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8   OPPSUMMERING OG DISKUSJON AV FUNN

8.2   FORHANDLINGSPOSISJONER:

8.2.3   HYBRIDISERENDE TALER

A investigação dos possíveis impactos ou consequências das práticas de voluntariado socioeducativo nos processos formativos dos próprios estudantes constitui a terceira meta que o estudo buscou verificar. Tratou-se de aferir benefícios obtidos ou efeitos percebidos em termos de formação e aprendizagens em nível pessoal, acadêmico e profissional, assim como contribuições quanto à compreensão de mundo e de sociedade.

Depoimentos como “aprendi muito”, “cresci como pessoa”, “mudei muito”, “tive uma das mais importantes experiências em minha vida”, “a gente amadurece quando vai para a comunidade”, “aprendi a ser mais humana”, “ajuda a gente a ter maior sensibilidade”, “crescimento do caráter”, “você aprende a ter paciência”, “eu aprendi muito com as história de vida”, “aprendi a ter uma visão mais social das questões do Brasil”, entre tantos outros, repetem-se com certa exaustão. Revelam a convicção quanto aos efeitos benéficos gerados sobre os processos formativos para quem desenvolveu um projeto de voluntário. É nesse recorte que segue a reflexão, analisando e organizando os elementos e argumentos externados.

Os impactos provocados no decorrer desta prática e as contribuições e aprendizagens que esta trouxe estão relacionadas com a mudança de visão e compreensão da realidade, com a apreensão de princípios e valores e a modificação de atitudes e comportamentos, em nível pessoal e subjetivo, assim como no âmbito das interações sociais e mesmo com a natureza, enfim, com a prática da cidadania.

Satisfação pessoal, elevação da autoestima, descoberta e desenvolvimento de novas potencialidades, aquisição de maior estabilidade emocional, oportunidade de afloramento de sentimentos de amor ao próximo, atitudes de humanização, de saída do mundo pessoal fechado, da subjetividade individualizadora e egocentrada, constituem alguns dos impactos ou efeitos verificados nesse processo. O contato com o outro, o diferente, o desconhecido, o inusitado, é como uma ventania que movimenta e sacode as certezas cômodas, provoca um sair de si num processo de desacomodação, rompendo as barreiras da dependência e da passividade, constituindo uma extraordinária oportunidade de crescimento e amadurecimento enquanto sujeito participante dessa modalidade de ação e de presença na sociedade, pela realização de novas experiências de aprendizagem e aquisição de novos conhecimentos.

Isso confirma a compreensão de Renes, Alfaro e Ricciardelli (1996), quando consideram que o voluntariado é de fato uma forma de integração e promoção de pessoas e de grupos, fazendo crescer, humanizar e libertar, potencializando as capacidades dos indivíduos, em vista de sua própria formação e desenvolvimento integral. Meister (2003) também entende que o voluntariado possibilita a auto-realização pessoal, encontrando sentidos e valores para tal. Essa visão é ainda corroborada por Moratalla, para quem o sujeito voluntário não é só alguém que age por altruísmo, mas “[...] alguém que, ao realizar uma ação, se faz a si mesmo fazendo-se” (1997, p. 45).

Na mesma linha Sberga (2001) considera que o voluntariado tem como uma de suas finalidades contribuir nos processos de formação integral do jovem que dele participa, constituindo-se num agente facilitador da construção de sua identidade. Nesse sentido, Sen (2007) reitera que a identidade cultural de cada indivíduo vai se constituindo a partir das múltiplas conivências sociais cotidianas. Da mesma forma, Soares (2009), do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, São Paulo, pondera que o maior ganho fica mesmo para quem executa ou participa de processos de voluntariado, tendo ali uma oportunidade ímpar de aprender a conviver e a enxergar o outro, percebendo-lhe suas reais necessidades, como também potencialidades, aprendendo a lidar com a diferença, maturando seu caráter e sua personalidade. É um processo que abre os horizontes para novas ideias e percepções, desconstruindo preconceitos e aumentando a criatividade de quem participa inteira e intensamente do voluntariado.

Um benéfico exercício de doação ao outro, num processo de empatia, como experiência subjetiva do voluntário praticada numa comunidade, foi uma das contribuições ou impactos percebidos pelos participantes. Destacou-se nas suas narrativas que isso se apresentou como algo novo e inusitado, uma experiência nunca antes vivida com intensidade, e por isso, marcante, provocadora. A propósito, Fiori (1991) considera que nos processos interativos, envolvendo pessoas ou grupos, constituem-se relações sociais que podem ser mais ou menos intensas, pouco ou muito significativas, que marcam de modo mais suave ou em maior profundidade os indivíduos envolvidos.

