Dentro da categoria dos impactos ou mudanças produzidas pela prática do voluntariado sobre as formas de compreensão de mundo e de sociedade, a pesquisa levantou uma variedade bastante ampla de ideias e opiniões a partir das manifestações dos entrevistados. Sem dúvida, importa tentar perceber alterações ocorridas, em função ou a partir das práticas de estudantes que assumiram atuar em programas de ação voluntária, durante determinado tempo, ao longo de sua trajetória acadêmica na universidade.
Constata-se uma diversidade de modos de pensar a respeito desta inquirição. Ao mesmo tempo verifica-se uma certa incidência de acentuação sobre determinados aspectos ou contribuições em relação a mudanças produzidas sobre a visão de mundo e de sociedade, provenientes do envolvimento no voluntariado.
Uma delas está relacionada com a abertura ou mudança de olhar, por exemplo, em relação à situação de pobreza e miséria social constatada e sentida pelos voluntários nesse contato e interação com grupos sociais, nas comunidades onde tiveram oportunidade de se envolver com projeto de ação socioeducativa. Em vários casos, segundo os depoimentos, houve um rompimento de preconceitos em relação a determinados grupos ou situações sociais, possível num relacionamento mais próximo que foi estabelecido através do projeto.
A gente observa e lida com pessoas que têm adoecimento crônico, né, e assim eu fiquei pensando em mim, no meu futuro. Essas pessoas que são idosas têm muita história pra contar [...] eu acho que pra vida da gente é bom conhecer pessoas, é bom ter essa experiência de vida delas. [...] Antes a gente sempre tem um certo preconceito com as pessoas idosas, né, que são teimosas, que não seguem dieta porque não querem, e eu vi que não é bem assim. Não é teimosia. Quando você conversa com essas pessoas, quando você conhece um pouco da história delas, e muitas delas têm histórias muito sofridas, você vê que não é teimosia não... eu acho que já trato bem melhor do que antes, sem preconceitos delas (Iracema).
A gente enxerga muito assim essas cidades satélites assim mais periféricas como perigosas, como que não tendo valor, o que se escuta muito é a rotulagem, que são pessoas ignorantes e todos esses paradigmas são quebrados a partir do momento que você conhece aquela comunidade, você aí às vezes descobre que é um grupo bem estruturado, um grupo responsável que pensa na melhoria e no crescimento daquele ambiente [...] Então você começa a ver, a quebrar um pouco desse seu olhar de rotulação que você escuta muito nos jornais [...] então vejo essa realidade com outro olhar, com outra visão (Ceci).
Muitas questões a gente pensa através do senso comum, que a gente vê assim aparentemente, o que a mídia diz, e hoje você vê que há muita coisa mal feita, muita irresponsabilidade do Estado e também da própria sociedade. [...] ainda existe uma estrutura da sociedade que é racista, sim, e que também é ainda machista, e como isso traz consequências para as pessoas que moram nos lugares mais humildes, de como elas passam uma vida realmente de dificuldade [...] isso mexeu com meu modo de ver as coisas (Yara).
Percebe-se que as rotulações e estigmatizações que se produzem sobre determinados grupos humanos ou realidades sociais, segundo alguns dos participantes do estudo, em boa parte são atribuídas à forma como a mídia produz a informação e faz sua divulgação. E a aproximação com estas realidades sociais distintas, o conhecimento mais aprofundado das mesmas, contribui para a mudança de visão. Isso é reconhecido por alguns dos voluntários. Causa impacto positivo.
Sim, todo mundo sabe como é a sociedade, mas ninguém realmente vê, tipo não enxerga de pertinho aquilo mesmo que está acontecendo. Acho que acaba gerando um impacto positivo na gente, você acaba vendo realmente de perto o que a gente só escuta no jornal. [...] Aqui no projeto a importância que eu vejo é que você acaba vendo que vive num mundinho seu todo perfeito, e você acaba vendo que tem outras pessoas que também precisam (Mariú).
Sem dúvida, uma coisa é você estar sempre ali, as pessoas falando sempre a mesma coisa, é diferente de você vivenciar, porque a partir do momento que você vivencia, você sente, então eu acho que isso muda muito, eu acredito que mudou muito a minha visão sobre muitas coisas. [...] Eu acho que se fosse antes não me questionaria, seria normal assim algumas coisas, que hoje eu olho e falo que não, que tem tudo uma conseqüência (Jurema).
Participando de projeto de atuação junto a mulheres trabalhadoras domésticas, a voluntária Içara também aponta uma contribuição significativa que essa oportunidade lhe ofereceu no sentido de compreender melhor o papel da mulher na sociedade, além de começar a dar-se conta de problemas ou conflitos de gênero que ocorrem com frequência, nas relações homem e mulher.
Enquanto pessoa, como sou mulher, eu não entendia o porquê de tanta diferença entre homem e mulher, e não tinha um conhecimento mais pleno e mais abrangente das dificuldades que têm ainda hoje pra integrar a sociedade, para estar dentro. E hoje eu vejo com mais clareza quais são as dificuldades de uma mulher e como as mulheres podem ter uma vida mais participativa e mais digna. [...] Foi uma descoberta muito grande sobre o trabalho da mulher e sobre o papel da mulher na comunidade, na sociedade.
