Quando chegamos nos anos 70, o México enfrenta graves problemas macroeconômicos e uma crise de representatividade com os governos de Luis Echeverría (1970 - 1976), e José López Portillo (1976 - 1982). O modelo top-down das relações públicas, bem como o aparelhamento rizomático de uma determinada sociedade política ligada ao PRI em todos os níveis administrativos (federal, estadual, municipal) começara a demandar “transformações” no esquema de reprodução sistemática do partido na política nacional (MORTON, 2013). Porém, isso não retirou a intensa perseguição do Estado sobre qualquer organização “potencialmente subversiva”, de modo que muitos militantes de esquerda nos anos 60 e 70 foram presos, ou assassinados, considerados ameaças à ordem institucional. Por isso, muitos guerrilheiros do norte se deslocaram para o sul, na Selva Lacandona em Chiapas, para fugir da repressão e manter minimamente a organização revolucionária (FOWERAKER, 1990; LE BOT, 1997). Dentre esses podemos destacar a Força de Libertação Nacional (FLN), que seria essencial para a posterior articulação do EZLN, e outros grupos maoístas como citado anteriormente (BRANCLEONE, 2015).
Nessa conjuntura, Echeverría assume a presidência com o intuito de renovação já explícito na sua escolha para o cargo. Distanciando do costume em eleger políticos tradicionais, esse representava uma tecnocracia mais jovem, geralmente ligada à Secretaria da Fazendo e ao Banco do México, em sua maioria composta por pós-graduados que retornavam dos estudos nos EUA. As políticas adotadas por Echeverría seguiram a modernização, aqui entendida como descentralização dos serviços públicos, e políticas industriais expansionistas (CANO, 2000; MORTON, 2013). Por meio de uma estratégia neopopulista55, o seu governo realizou elevados investimentos para manter o crescimento
55 O prefixo “neo” na palavra populismo aparece mais como marcação de um novo momento histórico, do que novas características substanciais ao modelo socioeconômico que esta representa. O conceito de populismo é bastante diverso e problemático em sua generalização, uma vez que cada situação pode apresentar características distintas na sua aplicação (BOBBIO, 2005; VIGUERA, 1993). Posto isto, compartilhamos do
econômico. O descontentamento dos estudantes foi “solucionado” com grandes remeças de intercâmbio de pós-graduandos para escolas estadunidenses que posteriormente seriam reconhecidas por seu pioneirismo intelectual na formação neoliberal. A falta de apoio do PRI começa a se refletir também nos interesses do grande empresariado, quando em 1975 é criado o Conselho de Coordenação Empresarial (CCE), formado por um “segmento transnacionalizado do capital nacional incluindo acionistas diretos de grandes conglomerados ligados ao setor exportador com experiência nas organizações da elite dos negócios” (MORTON, 2003, p.640). O novo órgão representava o movimento dessa classe em oposição ao governo.
O forte controle social que havia no modelo ia se deteriorando à medida que Estado capitalista reproduzia a sua estratégia de acumulação. A conta corrente passava por sérios influxos sem alterar a arrecadação necessária para as políticas expansionistas, as quais eram importantes para conter as demandas sociais e sustentar o grau de industrialização mais sofisticado, agregada a configuração de crise nas relações econômicas internacionais. O resultado foi um grande débito na balança de pagamentos. A inflação contaminada pela conjuntura internacional reduziu as exportações e estimulou as importações. Isso aliado com os gastos elevados, em conjunto com o endividamento externo (por meio da compra de bens de capital) e a fuga de capital proporcionou uma crise inflacionária no ano de 1976 que seria herdada por seu sucessor. O México entrava na zona de controle disciplinar do FMI (CANO, 2000; VAZQUEZ-CASTILLO, 2004)
Portillo, outro funcionário da Secretaria da Fazenda que assume a presidência, encontrou na exploração do petróleo uma maneira de retomar o crescimento, ainda que minimamente (MORTON, 2013). O petróleo, que tinha começado a ser relevante na economia mexicana na administração anterior devido aos choques de oferta da época, ganha demasiada importância nos interesses do Estado após a descoberta de novas jazidas e o elevado preço internacional dessa commodity no fim dos anos 70. Mesmo com essa nova fonte de renda primária, o endividamento externo se tornou ainda mais grave, posto que a
entendimento da linha que caracteriza como populismo a forma de Estado originada pela política de coordenação/cooptação dos distintos interesses de classe a favor de uma estratégia de acumulação, sem reconhecer uma agenda política objetiva (IANNI, 1991). No caso mexicano, com o desenvolvimento das forças produtivas e a diversificação das classes sociais, passa-se a utilizar o termo neopopulista para identificar as supostas novas “alianças” entre “industrialistas nacionais, camponeses, marginais urbanos, setores trabalhistas desiludidos, estudantes e as classes médias” (MORTON, 2003, p. 637) estabelecidas para sustentar a nova estratégia de acumulação, um protoneoliberalismo.
extração do petróleo exigiu investimento pesado na Petroleos Mexicanos (PEMEX)56 e em infraestrutura, permanecendo na situação de importação de bens de capital. Começa-se a verificar uma forte guinada em direção à economia dos EUA, com a dependência da exportação de petróleo ao vizinho e a entrada de investimento externo direto de origem estadunidense para financiar a sua extração. O desequilíbrio nas contas em decorrência da queda do preço do petróleo na economia internacional acarretaria uma nova crise inflacionária em 1982, com a desvalorização de 72% do peso mexicano, e uma inflação de 350% (CANO, 2000; ROBINSON,2008).
