4. THE UNITED STATES
4.3 U NITED S TATES POLICY ON THE FMCT
4.3.4 Concerns about participation?
Na reunião de planejamento e no encontro coletivo ficaram evidentes preocupações que norteiam a atuação da escola e que afetam diretamente a atuação dos docentes e a concepção que eles têm acerca de sua profissão.
No primeiro caso, ficou evidente a preocupação da escola com o seu desempenho médio nas avaliações externas. Dadas as características socioculturais do alunado, a escola planeja metas de melhoria de resultados contando,
essencialmente, com o apoio dos professores. A grande demanda por vagas na escola, seja pela facilidade de acesso, seja pela reputação formada ao longo da última década, poderiam suscitar a seleção de alunos, de modo a facilitar o alcance das metas. No entanto, a escola tem optado pela continuidade de atendimento, recebendo apenas poucos alunos transferidos.
Trata-se de um desafio que eleva o nível de expectativa de contribuição dos professores. Em aulas como as da professora Ana, foi possível observar a forma diferenciada com que os conteúdos são trabalhados a depender da turma. Ora ela amplia o número de exercícios, ora usa tempos ou materiais diferentes, mas com o cuidado de não reduzir os objetivos. Ao tratar do seu fazer como professor da escola pesquisada, a professora Ana assegura que:
É sempre um desafio. Porque sempre busco uma situação apropriada para gerar o aprendizado, usando como estratégia a ajuda de conhecimentos anteriores. Na outra ponta, os professores são orientados, na escola, por uma visão de que não se pode perder ninguém. Na discussão sobre medidas a serem adotadas para alunos com mais de três advertências, foi explicitada a seguinte situação:
Segundo a Diretora, um dos casos de indisciplina envolvia o estudante [...], “um adolescente assumidamente homossexual, articulado, inteligente, que apresenta sérios problemas de desordem familiar”. A escola havia apurado tratar de uma criança criada pela avó, que havia falecido há pouco tempo. Desde esse evento ele havia passado a morar com uma tia. Esta, por sua vez, reclamava da falta de adaptação do jovem à nova família e, particularmente, dos desentendimentos com o esposo dela, dizendo-se cansada com os problemas causados pelo adolescente. Na escola, o adolescente havia se envolvido em um incidente de violência grave. Recentemente, ele havia protagonizado uma briga, a poucos metros da escola, com uma aluna, mãe adolescente que havia tido filho há menos de um mês e que, em razão das lesões sofridas, havia interrompido a amamentação do bebê. O encaminhamento proposto ao Conselho Escolar era pela expulsão do aluno.
A escola havia esgotado, segundo a diretora, os meios para tentar manter o aluno, tendo resultado frustrada a busca de apoio da família. Em casos como esse, ao decidir entre ficar com o aluno ou manter o ambiente adequado para a aprendizagem e a convivência dos demais, os professores agem no papel de gestores de dilemas (GIMENO-SACRISTÁN, 1999)
Outro caso relatado no Coletivo, e que soou conhecido da maioria dos professores, foi o da mãe da aluna [...]. Essa mãe vinha à escola diariamente e lá
permanecia durante todo o tempo de aula. Muitas vezes, ela usava diferentes pretextos para se aproximar da filha mesmo durante a aula e no curso de alguma atividade. Alguns professores presentes relataram incidentes com essa mãe.
Os professores se ressentem da ausência da família à escola, até mesmo à vista dos alunos, durante as aulas (professoras Ana e Diana), e na reunião com os pais. Entretanto, na escola, a presença ostensiva da mãe era percebia como uma interferência no andamento das aulas e, particularmente, no comportamento da aluna. Então, em face do que se caracterizava, ali, como um sintoma patológico, o que se buscava, em conjunto, era a definição de uma medida de ajuda à mãe, mas que evitasse prejuízos à criança.
