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UNIVERSITY OF TROMSØ

A atuação pública de Jesus se inicia logo após a atuação de João Batista. Segundo Gerd Theissen, o fenômeno mais marcante do movimento de Jesus é o desenraízamento social dos carismáticos itinerantes49, que consiste no abandono do lugar tradicional de residência e uma repulsa mais ou menos forte às normas usuais.50 Este fenômeno é claramente atestado pelos evangelhos. Pedro diz em nome de todos os discípulos: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos”(Mc 10,28). Ao lado dos Doze apóstolos, estava o círculo dos sete em Jerusalém (At 6,5) e o grupo dos cinco em Antioquia (At 13,1). Lucas relata também o envio de setenta carismáticos que deveriam observar as mesmas normas que os Doze (Lc 10,1 ss; 9,1 ss). Os

48 Cf. MATEOS, J & CAMACHO, F. Jesus e a sociedade do seu tempo. p. 52.

49 Carismático é alguém dependente das expectativas, esperanças e aprovação das pessoas que estão à sua volta. O carisma sempre se desenvolve em interações, sendo aplicado a certo tipo de personalidade individual, por força do qual ele é considerado extraordinário e tratado como dotado de poderes e qualidades sobrenaturais, sobre-humanas ou excepcionais. Tais poderes são considerados como de origem divina e com base neles o indivíduo que demonstra possuí-los é tratado como líder. Não há sistema de regras formais ou de princípios legais e os julgamentos concretos são feitos caso a caso e são originalmente considerados juízos divinos e revelações. Cf. THEISSEN, Gerd & MERZ, Annette. Jesus histórico. Um manual. p. 211.Além dos autores citados, o historiador judeu Geza Vermes também apresenta Jesus como autoridade carismática do seu tempo. In: VERMES, Geza. A religião de Jesus, o judeu. p. 70.

34 apóstolos não são somente os Doze, mas também Paulo e Barnabé (At 14,14), Andrônico e Júnias (Rm 16,7) e cada missionário que segue o ensino do Evangelho em suas viagens.51

A partir do século II a.C. houve uma corrente de movimentos de renovação dentro do judaísmo que se desenvolveu na Palestina como reação ao helenismo. Mas essa cultura ao invés de desaparecer após um período de estagnação, sob a intervenção dos romanos passou a expandir-se sem resistência no Oriente apoiada na disciplina militar das legiões e alcançou o seu ápice no domínio de Herodes I, o Grande. A helenização forçada promovida por ele provocou o aparecimento de forças de oposição, fazendo com que o judaísmo vivenciasse uma seqüência de catástrofes que culminou na destruição do Templo no ano 70 d.C.52

O movimento de Jesus é precedido por movimentos messiânicos e revolucionários que surgiram após a morte de Herodes, o Grande e pelo movimento de Judas Galileu, com a destituição de Arquelau em 6.d.C.quando a Samaria e a Judéia ficaram sob a administração direta de Roma. Esses grupos eram motivados por sentimentos messiânicos e esperavam a intervenção divina como solução para os seus conflitos.

Com a diáspora, judeus se dispersaram no estrangeiro como mercenários, escravos, fugitivos ou pessoas sem recursos à procura de sobrevivência. Pouco antes da atuação de Jesus, havia na Galileia muitas pessoas despossuídas e até mesmo apátridas. Supõe-se que a comunidade de Qumrã, junto ao Mar Morto, tenha recrutado seus membros entre elas. Praticava-se a comunhão de bens de modo que ninguém possuísse mais que os outros. Os bens necessários à vida eram produzidos numa comunidade de trabalho isolada, da qual cada membro individual era inteiramente dependente. As transgressões contra as normas eram punidas com duras sanções materiais que consistiam em exclusão temporária, no corte dos

51 Cf. THEISSEN, Gerd. Sociologia do movimento de Jesus. p. 34.

35 alimentos em 25% ou em expulsão da comunidade, o que significava uma ameaça à sobrevivência visto que era proibido aceitar alimentos de estranhos.53

Os numerosos profetas ativos do século I d.C. anunciavam uma repetição dos grandes milagres da Velha Aliança e conduziam ao deserto, pessoas reunidas entre o povo simples e sem recursos que se tornavam seus seguidores. No tempo de Jesus havia muitas pessoas desarraigadas na Palestina, prontas para deixar seu local tradicional de moradia e entre elas situavam-se os discípulos de Jesus. Em todos os movimentos de renovação intrajudaicos, recrutados dentre os socialmente deslocados existiam várias intenções de criticar a riqueza e a propriedade. Os militantes defendiam uma distribuição revolucionária dos bens na sociedade e reagiam diante do perigo de deterioração de sua situação de pobreza e miséria, aspirando a um melhor padrão de vida.