Para o estudante Acauã o projeto também lhe provocou mudanças no modo de pensar e compreender algumas questões importantes da sociedade plural, captando algumas compreensões que lhe parecem significativas, conforme revela:
A gente consegue perceber as variações, a heterogeneidade da nossa sociedade. A gente percebe isso em relação ao que cada indivíduo traz, a sua carga de história de vida, de experiência, de conhecimento, e até na questão socioeconômica. A gente percebe é a questão da desigualdade como um desafio a trabalhar. [...] Eu refleti que o conhecimento, mesmo ele estando lá disposto pra comunidade carente, eu acho que tem um desinteresse assim, não é uma coisa que desperta a vontade daquela parte carente de se mover em direção daquilo. [...] Eu acho que é também uma questão de prioridade. No caso, uma família carente, as prioridades dela são conseguir a sobrevivência a todo custo. [...] Eles não priorizam a parte do conhecimento, até mesmo porque eles têm uma série de questões que impedem de eles buscarem esse acesso.
Outros participantes do estudo também externam sua opinião a respeito de impactos sentidos e contribuições que a participação em projetos de voluntariado lhes ofereceu,
notadamente no que se refere à percepção da questão da desigualdade social existente, e perspectivas ou possibilidades de mudanças na sociedade. Assim se expressa Saíra: “Eu acho que a sociedade pode melhorar, mas mudar cem por cento, sinceramente eu não acredito, pode melhorar e muito, mas assim gradativamente, em passinho de tartaruga”. A voluntária Jurema corrobora: “[...] acho que não vai mudar da noite pro dia, acho que sozinho também não vai, mas eu acho que pelo menos aonde eu vivo eu posso ficar tentando”.
Nesse sentido, também a voluntária Jandira atesta que o projeto lhe provocou algumas mudanças no modo de ver perspectivas de mudança na sociedade.
[...] então isso me gerou esperança: gerando oportunidades você pode gerar mudanças significativas. [...] Mudar a sociedade depende de uma série de coisas. A gente não faz nada sozinho, a gente pode agregar, e com essa oportunidade que eu tenho posso contribuir, sim, dar minha parcela de contribuição.
Os projetos de voluntariado também têm um potencial de poder produzir ou despertar consciência crítica, provocar mudanças nas formas de relacionamento com os grupos beneficiários, com as comunidades que recebem ou participam do projeto de ação voluntária, bem como despertar o desejo e o compromisso com a mudança social. É o que pode denotar o exposto a seguir.
Nestes projetos eu consegui aprender a ser mais crítica, não só do lado social, mas também quanto a outro projeto da universidade. Eu preciso realmente conhecer outros lados, as outras fases, e eu tirar minha visão de não ver o que é opinião como verdade absoluta; eu aprendi a ser mais crítica [...] nunca aceitar nada como verdade absoluta, mas buscar conhecer mais, aprender mais. [...] Essa determinação de mudar a realidade, de querer transformar a realidade é o que me fascina (Maíra).
A oportunidade da participação em projetos de ação voluntária, entre outros resultados, considerando a subcategoria impactos sobre a compreensão de mundo e de sociedade, na aproximação da comunidade, inserindo-se no seu ritmo, possibilita perceber que há uma esperança de que é possível fazer acontecer mudanças no mundo na organização da sociedade, a partir de baixo, dos grupos excluídos e silenciados, num permanente processo de diálogo, de mais escuta do que de pronúncia de palavras, de processos participativos de fato. E a academia pode ter, sim, uma contribuição a dar, desde que queira sentar com a comunidade, pensar juntos e fazendo os processos sem querer pular etapas. De fato se comprometa de forma muito responsável e respeitosa com relação à comunidade. No entanto, não poucas vezes esses processos não são respeitados. E a fala seguinte confirma isso e apresenta uma espécie de denúncia em relação ao procedimento de universitários que usam
informações da comunidade apenas para fins de trabalhos de conclusão de curso, revelando a expectativa da comunidade quanto à presença da academia, de universitários junto a ela.
Uma das questões que uma das lideranças nos mostrou nos primeiros encontros, foi que às vezes a academia, né, com superioridade, no sentido de ir lá fazer um trabalho e voltar, então ela nos deixou bem claro: ‘não é isso que nós queremos da universidade no momento, nem depois, é importante que vocês tenham isso bem claro, que a comunidade está cansada de estudantes que vêm fazer trabalho para defender suas monografias e dissertações e não ter nenhum retorno. Então nós queremos parceiros que possam caminhar com a gente, não apenas estudantes [...]’ (Ubiratã).
Conforme foi possível ver nesse item, os principais impactos sentidos foram: a ruptura de preconceitos e rotulações mediante o conhecimento da realidade social para além do senso comum, possível por meio de relações respeitosas de proximidade com a comunidade, o que também ajudou a ampliar a visão sobre o papel da mulher na sociedade, para além de cuidadora do lar e dos filhos, procurando superar conflitos de gênero, buscando fazer valer seus direitos como mulher e como cidadã. Outro impacto foi o despertar de maior consciência da desigualdade social existente e de suas origens, e em conseqüência, o desejo de contribuir para a transformação da sociedade, alimentado pela esperança da mudança possível, a partir ‘dos debaixo’, pela efetiva participação dos grupos sociais excluídos e descartados, num processo lento e gradual.