Este caso é particularmente interessante para ilustrar a forma de participação que a escola almeja das famílias. Na fala das professoras, há uma alusão recorrente à questão. Praticamente todas as participantes tocaram no assunto durante as entrevistas (grifo nosso):
Os pais sempre vão na escola para saber sobre os alunos. Não quando tem reunião. Quando tem reunião de pais eles vão. Mas sempre eles aparecem com frequência. A família está sempre junto com a escola. Porque tem uns meninos adolescentes, principalmente as meninas. A família se preocupa muito. (professora Beta)
Essa falta de acompanhamento ela é percebido porque até no aluno, quando ele leva a tarefa de casa, ele volta da mesma maneira. A postura dele se comportar com a gente, se ele não respeita a família, [..] da mesma maneira ele traz pra escola. Isso se reflete não somente no professor mas em toda a sala. Aquela família que ela acompanha o filho, ele [...] desenvolve bem melhor. (professora Diana)
[...] o meu maior desafio é conscientizar a família da necessidade de parceria: escola e família. Para tornar eficaz essa aprendizagem. [...] A escola, ela busca essa parceria, mas, infelizmente, hoje a família, ela foge dessa parceria. Ela joga a criança na escola e deixa por conta da escola. Infelizmente, isso nos dá resultado dá-nos dá resultado [...] negativo. Por quê? Porque a gente não vê os pais acompanhando os filhos. Hoje, a criança leva uma atividade para casa, volta com a atividade do mesmo jeito que levou...Hoje, a família não está incentivando essa criança a ter gosto pelo estudo. E isso deixa a responsabilidade para a escola. Para o professor. Então hoje a gente se vê sozinho. A escola está sozinha. A escola, essa busca de parceria a escola faz. Mas, muitas vezes, a família se nega a ter essa parceria com a escola. (professora Ana)
No que tange à dimensão do problema, a professora Diana retrata a falta de acompanhamento da educação dos filhos pelos pais e responsáveis como um dos
maiores problemas enfrentados no cotidiano de sua prática docente. Por fim, ainda mais esclarecedor é o ponto de vista da Professora Ana ao associar a participação dos pais com a eficácia da aprendizagem.
A professora Ana, como que a buscar identidade com os pais dos alunos da escola, faz uma reflexão sobre a sua própria condição de mãe ao pensar sobre o assunto. Ela expressa sua preocupação com as possíveis consequências da negligência da família:
Então [...] eu fico me questionando enquanto mãe. Eu sou mãe de uma criança de seis anos, onde eu tenho uma carga horária abusiva [não na escola que é de 40 horas, mas por deter uma função docente de mais 20 horas numa escola estadual]. Mas, nem por isso, eu deixo de dar atenção ao meu filho. Porque eu sei o que é que isso pode implicar lá na frente. E a gente coloca isso para os pais. A gente coloca isso todo dia para os pais. Que isso pode implicar mais na frente um aluno totalmente desajustado, um aluno que não vai valorizar o que ele vai ter, mas [...] eles não têm essa mesma preocupação.
A professora Diana, por um caminho diferente, acaba por expressar preocupação semelhante à da professora Ana em face da falta de acompanhamento dos pais:
A grande maioria dos alunos é criada pelos avós, [...]? Eles já vivem cansados. Não sei se é cansaço, eles não aguentam mais, aí eles não acompanham e aí é onde se torna a grande conversa, ou seja, a indisciplina na escola. (professora Diana)
Em todo caso, parece que a atenção das professores não é tanto à indiferença dos pais ou da família aos alunos, ou à falta de relacionamento da família com a escola. Em síntese, o que as professoras desejam é a colaboração da família no processo de aprendizagem, o que se coaduna com o pensamento dominante na escola.
Isso fica cristalino quando a escola devota especial atenção ao indicador de escolaridade da família, a ponto de declarar formalmente que “o fato de a maioria dos pais e mães ter nível de escolaridade baixo interfere no acompanhamento escolar dos filhos” e de explicitar que essa condição compromete “o processo ensino-aprendizagem dos mesmos, resultando baixo rendimento das competências e habilidades de leitura, escrita e cálculo” (PPP, 2012, p.14)
A assertiva parece naturalizar o insucesso escolar e responsabilizar a família. É certo que a visão das professoras é parcialmente orientada pelo conhecimento difundido acerca dos fatores que interferem na aprendizagem. Gomes (2005), por exemplo, ao coligir e explicitar a existência de correlação entre variáveis preditoras de desempenho escolar, destaca a verificação empírica de correlação entre a escolaridade da mãe e o indicador de desempenho do filho. Daí a esperar que a reciprocidade da família na aprendizagem se assemelhe ao papel dos professores há uma grande distância.