Após os distúrbios das guerras civis, Herodes implantou também na Palestina a Pax

Romana da era de Augusto com a intensificação do comércio e o aumento do consumo como

decorrência do aumento da produtividade e dos lucros procedentes das áreas rurais. Novas terras foram ocupadas e houve uma imensa atividade construtora. Melhorou a situação da classe alta enquanto piorou a situação das pessoas humildes. Os processos de ascensão e declínio abalaram valores e normas tradicionais, suscitando anseios de renovação.54

Ao movimento de Jesus aderiram tanto membros simpatizantes da camada alta, como por exemplo, a mulher de Cuza, o administrador de Herodes, um homem de confiança de Antipas (At 13,1), Zaqueu, chefe dos publicanos (Lc 19,1ss), como também pessoas dos segmentos sociais médios que estavam ameaçadas por endividamento e decadência:

53 Cf. THEISSEN, Gerd. Sociologia do movimento de Jesus. p. 37. 54 Cf. THEISSEN, Gerd. Sociologia do movimento de Jesus. p .65.

36 camponeses, pescadores e artesãos. Os motivos para abandonar tudo eram quase sempre de ordem econômica.55

O movimento de Jesus estava baseado inicialmente no campo e por isso nos Evangelhos, ouvimos muito a respeito de agricultores, pescadores, pastores e pouco de artesãos e comerciantes. A tradição sinótica refere-se à pequenas localidades, muitas vezes anônimas e silencia a respeito dos povoados maiores como Séforis, Tiberíades, Cana ou Giscala.. São raras as pessoas instruídas. Precisam ser chamadas de Jerusalém para atuarem na Galileia (Mc 3,22; 7,1).

Os militantes da resistência demonstravam um temor explícito de entrar em contato com as cidades helenísticas.56 Também no movimento de Jesus percebia-se de início uma clara distância destas cidades e advertia-se contra a ida aos pagãos ou à cidade dos samaritanos (Mt 10, 5s). Diante de Jerusalém tem-se uma posição ambígua: por um lado ela se torna o centro do movimento e por outro, conta-se dela fatos maus: desde sempre matou os profetas a ela enviados (Lc 13,33 ss) e seu Templo foi transformado em um covil de ladrões (Mc 11, 15 ss) .57

Com a expansão do movimento de Jesus formou-se em Jerusalém uma comunidade local importante e, depois em Damasco, Cesaréia, Antioquia, Tiro, Sidônia e Ptolomaida (At 9; 10, 10,1 ss; 11,20 ss; 21,3ss; 27,3 ss). Como conseqüência da abertura para com as cidades helenísticas modificou-se a posição diante de Jerusalém Esta figurava como alvo de peregrinação escatológica de todos os povos, o Templo passaria a ser casa de oração de todos

55 Cf. THEISSEN, Gerd. Sociologia do movimento de Jesus. p. 43

56 Cidades helenísticas são aquelas do Antigo Oriente que receberam influência da cultura grega depois que Alexandre Magno conquistou a Palestina em 322 a.C. Com a mudança do domínio dos ptolomeus para os selêucidas a partir de 200 a.C. estagnou-se a helenização do Oriente. A intervenção dos romanos deu início a um segundo impulso rumo à helenização com a conquista da Palestina por Pompeu no ano 63 a.C. e essa cultura espalhou-se sem resistência pelo Oriente, alcançando seu ápice no domínio de Herodes I entre os anos 40 a.4 a.C. Cf. THEISSEN, Gerd & MERZ, Annette. Jesus histórico. Um manual. pp.151-152.

37 os pagãos (Mc 11,17) e para as comunidades helenísticas a cidade santa continuava sendo o centro (1 Cor16,3; Rm 15,25).

Em Jerusalém toda a população estava vinculada ao Templo por uma diversidade de interesses materiais fazendo com que houvesse uma conformidade parcial entre as classes dominante e baixa, uma vez que ambas se beneficiavam do status quo. Excluindo-se a época de festas, a cidade era relativamente tranquila. Somente nos dias de festa a guarnição romana era reforçada por mais uma coorte.

