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5. PAKISTAN

5.3 P AKISTAN ’ S POLICY ON THE FMCT

Durante as observações, foram verificadas atividades e eventos em que os alunos criam situações favoráveis à reflexão e ao aprendizado das professoras. Essas oportunidades ocorrem em outras atividades da escola, como as reuniões de planejamento e os Coletivos. Agora são registradas, a partir das falas das próprias professoras, as situações que elas julgam proporcionar aprendizado no seu cotidiano e os sujeitos com elas implicados. Para a professora Ana, por exemplo:

É sempre é um desafio muito grande a cada dia que você entra numa sala de aula. Porque assim como você encontra alunos que são uns verdadeiros investigadores, você encontra alunos também apáticos, né? Muito apáticos. Mas, nem por isso, esses alunos apáticos vão deixar, vão fazer com que eu busque uma estratégia para amenizar uma situação dessas. Então, às vezes, quando eu pego uma sala que tem mais alunos apáticos, isso me leva mais ainda a ter vontade, fomenta mais essa fome de buscar essas estratégias para que a gente possa amenizar situações como essas.

Quando a gente entra na sala que olha aquelas caras, tudo fomentando alguma coisa, que você não pode saciar aquela fome, isso entristece o professor. Agora, quando você vai na busca de estratégias novas, de como lidar com determinadas situações, isso a cada dia acrescenta mais: o teu autodomínio em sala, na tua maneira de [...] de explicar. Você começa a ter mudanças no seu jeito de ser, né? As estratégias, porque você sabe que nenhuma estratégia, às vezes a estratégia de uma sala não é adequada para a outra sala. E aí você começa a estudar as situações de cada sala. E isso é o que é mais interessante de uma escola. Isso é que dá vontade de a gente cada vez mais seguir essa profissão.

Essa professora traz uma situação que não tem muito apoio em uma vastidão de estudos empíricos sobre o desenvolvimento. Por essa literatura, era de se esperar que o ambiente constituísse, se não um empecilho, um desestímulo ao seu trabalho. Mas, ao contrário, ela se apega ao que existe de mais problemático, que são as disposições inibidoras dos alunos, para nortear o seu trabalho de profissional que se guia pela busca, pela iniciativa. Essa professora trabalha com uma série de objetos que ela mesma constrói para facilitar aos alunos o entendimento e as aplicações dos conteúdos de suas aulas.

Bronfenbrenner (2011, p. 109) enfatiza “a estrutura do contexto que se refere às barreiras e aos percursos que restringem ou conduzem ao movimento e à atividade” entre os tipos de influências proximais sobre o desenvolvimento humano mais estudadas” e de maior poder de predição. No entanto, mais à frente (2011, p. 113), ele afirma ser possível, “sob certas condições ecológicas, para efeitos de moderação, a mudança de direção, ou seja, transformar as forças negativas em positivas, ou vice-versa”. Essa constatação traz um alento em relação à reversão das características desfavoráveis do contexto, havendo a expectativa de que possam ser mudadas a partir da interação de traços pessoais com determinadas propriedades do ambiente.

Além disso, na literatura, a pesquisa sobre professores eficazes no ensino secundário francês, por exemplo, indicava como tais aqueles que usavam a visão realista e diferenciada das necessidades dos alunos para adaptar suas estratégias, mas sem modificar os objetivos de aprendizagem (GOMES, 2005), ou seja, sem reduzir as expectativas de aprendizagem.

As situações em que os alunos são mencionados como protagonistas são as mais variadas. A seguir acrescentamos apenas algumas delas:

Outro dia, desestimulada porque o município não dava o transporte para nós fazermos a viagem do projeto [...] eu até desisti porque, nós não tínhamos verba, dinheiro, os meninos são carentes e eles se viraram para mim e disseram: “Tia, vamos fazer bingo, vamos atrás do comércio pedir dinheiro, vamos terminar nosso projeto”. E eles saíram, três alunos saíram no comércio, pediram alguns objetos, fizeram o bingo e arrecadaram o dinheiro para nós terminarmos o projeto. Aí, isso me incentivou, isso me chocou. Por quê? Porque isso é iniciativa deles. Porque o município que tinha que oferecer material didático e não meus próprios alunos. Porque o município precisava dar a gente [condições para] apresentar o projeto.