A exposição da professora Ana sobre a assunção de suposta responsabilidade dos pais é esclarecedora:
O professor, ele acaba sendo um guerreiro. Porque além de ele fazer esse papel de mediador, ele está mediando o conteúdo para o aluno, ele ainda faz o papel que é pra ser do pai, da mãe, de estar procurando, preocupado, perguntando, olhando o caderno, verificando se fez. Coisa que deveria ser da família.
A professora se queixa de que, ao fazer esse papel, a escola acaba atraindo, para si, parte do dever de educar que a sociedade e a legislação incumbem à família e, portanto, o dever dos pais.
Quanto ao apoio pedagógico esperado da família, é de se indagar se não é esse o papel da escola, especialmente no que tange à verificação de atividades. Ademais, deve-se ter em mente que os dados oficiais de escolarização da população não encorajam a expectativa das professoras. Os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o tempo médio de estudos dos brasileiros com idade a partir de 15 anos é de 7,7 anos, o que não equivale sequer ao ensino fundamental. Dessa maneira, a contribuição da família vislumbrada pela escola, do ponto de vista pragmático, afigura-se difícil.
Até mesmo entre os pais com alguma escolaridade, o apoio pedagógico é difícil. Na reunião de pais observada na escola, foi exemplar o caso da mãe do aluno [...], que frequenta uma das turmas de oitavo ano da tarde. Residente na zona rural, onde o acesso à educação é mais difícil, ela descreveu o esforço para acompanhar pessoalmente as tarefas do filho, com vistas a ajudá-lo diretamente na resolução dos exercícios:
Já faz muito tempo que eu terminei o Normal. Por isso, quando ele me pede ajuda, eu me vejo na situação de voltar a estudar os assuntos com ele, especialmente em Matemática. Isso às vezes é frustrante, porque não consigo me lembrar de tudo e aí tentamos em vão. Mas em outras é começar a puxar e a memória começa a funcionar.
De todo modo, parecem fazer sentido os esforços para tentar aproximar a família da escola e para conhecê-la. Na escola pesquisada, desenvolve-se um projeto denominado Família na Escola, mediante o qual se reconhece a família “como aliada no processo de ensino-aprendizagem”, para “fortalecer a presença de pais e mães de alunos na escola e no acompanhamento das atividades escolares dos filhos”, embora não fique clara a forma e a qualidade desse acompanhamento.
Em face da impossibilidade de contribuição dos pais, nos moldes desejados pelas professoras, parece igualmente oportuna a rotina, instituída, de “aposição do visto” das professoras nas atividades realizadas pelos alunos, tanto em casa, quanto em sala de aula. A verificação de cadernos é adotada praticamente em todas as aulas observadas, a configurar uma espécie de rito. Entretanto, como a observação é contaminada com o nosso olhar, é de se imaginar se não há certo exagero nessa tarefa, como registramos após uma sessão relativa a uma aula que nos pareceu improdutiva:
A professora pediu os cadernos dos alunos para aposição de visto em atividade de casa [...]. Depois, veio a atividade de classe e os vistos continuaram, ora com a professora à mesa do aluno, ora com o aluno se dirigindo à mesa da professora. Isso durou quase toda a aula. Fiquei pensando se não havia desperdício de tempo, especialmente dada a jornada reduzida de pouco mais de quatro horas e, ainda, assim, com a redução do tempo da refeição. Depois, refletindo sobre os meus tempos como estudante do primeiro grau e com pais analfabetos, lembrei que na época, após o letramento, os alunos conseguiam se virar sozinhos ou com o apoio dos colegas.
A propósito dos papéis que os professores são chamados a desempenhar, foram observadas algumas situações que demonstram, ora senso ético, ora compromisso de acompanhar o dia a dia alunos junto à escola e às famílias, uma espécie de aposta num futuro diferente para essas famílias. Segue uma série de situações que podem corroborar essa percepção.
A hora da chamada é a única em que os alunos são acionados por meio do número, ante uma visível preocupação com economia de tempo.