O Templo além de se tornar o maior empregador de Jerusalém, proporcionava vantagens jurídicas para toda a cidade, sendo possível pleitear a redução de impostos. Uma vez o legado sírio Vitélio suspendeu o imposto de circulação sobre os produtos vendidos no mercado de Jerusalém e de outra Agripa I renunciou a um imposto de propriedade incidente sobre as casas da cidade santa. Estes fatos demonstram um privilégio da cidade sobre o campo como um prêmio pelo bom comportamento político.

O movimento de Jesus evoluiu do movimento de João Batista, porém se distinguia dele em três pontos característicos: 1) enquanto o Batista vivia no deserto e as pessoas tinham que abandonar suas ocupações para chegar a ele, o movimento de Jesus procedia de outro modo: caminhava para a terra habitada, visitando o povo nos locais onde morava; 2) o traço ascético do movimento batista. João não comia nem bebia, ao contrário de Jesus (Mt 11,18 ss) 58. O profeta do Reino, de modo diferente do profeta da ira iminente, come e bebe. E deve tê-lo feito tão ostensivamente, que seus inimigos o acusaram de “glutão e beberrão”, segundo as palavras do próprio Jesus (Mt 11,19). A história nos diz sem qualquer dúvida: “Jesus se apresentou como o profeta da alegria. De uma alegria que se baseia nesse governo de Deus

38 que já está à porta resplandece no modo de vida e nas ações maravilhosas de seu profeta”59 e 3) a compreensão do juízo e da graça. Para o movimento de João o arrependimento e o batismo eram a única salvação da condenação, enquanto Jesus não batizava e mostrava a irrupção do reino de Deus como um banquete de bodas, um tesouro no campo e pérolas. Jesus revela a misericórdia do Pai e o próprio chamado ao arrependimento pode ser motivado com o júbilo de Deus, que se alegra mais com um pecador que se arrepende do que com 99 justos (Lc 15,7).60

O grupo que compunha o movimento de Jesus se encontrava numa situação de exceção e marginalidade, acalentava a esperança de que sua proposta se expandisse em toda a sociedade e fosse capaz de realizar uma mudança total no mundo, inclusive na esfera ética. Diante da afirmação de que “a fé que transporta montanhas” (Mc 11,23) é lícito acreditar que também é possível a transformação do coração humano. Os seguidores de Jesus foram atraídos pela sua mensagem de reconciliação e amor transmitida nos Evangelhos, pelos ensinamentos contidos nas parábolas e pelo efeito encorajador dos milagres. Mas, a renovação dentro do judaísmo não foi atingida e o movimento de Jesus fracassou, provavelmente pela sua crítica ao Templo e a Lei e pela sua atitude diante dos estrangeiros, o que contrariava a postura dos judeus. Dentro da sociedade judaico-palestinense o movimento de Jesus sofreu uma seleção negativa, enquanto que na sociedade helenística foi aceito positivamente.

Na transição do movimento de Jesus na Palestina para o cristianismo primitivo helenístico houve uma profunda reestruturação de papéis. No contexto palestinense as autoridades decisivas eram os carismáticos itinerantes ao passo que no âmbito helenístico o peso se transferiu para as comunidades locais e as pessoas de condição social superior tornaram-se personagens determinantes do cristianismo primitivo. As cidades em crescimento

59 SEGUNDO, Juan Luís. Que mundo? Que homem? Que Deus? São Paulo: Paulinas, 1995. p 313. 60 Cf. THEISSEN Gerd. Sociologia do movimento de Jesus p. 86.

39 com levas de migrantes recém-chegados estavam mais abertas à nova mensagem que o campo. Esses grupos que ainda não tinham raízes muito profundas nas respectivas cidades podiam encontrar apoio e aconchego nas comunidades.

Na transição do contexto palestinense para o helenístico o cristianismo teve que enfrentar correntes filosóficas, concorrer com outras religiões, confrontando-se com uma série de tradições, normas e valores. Tornava-se uma religião autônoma e trouxe de sua origem uma rica herança: o monoteísmo, um ethos de alta credibilidade, a agudeza da crítica profética e uma visão universal da história, em suma o Antigo Testamento com suas figuras grandiosas. No mundo helenístico a visão de amor e reconciliação gerada numa sociedade repleta de crises tinha mais oportunidades de realização social.61