3 DATA OG METODE
3.4 ETISKE OVERVEIELSER
A prática do voluntariado socioeducativo tende a revestir-se de grande significado e valia para os universitários. Seu envolvimento em programas dessa natureza tem impactado de diversas formas e intensidades na sua trajetória acadêmica. Praticamente todos os estudantes entrevistados afirmam e destacam com entusiasmo as influências, conseqüências
ou aprendizagens obtidas como lhes sendo muito importantes e, sobretudo necessárias. Apenas um dos entrevistados considera o voluntariado como valioso em termos mais pessoais, afirmando não ter percebido impactos de importância na sua formação acadêmica: “Vejo como positivo mais como pessoal, mas no acadêmico não vejo muito assim” (Mariú).
Entre os múltiplos impactos percebidos, o diálogo e a interação de conhecimentos foram amiúde notados. A relação teoria x prática, conhecimento teórico x conhecimento experiencial, conteúdo de sala de aula x conhecimentos dados pela realidade social envolvente, academia x comunidade são dualismos que são destacados com intensidade e repetidas vezes. Os testemunhos que seguem retratam dificuldades e conseqüências resultantes dessa compreensão dicotômica.
Existe uma dicotomia grande entre o teórico e o prático. [...] O projeto de voluntariado contribui, sim, porque eu consigo assimilar melhor, acomodar melhor a aula teórica na sala quando eu trago o projeto, do que ter visto só a aula teórica, sem ter tido contato com a prática (Juacema).
[...] melhorar nosso aprendizado na prática é muito bom. Às vezes a gente aprende na aula e deixa passar, aí chega na prática, além da gente entender melhor, aprende mais com a prática (Juçara).
Sem essa saída do universitário (referência ao projeto de voluntariado na comunidade) ele não teria conhecimento da realidade. O projeto ajudou muito porque eu adquiri muito conhecimento que eu não tinha, eu descobri muita coisa em relação ao trabalho das mulheres, o trabalho doméstico [...] Está ajudando na formação acadêmica porque a gente quando vê uma realidade no livro a gente muitas vezes não sabe nem interpretar e nem como colocar em prática. Então é muita informação que às vezes fica no vazio, a gente não consegue colocar na prática (Içara).
No entendimento de Acauã a experiência do voluntariado também traz essa significação: “é uma forma de colocar em prática muitas teorias que a gente aprende em sala de aula”. Na mesma linha prossegue Juacema, expressando sua convicção de que teoria e prática não devem temer morar na mesma casa e andar juntas, de preferência de mãos dadas.
Contribui para a formação, sim, porque você pode pegar, você vê que nem sempre toda a teoria você pode aplicar, sabe, na sala de aula, coisas que você aprende pra fazer então na teoria você tem que fazer na prática [...] Acho que na construção da teoria e da prática você assimila o conteúdo, você assimila de maneira diferente, você pode ter esse embate, o tanto que o meio pode influenciar, isso ajuda bastante; eu acho que eu consigo assimilar melhor, acomodar melhor a aula teórica na sala quando eu trago o projeto, do que ter visto só a aula teórica, sem ter tido contato na prática.
O conhecimento produzido e trabalhado em sala de aula tende a estar um tanto distante da prática requerida do estudante que completa um período de formação acadêmica. Com alguma freqüência ouve-se a expressão ‘a teoria na prática é outra’, como destaca Iracema: “Eu acho que a faculdade ajuda nesse sentido, de realmente ver que na teoria é uma coisa, mas na prática é um pouquinho diferente”. Os conhecimentos acadêmicos, via de regra repassados pelos professores e pelos textos didáticos, vêm acompanhados de razoável grau de dificuldade para dialogar com os saberes advindos da vida, da prática do dia a dia, do movimento constante da realidade social envolvente. Iracema continua reforçando esse descompasso:
Eu estava fazendo uma disciplina de projetos, e só que na teoria a gente tem uma ideia de como montar o projeto, mas quando eu estava lá na prática, aí às vezes você vê que não dá certo aquilo que você planejou, você planeja uma coisa e tem que mudar o planejamento.[...] A impressão que a gente tem na disciplina é que o que você preparou ali você vai fazer lá fora, e quando eu estava inserida no projeto eu vi que não é bem assim.
Outras manifestações realçam os resultados considerados positivos, que de modo geral os projetos de voluntariado trazem, forçando para a ampliação e diversificação das leituras, bem como do exercício da pesquisa. De outra parte, continua se chamar a atenção para a lacuna ou distanciamento entre as práticas acadêmicas e o contexto da sociedade em que a academia ‘reside’ e está fixada, mas não organicamente articulada com seu entorno social.
