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Para se compreender o tema do reino de Deus biblicamente, as cristologias sistemáticas utilizam três vias que não se excluem, mas são complementares, destacando-se ora uma, ora outra. São elas:

195 GUTIÉRREZ, G. Teologia da libertação. p. 85.

196 SOBRINO, Jon. Crítica às democracias atuais e caminhos de humanização a partir da tradição bíblico- jesuânica. In: Concilium. Petrópolis: Vozes nº 322, pp. 75(539)-90 (554). 4/2007. p.77.

97 1) A via nocional parte da noção do reino de Deus no Antigo Testamento e nos contemporâneos de Jesus (João Batista, zelotes, fariseus, grupos apocalípticos entre outros). Através da análise do tema, deduz-se o que ele pensou sobre o reino, concluindo que ele anunciou uma utopia, algo bom e salvífico que se aproxima. Jesus usa, muitas vezes, a expressão “reino de Deus”, mas nunca diz com exatidão o que é esse reino. É provável que as pessoas soubessem exatamente a que Jesus estava se referindo, pois parecia que “reino de Deus” era um termo de alto contexto197 mencionado no Novo Testamento, não havendo necessidade de esclarecer os detalhes, pois todos conhecem essa referência. .

Segundo Leonardo Boff,198 o reino de Deus para os ouvintes de Jesus significava a realização de uma esperança no final do mundo de superação de todas as alienações humanas, da destruição de todo mal físico, moral, do pecado, do ódio, da divisão e da morte. Eles acreditavam que Deus interviria em breve neste mundo para sanar em seus fundamentos toda a criação e instaurar o novo céu e a nova terra. Essa utopia é o centro da pregação de Jesus que ele promete não mais ser utopia, mas realidade a ser introduzida por Deus. O reino de Deus não será outro mundo, mas o velho mundo transformado em novo. Significa a libertação do pecado e do seu significado para o homem, a sociedade e o cosmos.

Jon Sobrino apresenta a concepção do reino de Deus aceita por Walter Kasper que o adota como a mensagem central de Jesus, seu caráter escatológico e teológico, e conclui que o reino é salvação que se efetua através do amor de Deus que se autocomunica. No amor, o homem e o mundo encontram sua plenitude. Ele acredita que na obra de Kasper o reino de

197 Sociedades de alto contexto são aquelas que produzem documentos resumidos e genéricos, pois considera-se que as pessoas que vivem nestas sociedades participam das experiências, das formas de observar e agir, não havendo necessidade de explicar claramente todas as obrigações. A Bíblia, juntamente com outros escritos de antigos povos do Mediterrâneo encaixa-se neste perfil de alto contexto. Ao contrário, as sociedades de baixo contexto produzem documentos verbais detalhados que explicam claramente os fatos, deixando pouco espaço para a imaginação. Cf. MALINA, Bruce. O Evangelho social de Jesus. O reino de Deus em perspectiva

mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004. pp. 11-13.

98 Deus deixa de ser concreto e perde a sua centralidade. Toma outro exemplo do reino de Deus como salvação na obra de Pannemberg, na qual, diante do anúncio da aproximação do reino, o homem se vê obrigado a sair de sua segurança cotidiana e abrir a sua existência para Deus de forma incondicional. O reino de Deus é salvação porque, ao estar chegando, embora não atinja a sua plenitude na história, permite aos homens atingir a sua própria essência e viver como verdadeiros seres humanos. Jon Sobrino acredita que estes exemplos mostram que a concretização do reino de Deus pode estar guiada pelo próprio interesse, adequando-se ao que se decidiu ser o reino de Deus.199

2) A via da práxis refere-se às atividades de Jesus que ele mesmo relacionou com o reino, indicando a direção que este tomará em sua plenitude (vida, paz, liberdade, dignidade), gerando esperança de que esse reino é possível. O fato de Jesus aparecer relacionado com o reino não implica em uma identificação total. É sinal de que o reino de Deus chegou, não de que chegou Jesus.200

Os milagres201 como sinais do reino, são antes de tudo salvação, realidades benéficas e libertadoras que geram alegria pelo benefício diante da opressão e esperança no libertador. Ajudam a compreender o reino de Deus porque o afirmam como salvação concreta e por isso plural. Deus salva das necessidades imediatas sem explicar de quais necessidades o reino pode salvar. Após a ressurreição, os milagres não são postos em evidência nos escritos do Novo Testamento, uma vez que são considerados pequenos em comparação à grandiosidade

199 Cf. SOBRINO, Jon. Centralidad del reino de Dios en la teologia de la liberación. In: ELLACURIA, Ignácio & SOBRINO, Jon. Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la Teologia de la liberación. v.1. pp. 478-480.