As relações sociais de produção demonstravam suas fraturas com o surgimento em 1979 da Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), em contraposição ao Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Educação (SNTE), o qual operava dentro da órbita do Estado. Nesse período presenciamos a insurgencia obebra, de modo que os trabalhadores começam a reivindicar massivamente por alterações na organização política mexicana, com pautas para além da urgência econômica. O fim do charrismo, autonomia nas relações de trabalho e participação democráticas estavam entre as principais demandas dos trabalhadores. A resposta se deu - além da intensa coerção hegemônica - na Lei de Organizações Políticas e Processos Eleitorais (LOPPE), responsável por uma “abertura democrática” que serviu para institucionalizar/coordenar a oposição na tutela estatal (MORTON, 2003; 2013).
O indigenismo ganhava um “novo” caráter com a criação de um Conselho Supremo para cada etnia, a adesão de 30,000 professores e promotores bilíngues, e a criação do Conselho Nacional de Povos Indígenas (CNPI). A intenção de tais políticas no discurso do PRI era aumentar a participação indígena, contudo, a condição de subalternidade e aparelhamento das demandas locais permanecia intacta, se não renovadas (LE BOT, 1997). Até então a elite tecnocrata absorvia as classes populares através do “salário social”, de modo que o crescimento econômico era compatível com a ideia de distribuição de renda por meio de serviços básicos, tais como saúde, educação, subsídios na alimentação e esgotamento sanitário dentro da “representatividade” top-down (CAULFIELD, 1998).
56 Em 1937 se iniciam diversos conflitos entre os trabalhadores e as empresas estrangeiras do setor petrolíferos. Cárdenas, o presidente da época, consegue estabelecer uma aliança muito forte com os trabalhadores - em grande parte devido à influência da CTM sobre as organizações sindicais - por meio do discurso de defesa dos interesses nacionais, o que teve como resultado a nacionalização de jazidas e indústrias de propriedade estrangeira. Criava-se em 7 de junho de 1938 a PEMEX (CAULFIELD, 1998)
Organizações coletivas de trabalhadores campesinos, que se diferenciavam no espectro da reivindicação autônoma, como a Organização Campesina Emiliano Zapata (OCEZ) e a Central Independente de Trabalhadores Agrícolas e Campesinos (CIOAC) demonstraram a articulação da resistência agrária a nível nacional contra o neopopulismo. Em Chiapas especificamente podemos destacar o papel da União de Ejidos-Quiptic ta lecubtesel (Quiptic) na Selva Lacandona na organização dos indígenas, que iria contribuir na formação do EZLN. Ao final dos anos 70 e início dos anos 80 os membros do incipiente movimento zapatista (das distintas tradições político-revolucionárias) estabeleceriam organicidade entre as diversas organizações indígenas que haviam na região, dentre elas a Quiptic (LE BOT, 1997).
O bloco histórico que outrora assumia a forma hegemônica na sua primazia, isto é, envolvendo principalmente o acordo moral e político na sociedade mexicana por meio do pacto social entre as classes sociais decorrente desde a Revolução Mexicana, sem deixar de valer-se do monopólio da força quando necessário, passava a ser entendida como uma hegemonia mínima, ou deteriorada. Tornava-se nítida o recurso da coerção mais como regra, do que exceção. A autoridade do Estado, e aqui nos referimos principalmente a sociedade política que se reproduzia a partir das instituições estatais, passou a ser contestada por de diversos polos, inclusive pela classe capitalista transnacional (interna e externa) que se desenvolvia. Se os primeiros passos rumo ao neoliberalismo já haviam sido dados por Echeverría e Portillo, a consolidação desse modelo estava por vir de maneira definitiva com os próximos governos.
Na década de 80 as políticas neoliberais são intensamente internalizadas pela sociedade política mexicana, com o objetivo de conter o afastamento da elite econômica neoliberal que ganhava cada vez mais força no cenário internacional. Os presidentes De La Madrid e o seu sucessor Salinas de Gortari exercitaram intensas reformas políticas para alinhar o México com os interesses estadunidenses e canadenses para a efetivação do TNALC, ao passo que favoreciam uma classe capitalista interna. Novos planos sociais também foram aplicados nesta década para incorporar as classes que não se sentiam representadas pela sociedade política no novo projeto de desenvolvimento, solidificando a abertura do mercado interno. De acordo com Wilson Cano (2000), as forças sociais do partido PRI se voltavam cada vez mais para os interesses de grandes empresas transnacionais e do sistema de crédito em detrimento das bases camponesas e proletárias
minimamente representadas na estratégia de acumulação do capital por ISI anteriormente.