Os projetos de voluntariado socioeducativo confirmam-se como oportunidades para experienciar estas relações que têm o potencial de aproximar pessoas, provocar e desenvolver trajetórias interativas humanizadoras e transformadoras. Em outros termos, nessa relação de convivência, processos educativos valiosos podem ser viabilizados. Isso porque, conforme referem Oliveira e Stotz (2004), a convivência é um estar junto de, é um contemplar nos olhos, um dialogar frente a frente, a arte de se relacionar, que dá intensidade à relação e sabor

ao que se faz. Na verdade, conviver se aprende convivendo, e nessa coexistência alguns requisitos como confiança, humildade, sensibilidade, respeito e flexibilidade quanto ao tempo parecem ter sua importância.

Depoimentos diversos apontam aprendizagens decorrentes dessa experiência do contato com a comunidade, aprendizagens que afetam e modificam concepções e atitudes, assim como a aquisição de hábitos e o desenvolvimento de habilidades, além do conhecimento da realidade concreta vivida pelas pessoas ou grupos com os quais se desenvolveu o projeto de ação voluntária. Em outros termos, como afirmam os participantes, esta experiência concreta modifica o modo de pensar, de ser e de agir de quem se entrega a esta forma de atuação e presença na sociedade, possibilitando-lhe a educação da consciência para uma percepção e atuação mais críticas com vistas a transformações possíveis no seu contexto social.

O mesmo é atestado por Sberga (idem), compreendendo o voluntariado como uma escola de educação, um estilo de vida, um modo de ser e de relacionar-se na sociedade, de acordo com os princípios e valores da solidariedade, do exercício da cidadania, da promoção da paz e do desenvolvimento dos povos.

O processo interativo entre voluntários e grupos (comunidades) contemplados pelos projetos socioeducativos também evidenciou como impactos positivos os processos de diálogo estabelecidos, a reciprocidade das aprendizagens, as trocas de conhecimentos e saberes significativos ali compartilhados. Isso faz eco ao que Wolff (1993) assevera quando trata do papel central da universidade, ideia igualmente reafirmada em Silva (2011), afiançando que é sua finalidade gerar processos de diálogo entre os estudantes estimulando- os a tomar consciência das grandes ideias que circulam no meio acadêmico, desenvolvendo- lhes a sensibilidade e expandindo o entendimento dos múltiplos conhecimentos gestados no espaço da universidade e a habilidade do compartilhamento desses saberes entre docentes e discentes.

O voluntariado apresenta-se como valiosa oportunidade de exercício da dialogicidade, à medida que consegue gerar um intercâmbio de ideias e conhecimentos entre os diversos sujeitos aprendentes dentro da academia, a partir dos impactos causados pela experiência do choque de realidade provocado pela ação voluntária. A investigação tem mostrado que o comprometimento com projetos dessa natureza é benéfico, útil e desejado, ao favorecer o diálogo de conhecimentos e a circulação de saberes. Nesse sentido, deve-se considerar que uma relação recíproca e dialógica supõe, de antemão, o exercício do saber ouvir, e ao mesmo tempo sensibilizar e motivar o interlocutor a falar, a expor-se, a participar da mesma forma,

como também deixar-se desafiar pelo desejo de aprender com o outro. É uma via de duas mãos: um pronunciar-se ouvindo e um escutar pronunciando-se.

Para que isso se realize, parece imprescindível que a universidade olhe ‘para fora de seus muros’ e dê passos concretos no sentido de abrir-se e interagir com a comunidade envolvente, criando condições para que os saberes da academia dialoguem com os saberes da comunidade, de modo que os conhecimentos da academia possam contribuir para novas alternativas de convivência humana, a partir dos sujeitos pensantes da comunidade (FREIRE, 1979). Essa demanda apareceu de forma explícita ou nas entrelinhas de diversas falas de participantes como fortemente desejada, porque necessária para que a universidade cumpra seu papel social.

A produção empírica de conhecimentos e o desenvolvimento de aptidões e habilidades no universitário constituem considerável contribuição para a formação no âmbito pessoal, bem como no acadêmico-profissional. Mais do que desejável e necessário, é imprescindível que a formação acadêmica também se deixe confrontar pelos conhecimentos e saberes da empiria. Cria-se dessa forma a possibilidade de depuração de incongruências e inconsistências, ao mesmo tempo em que se projetam horizontes de conhecimento mais abrangentes.

