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Conforme já mencionado, a literatura a respeito da ordem cronológica de nascimento alerta para o fato de que algumas circunstâncias podem modificar a dinâmica familiar e, consequentemente, alterar a relação entre a ordem cronológica de nascimento e características individuais. Neste estudo, foram apreciadas as circunstâncias: tamanho da família, sexo, diferença de idade entre os irmãos, estado civil dos pais, episódio de morte ou doença de algum dos filhos, irmãos vivendo em residências separadas e presença de concorrentes extrafamiliares.

Portanto, para completar o objetivo de “investigar a relação entre a ordem cronológica de nascimento e os motivos das decisões de carreira dos indivíduos”, algumas análises adicionais foram necessárias. Inicialmente, excluíram-se da base de dados os sujeitos que:

- Não viveram com todos os irmãos na mesma residência;

- Não viveram com o pai e a mãe na mesma residência (seja por separação, divórcio, ou viuvez);

- Apresentaram diferença de idade significativa para os irmãos;

- Enfrentaram episódio de morte de irmãos ou doença grave (sua ou de algum dos irmãos);

- Conviveram, na mesma residência, com outras crianças além dos irmãos.

Com essas exclusões29, somadas à anterior exclusão do grupo de filhos únicos (fracamente representados na amostra), obteve-se um grupo final de 194 indivíduos (N3 = 194), composto por 107 filhos mais velhos, 43 filhos do meio e 44 filhos mais novos. Além disso, esse novo grupo foi estratificado:

- Segundo o tamanho da família (número de filhos dos pais), em um subgrupo de famílias menores (dois filhos), nas quais a figura do filho do meio está ausente, e outro de famílias maiores (três ou mais filhos);

- Segundo o sexo dos indivíduos, nos subgrupos masculino e feminino.

29 A opção pela exclusão desses 70 casos deveu-se ao fato de que a análise dos efeitos de interação de múltiplos fatores com a ordem cronológica de nascimento está fora do escopo deste trabalho e não é requerida para o atendimento dos objetivos específicos aqui definidos.

O teste de Kruskal-Wallis foi executado sobre os subgrupos, para novamente investigar a relação entre a ordem cronológica de nascimento e os motivos de decisão de carreira, considerando-se, para tanto, os valores médios atribuídos a cada motivo pelos sujeitos da amostra.

Inicialmente, consideraram-se os grupos segmentados pelo tamanho da família e os resultados obtidos foram sintetizados nas próximas tabelas.

Tabela 13 – Análise da relação: ordem cronológica vs. valores médios dos motivos (segundo o tamanho da família)

Critério de sucesso / motivo de decisão Nível descritivo do teste (p-valor) Famílias menores Famílias maiores

Crescimento pessoal 0,261 0,361

Oportunidades de promoção ou avanço hierárquico 0,799 0,468

Reconhecimento social e prestígio 0,378 0,466

Aprovação de colegas e amigos 0,506 0,105

Segurança ou estabilidade (no emprego, na profissão ou na carreira) 0,646 0,500 Autonomia e liberdade para agir no trabalho 0,156 0,055

Gosto ou interesse pela área 0,924 0,831

Trabalho desafiador 0,743 0,036 *

Expansão do conhecimento, aprendizado constante 0,595 0,079

Maiores retornos financeiros 0,690 0,064

Equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e vida familiar 0,222 0,538

Aprovação dos pais 0,364 0,444

Posição de influência ou poder 0,934 0,043 *

Competência na realização do trabalho, elevado desempenho 0,726 0,108 Integração com colegas, socialização, sentimento de pertencer 0,855 0,638

