4.5.4 2D-simulering for lang PZT5H-stang - Lerch
4.6 Egenverdier for mer kompliserte strukturer
O debate sobre a relação entre as ideias e a organização social presente no conceito de hegemonia de Gramsci tem influenciado trabalhos em diversas áreas do amplo campo das Ciências Sociais. Uma de suas contribuições está presente na linguística. Junto com a influência de outros autores, tais como Marx, Foucault, Althusser e Laclau, foi formada ao final dos anos 80, e estabilizada no decorrer da década de 90, a escola conhecida
tradicionalmente como Análise do Discurso Crítica45 (ADC) (HAIG, 2004). Originada por um grupo de acadêmicos no intuito de reduzir as barreiras da linguística com as outras áreas do conhecimento, a ADC parte da perspectiva multidisciplinar para a compreensão da linguagem na construção das relações sociais, e, principalmente, evidenciar as relações de poder existentes no discurso (FAIRCLOUGH, 1989). O grupo de autores que motivaram a criação da ADC se aglutinaram mais em torno da discussão epistemológica da linguagem, do que na elaboração de um método único e coeso, o que explica as diferentes vertentes e aplicações da ADC (RODRIGUES JUNIOR, 2009). Portanto, deixamos evidente que para este trabalho iremos recorrer às contribuições de Norman Fairclough e o seu modelo tridimensional de análise dos textos.
Primeiro, a prática social para o autor envolve os seguintes fatores independentes, porém relacionados entre si: “atividade produtiva; meios de produção; relações sociais; valores culturais; consciência; semiose” (FAIRCLOUGH, 2001, p 122, tradução nossa). Nesse sentido percebemos que perpassa tanto fatores estruturais, bem como ações momentâneas. É a partir disso que o enfoque do autor é direcionado: como fatores materiais da estrutura em que o sujeito está inserido (relações sociais/valores culturais/meios de produção) influenciam na semiose, e ao mesmo tempo como esses fatores podem ser questionados/absorvidos em determinados eventos sociais que reproduzem/resistem ao contexto social (FAIRCLOUGH, 2001). Para o processo de cognição da semiose, isto é, a interpretação dos significados que damos aos símbolos que utilizamos na interação está a linguagem (visual, textual, corporal, por exemplo) (FAIRCLOUGH, 2001).
Com o foco da língua enquanto modo de linguagem da semiose, o termo “texto” é utilizado para representar “o produto do processo da prática discursiva, tanto escrito, quanto falado” (FAIRCLOUGH, 2010, p. 131, tradução nossa). A partir do contato do sujeito com o texto na prática social, o segundo se torna uma forma de interação, a troca de informações na comunicação, ainda que os interlocutores estejam deslocados no tempo/espaço. Relacionando com os outros fatores da prática social, a semiose está presente na atividade como (i) gênero, referindo-se à função/ação de determinado espaço/ator, o que determina
45 Rodrigues Júnior (2009) relata que a tradução para o português traz algumas divergências no histórico da escola no Brasil, posto que Criticai Discourse Analysis foi traduzido pelo grupo de pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) por Análise do Discurso Crítica, enquanto o grupo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) adota como nome Análise Crítica do Discurso. Nesse trabalho preferimos adotar o nome utilizado pelo grupo de Brasília.
características específicas do modo de usar a linguagem e o conteúdo. Como (ii) discurso nas representações e significados dados aos eventos que compõem as relações sociais. Por fim o (iii) estilo, que é a forma particular de cada sujeito em um determinado contexto de desempenhar a sua interação na prática social (FAIRCLOUGH, 2001).
Portanto, o discurso e a ideologia se tornam elementos importantes para a composição da realidade. O autor se refere à ideologia da seguinte forma:
As ideologias devem ser interpretadas de um modo que reúne parcialmente o mental e o material, como crenças e valores que são naturalizados enquanto disposições para agir no, e sobre o mundo material de determinado modo, e enquanto maneiras de ser no mundo (FAIRCLOUGH, 2010, p. 502, tradução nossa).
Para a hegemonia, a ideologia é o centro de união das ideias e princípios do senso comum que operacionalizam a ordem social para a manutenção das relações de forças no modo de produção capitalista, ou seja, um bloco histórico favorável aos interesses da classe dirigente. Contudo, o consenso não se dá de maneira coesa e mecânica, ao contrário, necessita de diversos eventos mais ou menos contraditórios que reafirmam o bloco histórico hegemônico, mas também passíveis de negação (FAIRCLOUGH, 1989).