Em termos de benefício para a formação acadêmica esses projetos ajudam a gente a ter uma visão mais social das questões do Brasil, das questões envolvidas no meu curso, ajudando a levar o direito para o lado mais social, mais acessível à população em geral (Jandira).
Sim, ajudou bastante na formação acadêmica. Primeiro, que a gente pra fazer o projeto tem que ler bastante para agregar conhecimento e poder levar alguma coisa. A gente não pode chegar lá (na comunidade!), sem nada então faz com que a gente pesquise mais e, além disso, nós estamos na universidade e vemos toda teoria [...], mas a gente não tem ideia como vai ser na prática, então fica meio perdido, de como colocar isso em prática. [...] A gente começa a parar pra refletir, então começa a ligar uma coisa com a outra (Yara).
Nessa mesma direção, reforçando a necessidade da articulação e vinculação dos conhecimentos tratados no interior da academia com os conhecimentos e saberes produzidos no espaço externo, na realidade do seu entorno, segue outra ponderação que convém ser
considerada pela sua relação e contribuição para a formação acadêmica dos participantes do voluntariado.
O voluntariado contribui sim, significativamente. Eu estou procurando estabelecer contato com aquilo que aprendi na sala assim, né, e outra coisa, esse diálogo dos saberes, aquele saber que nós produzimos na academia e esse saber que já é dado pelo povo, que eles constroem com o tempo, contribui significativamente com minha formação acadêmica. [...] você aprende a dialogar a partir de uma realidade específica [...] que passa para a própria vida acadêmica, contribui enquanto pessoa, enquanto ser humano que está em determinada sociedade, que ocupa determinado lugar no mundo (Ubiratã).
A verificação da importância da participação em projetos de voluntariado, considerando as contribuições significativas e benefícios oriundos desse envolvimento, traz à tona uma questão prática relevante, e que na fala de alguns dos entrevistados foi traduzida numa proposta bem concreta, que poderia ser útil para vincular o conhecimento de sala de aula com o saber produzido no dia a dia da comunidade. Os depoimentos que seguem revelam essa questão como tentativa de contribuir para a superação ou pelo menos a diminuição da cisão entre a teoria e a prática, aproximando academia e comunidade envolvente.
Eu acho que é muito importante para a formação acadêmica a participação no projeto de voluntariado. Se todo aluno pudesse estar vinculado a algum projeto social no plano da universidade, podendo levar a universidade pra fora, eu acho isso de extrema relevância; eu acho muito importante pra gente ter essa visão de mundo diferente, e ajuda a gente a ter uma humildade diante da vida, então em termos de aprendizado é muito bom (Jandira).
Na interface da comunidade com a universidade [...], com certeza o projeto ajudou muito, inclusive acho que todos os estudantes deveriam participar porque a gente limita muito na sala de aula e a aprendizagem assim na prática é bem melhor. [...] A gente aprende a lidar com a realidade mesmo e também saber ter uma abordagem na comunidade porque a gente [...] tem muito estudante que tem a petulância de achar que vai lá ensinar, e tem que ter toda uma abordagem social para não ver as pessoas como objeto; são pessoas, você precisa entender a subjetividade de cada pessoa (Piatã).
A prática do voluntariado em projetos socioeducativos, seja dentro do espaço da academia, e mais ainda quando estes são realizados junto a grupos específicos ou comunidades fora do recinto da universidade, oportuniza o contato com novas experiências de vida e a absorção de novos conhecimentos que, sem dúvida, enriquecem o processo da formação acadêmica, desde que haja abertura para tanto. Isso, porém, não ocorre como num toque de mágica, bastando o voluntário passar algumas semanas ou meses na junto a este
grupo ou aquela comunidade. Requer trabalhar certo grau de sensibilidade e humildade para a respeitosa escuta do outro, do diferente, como já aludido anteriormente.
A ação voluntária também pode produzir outros resultados. Esse choque de realidades permite despertar e desenvolver uma consciência mais crítica, que aprofunda a análise da relação academia – realidade social envolvente. Nesse contexto evidencia-se a questão da relação dos conhecimentos, do diálogo de saberes. É o que se pode perceber no excerto a seguir.
