Após incorporar ao roteiro de entrevista a série de observações feitas nas palestras e ter obtido o aval dos gerentes, foi possível marcar as visitas aos supermercados de Belém. Iniciou-se com a Gerente de Recursos Humanos do supermercado S1, por ter sido receptiva à pesquisa desde o primeiro contato telefônico, mesmo tendo transcorrido quarenta dias entre o primeiro contato e a entrevista propriamente dita. Nessa empresa, entrevistou-se uma gerente, uma operadora de caixa, um encarregado de salão e uma auxiliar administrativo, além da própria gerente de RH. Foram entregues à pesquisadora os manuais e relação dos empregados da empresa e, também, foi permitido acompanhar todo o processo seletivo de um grupo de candidatos a diversos cargos para o período natalino. No supermercado S2 também houve um bom acolhimento da pesquisa; forneceram dados detalhados sobre a estrutura da empresa, mas, inicialmente, a Diretoria não autorizou o acesso aos empregados, o que veio a fazer mais tarde.
Nos demais supermercados, o contato ficou restrito à entrega da carta de solicitação de pesquisa no protocolo geral ou no balcão de atendimento, visto que as respectivas gerências não se dispuseram a ter nem mesmo uma conversa telefônica com a pesquisadora. O Supermercado S4, entretanto, forneceu os dados exatamente da forma como foram solicitados e no prazo que havia estabelecido, quinze dias. Aliás, isso foi uma surpresa, pois todas as demais empresas prorrogaram constantemente os prazos, a maioria das vezes sem aviso prévio: chegava-se lá no dia e hora estabelecidos e apenas diziam “ainda não está pronto”, e remarcavam.
Nos supermercados S3 e S5, houve certa rejeição ao estudo proposto, problema que foi parcialmente contornado no primeiro. A gerência de RH do supermercado S3, além de não receber a pesquisadora, após muitos telefonemas e visitas infrutíferas, solicitou que a recepcionista comunicasse que a Diretoria não havia autorizado fornecer informação alguma sobre o grupo. Aguardou-se um tempo e fez-se um novo pedido, em termos mais sucintos. Com esse segundo pedido, obteve-se somente o número de empregados, em um papel manuscrito, sem assinatura. Mas, através de alguns formulários disponíveis na sala de espera do Departamento de
RH, conseguiu-se as normas disciplinares da empresa (deveres e direitos dos empregados). Outras informações foram encontradas na mídia impressa. Posteriormente. a diretoria autorizou a aplicação do formulário em todas as lojas desta rede. Já o supermercado S5 forneceu apenas uma publicação interna, de 2000, com informações gerais sobre o grupo, cujos dados estavam claramente desatualizados. Retornou-se após trinta dias e reafirmou-se, formalmente, o interesse de incluir o grupo na pesquisa, mas até o último momento da pesquisa de campo não se obteve resposta, apesar de inúmeras reiterações. Os outros três supermercados se recusaram a dar informações.
Enquanto se viabilizavam os contatos nos supermercados de Belém e para verificação semântica e de pertinência do conteúdo do instrumento de coleta de dados, aplicou-se os formulários de pesquisa em três supermercados de Benevides (PA), sendo que apenas um deles permitiu colher o depoimento dos empregados, conforme referido. Esse procedimento foi muito instrutivo para o estudo, porque, aliado às observações feitas na feira Super Norte, mostrou algumas especificidades dos trabalhadores e a maneira empírica de gestão em pequenos empreendimentos, especialmente no que se refere aos recursos humanos.
1.10.1 Explorando o campo em Benevides, Pará
Em Benevides, foram dezesseis empregados entrevistados, dos quais sete com idade entre dezenove e vinte e cinco anos e os demais (nove), entre vinte e sete e quarenta e cinco anos. A idade média de vinte e oito anos indicou que não há predominância de trabalhadores muito jovens, saindo do ensino médio, como a princípio se pensava. Todas as cinco mulheres trabalhavam como operadoras de caixa e atendimento de balcão; as outras funções, inclusive a de encarregado, eram ocupadas por homens.
Os gerentes informaram “preferir” trabalhar com a mão de obra feminina, principalmente para as tarefas de atendimento. A divisão sexual do trabalho observada confirma a informação (há mais mulheres na “Frente da Loja”), mas isso não se reverteu em maior número de empregos femininos. O tempo médio de emprego encontrado nos supermercados de Benevides foi de dois anos (24 meses), a metade da média brasileira estimada para a atividade comercial (RAMOS; CARNEIRO, 2002) 5.
5 De acordo com estudo de RAMOS e CARNEIRO (2002) sobre os condicionantes da rotatividade do mercado de trabalho brasileiro, a alta taxa de rotatividade, estimada em 7,9% para o período de 1985-2001, não pode
Surpreendeu também o nível de escolaridade dos empregados: dez trabalhadores possuíam o Nível Médio completo, cinco o Nível Fundamental, e apenas um, o empregado mais antigo, tinha apenas o Nível Fundamental incompleto. Os gerentes indicaram a educação formal como um atributo desejável (mas não indispensável), porque perceberam que os empregados com nível de escolaridade mais alto aprendiam mais facilmente as tarefas. Aliás, o treinamento ocorria exclusivamente em serviço, com a orientação de um empregado mais experiente. De acordo com os respondentes, as empresas não investiam na formação dos empregados, tampouco exigia ou criava condições para que eles o fizessem por iniciativa própria.
Outro aspecto que se destacou foi o regime de trabalho. Os empregados trabalhavam todos os dias da semana (nove a dez horas diárias), inclusive no dia que seria de sua folga semanal, mediante o pagamento de uma gratificação, em torno de R$ 20,00 (vinte reais) a diária. O direito à folga só é exercido para “resolver algum problema” pessoal ou de saúde, porque os empregados precisam dessa “ajuda” para aumentar o salário, em média R$ 503,00 (em out. 2006), já acrescidos das horas-extras.
Apesar da longa e contínua jornada de trabalho, que muitas vezes excede sessenta horas semanais, o depoimento dos empregados e dos gerentes mostrou que a rotina diária permite o convívio com familiares, vizinhos e conhecidos durante o tempo do trabalho. A proximidade do local de residência admite almoçar em casa ou mesmo cria a possibilidade de que os familiares e outras pessoas de suas relações frequentem o estabelecimento como clientes ou mesmo para algum contato pessoal necessário. Essas informações indicaram a necessidade de se acrescentar, no formulário, perguntas abertas sobre o uso do tempo do trabalho e do tempo livre pelo trabalhador.
1.10.2 Primeiras entrevistas no Supermercado S1a
Uma nova verificação sobre a pertinência da coleta desse dado, para a apreensão do vínculo gestão–sociabilidade, foi feita com o público-alvo da pesquisa, no supermercado S1, no qual foram entrevistados três empregados do nível operacional e um nível gerencial. As entrevistas versaram sobre as políticas e práticas de gestão de recursos humanos da empresa, com ênfase no processo de recrutamento e seleção e regime de trabalho, para averiguar os critérios e ser atribuída à estrutura do mercado de trabalho; ela é inerente à sazonalidade do processo produtivo dessa atividade, caracterizada pela alta rotatividade (turnover) da mão-de-obra e vínculos curtos de emprego.
exigências da empresa, seu cumprimento pelos candidatos e empregados e, finalmente, conhecer que atividades os empregados desenvolvem em dia de trabalho e em dia de folga.