Teoretisk grunnlag for endelig element modellen
2.3 Utregning av matrisene i det aksesymmetriske tilfellet
Fundamentados na constatação de que as políticas públicas para a educação no Brasil relegaram à educação rural e o homem do campo ao descaso. A situação inicial dos assentados não é apenas da falta de uma escola para o MST, mas sim da inexistência de escola para a população rural na região como também de infra-estrutural para o acesso à escola urbana.
Desta forma o relato destaca como nasceu a escola, ou seja, da necessidade de se dar ocupação e atividades orientadas às crianças, questão esta que a aproxima da maioria das escolas rurais do Brasil, dado que em função da negligência das autoridades com a educação do homem do campo é comum que trabalhadores rurais, pais e pequenos produtores ao se preocuparem com a educação dos filhos se organizam, escolhem o local (sala de uma casa, paiol...) de uma fazenda cuja localidade facilite o acesso dos vizinhos, contratam ou elegem um professor e dão início a uma sala de alfabetização que mais tarde se transforma em uma escola rural.
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Mesmo com tantas outras preocupações, alguns adultos percebem a ansiedade dessas crianças e começam a pensar no que fazer com elas. São formados grupos de mães, que passam a orientar as brincadeiras do grupo de crianças e a explicar, pelo menos um pouco, o que está acontecendo em suas vidas, integrando-as nas várias atividades do acampamento. (...).Por acaso, ou por destino histórico, entre os acampados havia uma professora. Era Maria Salete Campigotto, professora estadual em Ronda Alta, desde 1978, que casada com um colono sem terra, integra o grupo. Salete virá a ser, depois, a primeira professora de assentamento do país. (Dossiê MST Escola, 2005, p.12).
O histórico desse advento demonstra grande luta e preocupação com o futuro das crianças, a cidadania e sempre marcado por muita luta e discussão, tanto em nível interno até o consenso de se ter uma escola, quanto externo para conseguir oficialidade e reconhecimento da mesma.
Bernadete Schwaab, professora estadual, vinda do município de Braga, e que também acampou na Anonni, conta que foi bastante difícil a própria negociação interna para apoio à briga pela escola oficial no acampamento. (...). Como podemos ver, as lições foram importantes também neste campo. Como explicar a oficialização de uma instituição formal como é a escola, num contexto de suposta ilegalidade e de conflito social aberto, como é um acampamento? Em Nova Ronda Alta50 o reconhecimento legal da escola só
veio depois de um ano de assentamento. Em acampamentos posteriores ao da Anonni, como por exemplo o do Rincão do Ivaí, em Salto do Jacuí, jamais se conseguiu uma escola oficial, mesmo havendo, de fato, um trabalho organizado de ensino com as crianças. (Dossiê MST Escola, 2005, p. 14-15).
A partir desse ponto o relato passa às experiências com a primeira escola, altos e baixos, acertos e percalços, que somente a vivência permite fazer consideração e “acertar passos”. No caso da Anonni, após um ano de funcionamento houve uma imposição da Secretaria do Estado de Educação – RS, que obrigou os assentados a conviverem com professores alheios à sua realidade.
No início de 1988, porém, com a implantação pela Secretaria de Educação do chamado “Quadro de Pessoal por Escola” (QPE), houve um remanejamento geral dos professores estaduais, e as professoras da Anonni não tiveram seus contratos renovados. Em seu lugar veio uma leva de professores estaduais de fora e que, em sua maioria, nem sabiam exatamente o que acontecia na fazenda. O que sabiam estes professores é que estavam sendo mandados para um lugar de dificílimo acesso, em precárias condições de trabalho, com um pessoal esquisito e se dizendo Sem-Terra e, além do
mais, por um salário de fome... (...). A experiência foi desastrosa e a revolta dos acampados foi geral. Mesmo a boa vontade de algumas das professoras não foi suficiente para resolver o problema. Quando chovia, por exemplo, não vinha o ônibus, nada de aula. Quando havia aula, ficava difícil convencer as crianças de que aquilo, que estavam aprendendo agora, tão diferente do que estudavam antes, podia ter importância e algum atrativo. (Dossiê MST Escola, 2005, p.15/16).
Por estarem acostumados à luta, tal acontecimento não abateu os assentados, por outro lado, culminou em novas discussões e reformulação da proposta educativa, ou seja, foi um grande aprendizado do qual concluíram que deveriam levar informações da veracidade do MST às escolas oficiais, participarem das escolhas dos professores para as escolas dos assentamentos e ainda influenciarem na formação dos professores com base na realidade local.
A partir desse episódio, ficou claro mais um foco de luta: titular professores dos próprios acampamentos para facilitar a negociação dos contratos com o Estado. Esta seria uma garantia de que as escolas não ficariam isoladas da luta geral do MST. (...). Aos poucos, também foi ficando claro que esta oposição entre “de dentro” e “de fora” não poderia ser absoluta. Não se tratava de excluir qualquer professor que não fosse acampado, mas sim, de exigir que cada professor – viesse de onde viesse passasse a ter um comprometimento real com as crianças e com a comunidade. (Dossiê MST Escola, 2005, p.16).
A questão reverteu-se à própria reorganização do Movimento, reforçando a necessidade e importância da escola.
Pensemos: em 1985, na Anonni, a escola chegou a ser vista pelos assentados como um atraso para a luta. Em 1990, a escola está sendo quase sempre uma das primeiras reivindicações dos novos assentamentos. O que mudou em tão pouco tempo? Mudou a luta, ou mudou a escola? (Dossiê MST Escola, 2005, p.17).
Mudou a luta, mudou a direção e a estrutura interna do movimento, pois, naquele momento percebeu que a escola era uma das reivindicações essenciais do Movimento, entretanto não bastava ser uma escola qualquer, teria que ser também uma “escola diferente”.
