de mobilidade, instabilidade e informalidade do mercado de trabalho, tornando os vínculos sociais cruciais para a sobrevivência de trabalhadores e trabalhadoras locais. As análises de Hébette e Marin (2004a; 2004b), Moreira (2004) e Maneschy (1995), dentre outros, apresentam o processo de transformação pelo qual o espaço amazônico passou e os mecanismos utilizados pelos trabalhadores para se adequar ou resistir às mudanças impostas pelo desenvolvimento econômico e tecnológico.
O estudo de Maneschy (1995), realizado em Ajuruteua, no litoral nordeste do Pará, mostra que os pescadores artesanais encontraram nas relações de solidariedade o apoio para superar a restrição do trabalho causada pela invasão de seus territórios pela pesca industrial e pela alteração das condições ambientais. Práticas características desse segmento, tal como no empréstimo de equipamentos, lhes possibilitavam resistir como produtores artesanais e reduzir as limitações impostas pela competição desigual.
Uma situação análoga foi verificada por Moreira (2004) na comunidade São João, no rio Xingu (PA). Segundo a autora, os habitantes se viram ameaçados pelas atividades da extração da
madeira em escala industrial e da pesca comercial, que invadiram seus territórios tradicionais, ameaçando seu modo de vida. Diante do fogo cruzado das pressões políticas e de mercado que se afiguravam nos madeireiros e nos geleiros27, os ribeirinhos reconstroem suas referências simbólicas sobre o manejo dos recursos naturais. O conhecimento atribuído aos antepassados e fortalecido pela unidade dos laços familiares, converte-se, na atualidade, num comportamento "ecológico" que pauta a estratégia de resistência à destruição do seu modo de vida.
Essa análise proporcionou subsídios para um estudo mais aprofundado de Moreira (2008), em sua tese de doutorado (2008), sobre a organização de um movimento social em defesa de territórios e modos de vida rurais na Amazônia. Esse movimento resulta das ações coletivas desenvolvidas, durante as décadas de 80 e 90 do século passado, pelos agrupamentos tradicionais de ribeirinhos, os quais têm por base as relações de parentesco e compadrio, típicas do campesinato. A partir dessas ações coletivas, eles elaboraram a proposta de criação de uma reserva extrativista, reconhecida em lei no ano de 2004. Pode-se, portanto, atribuir aos laços pessoais, isto é, ao forte vínculo das relações de parentesco e compadrio, o êxito das ações coletivas organizadas dos ribeirinhos para tentar conter o avanço do modelo capitalista de exploração predatória dos recursos naturais, até então, por eles preservados.
Ainda na Amazônia, os estudos de Hébette e Marin (2004c), referentes ao período de conclusão da rodovia Belém-Brasília, em meados do século passado, mostraram a clara relação existente entre a instabilidade das relações laborais e dependência dos pares. Os autores explicam que a abertura da estrada urbanizou o espaço e expropriou muitos agricultores, os quais se viram na necessidade de buscar outra atividade que garantisse sua sobrevivência e dos seus. Apesar das empresas que se instalaram na área, através de incentivos fiscais, terem absorvido alguns deles, a maioria abraçou atividades do baixo-terciário28, sem estabilidade quanto aos vínculos de trabalho ou proteção social. Nota-se, portanto, que mesmo se referindo a um momento de ampliação do mercado de trabalho, neste predominava as atividades precárias, mantendo-se essencial a rede de relações próximas, tanto para suprir as necessidades imediatas quanto para conseguir um posto de trabalho.
27 São os pescadores comerciais proprietários de barcos geleiros. Barcos geleiros consistem em embarcações que pescam, conservam e transportam a produção pesqueira comercial.
28 Segundo os autores, o baixo terciário agrega às atividades específicas do setor estratos inferiores da estrutura social, com baixo nível de renda, de educação e de qualidade de vida. Contempla os empreendimentos individuais ou familiares (tabernas, bares, botequins, frutarias, vendas ambulantes), os serviços de reparação
A pesquisa de Gonçalves (2002a), realizada na região metropolitana de Belém (PA), apresentou um quadro similar ao mostrado por Hébette e Marin (2004c). No perímetro urbano, houve deslocamento para atividades de baixa remuneração da maioria dos bancários que aderiram ao plano de demissão voluntária no processo de reestruturação, deflagrada numa instituição bancária, em 1995. Dos 139 trabalhadores que saíram da empresa, apenas 40% havia feito uma re-inserção virtuosa no mercado de trabalho, isto é, somente cinquenta e cinco pessoas auferiam uma remuneração igual ou superior ao emprego bancário. Ademais, julga-se o contexto analisado por Hébette e Marin (2004c) “menos” ameaçador que a situação mais recente analisada por Gonçalves porque, no primeiro caso, a chegada de novos empreendimentos econômicos representou uma ampliação dos postos de trabalho, mesmo que precários, o que não se configurou no segmento bancário.
Vê-se que, especialmente no contexto amazônico, análises feitas em períodos diferentes trazem como característica comum a fragilidade dos vínculos de trabalho e, consequentemente, corroboram a proposição da funcionalidade das redes de relações sociais na execução das estratégias de sobrevivência. Essas estratégias parecem ser viabilizadas pelos laços sociais que servem de canal de comunicação e de acesso às fontes de renda intermitente e de atividades para assegurar os meios de vida nos períodos de desemprego, tais como os trabalhos informais, trabalhos invisíveis e não pagos, geralmente de mulheres e membros não remunerados da família. É neste aspecto que a presente pesquisa aprofunda a análise sobre os vínculos sociais para compreender quando e como a gestão de pessoas repercute na manutenção e na funcionalidade desses laços. Para tanto, vai-se agora analisar o conceito de gestão empresarial mais a fundo.
(borracheiro, encanador, pintor) e a prestação de serviços pessoais, tais como pensões, serviços de refeições,