O fortalecimento da reflexão da práxis dos sistemas de valores individuais e coletivos pode ser uma conseqüência que resulta do compromisso com causas de relevo social. O voluntariado pode oportunizar a viabilização de comprometimentos dessa natureza, e constituir-se um caminho para alargar a reflexão da práxis de estudantes e professores quando assumem permanentemente a postura de aprendentes, sempre em busca, nunca satisfeitos com o já alcançado e assimilado.

O presente estudo revela que os estudantes desenvolveram um grau de consciência que os habilitou a perceberem que aptidões, habilidades, competências e valores são saberes viabilizados pela prática do voluntariado. Exemplificando, pode-se citar como resultados obtidos: o sentido de responsabilidade, espírito de colaboração, relacionamento interpessoal, competências de comunicação, capacidade de analisar problemas e de encontrar estratégias de resolução, capacidade de liderança, entre outros.

Também entendem que deve haver uma necessária conexão entre a episteme da sala de aula e a episteme a partir da e no confronto com a práxis. Isso possibilita maior completude epistêmica (ou epistemológica). O estudo feito parece mostrar com certa clarividência que os saberes científicos e tecnológicos da cotidianidade da instituição universidade precisam estar conectados com os saberes característicos e tácitos, oriundos da

experimentação e das práticas sociais. Em outras palavras, requer-se a experimentação prática dos conhecimentos teóricos apreendidos (ou aprisionados!).

Nessa perspectiva de análise, os processos dialógicos de interação educador– educando-educador, academia-comunidade-academia, ação-reflexão-ação tendem a materializar-se em práticas pedagógicas libertadoras, em que o diálogo é essencial, imprescindível, e implica na transformação do mundo. É o que reitera Freire na sua vasta reflexão a respeito do ato pedagógico, do quefazer educativo: "Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo" (2005, p. 79); “[...] não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens” (2005, p. 91). A preocupação manifesta por alguns participantes da pesquisa em relação ao diálogo que concebem como necessário, entre os conhecimentos da academia e os saberes empíricos dados pela comunidade, pode-se ancorar aqui.

É mister fundamentar-se na epistemologia da prática, ou a partir das práticas sociais vivenciadas, que constituem lugar autônomo e original de formação e de produção de saberes, pois as práticas sociais são portadoras “de condições e de condicionantes específicos que não se encontram noutra parte nem podem ser reproduzidos ‘artificialmente’, por exemplo, num contexto de formação teórica na universidade ou num laboratório de pesquisa”, como bem trata Tardif (2002, p. 278). Algumas reflexões referentes ao descolamento recorrente entre teoria e prática externadas ao longo da investigação encontram aqui guarida.

A vinculação dinâmica entre a teoria e a prática constitui significativa oportunidade de geração de conhecimentos, saberes e sentidos, que por sua vez, traduzem compreensões de pessoa, visões de mundo e de sociedade, e interferem nas ações e relações sociais. Nesse sentido, os universitários destacaram com freqüência o quanto lhes foi importante participar de projeto de voluntariado, pela sua contribuição no alargamento dos horizontes de compreensão do mundo, da sociedade, das pessoas e das relações estabelecidas nessas texturas sociais, nesse complexus social, como considera Morin (2003).

Nessa complexidade das relações sociais cabe à universidade estar presente evidenciando seu comprometimento social como processo de aprendizagem, que é “dialógico”, pressupõe uma relação de sujeitos iguais, ambos ‘aprendentes e ensinantes’, e que é “conversação entre os saberes”, como bem assevera Síveres (2006), referindo-se à Extensão como política institucional. A prática do voluntariado socioeducativo, como prática

de extensão, pode constituir-se numa alternativa ou caminho para o necessário comprometimento social demandado da instituição.

A produção do conhecimento se verifica de diversas formas dentro da universidade. Ensino, pesquisa e extensão constituem as vias pelas quais alcançar o conhecimento, em outras palavras, são as ‘atividades meio’. Porém, a finalidade maior destas ‘atividades meio ou ‘atividades caminho’ se coloca para além da preparação para o adequado exercício profissional, da produção e do acúmulo de conhecimentos e informações. Cabe-lhes sobremodo prover o estudante dos meios e instrumentos necessários para que saiba estabelecer relações e ações significativas entre os conhecimentos que a academia lhe possibilita e as necessidades apresentadas pela sociedade, de modo que estes conhecimentos contribuam para melhorar a qualidade de vida, especialmente dos setores mais excluídos dos benefícios produzidos pela sociedade. A prática do voluntariado inclui-se nestas atividades meio, com o potencial de sensibilizar o estudante despertando-o para comprometimento social necessário.

