3 DATA OG METODE
3.3 VALG AV METODE
Uma primeira subcategoria de análise refere-se diretamente à questão pessoal, abordando conseqüências ou resultados da inserção em projetos de voluntariado numa linha mais pessoal, interna ao próprio indivíduo participante, e que influenciam seu modo de ser, pensar e agir, atingindo aspectos de sua formação pessoal.
Nesse sentido, a prática do voluntariado apresenta-se como uma experiência muito rica de vida, contribuindo intensamente para o crescimento e amadurecimento pessoal em geral. Essas mudanças, conforme entendimento dos estudantes, se faz sentir em diversos aspectos, áreas ou sentidos, desde o âmbito das relações com as pessoas, abrindo para a percepção da existência do outro com necessidades e problemas, provocando mudanças, requerendo um outro olhar, como destacam vários participantes da pesquisa.
Como um todo eu acho que passei a ser mais humana, a pensar um pouco mais nas pessoas, nas atitudes, né, ser mais social, menos individualista (Araci).
A questão de trabalhar com o ser humano você aprende a ser mais humano; cada dia que passa, você aprende a ser mais humano, você aprende a respeitar, a valorizar, a ouvir (Saíra).
Mas eu acho que é importante, acho que amadurece. Eu assim participo de outro (projeto) que não é desta universidade, mas eu acho muito importante esse projeto daqui porque muda a gente. É uma experiência de amadurecimento da gente, o projeto abre a mente, você sai daquele mundinho em que você está, você conhece outras coisas (Jurema).
A gente amadurece muito quando vai para a comunidade. [...] É um aprendizado grande; eu sei que amadureci bastante; nesses setes meses que eu entrei no projeto eu amadureci dez anos. Ajuda a gente a ter uma maior sensibilidade para compreender melhor as coisas que acontecem ao redor (Yara).
Nessa mesma linha, outros depoimentos reforçam esse sentimento e constatação apontando alguns elementos mais específicos de amadurecimento enquanto pessoa, mudança de atitudes, superação de limitações e fragilidades pessoais, preenchendo deficiências na
comunicação e interação, acreditando mais nos outros, como resultado do ‘meter-se’ em programas de ação voluntária.
Acho que me ajudou muito no meu emocional, eu tinha pânico quando a questão era a comunicação em público. Depois que eu comecei a participar do projeto de extensão me ajudou bastante, você interage melhor com as pessoas, você conhece, vê a questão da humildade e dá muito valor ao diálogo [...] me faz sentir em um ambiente confortável, digamos que equilibrou o emocional (Juacema).
Eu acho a questão mesmo da desenvoltura na comunicação. O projeto ajuda bastante na questão até mesmo no caso se for uma pessoa tímida, ajuda na questão da desenvoltura na comunicação e interação com as pessoas (Acauã).
O projeto com certeza me ajuda a trabalhar mais minha paciência, a minha força de vontade, a insistência, e acreditar que todo mundo é capaz de aprender, de se envolver, se tornar uma pessoa melhor; então eu acho que com isso, juntando tudo, eu estou me tornando uma pessoa melhor e ajudando as pessoas que lá estão - na comunidade (Saíra). Eu vejo o projeto como um crescimento também, como do caráter, porque se é voluntário então você tem que ir disposto, tem que ter disposição, tem que ir pra ajudar [...] e você acaba aprendendo outras coisas, a ter mais amor ao próximo, ter paciência (Mariú).
O voluntariado oportuniza um aprendizado diversificado, traz uma série de conseqüências para os participantes, a partir da interação com outras pessoas e do conhecimento de outras realidades. Nesse contexto, aprender a praticar a atitude da escuta parece fundamental. É o que confirma a estudante Ceci: “[...] antes tenho que saber fazer a escuta daquele grupo onde vou trabalhar pra sentir suas necessidades, trabalhar muito a questão da escuta.” Da mesma forma acentua Ubiratã, ampliando, porém, o seu olhar para um pouco mais longe: “[...] Esse diálogo com a comunidade contribuiu significativamente com a minha formação; enquanto pessoa a gente aprende a respeitar mais, aprende a escutar mais, aprende a dialogar a partir de uma realidade específica”.
Já a estudante Maíra participa de dois projetos de voluntariado, “um mais do lado social”, como ela refere, realizado com jovens de uma paróquia, e outro, dentro da universidade, um laboratório de finanças, mais voltado para o espírito do mercado financeiro da modernidade. Assim expressa sua visão dos impactos: “o projeto realizado com jovens de uma paróquia, fora da universidade, impacta mais a minha vida pessoal, permitindo conhecer outras realidades, e há um choque de realidades”. Faz alusão à oposição entre os princípios que fundamentam os objetivos e linhas de orientação dos dois projetos.
Ainda no campo da formação pessoal, impactos sentidos pelos estudantes confirmam que a participação em projetos de voluntariado lhes possibilitou a aquisição de uma série de
conhecimentos novos, prazerosos, incluindo mesmo mudança de hábitos e costumes, abrangendo mudança de concepções em relação à determinada categoria de trabalhadores, bem como cuidados a ter presente no trato com as pessoas, como alguns deles revelam.
A participação no projeto já hoje me traz uma maior desenvoltura para falar com as pessoas, e você passa a ter uma outra percepção da sua vida, que você tem bastante coisa, às vezes a gente reclama de coisas bobas, enquanto a gente vê essas mulheres que trabalham pegando ônibus tarde de noite para voltar para casa, então você passa a compreender que apesar de sua vida ter coisas ruins e você ter o direito de reclamar, mas você passa a reclamar menos e tenta resolver certas coisas erradas (Yara).
É bom o envolvimento com outras pessoas, conhecer os grupos na comunidade [...] e você se sente livre, você não vai fazer uma coisa tão obrigatória, mas uma coisa que lhe dá prazer, você sai de dentro de casa e vai pra fora, ter contato com um outro mundo, é interessante por isso. O que mudou foi essa coisa mesmo do conhecimento que eu adquiri (Coaraci).
Porque assim lá no projeto, na comunidade, a gente acha que vai ensinar, mas a gente acaba aprendendo mais; [...] mas tem estudante que tem a petulância de achar que vai lá ensinar e tem que ter toda uma abordagem social para não ver as pessoas como objeto, são pessoas e você precisa entender a subjetividade de cada pessoa. [...] Eu aprendi muito com as histórias de vida, igual eu chegava lá passava a tarde de domingo lá na Cooperativa Reciclo, e um senhor da cooperativa falava: ‘ah, vocês vem e vão embora, tudo bem, mas aqui é nossa vida’.[...] E também estar nessa comunidade me fez perceber que antes, por exemplo, eu não separava lixo, tinha vidro e eu jogava de qualquer jeito, lá na comunidade tem gente que foi infectada pelo lixo, ter mais cuidado lá em casa, se quebrar algo eu enrolo no jornal para ter esse cuidado com o catador, ele não é um lixeiro, ele é um catador, e ele é um agente ambiental também (Piatã).
Conforme visto, foi possível perceber variados impactos ou consequências de caráter subjetivo que podem afetar a vida pessoal dos participantes. Destaca-se o aporte do voluntariado para o crescimento e formação pessoal, para a mudança de atitudes e hábitos, bem como a superação de limitações de ordem pessoal. Também contribuiu para o desenvolvimento da necessária atitude da escuta no diálogo com a comunidade, sem descartar eventuais benéficos choques de realidades, possibilitando o alargamento do olhar social, assim como a aquisição de prazerosos novos conhecimentos.