É por isso, então, que quando os acampados começam a discutir a questão da escola, uma das palavras mais pronunciadas nas reuniões de pais e professores é “diferente”. A escola tem que ser diferente, o professor tem
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que ser diferente, os alunos têm que ser diferentes, tudo diferente. (Dossiê MST Escola, 2005, p.18).
O destaque do “diferente” não se limita ao fato de ser Itinerante ou à localidade (assentamento ou acampamento), visto que a proposta é inovadora em todos os aspectos: objetivos, planejamento, organização, metodologia e caráter pedagógico. Para assumir um projeto de tal envergadura, verificou-se a necessidade de pessoas capacitadas e diretamente envolvidas com a problemática, o que foi sanado com a criação do Setor da Educação.
O Setor de Educação foi criado em 1988, numa reestruturação interna que dividiu o MST em setores de atividades. (...). A inclusão de um setor específico de educação é resultado da organização de professores e pais que passam a assumir a questão educacional das crianças e dos jovens como prioridade para o Movimento. (Dossiê MST Escola, 2005, p.16).
Voltando ao caráter “diferente”, o dossiê deixa claro os objetivos educacionais do grupo (MST) e os objetivos da escola para que e a quem ela se destina. Como exemplo podemos citar: enquanto as escolas “normais” recebem quase tudo de cima para baixo (planejamento, programas de ensino, currículos...) impostos, pensados e elaborados por equipes alheias à realidade local, nas escolas do Movimento, cada detalhe, seja ele em nível de gestão, planejamento ou pedagógico, é discutido, pensado e decidido ali mesmo.
Como era de se esperar, para os professores, inicialmente a tarefa era quase impossível, o que suscitou na necessidade do envolvimento com a formação de professores, já que, o caráter “diferente” da escola não poderia conviver com uma prática pedagógica alheia aos seus objetivos.
O texto demonstra que a educação foi pensada e escrita em cada detalhe desde a reivindicação até detalhes metodológicos. Demonstra ainda o amadurecimento e os avanços em relação aos primórdios da luta pela Escola, como esclarece Caldart (2004):
ocupar a escola quer dizer, em um primeiro e básico sentido, produzir a
consciência da necessidade de aprender, ou de saber mais do que já se sabe. De modo geral, quando os sem-terra falam da importância do estudo, podem até estar se referindo à escola, mas não no sentido restrito de escolaridade, que remete ao significado historicamente construído de escola como um lugar onde se deve ir para conseguir um diploma, para então conseguir um emprego melhor, e de onde se é excluído quando a cabeça não dá pra isso... O sentido de estudo que aparece na faixa daquele Encontro de 1987 (quando apenas começava a germinar a idéia do MST trabalhar com educação) é o de que os sem-terra não conseguiriam avançar na luta se não se dedicassem à
sua formação, se não se dispusessem a aprender e a conhecer cada vez mais, e uma realidade cada vez mais ampla. É por isso que o estudo foi incluído logo como um dos princípios organizativos do MST.51 (grifos do autor). (Caldart, 2004, p. 215).
Mas o documento deixa evidente, por meio da sua concepção de currículo e pelos detalhes pedagógicos, que a luta, a conquista e o desenrolar da educação para o MST foi uma dura lição e ao mesmo tempo uma vitória por ser uma luta com meios e fins, aspectos semelhantes aos da luta pela terra, ou seja, a conquista tanto da terra, para obter as condições de sustento material, como da educação para obter o conhecimento para manter e melhorar a conquista da terra.
Uma das questões centrais com que temos de lidar é a promoção de posturas rebeldes em posturas revolucionárias que nos engajam no processo radical de transformação do mundo. A rebeldia é ponto de partida indispensável, é deflagração da justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia enquanto denúncia precisa de se alongar até uma posição mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação, no fundo, o nosso sonho. (FREIRE, 2000, p.81).
Um documento que merece ser citado e ressaltado é Nossa luta é nossa escola: a educação das crianças nos acampamentos e assentamentos o qual podemos encontrar na íntegra na cartilha FUNDEP/DER/MST/RS, publicada em junho de 1990 52. O documento coloca uma questão importante a nosso ver: por que, afinal de contas, a escola pode ter a ver com a Reforma Agrária?
Para contemplar esta questão, o material vai das discussões pela criação de escolas oficiais nos assentamentos até a briga pela direção política e pedagógica do processo educativo a ser desenvolvido nestas escolas, passando pelos meandros da questão educacional dentro de um movimento reivindicatório como é o dos Sem Terra, com o objetivo de mostrar que existe uma relação direta entre esta trajetória e a própria dinâmica evolutiva da luta pela terra como um todo, à medida que mudam as concepções e estratégias gerais do MST, muda também o tipo de discussão e de reivindicação que se faz em relação à educação e à escola.
51 Nas Normas Gerais do MST, documento de setembro de 1989, o estudo aparece como o sexto princípio
organizativo (junto com direção coletiva, divisão de tarefas...) tendo a seguinte descrição: Estudo: estimular e
dedicar-se aos estudos de todos os aspectos que dizem respeito às nossas atividades no movimento. Quem não sabe é como quem não vê. E quem não sabe não pode dirigir.
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Porém, em cada novo assentamento a briga se repete e com toda a intensidade. Briga interna da Equipe de Educação, para que o assunto seja prioritário desde as primeiras reuniões do grupo. Briga externa para acelerar a negociação com o Estado, que pode demorar meses, ou anos, obrigando aos assentados iniciar as aulas geralmente bem antes do reconhecimento oficial. E é bom lembrar que, no caso dos assentamentos, o Estado tem a responsabilidade legal de criar escolas e dar-lhes todas as condições de funcionamento.