Essa percepção se manifestou repetidamente nas falas dos participantes do estudo. E vem de encontro ao referido por Bessa da Silva (2002), quando destaca a importância da formação dos estudantes como sujeitos sociais com um papel significativo a desempenhar para o desenvolvimento da sociedade, para fortalecer e qualificar o exercício da cidadania. Constitui-se importante atribuição e finalidade da academia.

Outra percepção foi externada com certa freqüência pelos voluntários participantes desse estudo. A universidade, talvez não tão raramente, acaba por contribuir para reforçar certo isolamento social e cultural, fechando-se sobre si mesma. Consideram que é necessário romper os muros do isolacionismo e deixar que os saberes dados, produzidos e que circulam na comunidade externa possam contrapor-se aos saberes da academia, num processo de sadia crisis purificadora. Entendem como imperativo sair do isolamento cultural e social em que o estudante pode estar radicado dentro da academia, dispondo-se a tomar parte de projetos de ação voluntária na sociedade envolvente. Como afirma uma das participantes, toda a sociedade deve obter ganhos que sejam relevantes com o conhecimento adquirido na universidade, no diálogo com os saberes da comunidade do seu entorno.

Identificou-se com certa freqüência entre os integrantes do estudo a convicção de que a participação no voluntariado traz ganhos pessoais muito significativos, e também contribui para melhorar a qualidade dos processos educativos das instituições de ensino superior. Há uma insistente recomendação de universalização da prática do voluntariado de forma que todos os estudantes, no período da graduação, possam envolver-se efetivamente em algum

programa de voluntariado socioeducativo, dentro e/ou fora do âmbito da instituição, que os coloque em contato com os desafios da realidade social.

Mais do que atender a uma necessidade de determinado número de horas de atividade de voluntariado extensionista no currículo, também importante pelo fato de abrir de portas para o futuro profissional, a contribuição da experiência prática de inserção em programas de caráter social e educativo vai além. Abre novo olhar sobre o sentido de ser da universidade, sobre a necessária relação direta entre os conhecimentos da academia e os conhecimentos tácitos da comunidade, fruto da experiência do dia a dia da vida das pessoas, dos distintos grupos e movimentos sociais integrados na circularidade dos conhecimentos que, permanentemente sendo produzidos, são também perenemente socializados na comunidade. Diversas intervenções de participantes expressam essa compreensão no decorrer da prática pesquisada.

Infere-se assim que esse saber seja reconhecido, assimilado e aprofundado também pela academia, num processo dialógico ininterrupto que se embasa na concepção de que a educação é um processo contínuo, permanente, ao longo de toda a vida, como consideram Freire (1983), Baumann (2009) e Delors (1998), entre outros.

A prática do voluntariado socieducativo, segundo a compreensão manifesta no estudo, possibilitou aos estudantes dar-se conta da compartimentalização e desconexão de conhecimentos e saberes, fato que caracteriza, em boa medida, o fazer educativo das instituições de ensino superior, o que constitui uma das grandes questões trabalhadas por Morin (2003; 2007). Essa desagregação de saberes acaba dificultando ou mesmo impedindo a prática do voluntariado universitário como um serviço que contribua para um processo transformador, emancipatório e democrático, embasado no diálogo e no respeito à cultura local, como trata Freire (1979), quando enfoca o tema da extensão universitária, ou quando partilha suas ideias e convicções sobre a relação entre pedagogia, autonomia e libertação (2007).

Também Perrenoud (2005), quando se refere aos saberes escolares como exigências para a prática cidadã - e pode-se aplicar este seu pensar ainda com mais propriedade aos conhecimentos e saberes no âmbito da universidade - considera indispensável que se vá além da sua assimilação, fazendo a necessária mobilização e contextualização destes conhecimentos, assim contribuindo para a transformação social desejada.

Para os universitários implicados nesse estudo, de modo geral parece ter-se fortalecido a convicção de que a participação em atividades de voluntariado deveria habitualmente significar o comprometimento com uma causa significativa de interesse da

coletividade, em decorrência de uma maior consciência social processada. A sensibilização social operada no decorrer da prática voluntária oportuniza a percepção de que é possível desempenhar um papel ativo na sociedade, mediante a prática da solidariedade e o exercício da cidadania.

A prática do voluntariado socioeducativo, atendendo a necessidades sociais específicas, sob este prisma de análise, parece constituir-se em oportuna e adequada forma de fazer educação social, embasada nos princípios da pedagogia social, área trabalhada com muita propriedade por Cabanas (1999), Caliman (2008), Fermoso (1997), Romans, Petrus e Trilla (2003), Souza Neto, Silva e Moura (2009), entre outros.