200 Cf. SOBRINO, Jon. O reino de Deus e Jesus. Compaixão, justiça e mesa compartilhada. In: Concilium. Petrópolis: Vozes n.. 326. 2008/3.

201 Este tema já foi desenvolvido no capítulo II deste trabalho, ao qual são acrescentadas as considerações específicas de Jon Sobrino.

99 que se esperava proveniente do reino e por isso não foram compreendidos por todos, mas somente por aqueles que necessitavam “salvação” em sua vida cotidiana.

No entanto, os milagres, além de salvação são, também, estrita libertação, visto que as necessidades concretas são conseqüências de algum tipo de opressão. No tempo de Jesus as enfermidades eram compreendidas como produto do poder opressor do maligno que permeava a mentalidade da época. Quando Jesus acolhia os pecadores não somente os aceitava com bondade em sua companhia, mas acolhia os excluídos pela sociedade vigente e os oprimidos pelo sistema religioso. Os milagres e os sinais de Jesus acontecem não somente como satisfação de necessidades, mas também como sinais de salvação e libertação.202

Os milagres têm como razão fundamental a compaixão e a misericórdia que Jesus sente pela dor alheia. Eles não se manifestam como pura atividade de cumprimento de algo prescrito, mas como reação a uma situação que impede a pessoa de viver em paz. Quando Jesus quer apresentar o homem justo ele o define como o samaritano da parábola, movido pela misericórdia (Lc 10,33). Do mesmo modo, quando quer definir a Deus na parábola do filho pródigo (Lc 15,20) volta a repetir “movido pela misericórdia”. Reagir desse modo “significa trabalhar pela justiça e pôr ao seu serviço todas as capacidades humanas, intelectuais, religiosas, científicas, tecnológicas”. 203

3) A via dos destinatários do reino leva à concretização do que é a utopia e a salvação do reino. A prática do anúncio do reino de Deus mostra que são de preferência os pobres que podem recebê-lo com arrependimento e com alegria. É comum que a alegria da notícia de uma sociedade a ser permeada pela justiça irrompa entre os pobres e não seja percebida pelos ricos.

202 Cf. SOBRINO, Jon. Centralidade del reino de Dios en la teologia de la liberacíón. In: ELLACURIA, Ignácio & SOBRINO, Jon. Mysterium liberationis. v.1. p. 483.

100 A condição social assumida pelo Verbo de Deus foi a de um pobre. A pobreza concreta não é em Cristo uma determinação acidental. Ao contrário a condição de pobreza do Cristo faz parte do mistério de sua humilhação e do seu esvaziamento. A manifestação de Deus na forma de um pobre constitui um traço original da revelação cristã. Por essa razão o Deus cristão não se entende sem o pobre, o indefeso, o desprezado, isto é, o necessitado. Portanto a pregação evangélica jamais poderá dissociar o anúncio de Jesus Cristo da proclamação aos pobres de sua libertação.204

De acordo com Jon Sobrino, os pobres são: uma realidade econômica e social que torna a vida para eles uma dura carga pela dificuldade de viver e pela marginalização; uma realidade coletiva, pois existem povos pobres ou pobres enquanto povo; uma realidade histórica, uma vez que a sua existência ocorre quase sempre por razões históricas em decorrência da injustiça; uma realidade política com um potencial conflitivo e transformador para a sociedade e uma realidade dialética: “Há ricos porque há pobres e há pobres porque há ricos”, 205 verdade bíblica e histórica fundamental que foi proclamada em Medellin e Puebla.