Contribuição para a sociedade 0,416 0,149

Realização de ideias criativas ou inovadoras 0,499 0,036 *

Sentido ou propósito no trabalho 0,234 0,379

* p < α

Após excluírem-se os fatores que reconhecidamente alteram a dinâmica familiar, não se confirmaram as associações encontradas (Tabela 10) entre a ordem cronológica e os motivos

de decisão de carreira nas famílias menores (dois filhos). Já nas famílias maiores (três ou mais filhos), mantiveram-se as associações significativas previamente da ordem cronológica de nascimento com os motivos trabalho desafiador e realização de ideias criativas e inovadoras e a elas acrescentou-se a associação com o motivo posição de influência e poder. Testes post

hoc aplicados sobre os casos de associação significativa da Tabela 13 manifestaram as

seguintes relações entre pares de ordens cronológicas:

Tabela 14 – Análises post hoc: ordem cronológica vs. valores médios dos motivos (segundo o tamanho da família)

Critério de sucesso / motivo de decisão

p-valores dos testes post hoc entre pares de ordens cronológicas – famílias maiores

Filho mais velho e Filho do meio

Filho mais velho e Filho mais novo

Filho do meio e Filho mais novo

Trabalho desafiador 0,811 0,012 * 0,024 *

Posição de influência ou poder 0,050 ** 0,038 * 0,484

Realização de ideias criativas ou inovadoras 0,140 0,016 * 0,149 * p < α

** O p-valor desta célula, quando utilizadas quatro casas decimais, é de 0,0498. Devido ao padrão de arredondamento adotado neste trabalho, o p-valor apresentado é de 0,050. Entretanto, para as análises das associações significativas, considerou-se o valor sem arredondamento e, consequentemente, p < α.

Para complementar as análises da Tabela 14, foram exploradas as tabulações cruzadas das variáveis (Tabela 15).

Tabela 15 – Análises post hoc sobre valores médios: cruzamentos da ordem cronológica (segundo o tamanho da família)

Critério de sucesso Ordem cronológica de nascimento

Distribuição do grau de importância médio – famílias maiores

0 a 1 1 a 2 2 a 3 3 a 4

Trabalho desafiador

Filho mais velho 1,7% 8,5% 32,2% 57,6% Filho do meio 2,3% 16,3% 18,6% 62,8% Filho mais novo 5,9% 23,5% 47,1% 23,5%

Posição de influência ou poder

Filho mais velho 18,6% 39,0% 22,0% 20,3% Filho do meio 34,9% 32,6% 18,6% 14,0% Filho mais novo 35,3% 29,4% 35,3% 0,0% Realização de ideias criativas ou

inovadoras

Filho mais velho 1,7% 18,6% 30,5% 49,2% Filho mais novo 11,8% 35,3% 35,3% 17,6%

Por meio da análise das duas tabelas acima, observou-se que, em famílias de três os mais filhos, o grupo de filhos mais novos atribuiu importância média significativamente menor ao motivo trabalho desafiador, enquanto o grupo de filhos mais velhos atribuiu importância média significativamente maior ao motivo posição de influência e poder. Para o motivo realização de ideias criativas ou inovadoras, a importância média atribuída pelos filhos mais velhos foi significativamente maior do que a atribuída pelos filhos mais novos.

Posteriormente às análises realizadas para a incorporação da variável tamanho da família, o teste de Kruskal-Wallis foi executado para investigar a relação entre a ordem cronológica de nascimento e os motivos de decisão de carreira sobre os subgrupos formados a partir da segmentação por sexo. Os resultados do referido teste são apresentados na Tabela 16.

Tabela 16 – Análise da relação: ordem cronológica vs. valores médios dos motivos (segundo o sexo dos indivíduos)

Critério de sucesso / motivo de decisão Nível descritivo do teste (p-valor) Sexo masculino Sexo feminino

Crescimento pessoal 0,383 0,560

Oportunidades de promoção ou avanço hierárquico 0,175 0,075

Reconhecimento social e prestígio 0,330 0,276

Aprovação de colegas e amigos 0,827 0,101

Segurança ou estabilidade (no emprego, na profissão ou na carreira) 0,599 0,100 Autonomia e liberdade para agir no trabalho 0,238 0,302

