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Functional Inorganic Materials

6.1 UNIVERSITY OF OSLO

6.1.1 Department of Chemistry

6.1.1.4 Functional Inorganic Materials

Verificamos que o texto está focado na ação divina, trata-se da narrativa de um único actante, os demais sujeitos do texto, estão sintaticamente determinados pelo poder divino, que se expressa em sua capacidade criadora, bem como em sua palavra; determinando funções e estabelecendo a geografia, como, por exemplo, no caso dos astros, mas também, causando o surgimento de outras obras criadas desde seres anteriores, como as plantas, que nascem da terra (v. 12). Tal poder de ação está definido de forma paradigmática em um ritmo ternário. A realização das obras obedece a um esquema fixo, mesmo nos casos onde poderia parecer que a ação não pertence a Deus.

As obras da criação são realizadas sob o seguinte modelo:  A obra é anunciada: “Deus disse”;

 É realizada: “Deus criou” ou “Deus fez”;  É avaliada: “Deus viu”.

A partir da tríade fundacional da ação de Deus; do número de obras e da contagem dos dias, elaboramos o seguinte quadro:

Ação de Deus Diz Cria ou Faz

Vê e Julga

Separa Nomeia Coloca Abençoa Dá Contagem do dia Obras Céus e Terra 131 Luz 3a 3c 4 4 5 5 Firmamento 6 7 7 8 8 Mares e Terra 9 9 10 10 Plantas 11 12 12 13 Luzeiros 14 16 18 17 19 Seres aquáticos e Pássaros 20 21 21 22 23

31 Como esta ação de Deus é um merismo, isto é, indica o todo da criação, não a tomamos em conta no computo

(2232) Animais da Terra e Répteis 24 25 25 30 Ser humano 26 26 31 28 29 30 (28) 2,2 (29) Total (11) 8 8 7 2 3 1 2 2 7

Deste quadro destacam-se dois aspectos:

 O número de obras (8) coincide com o número de vezes em que Deus anuncia a criação de uma obra;

 O número de dias da semana (7) é o mesmo da fórmula da avaliação da criação (juízo).

Percebemos uma possível incongruência estrutural, que vem chamando a atenção dos exegetas, desde a distribuição das obras em dias realizada por H. Gunkel33, discute-se acerca do esquema que contempla 8 obras de criação e sua

disposição em sete dias. A divergência latente entre a disposição das obras, ditas, de separação (opus separationis) e suas correspondentes obras de ornamentação (opus ornamentationis), termos consagrados desde Tomás de Aquino34, indicariam a

existência de um texto exclusivamente cosmológico, anterior ao texto que visa a santificação do sábado.

32 A fala de Deus nos versículos 22; 28 e 29, não diz respeito a uma obra de criação, no sentido que depois da

pronúncia Deus faz uma nova criatura, do ponto de vista da constituição material; no v. 22 e no v.28 a palavra de Deus está vinculada à benção dada aos animais e ao homem, respectivamente, e à ordem de multiplicação, já o v. 29 trata da alimentação humana e animal. Assim estamos diante de uma organização da criação posterior a sua origem, por isso, aqui elas são consideradas separadamente das outras “falas” divinas.

33 GUNKEL, H. Gênesis. In: LORETZ, Oswald. Criação e mito. São Paulo: EP, 1979, p.54. 34 Id. Ib. p.53.

Esta situação torna-se explícita quando analisamos a distribuição das obras nos dias e observamos uma duplicação no terceiro e no sexto dia. Como nos apresenta o quadro abaixo35:

Há uma disparidade entre o número de obras e o número de dias. Este impasse foi resolvido com a duplicação das obras no terceiro e no sexto dia, de tal forma que no esquema de sete dias existem 8 obras. Poderia o quarto dia ser um acréscimo ao esquema original, uma vez que ela não é essencial ao funcionamento da economia do texto?36. A disputa em torno do esquema de sete dias e da presença ou não do quarto neste esquema, quer responder a seguinte pergunta: “por que os astros são criados só depois da luz, e mais ainda, só depois das

plantas?”37.

Esta preocupação justifica-se também pelo espaço que é dado à criação dos luzeiros, que perdem em espaço apenas para a criação do homem. Por trás dessa ênfase existem grandes preocupações. Há uma desvinculação esquemática entre a criação da luz no v. 02 da criação dos luzeiros no v. 14. Os luzeiros representariam algo distinto da luz?

De início, se descreve que a luz é separada da escuridão, e faz parte das obras de estruturação, enquanto os luzeiros, das obras de constituição, as quais

35 Quadro similar encontramos em: LORETZ, Oswald. Criação e mito. São Paulo: EP, 1979, p. 58. 36 Id. p. 63.

37 Id. Ib. 64.

1ª Obra: luz 1º dia 1

2ª Obra: firmamento 2º dia 2

3ª Obra: mar 3º dia

4ª Obra: terra e plantas 3º dia 3

5ª Obra: luzeiros 4º dia 4

6ª Obra: seres aquáticos e pássaros 5º dia 5 7ª Obra: animais da terra e répteis 6º dia

8ª Obra: homem 6º dia 6

possuem uma função especificada em virtude das primeiras. Além disso, a criação da luz, precede o surgimento do firmamento, local a que os luzeiros são dedicados desde o início, como podemos verificar no texto: ~ yIm;êV 'h ; [ :yq Iår >Bi ‘t r oa om. yh iÛy> (que haja

luzeiros no firmamento dos céus). Há assim uma determinação geográfica para os

luzeiros, o tempo passa a habitar o espaço, tendo em vista que esta é uma das funções deste seres (Cf. v.14).