De acordo com Fairclough (2005), o discurso é um fator de relevância nas interações que ocorrem na prática social, posto que esse atua na representação de eventos e sujeitos das relações sociais, estabelecendo qual o significado dado aos processos das redes de práticas que constituem nossa sociedade. Desse modo, o discurso influencia o mundo como ele é, e também como ele poderia ser. O autor coloca que:
Discursos não representam apenas o mundo como ele é (ou melhor, como ele é aparenta), eles também são projetivos, imaginários, representando possíveis mundos que são diferentes do mundo atual, e ligados a projetos para mudar o mundo em direções particulares (FAIRCLOUGH, 2003, p.124, tradução nossa).
Quando se trata de uma estratégia, esse aspecto “imaginário” do discurso para ser materializado é acompanhado da adequação prática e da convicção. O sujeito receptor pode absorver a representação (possível) de mundo e praticá-la quando é possível materialmente e convincente. Isso nos leva a entender a participação da ideologia na construção de uma estratégia convincente, porém contraditória com os interesses concretos (FAIRCLOUGH, 2010).
As ideias e princípios responsáveis por naturalizar as contradições da realidade são reproduzidos hegemonicamente por meio da ordem do discurso, isto é, a semiose dominante de ordenação social, do lugar/ação do sujeito na prática social. Os significados presentes nos múltiplos discursos dos diversos eventos da prática social possuem conexões - interdiscursividade - nos distintos formatos de texto - intertextualidade A interdiscursividade da ordem do discurso necessita da recontextualização do discurso em cada atividade da prática social. Nesse sentido, o gênero, discurso e estilo das instituições da sociedade civil, da sociedade política, bem como as atividades do cotidiano podem conter representações ideológicas de maneiras distintas, e até mesmo contraditórias, mas inter- relacionadas (FAIRCLOUGH, 2001). Ao contrário de coesa e uniforme, a ordem do discurso é “a faceta discursiva/ideológica do equilíbrio (hegemonia) contraditório e instável” (FAIRCLOUGH, 2010, p. 62, tradução nossa).
Colocada a relação dialética entre a prática e o discurso, prosseguimos para o modelo tridimensional de Fairclough (2010) representado na Figura 2. Nessa abordagem fica mais evidente a relação “micro” e “macro” da prática discursiva, a qual deixa “pistas” da prática sociocultural nos textos, possíveis de serem identificados pela análise do discurso (FAIRCLOUGH, 1992). A proposta metodológica divide a investigação em três etapas: a descrição, a interpretação e a explicação. No primeiro momento, temos a análise textual com a descrição da forma do texto, isto é, vocabulário, coesão e estrutura textual. Em segundo, a prática discursiva referente ao ciclo do texto na prática social, o qual se diferencia de acordo com a natureza do discurso em determinado contexto social (gênero, representações, estilos). Esse ciclo envolve o processo de produção, consumo/interpretação e distribuição do texto nas relações sociais. Ocorre então a análise desse processo interpretando como o texto é influenciado pelas características do ciclo (identidades, recursos necessários, intertextualidade). Por último, temos a aplicação do conceito de hegemonia na prática sociocultural para explicar a relação da ideologia e ordem do discurso (ou crítica) na prática discursiva (FAIRCLOUGH, 1992; 2010).
Figura 2: Concepção tridimensional do discurso
O conceito gramsciano de hegemonia na ADC possibilita entender como se dá a transformação/manutenção molecular da ideologia da classe dirigente através das representações sociais do discurso na prática discursiva. Além disso, é possível analisar os textos/eventos que não corroboram para o consentimento ideológico, ao contrário, os quais inseridos nas contradições existentes na prática cultural negam o ordenamento da interdiscursividade dominante para a construção de uma prática social alternativa emancipatória. Portanto, nem todo discurso é ideológico, sendo o próprio grau de ideologia variável de acordo com cada discurso (FAIRCLOUGH, 1992). Quando pensamos a articulação da crítica na prática discursiva das relações sociais, podemos conceber o “bom- senso” elaborado por Gramsci. Contudo, lembra-nos Haig (2004), a ADC tem se dedicado majoritariamente ao estudo da ordem do discurso e a ideologia, enquanto houve pouco
esforço em analisar os discursos que fortalecem a contra-hegemonia. Buscamos contribuir nesse sentido com a análise do caso zapatista.