Gosto ou interesse pela área 0,765 0,945

Trabalho desafiador 0,997 0,022 *

Expansão do conhecimento, aprendizado constante 0,864 0,282

Maiores retornos financeiros 0,836 0,104

Equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e vida familiar 0,196 0,978

Aprovação dos pais 0,956 0,269

Posição de influência ou poder 0,492 0,008 *

Competência na realização do trabalho, elevado desempenho 0,953 0,036 * Integração com colegas, socialização, sentimento de pertencer 0,992 0,371

Contribuição para a sociedade 0,167 0,201

Realização de ideias criativas ou inovadoras 0,895 0,008 *

Sentido ou propósito no trabalho 0,171 0,490

Também nesse caso, após excluírem-se os fatores que reconhecidamente alteram a dinâmica familiar, não se confirmaram as associações anteriormente encontradas (Tabela 10) entre a ordem cronológica e os motivos de decisão de carreira no grupo dos homens. Já entre as mulheres, mantiveram-se as associações significativas da ordem cronológica de nascimento com os motivos trabalho desafiador e realização de ideias criativas e inovadoras e a elas acrescentaram-se as associações com os motivos posição de influência e poder e competência na realização do trabalho, elevado desempenho. Os testes post hoc foram aplicados sobre os casos de associação significativa da Tabela 16 e os resultados foram apresentados na tabela abaixo.

Tabela 17 – Análises post hoc: ordem cronológica vs. valores médios dos motivos (segundo o sexo dos indivíduos)

Critério de sucesso / motivo de decisão

p-valores dos testes post hoc entre pares de ordens cronológicas – mulheres

Filho mais velho

e Filho do meio e Filho mais novo Filho mais velho Filho mais novo Filho do meio e

Trabalho desafiador 0,777 0,011 * 0,023 *

Posição de influência ou poder 0,161 0,003 * 0,115

Competência na realização do trabalho, elevado

desempenho 0,100 0,015 * 0,694

Realização de ideias criativas ou inovadoras 0,172 0,002 * 0,137 * p < α

As associações identificadas pela tabela acima foram exploradas por meio de tabulações cruzadas das variáveis (Tabela 18).

Tabela 18 – Análises post hoc sobre valores médios: cruzamentos da ordem cronológica (segundo o sexo dos indivíduos)

Critério de sucesso Ordem cronológica de nascimento

Distribuição do grau de importância médio – mulheres

0 a 1 1 a 2 2 a 3 3 a 4

Trabalho desafiador

Filho mais velho 2,4% 9,5% 31,0% 57,1% Filho do meio 0,0% 10,5% 26,3% 63,2% Filho mais novo 4,3% 17,4% 56,5% 21,7%

Posição de influência ou poder Filho mais velho 16,7% 35,7% 26,2% 21,4% Filho mais novo 52,2% 17,4% 26,1% 4,3%

Critério de sucesso Ordem cronológica de nascimento

Distribuição do grau de importância médio – mulheres

0 a 1 1 a 2 2 a 3 3 a 4

Competência na realização do trabalho, elevado desempenho

Filho mais velho 0,0% 9,5% 21,4% 69,0% Filho mais novo 0,0% 17,4% 39,1% 43,5% Realização de ideias criativas ou

inovadoras

Filho mais velho 7,1% 11,9% 33,3% 47,6% Filho mais novo 17,4% 30,4% 30,4% 21,7%

Da análise conjunta da Tabela 17 e da Tabela 18, observou-se que, entre as mulheres, a importância média atribuída ao motivo trabalho desafiador pelas filhas mais novas foi significativamente menor do que a importância atribuída pelos outros grupos. Além disso, para os motivos posição de influência ou poder, competência na realização do trabalho, elevado desempenho e realização de ideias criativas ou inovadoras, o grupo de filhas mais velhas atribuiu importância média significativamente maior do que as filhas mais novas.