Concluindo esse capítulo verificamos que a sistematização dos dados e informações coletados possibilitou a verificação de uma série de resultados que apontam para a realização dos objetivos propostos para a presente pesquisa.
Como foi possível perceber na categoria de análise perfil e identidades dos participantes, mais da metade dos jovens estudantes envolvidos na investigação dependem do apoio econômico da família e do aporte financeiro obtido mediante alguma forma de benefício em forma de bolsa de estudo, para seguirem os estudos de graduação na instituição. Em termos de vinculação com a universidade, destacam-se os projetos de voluntariado socioeducativo que estão integrados à Pró-Reitoria de Extensão. A grande maioria dos estudantes dedica-se unicamente aos estudos, sendo relativamente poucos os que estudam e trabalham. Quase a metade dos estudantes permaneceu no projeto de voluntariado por ao menos sete meses, período razoável para uma boa experiência de voluntariado. Quanto à questão gênero, a quase totalidade dos participantes é do sexo feminino. A presença massiva da mulher no voluntariado seria em decorrência natural do instinto maternal de cuidado da criação e educação dos próprios filhos? Há os que assim pensam.
Com relação às motivações ou energias impulsionadoras para o envolvimento em programas de voluntariado, nossa segunda categoria de análise, conforme vimos, o estudo destacou várias subcategorias, enfatizando diversos elementos em cada, a saber: a) motivações de ordem interna e pessoal - a busca do aperfeiçoamento pessoal e melhoria da auto-estima, o fortalecimento do sentimento de bem-estar e de satisfação interior, a ocupação mais útil do tempo ocioso; o sentido de pertença a um grupo, a comunicação e o aprimoramento de experiências de convivência e de relacionamento interpessoal positivas para a construção equilibrada do ego, bem como a aprendizagem de novos conhecimentos, e o desenvolvimento de novas habilidades, capacidades e potencialidades; b) motivações de caráter altruísta - a sensibilidade de abrir-se às necessidades das pessoas e da comunidade proporcionando ajuda e solidariedade, os processos de conhecimento da realidade social a proposta metodológica e política de projetos que favorecem o diálogo de conhecimentos da academia com os saberes da comunidade para a melhoria da convivência humana, assim como o desejo de envolvimento em movimentos e organizações sociais diversos, o intercâmbio de conhecimentos, experiências e práticas com a comunidade e seu impacto sobre os processos de ensino e aprendizagem dentro da academia; c) motivações utilitaristas - a obtenção de conhecimentos e aprendizagens úteis em vista de oportunidades de atuação vindouras, a aquisição de novas práticas de trabalho com grupos sociais diversos, bem como a obtenção de algum tipo de benefício curricular em proveito profissional futuro; d) outras razões motivadoras - a influência de pessoas próximas (família, professores, colegas), a experiência da participação anterior em algum projeto similar, bem como a prática em vista do fortalecimento da cidadania.
Em relação à terceira categoria de análise, como visto, também há várias subcategorias de impactos que também se expressam em diversos itens: a) impactos de ordem mais subjetiva – o crescimento e amadurecimento pessoal, a mudança de atitudes e hábitos, a superação de limitações pessoais de comunicação e a interação com outros grupos, o conhecimento de outras realidades, assim como a aquisição de novos conhecimentos e novas experiências pessoais; b) contribuições na formação acadêmica - o exercício da escuta e do diálogo, a interação dos conhecimentos acadêmicos com os saberes experienciados nos grupos comunitários envolvidos, fomentando a diversificação da leitura e da pesquisa acadêmica, o contato com novas experiências de vida, o desenvolvimento de consciência de maior capacidade crítica; c) quanto a consequências para a vida profissional - abertura de portas para oportunidades de trabalho e caminhos de preparação para o exercício profissional, possível influência na escolha da profissão e mesmo na definição ou redefinição de estudos
acadêmicos; d) em relação à concepção de mundo e de sociedade - a mudança de olhar social que trouxe maior conhecimento da realidade de desigualdade social existente, a desconstrução de preconceitos, rotulações e estigmatizações sociais e de gênero, assim como o despertar de compromisso de trabalho para a mudança social, assegurando acesso a iguais oportunidades para todos.
5 DISCUSSÃO
A presente pesquisa teve como objetivo investigar a participação de jovens universitários em projetos socioeducativos de voluntariado, quanto ao seu perfil, às razões motivadoras para a ação voluntária, e quanto às consequências ou impactos produzidos nos seus processos formativos. Neste capítulo serão discutidos os resultados da investigação realizada, à luz das contribuições teóricas de diversos autores visitados na composição do embasamento teórico do estudo.
A discussão e as conclusões serão balizadas pelos objetivos específicos da investigação, identificando o perfil dos participantes, as motivações presentes e os impactos e contribuições proporcionadas pela prática voluntária estudantil.