O problema da distinção geográfica e estrutural é acrescido por questões sobre a função dos dois elementos. Há uma repetição sobre o tema: no v. 02 a luz é identificada com o dia, enquanto no v. 14 os luzeiros têm por função a separação entre o dia e a noite, aqui seria possível uma diferenciação, a luz como dia, e os luzeiros postos ao serviço do dia e da noite, todavia, o v. 16 afirma que o grande luzeiro foi feito para dominar sobre o dia38.

Essa confusão entre as obras da luz e a luz, parece apontar para um esquema original de sete obras que foi ampliado para oito, com finalidades teológicas39. Não que eles não fossem entendidos como coisas distintas, ao menos na organização do texto, mas a prolixidade da ênfase na função dos astros indica que o autor intenta demarcar bem a função destes, mais do que o combate aos ídolos, os astros foram tomados como marcadores do tempo, e de modo especial do calendário cultual, tema que se desvela no v. 14. Sua inserção serviria para regular o

38 Jó 38,19 também apresenta uma noção de distinção entre luz e astros; no que é seguido por Dn 3,62s. 39 Claus Westermann entende que o autor sacerdotal busca tornar possível o esquema de sete dias, mas também,

realiza um processo de demitização das divindades astrais, localizando-as em função do culto hebraico, Cf.: WESTERMANN, Claus. Genesi. Casale Monferrato: Ed. Piemme,1995, p. 24. Este é o mesmo parecer de G. Von Rad, Cf.: VON RAD, Gehrard. El libro del Gênesis.Salamanca: Sígueme, 1982, p. 64. Tese esta, que encontra eco também em Milton Schwantes, que acredita que o autor promove uma limpeza da “poluição ideológica” do estado babilônico, Cf.: SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança: meditações sobre Gn 1- 11. São Paulo: Paulinas, 2002, p.41. A idéias do combate à idolatria também é destacado por ARANA, Cf.:Andrés I. Para compreender o livro do Gênesis. São Paulo: Paulinas, 2003, p.34.

calendário do culto, centro da vida sacerdotal. No sistema estrutural do calendário sacerdotal o quarto dia possui uma importância particular e é o primeiro dia do ano40.

Por trás do mecanismo do mundo astral que Deus, com sua palavra, pôs em movimento, encontra-se o poderoso criador, que se utiliza dessa ordem de corpos luminosos, para regular suas relações com Israel. Os astros fornecem a estrutura temporal que, mediante o culto, permite e garante objetivamente a aliança de Deus com o seu povo41.

Percepção esta que se coaduna perfeitamente com o que vimos na análise lexicográfica, nela demonstramos que o uso de t r oa om (luzeiros) é eminentemente cultual. Desta forma a luz (r Aa =) é o elemento físico, essencial à estrutura do mundo enquanto os luzeiros estão vinculados ao culto. Por isso, não é estranha a concepção de um esquema original de sete dias, com sete obras, posteriormente estendido para oito obras, com o fim de contemplar aspectos do culto.

Resolve-se a questão recordando o epicentro teológico das ações de Deus. Lembremos que o verbo a r "äB' é utilizado 7 vezes, ele manifesta que o centro está na ação de Deus e não nas obras, a preocupação com as obras é um aspecto secundário do objetivo do sacerdotal, elas são meios e não fins.

De outra parte, podemos relativizar aspectos da estrutura, em função da teologia do autor. A importância das obras não se reduz ao significado que possuem em si, elas estão orientadas para a história da salvação, desta forma o texto não objetiva unicamente vincular as obras nos sete dias da criação, daí, poderiam ser 8, 9,ou mais obras, postas em 7 dias, porque o que importa ao autor é impor um significado além da cosmologia: o sábado e o repouso sabático.

40 VOGT, E. Antiquum Kalendarium sacerdotale. In: LORETZ, Oswald. Criação e mito. São Paulo: EP, 1979,

p.65.

Neste sentido, o primeiro aspecto que se destaca na estrutura do texto, é sua organização em função do número 7. Idéia que é fortalecida pelo uso do verbo a r "äB' (criar), feita por 7 vezes. Esta centralização no número sete indica uma arcabouço que conduz ao sétimo dia. O foco da atenção é o sábado. A obra caminha num ritmo ascendente claramente marcado por expressões temporais (como vimos anteriormente), cujo ápice é o sétimo dia. No sábado o ato de criar expresso pelo verbo a r "äB' encontra a sua plenitude. Entretanto, não realizaremos agora digressões de cunho teológico, deixaremos estas análises para a parte posterior deste trabalho, onde enfocaremos exclusivamente a hermenêutica teológica do texto.

Concluindo: a ação de Deus não está determinada pela quantidade de obras, haja vista que a relação entre a “criação por palavra” e a “criação por ato” é dissonante, o que se torna claro na quantidade de falas de Deus e quantidade de obras. Essa disparidade é acentuada por outra diferença, a do número de obras e a do número de dias. Assim, o ato divino de criar está mais em função de uma teologia do que de uma cosmologia. O autor está preocupado em afirmar uma ordem e uma finalidade para a criação, do que de provar o modo como ela se originou.