Os pobres são os carentes e os oprimidos, no tocante ao básico da vida material; são aqueles que não têm palavra, isto é, liberdade; são aqueles que não tem nome, isto é, existência. No regime feudal, havia escravos e na Revolução industrial, proletários. Suas vidas eram consideradas cruéis, porém visíveis. Atualmente passou-se para a invisibilidade do pobre. A globalização que teoricamente quer mostrar que vivemos num mundo inclusivo, de todos e para todos, num mundo substancialmente homogêneo e harmônico que só produz bens, na realidade não se diferencia de outros processos de economia.206 Como o Estado

204 Cf. PIXLEY, Jorge; BOFF, Clodovis. Opção pelos pobres. Petrópolis: Vozes, 1986. pp. 132-134.

205 Cf. SOBRINO, Jon. Centralidad del reino de Dios em la teologia de la liberación. In: ELLACURIA, Ignácio & SOBRINO, Jon. Mysterium liberationis. v.1. p. 489.

206 Cf. SOBRINO, Jon. Fora dos pobres não há salvação: pequenos ensaios utópico-proféticos. São Paulo: Paulinas, 2008. pp. 76-82.

101 contemporâneo não se sente mais responsável pelo pleno emprego, delega a cada um que encontre a sua oportunidade, corra o seu risco e aqueles que estão na periferia do capitalismo que encontrem seu lugar no mercado informal, que invente seu emprego. Os países da periferia do capitalismo sentem-se acuados com o atual nível de violência de suas sociedades, cuja principal causa parece estar nas tensões geradas pela crescente concentração de renda e a exclusão social de uma grande parcela da população urbana, tudo isso convivendo com uma mídia global que valoriza o individualismo e estimula padrões de consumo que poucos podem ter.207

Os pobres são os destinatários do reino não por alguma qualidade moral ou religiosa, nem porque a pobreza possibilite uma abertura maior para Deus, mas simplesmente porque Deus é assim. A conferência de Puebla diz que “os pobres merecem atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontram” 208. Segundo Gustavo Gutierrez209 essa afirmação se choca com a nossa rígida maneira de entender a justiça e essa preferência nos recorda mais precisamente “que os caminhos de Deus não são os nossos caminhos”(Is 55,8).

Outro aspecto importante do reino é a sua dimensão transcendente. Do ponto de vista histórico o “ser” de Deus transcende as expectativas da razão natural, de modo que diante do anúncio de Jesus de que o reino de Deus pertence aos pobres sua atitude causa escândalo e conflito. Esta parcialidade é a novidade, é imprevista e se converte em mediação histórica da novidade e imprevisibilidade de Deus, do seu mistério, de sua transcendência com respeito às imagens humanas de Deus. Aceitar a parcialidade do reino é uma forma de deixar que Deus se

207 Cf. DUPAS, Gilberto. A lógica da globalização e as tensões da sociedade contemporânea. In: Hypnos. A

Filosofia, seu tempo, seus lugares. São Paulo: EDUC: Palas Athena, 1999. 5/1999.

208 CELAM . Conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, Medellín, Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. Puebla 1142.

209 GUTIÉRREZ, G. Pobres y opción fundamental . In: ELLACURIA, Ignácio & SOBRINO, Jon. Mysterium

102 mostre como Ele é, como Ele queira mostrar-se. Através dos pobres, Deus se mostra como Deus, como mistério imanipulável.210

A via do destinatário ajuda a concretizar o conteúdo do mistério de Deus. O Novo Testamento diz com radicalidade que Deus é amor e os pobres, como destinatários do reino, têm a capacidade de concretizar o conteúdo histórico do reino e também de fazer conhecer melhor o Deus do reino. Deixá-Lo ser Deus, que Ele manifeste seu amor como Ele decide: aproximando-se salvificamente dos que não são amados, senão oprimidos e depreciados deste mundo. Considerar os pobres como destinatários do reino, exige uma compreensão prévia que implica em conversão, para estarmos abertos e chegar a captar esse Deus que assim se manifesta.

Assim, o serviço de Jesus nos mostra o que foi o reino de Deus para Jesus. Segue sendo utopia e, portanto indefinível, mas é a utopia dos pobres que significa o fim de suas desventuras, a libertação de suas escravidões, a possibilidade de viver e viver com dignidade. O Deus do reino é um Deus que deseja a vida dos pobres e os liberta do antirreino. 211