A professora Ana efetuava a chamada por números, na turma matutina do oitavo ano, aparentemente sem prestar atenção aos alunos. No entanto, ao chegar ao número [..], antes mesmo de chamá-lo, ela se volta para a sala, numa espécie de correição e indaga:
- Alguém sabe dizer como está [nome do aluno], se ele melhorou? Quem é que mora perto dele, que poderia informar sobre sua saúde e repassar a atividade?
A professora Ana, além de lecionar nos dois turnos, em cinco turmas dos anos finais do ensino fundamental, trabalha mais 20 horas à noite, em uma escola estadual. Na grande maioria das escolas, a chamada constitui procedimento meramente burocrático, destinado a aferir a frequência dos alunos, para efeito de apuração do mínimo exigido ao final do ano letivo. Nesta escola, as professoras transformaram a chamada num momento diário e reiterado de restabelecimento laços. Dessa maneira, a chamada se converte em um rito, em um símbolo do contexto.
Nas falas das professoras, a mesma linha é seguida no depoimento da professora Beta sobre o controle que exerce em relação à frequência de seus alunos às aulas:
A família se preocupa muito. E as meninas temem a minha pessoa. Porque quando elas dizem assim “aula da Tia [...]” se eu não for assistir, ela sente minha falta, ela liga já para minha mãe”. E realmente eu ligo mesmo: “Fulano está doente, mãezinha? Por que foi que ela não veio assistir minha aula?” Aí elas veem minha proximidade...O amor que tenho por eles.
Desse papel de colaboradoras com a família, algumas professoras passam a outros papéis sociais em relação aos alunos, a pontos de assimilá-los com certo entusiasmo:
Os meninos é, assim, lá dentro, como alunos. Mas eu conheço as famílias bem próximo, de cada aluno meu. Conheço um por um. Nome por nome. A convivência com eles é bem próxima. Eu sou amiga, professora, psicóloga, doutora. Quando eles estão com problema chegam pra mim e conversam. Abrem o jogo. Quando falta um aluno na sala, eu ligo para saber. A família, a comunidade tem aquele amor pela minha pessoa porque eu me preocupo com os filhos deles. (professora Beta)
Então assim, como ser um educador, a gente não é só um educador. A gente é mãe, é um psicólogo. O professor também tem de ouvir o aluno. Eu vou até a casa do aluno para poder saber. Então, assim, ser professor engloba tudo. É mãe, é psicólogo, é professor, de tudo um pouco. (professora Eva)
[...] definir professor é difícil, né, porque ele faz mais papel de pai, de psicólogo. E não é a nossa formação. Nós não temos formação pra psicólogo. Nós não
passamos por isso, não estudamos isso. E a formação de Você como pai, para filho é diferente do professor para com o aluno. [...] (professora Diana)
[Por] a gente fazer o papel de pai, de mãe, de psicólogo e ainda de professor a gente cobrar muito, exigir muito, eles acabam não gostando. Desse papel. Eles não gostam de ser cobrados. Na verdade ninguém gosta, né? (professora Diana)
A professora Beta se mostra amiga, professora, orientadora e médica. Nos mesmos moldes, a professora Eva, aponta uma série de competências e papéis que o professor de hoje deve demonstrar e realizar para que se possa considerar um educador. A professora Diana, por sua vez, reclama da inadequação dos papéis que o professor é impelido a desempenhar, às vezes mais do que o próprio papel de professor, de modo que pode se tornar malquisto pelos alunos em face de cobrança que extrapole a sua autoridade. Ela acrescenta, por fim, um questionamento sobre a falta de preparação para o exercício desses papéis, afirmando, por exemplo, que o fato de o professor ser pai não o habilita a se portar como tal em relação ao aluno.
Nas situações descritas e nas falas das professoras aparece, com nitidez, o papel de malabarista de que falam Tardif e Lessard (2009), como se já não bastassem os outros desde sempre inerentes ao ofício. De acordo com Bronfenbrenner (1996), os papéis que a pessoa assume respondem a suas próprias expectativas, mas também a expectativas estabelecidas ao nível da sociedade. Essa âncora no pensamento macrossistêmico dominante faz com que o papel social interfira no comportamento das professoras frente a determinadas situações e na forma com que participam de atividades e relações.