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NASJONALDAGSDISKURS  III:  NORSK  SELVFORSTÅELSE

Para conhecer o perfil dos jovens que participam de programas de atuação voluntária, foi incluído no processo de busca de dados da pesquisa um primeiro rol de itens de informações que possibilitam identificar quem são os jovens voluntários caracterizando alguns traços descritivos. Para tanto, considerou-se a sua situação socioeconômica, levantando informações diversas, tais como renda familiar, trabalho, beneficiário de algum programa de apoio, de bolsa de estudo; curso freqüentado, tipo de projeto socioeducativo assumido e sua relação com a universidade, localização do projeto, tempo de presença e envolvimento no projeto de ação voluntária.

Um primeiro elemento a considerar é que na própria definição do tema da investigação e na conseqüente demarcação do público-alvo, já estavam dados dois elementos caracterizadores do perfil. A pesquisa foi realizada com jovens, entre 18 e 29 anos de idade, sendo eles jovens que freqüentam uma universidade. Portanto, são todos jovens estudantes, em distintos e variados semestres de freqüência acadêmica.

A análise dos dados recolhidos na pesquisa revela que praticamente a metade dos estudantes apresenta um perfil de classe média ou muito próximo disso. São estudantes de situação socioeconômica relativamente confortável. A outra metade apresenta situação bem menos confortável. Os dados indicam que estes estudantes voluntários provêm de meios econômicos bem mais modestos. Relacionando isso com a questão trabalho, percebe-se uma relação de coerência. A quarta parte dos entrevistados também trabalha para contribuir no custeio dos seus estudos. Provêm de famílias de ingressos reduzidos, insuficientes para viver

e pagar os estudos. Os demais setenta e cinco por cento não têm um trabalho regular, porque a necessidade não obriga a tanto. Estes são, portanto, jovens mantidos na universidade pela suficiência da renda familiar auferida. Hipoteticamente falando, estes têm o tempo integral disponível para investir na sua formação acadêmica. Se assim for, teríamos aqui uma situação de falta de equidade, ou de ausência de iguais ou semelhantes oportunidades de formação acadêmica. A rigor os universitários, tendo mais tempo para dedicar-se às tarefas próprias de sua condição de estudantes, estariam em posição de vantagem sobre os demais em termos de aprofundamento e aproveitamento dos estudos, de possibilidades maiores de tempo para a leitura, o estudo, a pesquisa etc. Muito provavelmente a realidade de cada dia revele que essa vantagem na prática não ocorra. Significa dizer que não é uma decorrência ipso facto. Dispor de mais tempo para estudar não significa que isso ocorra de fato. Não há significativas evidências para comprová-lo, nem é objetivo fazê-lo aqui.

Outro componente do perfil dos pesquisados trata do benefício de alguma forma de apoio financeiro, em forma de bolsa de estudo ou mesmo financiamento para tanto. Quase a metade dos estudantes recorreu a alguma forma de bolsa de estudo para assegurar os seus estudos acadêmicos. O dado é significativo porque revela que grande parte dos estudantes provêm de famílias de situação socioeconômica pouco confortável, de baixa renda familiar, que fazem sacrifícios e desenvolvem esforços redobrados para garantir a formação acadêmica dos filhos. Entendemos que este fator contribui para fortalecer a constatação de estatísticas e pesquisas, com alguma frequência divulgadas nas variadas mídias, indicando que o chamado ensino superior continua sendo um privilégio que beneficia uma minoria, e não um direito, a todos assegurado em iguais condições e oportunidades de acesso e permanência, como preconiza a Constituição Federal – CF, assim como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN (BRZINSKI, 2007). Configura fator de empobrecimento da sociedade, de debilitação da prática da democracia e de enfraquecimento da cidadania e de empecilho para que a situação de desigualdade social passe a ser um pouco menos gritante e escandalosa. Cursar uma universidade continua como sonho para a grande maioria dos jovens brasileiros.

Com relação à realização do projeto de voluntariado e sua vinculação com a universidade, os dados analisados mostram que houve uma predominância bem significativa de envolvimento estudantes com projetos ligados diretamente à Pró-Reitoria de Extensão (PROEx), enquanto que foi bem mais reduzida a representação de voluntários em projetos conectados aos cursos de graduação. Talvez essa diferença considerável pudesse ser explicada a partir de uma maior visibilidade dos projetos de ação voluntária vinculados à

PROEx, seja pela sua estruturação, atuação ou presença dos projetos de voluntariado dentro da instituição, ou até mesmo pela sua mais longa história e existência como tal na universidade. A prática da ação voluntária relacionada com os cursos de graduação, com a criação e manutenção de programas dessa natureza, tem uma tradição histórica de mais curta duração. Demandariam de uma estruturação mais adequada, incluindo disponibilidade maior de recursos humanos para orientar e acompanhar a organização e realização de programas de ação voluntária?

É relevante o dado do número de universitários que participaram ou desenvolveram seu projeto de voluntariado fora do espaço físico da universidade. O fato de mais da metade ter participado de ações voluntárias em locais, grupos humanos organizações sociais em comunidades no espaço geográfico do entorno da universidade chama a atenção. Deve se acrescer ainda outro dado que reforça a significação dessa constatação. Entre os voluntários que participaram de projeto socioeducativo realizado dentro do ambiente da instituição, um considerável número deles atuou com grupos constituídos por pessoas oriundas de comunidades do seu entorno e que vinham participar do projeto realizado na universidade.

