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Antes, cabe lembrar que pelo menos três professoras da escola desenvolvem atividades concomitantes em outras escolas, o que faz com que se tornem um elo entre esses ambientes:

Também trabalho [...] sendo na escola estadual, mas a realidade é totalmente diferente da do município. É o ensino médio. É outra realidade. São alunos bem [...] mais maduros. (professora Eva)

Cinquenta. Quarenta horas semanais no município e dez horas semanais. E vinte horas semanais. Cinquenta não, é sessenta. Eu até errei. É sessenta. Vinte horas semanais no Estado. (professora Ana)

Já tivemos oportunidade de verificar a influência do macrossistema sobre a escola e os professores em uma diversidade de situações. Como elas ficaram dispersas em face da estrutura do trabalho, agora as retomamos como forma de orientar um diagrama que apresentaremos ao final como representação do microssistema escolar e de suas interações com os demais ambientes.

O macrossistema aparece na perspectiva de uma professora de mudar a relação dos pais com a escola a partir de uma alteração normativa em um programa de distribuição de renda. Da mesma forma, ele está presente na visão do papel feminino entre docentes dos anos iniciais do ensino fundamental, o que, do ponto de vista da disputa de poder na sociedade, pode trazer uma série de consequências econômicas para a categoria. Na educação, o macrossistema deixa sua marca nas políticas de formação e na normatização de diretrizes para a carreira. Por fim, ele se manifesta na influência da tecnologia sobre o dia a dia de uma professora, que consegue estudar e preparar aulas em casa em face dos avanços nesse campo.

Passando às comunicações interambientes, começamos com o registro de uma nota de observação:

Após a discussão de um ponto extra sobre mudanças nas estratégias da reunião de pais, a reunião foi aberta ao informe de uma representante do Sindicato dos Professores do Município de Crateús. Na verdade, a professora Socorro Siqueira veio pedir apoio a uma paralisação da categoria proposta pelo sindicato para o dia 13 de setembro. Nesse dia, os professores não iriam à escola, fariam uma caminhada da sede do sindicato até a sede do Poder Judiciário onde haveria uma audiência do professor Edilson, presidente do Sindicato, que havia sido acionado judicialmente pela ex-Secretária de Educação Aurineide Pires, em face de declarações supostamente ofensivas em movimento grevista pretérito. Nessa mesma reunião os professores deliberaram, por unanimidade, pela adesão ao movimento. Entretanto, a professora Ana questionou a omissão da entidade em relação à defesa de outros membros da categoria que estariam sendo igualmente perseguidos por meio de ações judiciais similares.

O sindicato tem uma história de embate com o município no encaminhamento das questões salarias dos professores, reportadas como um dos grandes problemas ou pontos negativos da carreira:

Os aspectos positivos é ter sempre esse contato direto com os alunos. É fazer parte de sua história. E os negativos: a questão salarial, e, consequentemente, ter que assumir uma carga horária abusiva, deixando a desejar nos planejamentos das aulas. (professora Ana)

Para a professora Ana, a situação salarial obriga o professor a assumir uma carga de trabalha que degrada as condições do exercício da profissão e de sua vida, de maneira geral, consoante se vê na declaração a seguir:

Nós [...] estamos com quatro anos em que a cada ano se tem uma greve. E isso vai desgastando fisicamente e mentalmente o professor também, né? É um cansaço. [...] Você olha pro aspecto do professor hoje, você vê cansaço no professor. E isso implica demais no seu trabalho. Este ano mesmo nós [...] nós passamos por uma greve e [...] vamos trabalhar até o mês de janeiro. Então as nossas férias só vão ser mesmo em julho.

Na sequência, a professora Ana deixa ainda mais explícita a outra influência mais forte na vida dos professores municipais, a Secretaria de Educação, que ela avalia como refratária a toda a sorte de reivindicações da categoria:

Existe uma rixa muito grande entre Secretaria de Educação e Sindicato dos Professores. Eu acho que isso se tornou uma barreira muito grande para a melhoria da educação. [...] o sindicato [...] é [...] atuante. Ele é tão atuante que ele é conhecido mundialmente. O sindicato dos professores do Município de Crateús. Ele é tão atuante que ele se preocupa muito mais de nos proporcionar cursos do que a própria Secretaria de Educação.

[...] a gente cobra do grupo gestor. Mas o grupo gestor nunca está no poder. Porque eles são, eles têm que pedir autorização à Secretaria de Educação do Município. E logo em seguida, quando eles comentam lá, já é barrado. Não temos.

Dessa forma, no âmbito da escola, as instâncias do exossistema que mais interferem no seu fazer diário são o sindicato da categoria e a Secretaria de Educação.

A integração dos dados obtidos viabilizou uma descrição aproximada do

microssistema escolar, o ambiente em que ocorrem os processos proximais que

impulsionam ou travam o desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 2011). Diante do quadro que aqui se configurou, apresentamos o diagrama da Figura 1 a seguir, que nos parece sintetizar a análise do caso estudado tendo por base a Teoria Bioecológica:

Figura 1: O PPCT Aplicado à Escola

A escola, que tem no professor elemento central, que participa de diversos ambientes, pode ser vista como um contexto propício e concreto de interações recíprocas e estáveis por longos períodos de tempos (BRONFENBRENNER, 2011), que constituem padrões duradouros de processo proximal.

Ademais, ela é caracterizada pela complexificação de sua própria atividade relacionada à aquisição, profusão e produção de conhecimentos. Da mesma forma são também complexas, em um nível crescente, as relações que nela se processam e que, envolvem, principalmente, os professores.

Nesse microssistema, parecem coexistir forças que impulsionam e restringem o desenvolvimento. Talvez seja por isso que, mesmo em contextos marcados pela carência e ausência de recursos, a escola seja profícua na produção de mudanças nas características biopsicológicas da pessoa dos profissionais envolvidos nessas interações e, em via de consequência, propulsor de desenvolvimento humano ao longo desse ciclo de trabalho dos professores. Ou seja, apesar das limitações, o desenvolvimento ocorre, embora não se saiba sobre a qualidade e a dimensão desse desenvolvimento se fosse conseguida uma convergência das forças em questão.