Isso foi um choque, assim, pra mim, como fosse. Meu Deus os meninos estão com tanta vontade, porque que eu não vou ajudar? (professora Beta)

Uma iniciativa dos alunos implicou a reciprocidade da professora. Nesse caso, é possível ter-se concretizado um processo proximal e que, ademais, tornou- se uma experiência significativa para a docente, podendo ter desfeito parte das expectativas negativas que tinha em relação aos alunos. Isso faz todo o sentido quando confrontamos a atitude da professora com a declaração a seguir, acerca do que nutre a sua atividade, no cotidiano:

A força de vontade e o incentivo dos alunos que correm ali. E todo dia saber que aqueles alunos vão pra escola é até novidade. Eles são muito, como é que posso dizer, incentivados. [...]. Quanto mais novidade tem, eles jamais faltam à escola. Quando a gente faz um projeto, eles se envolvem demais, eles têm gosto demais de trabalhar. [...] Temos alunos que desafiam o professor. Como? Ele leva cálculos, fonte lógicas, experiências e procura os professores para desenvolver. Isso estimula muito o professor em sala de aula. A fazer pesquisa e desenvolver em sala de aula.

A professora destaca tanto os alunos interessados, quanto os que não encontram muito sentido na escola, chamada a apresentar novidades para poder atraí-los, conforme suas palavras. Indiretamente, ela reflete sobre a inadequação da escola aos interesses desses alunos. Empolgada com as contribuições dos alunos, ela vai além:

Nós temos alunos na escola excelentes. Alunos que cobra do professor, aluno que lê, diz assim: “professora, vamos fazer simulado. Vamos... é isso que está caindo? O que é que está na mídia? Eles se informam. Pedem muito simulado. Eu corro atrás, faço o simulado, para quando eles forem ao nono ano, já forem ao ensino médio. Então [...]a gente tem que estar muito atualizada. E aí eles me cobram muito. Professora vamos fazer o que? vamos fazer um debate? A gente fez, agora, nas eleições, a gente fez debate, fez seminário. A gente assistiu vídeo sobre a importância do voto, o dinheiro sujo. Isso saiu deles.

Outras participantes reforçam as percepções das professoras Ana e Beta. A professora Eva, por exemplo, destaca a contribuição que os alunos trazem para a própria dinâmica das aulas:

A contribuição deles para comigo, assim com relação ao meu profissional. Não somente de mim para eles, mas deles também [...]. Do jeito que eu posso passar um conhecimento para eles, eles também podem passar conhecimento para mim. Então assim é muita contribuição deles comigo. Tem coisas que realmente eles trazem. Curiosidades, né? No momento em que a gente está numa sala de aula, a gente não está atento tanto às notícias que passam no mundo. E eles trazem até a gente, indagando. E isso ali já gera uma polêmica.

Ampliando sua reflexão sobre as pessoas implicadas com o seu desenvolvimento, a professora Ana chama a atenção para:

Os professores, os alunos. Principalmente os colegas. Porque a gente sente de perto essa angústia, esse acocho no coração, né? Às vezes de estar num local que não é bem o local adequado para o professor. Tipo: eu estou lecionando [...] porque sobrou a [...]. Está entendendo? Às vezes. Mas isso não é minha área. E isso tanto é ruim para o profissional como é ruim para o aluno.

Mais à frente, ela fala das implicações geradas pela convivência com esses profissionais, tão presente no seu dia a dia:

Lembro-me, nos momentos de vivência, a necessidade que os colegas têm de apoio, na sua disciplina. O respeito por aquilo que faz. E me sentia uma verdadeira parceira, porque muitas vezes eu tinha esse mesmo sentimento. E aí conseguíamos superar juntos [...].

Observa-se aqui uma carga de emoção e de identificação de papéis. Notoriamente, trata-se de uma relação marcada pela afetividade.