Essa tendência acentuada de desenvolver ações de voluntariado junto a segmentos sociais ou grupos comunitários fora do âmbito da universidade poderia estar revelando a necessidade de aproximação entre o mundo da academia e a realidade vivida nas comunidades do seu entorno? Estaria expressando a inexistência ou a fragilidade de conectividades significativas entre os conhecimentos que se movimentam no interior do universo acadêmico e a ciência e com-ciência (grifo nosso) dos saberes experienciais que interagem nos espaços e nas vidas que se encontram, des-encontram e re-encontram no dia a dia do lado de fora da academia? Seria a busca do diálogo entre a teoria e a empiria uma explicação razoável dessa preferência manifesta pelos participantes? Isso está amplamente refletido em Charlot (2000), Freire (1997) e outros quando enfatizam a indispensabilidade do diálogo na construção e partilha de saberes. Essa questão perpassa o texto desse capítulo.

Todos os participantes concretizaram seu projeto de trabalho voluntário com grupos ou categorias sociais que manifestaram ou se caracterizaram por alguma necessidade específica dentro do universo plural de necessidades humanas. Tiveram a oportunidade de entrar e permanecer em contato direto e regular com áreas de carência diversas, estabelecendo certo nível de convivência com estes grupos durante pelo menos um semestre, na maioria dos casos, por mais de um semestre, o que lhes possibilitou uma interação razoável com as pessoas frequentantes dos projetos. Um pouco mais de um terço dos

voluntários realizou seu projeto durante apenas um semestre acadêmico, encerrando ali mesmo seu comprometimento voluntário.

O contato direto fazendo o atendimento de crianças carentes com atividades lúdicas e outras de caráter formativo, de jovens e adultos em processos de alfabetização, de grupos de mulheres estudando e conhecendo seus direitos como mulheres atuando como trabalhadoras domésticas, de mulheres e homens sobrevivendo da coleta e trato de material reciclável, de grupos de pessoas idosas com desejo de aprender, de ocupar sadiamente o seu corpo e seu espírito ou tratar de melhorar seus hábitos alimentares e de cuidados com o corpo em vista da melhoria da qualidade de vida, de lideranças de comunidades carentes ou organizações comunitárias de ajuda às famílias necessitadas, de grupos juvenis paroquiais, de universitários envolvidos com programas de educação ambiental dentro da universidade assim como a presença desses programas em algumas escolas públicas de cidade do entorno, oportunizou uma riqueza de aprendizagens significativa para os estudantes que fizeram essa prática de voluntariado, como veremos mais adiante.

Um considerável número de estudantes também manifestou o desejo de continuar atuando por mais algum tempo no projeto, o que poderia revelar o fortalecimento de certa empatia que foi sendo criada nesse processo de interação com as pessoas dos grupos que foram beneficiadas com as ações de voluntariado, bem como o desenvolvimento de certo nível de sensibilidade social e de solidariedade, ensejando a continuidade de sua presença na ação voluntária.

Outro resultado verificado e que chama a atenção no estudo está relacionado com a questão gênero. Os dados dão conta da inconteste supremacia de presença feminina nos projetos do voluntariado. Aproxima-se de noventa por cento o índice de participação de mulheres nas ações voluntárias socioeducativas, de acordo com a investigação.

A sociedade brasileira, até um passado não tão distante, reservava para a mulher, para a mãe as responsabilidades inerentes à tarefa de educação dos filhos, realidade cultural que vem sofrendo mudanças intensas, e de modo particular nas décadas mais recentes. A concepção da mãe educadora, porém, continua persistindo até nossos dias. De modo geral, isso se comprova nas escolas, e de modo especial nas escolas de educação infantil, sendo que em alguns contextos de educação a expressão educação do maternal ou ‘educação maternal’ ainda persiste, comprovando essa vinculação direta. A realidade do magistério mostra que a maioria dos educadores é, na verdade composta de educadoras, mulheres, portanto, o que evidencia a visão patriarcal da família, ou seja, cuidar da educação das crianças, dos filhos persiste como atribuição predominantemente feminina, maternal. O confirmam autores como

Rabelo e Martins (2006) ao assegurar que o exercício do magistério constituiu-se numa prática preponderantemente feminina, desenvolvida pela mulher. Isso explicaria de maneira suficiente essa evidente predominância feminina nas ações de voluntariado?

Segundo Fonseca (2001), trata-se de uma questão complexa. As práticas de voluntariado quanto à questão gênero, apresentam variações acentuadas e até mesmo situações contraditórias. Enquanto que em alguns países, como Estados Unidos, o percentual de mulheres envolvidas no trabalho voluntário é sensivelmente superior que o dos homens. Em alguns países da Europa a situação tende a ser inversa.

Em relação ao estágio do ciclo existencial, entre os jovens as mulheres tendem a envolver-se mais que os homens em trabalho voluntário, mas a tendência se inverte no período mais adiantado da vida. Ainda conforme a autora, algumas explicações envolveriam questões relacionadas com escala de valores e decorrências motivacionais e comportamentais dessa disparidade entre homens e mulheres. Haveria uma tendência de as mulheres terem um desempenho superior em termos de abnegação, devotamento e empatia, e elas valorizariam mais a prática da solidariedade e a obrigação de ajudar os outros. Ao mesmo tempo, muitas mulheres desempenhariam seus compromissos de ação voluntária como uma extensão da sua função de esposas e mães. Esta constitui uma possibilidade de compreensão do fenômeno díspar em termos de gênero, na prática voluntária.

A mesma interpretação, com relação à variável gênero, é corroborada por Zweigenhaft e Quintis (1995) apud Moniz e Araújo (2008), Consideram que o trabalho voluntário feminino tende a impactar, sensibilizar e atrair mais que o dos homens, remetendo essa questão ao papel maternal e de cuidadora conferido à mulher, o que a tornaria mais aberta, sensível e mais propensa a ações voluntárias que o homem. Os resultados da pesquisa confirmam a assertiva.