A elaboração do material teológico nesta perícope obedece a um esquema litúrgico57, o que nos aponta indícios acerca da autoria do texto, mas, sobretudo nos
fornece aspectos importantes para compreender a intenção com que se narra a criação.
A proposição da criação sob um paradigma cultual fica patente ao observarmos que o mesmo está simetricamente determinado por atos divinos e estrofes repetitivas, numa fórmula tipicamente litúrgica.
Assim sendo, poderíamos nomear Gn 1, 1 – 2,4a como uma “liturgia da criação”. Nesta liturgia encontramos três grandes repetições: o juízo divino sobre a criação (vs. 4.10.12.18.21.25.31); a expressão de finalização das obras “e assim era” (vs. 7.9.11.15.24.30) e a expressão de localização temporal ”houve uma tarde e
houve uma manhã” (vs. 5.8.13.19.23.31).
Destas nos interessa particularmente a expressão que lembra a passagem do dia, esta repetição litúrgica parece apontar para a recordação que o curso do dia estava marcado pelo Tamid “que renovava cada noite a obra salvadora do êxodo do
Egito (Dt 6,6) e cada manhã, o ato salvífico central da aliança concluída no Monte Sinai (Nm 28,6), conservando assim sempre viva, em Israel a memória das obras salvíficas básicas”58.
Decorre desta estruturação da criação, em função do falar de Deus e da percepção da passagem do tempo vinculada à liturgia da Aliança, que o relato da criação é uma declaração normativa para vida de Israel59; a qual encontra sua razão de ser no culto sabático proposto no Sinai (Cf. Ex 20,8). Desta forma a liturgia cósmica da criação assume a perspectiva de memória retroprojetiva das obras salvíficas, ou seja, desde o início se prevê a plenitude da vida de Israel na salvação que provém de Deus. Esse anacronismo litúrgico, que retroprojeta a história da salvação até um tempo primordial, indica que o autor sacerdotal pressupõe que a criação só é possível dentro do tempo divino, entendendo que fora dele só existe desordem e vazio como expresso pelo em Gn 1,2.
Percebe-se então que tempo e criação são determinadas pela Lei. Isto quer indicar que a criação possui uma finalidade “moral”, a qual é expressa sob o transfundo anamnético da liturgia. Desta percepção a teologia da palavra vista no
58 GROSS, H. Exegese teológica de Gn 1-3. In: FEINER, J. & LOEHRER, M. A história salvífica antes de
Cristo. Petrópolis: Vozes, 1972, Vol II/2, p. 26.
item anterior adquire sentido. A palavra que decreta a existência imprime, também, o fim a que se destina a existência. Ela não desborda numa autonomia estéril, mas encontra seu sentido fundamental na relação com Deus, entenda-se na Aliança.
O ordenamento da realidade, efetuado pela palavra divina propõe que é o tempo que organiza o espaço, mas como o tempo é determinado pela Aliança, a realidade só possui possibilidade de existência dentro do projeto divino, fora dele há a desordem e a injustiça, por isso o espaço é organizado dentro de sete dias, e o tempo adquire significado no repouso divino que dignifica a criação, como tempo de encontro entre a criatura e o criador. Assim o espaço (dependente do tempo para adquirir ordem) e o tempo cronológico (elemento ordenador) estão sujeitos ao “tempo divino” (Aliança como fonte da ordem).
A preocupação com o lugar dos luzeiros no ordenamento da criação aprofunda esta compreensão. A determinação destes sob funções específicas, além de revelar a superação das mitologias extra-israelitas, indica esse elemento enucleador da criação sob uma hermenêutica cultual. O perscrutínio da funcionalidade dos luzeiros manifesta uma transformação da temporalidade, o tempo deixa de ser mera cronologia do movimento espacial e passa a ser história, porque obedece a um sentido finalístico que é explicitado pela anamnésis cultual: a Aliança é o horizonte que realmente confere “luz” e ordem para a criação, pois o tempo tende ao sábado como horizonte constitutivo e significativo.
Como já vislumbramos anteriormente, nem o tempo, nem o espaço, determinam ad infinitum a criação e o ser humano, estes elementos estão em função do decreto sabático, assim, só em Deus a vida encontra sua plenitude. A lâmpada que deve arder eternamente no santuário (Cf. Ex 27,20) deve recordar aos israelitas
que a separação entre luz e treva, é o que o culto recorda: a salvação de Israel da escravidão e seu ordenamento sob a Aliança.
Seria possível retirar desta perspectiva litúrgica algum tema que permitisse um teologizar interdisciplinar com a Cosmologia? Averiguamos anteriormente que a noção de ordem da realidade é fundamental tanto para a ciência cosmológica quanto para a teologia da criação. Para a primeira como conceito que permite a existência da realidade e sua não dissipação no vazio, já para a segunda, porque a ação divina evita a degradação da existência na falta de sentido e de finalidade.
Por conseguinte a manutenção da ordem é a fórmula necessária para garantir a existência da vida. Garantir esta ordem, do ponto de vista teológico, garante o sentido da criação, bem como aponta para sua finalidade: a plenitude da criação em Deus. Somente o criador é capaz de manter a criação definitivamente ordenada.
Garantir a superviência da ordem é um dever ético. Assim o humano é convocado a garantir que a realidade criada, que o cosmo ou a natureza, se mantenham ordenados, para a existência não se perca.
Em suma, do reconhecimento do fundamento ordenador do cosmo, o homem é convidado a assumir um posicionamento diante do mundo de acordo com o que lhe estrutura: a palavra de Deus. Ou seja, da percepção da criação como realidade ordenada, para garanti-la o ser humano deve assumir uma atitude de vida em função dos valores que daí desborda. Não se trata de um direito natural, mas de uma ética, adequada aos fundamentos da realidade, que são “bons” de acordo com o julgar divino sobre a criação, manifesto na fórmula: “e viu que era bom”. O ordenamento apresenta a finalidade da criação.