A compreensão acerca do lugar do ser humano dentro do processo de criação e de ordenamento desta, pode ser delimitada sob duas perspectivas: uma do ponto de vista da estrutura do texto, que está organizado em função do ser humano, como um dos eixos enucleadores, embora não seja ele o núcleo fundamental; e outra do ponto de vista da teologia da Aliança que perpassa o texto.
Através da importância do ser humano no relato, pela via da estrutura do texto, apresentaremos também seu valor desde a teologia da Aliança, neste caso uma análise pressupõe a outra.
Do ponto de vista da estrutura do texto, percebemos que o relato caminha numa condição ascendente, estabelecendo condições estruturais, para organização da vida, como o tempo e o espaço60; estabelecimento das diversas formas de vida
nas águas, no ar e na terra, até chegar ao ser humano. Desta forma o humano é o elemento final deste processo, mas não a finalidade do mesmo, uma vez que esta competência é uma prerrogativa do sábado e do repouso sabático.
O reconhecimento dessa ascendência humana dentro da criação fica patente, ao observarmos o espaço que cada obra da criação ocupa no relato. Ao ser humano são dedicados 4 longos versículos (Cf. Gn 1,26-29), mesmo os luzeiros que ocupam 5 versículos não recebem um espaço maior. Além da quantidade, as implicâncias teológicas decorrentes da criação do ser humano, ampliam esta “elevação”.
Os luzeiros recebem funções de ordenamento temporal, que determinam para o autor, a superação do tempo como mera cronologia, impingindo-lhe um
60 Embora não seja possível afirmar que o autor tivesse em mente tais conceitos quando elaborou o texto. Os
utilizamos aqui buscando evitar o anacronismo conceitual, por isso, quando os usamos, estamos nos referindo aos Temas Operatórios Estruturais (criação do firmamento; separação entre luz e trevas; separação das águas e o conseqüente surgimento do mar e do seco)
perspectivismo histórico. Sua função é servir à história da salvação. No entanto, a “salvação”, entendida aqui em função do pacto sinaítico, é destinada ao ser humano. De tal forma, que não é o ser humano que está a serviço dos astros, mas ao contrário, aqueles é que estão em função deste.
Neste escopo, a dignidade é alçada aos máximos píncaros: ele é criado à imagem e semelhança de Deus (v. 27); recebe a incumbência de dominar a criação (v. 26) e de submeter a terra (v. 28); e, das obras realizadas por Deus é a única61
que recebe com grande ênfase o uso do verbo a r "äB' (criar), por três vezes!
A existência humana é definida em função da imagem e semelhança divina, o ser humano não possui a vida apenas como uma realidade material, mas como uma realidade física determinada pelo sentido que lhe imprime a vontade criadora de Deus. Percebemos na análise lexicográfica que os termos WnmeÞl .c ;B. (~ l ,c , = imagem) Wnt e_Wmd >Ki (t WmD. = semelhança) estão determinados pelo termo h l 'v 'm.m,. (l v m = dominar). Ainda naquela ocasião, verificamos que o exercício do domínio embora possa ser feito pelo uso da força, diversas vezes descreve que o agir do humano deve estar vinculado a Iahweh, como modelo de ação, o que significa atuar pautado no direito e na justiça.
Assim, a vida humana é uma vida modelo-cópia. O ser humano deve ter a Deus por modelo de suas ações: “o homem deve imitar o seu modelo do repouso
divino do sábado. O fim de toda a criação e do homem é o sábado de Deus. Apenas através do sábado, o sétimo dia, a criação do mundo chega ao seu final62”
O homem é imagem e semelhança de Deus, isso revela que ele participa do poder criador de Deus, não em pé de igualdade, mas de forma a continuar a sua obra, como co-criador, para isso faz-se necessário a observação do que propõe
61 Além do ser humano, apenas os grandes monstros marinhos são criados sob o uso deste verbo (Cf. v. 21) 62 LORETZ, Oswald. Criação e mito. São Paulo: EP, 1979, p.77.
Deus para o homem, ou seja, a vivência dos fundamentos que sustentam esta relação.
Podemos entender os fundamentos da relação do homem com Deus, quando atentamos para o uso do verbo a r "äB . Nos usos deste verbo no AT verificamos que há uma contínua recorrência em textos que se referem à criação do ser humano e de Israel enquanto povo, o que nos indica que a criação como um todo, que também é retratada em sua origem com este verbo, não possui finalidade exclusiva em si própria, mas que plenifica sua existência nestes dois âmbitos: o humano e Israel enquanto povo .
Ora, se a criação possui uma finalidade, e esta transcende a materialidade da vida, e centra-se na história da relação de Deus com o ser humano e de forma especial com o povo de Israel, é nesta relação que se encontra o sentido dela. As bênçãos concedidas ao ser humano e já estudadas indicam, que somente ele, pode aderir à justiça de Deus proposta como meta de salvação através da Aliança.
O conceito da “semelhança”, do humano com o divino, é particularmente esclarecedor neste item: apenas no exercício da sua semelhança com Deus o ser humano pode superar o caos e alcançar a salvação. Neste sentido relacional, a benção da “imagem e semelhança” não é uma realidade ontológica estabelecida apriorísticamente, pois se constitui a medida que o humano exerce-a, vivendo os preceitos da Aliança feita com Deus.
A finalidade da vida do ser humano, proposta por Deus, manifesta a plenitude da criação, a existência humana só alcança seu fim, quando participa efetivamente do descanso sabático, ícone da Aliança que se manifesta no texto. O homem tende para a Aliança como condição da plenitude da vida, seu existir corre para a
salvação. Assim, é na relação homem-Deus (Aliança) que se manifesta o fim de toda a criação.
Desta forma o homem não é o núcleo da criação, nem expressa a perfeição das obras criadas pela sua ontologia. É na história que se desenha entre ele e Deus, que se manifestará a finalidade para a qual Deus destina a sua criação: o sábado. Importa destacar que é nesta relação do ser humano com Deus, que o tempo cronológico se torna história, porque tende a uma finalidade estabelecida, ele deixa de ser uma mera contagem do passado, para exprimir o sentido deste em função do futuro de Deus. E é este futuro que manifesta o sentido nuclear do texto.
É clarividente no texto o sentido teleológico da criação: ele tende para a plenitude em Deus, o universo caminha para sua plenificação em Deus63. Esta plenificação não acontece de forma mecânica, no homem, deve acontecer a adesão a este projeto de Deus.
A importância do homem para teologia da criação aparece na mesma perspectiva da existência de um ser inteligente para a Cosmologia. Enquanto no relato de Gn 1, 1 – 2,4a, o homem é criado com tal finalidade, na Cosmologia Antrópica pergunta-se se há uma relevância inerente à vida humana na evolução do cosmo.
Enquanto a primeira é claramente antropológica, assumindo que é através da relação do homem com Deus que a plenitude pode ser possível para todo o universo, a segunda perquire se há um real significa da vida inteligente para o cosmo, se suas leis estão calibradas de tal forma que a existência humana foi necessária.
A noção de Princípio Cosmológico Antrópico, que será apresentado no próximo capítulo, é uma elaboração que busca dar conta desta questão. Diversas formulações aparecem. Enquanto, não acontece o consenso científico sobre esta questão, da relevância do humano para a calibragem das leis naturais, é certo que a permanência da vida no mundo depende do ethos a ser tomada como fundamento de qualquer das Cosmologias.