O projeto me faz ver isso. Parto desse princípio de procurar escutar o outro, né, saber que nós de certa forma somos um grupo específico na sociedade, por estar participando, porque somos poucos no Brasil que têm acesso ao ensino superior. Ao mesmo tempo, o próprio nome ensino superior já demonstra certa superioridade que não existe, no sentido de que a superioridade não se dá pelo fato de você ter ou não ter um curso assim, mas pelo fato de você conviver, de você criar juntos. Então a própria ideia de ensino superior acho que é uma ideia muito equivocada, pois que nós sabemos um determinado assunto, um determinado recorte da vida, e que tem que ser dialogado sempre. O que eu procuro é muito maior do que você estar dentro da universidade, né; então sempre procurei ser maior do que aquilo que vi na universidade. A universidade contribui de certa forma, clo, contribui, mas existem outras formas de saberes que precisam ser dialogados, que às vezes, por nossa formação muito positivista, né, temos aí recortes que não comprometem a visão do todo, mas sim, a visão do particular. Nesse sentido o projeto procura dialogar com outros saberes, então estamos dialogando, a comunidade, com o curso de Direito, de Medicina, de Comunicação, então isso ajuda bastante (Ubiratã).
Prosseguindo, Ubiratã segue reconhecendo que a experiência vivida no decorrer da prática do voluntariado nesse período da formação acadêmica lhe foi de grande significado, o impactou positivamente, de tal forma que criou a convicção de que a participação dos universitários em programas de ação voluntária deveria ser ampliada. Também destaca a necessidade de uma maior interação com a comunidade, como forma de desmistificar a ‘superioridade’ dessa forma de ensino.
Sim, foi uma experiência significativa. [...] é algo que procuro desenvolver com atenção; então eu acho que agrega uma forma de conhecimento, agrega responsabilidade nesse sentido de conhecimento, é uma experiência que vale à pena fazer. Todos os universitários deveriam pelo menos se predispor a uma atividade que envolvesse um grupo diferente daquele da academia, porque atividade de reuniões entre acadêmicos a gente pode fazer na academia, mas discutir ideias com a comunidade é bem mais delicado, no sentido de que a linguagem é outra, o posicionamento é diferente do outro, então respeitar esses espaços, acho que é a grande questão da universidade, que às vezes essa falsa arrogância do ensino superior contribui muito para o não sucesso de determinada atividade.
Como consequência do seu engajamento num projeto de presença solidária voluntária na Cidade Estrutural-DF, Ubiratã continua sua reflexão externando sua compreensão em relação ao que chama de postura política da universidade e sua contribuição para a sociedade.
Eu penso que a academia muitas vezes fica muito fechada nos seus muros, então por mais que temos grandes prédios, uma estrutura boa, uma formação considerada boa, se essa formação não tiver um contato direto com as pessoas e principalmente aqueles que mais sofrem com as desigualdades sociais, ela contribui significativamente para o mesmo, né, faz a reprodução do que já é dado, então não é novidade, não traz nada de novo além do que é específico de uma determinada academia. Quando há diálogo, uma busca pra procurar compreender aquilo que passa ao redor, aí não precisa ter prédio, tem que ter pessoas interessantes, ideias boas e uma boa formação, eu digo prédios, mas no sentido muito figurativo, não precisa de uma estrutura toda por baixo que não vai fundamentar nada em si; acho que essa procura de dialogar com o que passa ao redor é muito mais interessante do que ficar anos e anos estudando uma determinada teoria, não sei se isso é uma contramão do que a academia prega, no sentido de contradizer, mas eu penso que deve ter um contato direto, principalmente com a comunidade que a cerca, principalmente os mais pobres.
Estas intervenções sugerem que para contribuir para o crescimento da comunidade onde o projeto de voluntariado é desenvolvido, é preciso fazer um esforço para compreender a realidade concreta, descer até a comunidade. Para isso é preciso despojar-se da auto- suficiência, numa atitude de humildade, despretensiosamente querer aprender com e na comunidade, especialmente dos mais pobres que, mormente não têm assegurado o acesso ao chamado ensino superior. A prática do voluntariado universitário possibilita a oportunidade de enriquecimento da formação acadêmica.
Conforme visto, o envolvimento em programas de voluntariado produz diversos impactos que contribuem para ampliar e aprofundar a formação acadêmica do estudante. Nesse sentido, pode-se destacar: a interação de conhecimentos, o diálogo teoria-prática com o encontro de conhecimentos da academia com os saberes da comunidade, oportunidade em que frequentemente também se revela um razoável distanciamento entre a “liturgia acadêmica” e os conhecimentos e saberes produzidos no contexto social envolvente. O contato com as experiências de vida externas à universidade exige humildade e escuta respeitosa no diálogo de saberes academia-comunidade, possibilitando o desenvolvimento da consciência crítica. Outro resultado experimentado por alguns participantes manifesta-se numa certa convicção criada quanto à necessidade de maior interação da universidade com a comunidade envolvente, sugerindo a participação do conjunto dos estudantes em programas de presença solidária voluntária.