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Ainda que cada teórico da personalidade desenvolva suas ideias com base em observações empíricas e especulações, essas ideias refletem a personalidade e as experiências do teórico

criador (FEIST; FEIST, 2006, p. xvi). Assim, para entender o contexto de surgimento da Psicologia Individual, uma breve excursão pela biografia de Alfred Adler pode ser bastante elucidativa (CLONINGER, 1999, p. 72; CLONINGER, 2004, p. 104).

Alfred Adler nasceu em 1870 na região suburbana de Viena e foi o segundo filho em uma família judia de classe média, formada por quatro filhos e duas filhas. Durante a infância, apresentou uma série de problemas de saúde, como o raquitismo. Uma de suas primeiras recordações diz respeito a uma ocasião em que, aos dois anos de idade, estava enfaixado e com os movimentos limitados enquanto seu irmão mais velho movia-se e brincava livremente (CLONINGER, 2004, p. 104). Adler referia-se à sua infância como um período marcado pela competição infrutífera com o irmão mais velho, Sigmund. Competição que perdurou até a fase adulta, apesar do bom relacionamento entre ambos (FEIST; FEIST, 2006, p. 66).

Ainda na infância, Adler enfrentou a morte de perto em algumas ocasiões. Confrontou-se com dois acidentes de rua e, aos cinco anos de idade, contraiu grave pneumonia e chegou a ser desacreditado por um dos médicos. Essa experiência, associada ao falecimento de um irmão mais novo no quarto em que dividiam, fez com que desenvolvesse o interesse pela medicina (CLONINGER, 1999, p. 72; FEIST; FEIST, 2006, p. 66) – a maneira pela qual poderia enfrentar e superar a morte e o medo dela (ANSBACHER; ANSBACHER, 1956, p. 199).

Apesar dos problemas de saúde, Adler superou suas fraquezas físicas, desenvolveu-se nos esportes e tornou-se um menino muito popular entre seus colegas (CLONINGER, 1999, p. 72;

Id., 2004, p. 105). Os irmãos e os colegas de Adler tiveram, além disso, um papel essencial

em seu desenvolvimento. Sua posterior ênfase teórica à importância do interesse social e à compensação de inferioridades orgânicas não pode, por essas razões, ser desligada de suas experiências nos primeiros anos de vida (CLONINGER, 1999, p. 72), como será demonstrado no decorrer deste referencial teórico.

Aos 18 anos, Adler ingressou na Universidade de Viena. Durante uma reunião política na universidade, conheceu sua esposa, Raissa Epstein, uma estudante russa socialista cujas ideias eram muito mais liberais do que as típicas ideias austríacas da época (CLONINGER, 1999, p. 72; Id., 2004, p. 105). As manifestações de Adler, em seus escritos, a favor de direitos e privilégios iguais para homens e mulheres são frequentemente atribuídas à sua associação ao socialismo e à influência de sua esposa (Ibid., 2004, p. 105).

Adler formou-se em medicina em 1895 e, inicialmente, praticou a oftalmologia e a clínica geral. Posteriormente, devido a seu crescente interesse no funcionamento do sistema nervoso, deslocou-se para o campo da neurologia e da psiquiatria (CLONINGER, 1999, p. 72), até chegar à psicologia. Como ele próprio chegou a dizer, seu interesse na psicologia desenvolveu-se a partir da prática médica. Para Adler (1929b, p. 33), “a prática da medicina proporcionou o ponto de vista teleológico ou intencional necessário para a compreensão de fatos psicológicos”5.

Embora não haja consenso na literatura quanto ao primeiro encontro entre Alfred Adler e Sigmund Freud, sabe-se que, em 1902, Freud convidou Adler e outros três médicos para discutirem psicologia e neuropatologia em um grupo de discussões semanais (FEIST; FEIST, 2006, p. 67). Adler tornou-se, assim, membro do círculo íntimo que se desenvolveu em torno de Freud. Em 1910, Adler foi indicado por Freud para primeiro presidente da Sociedade Psicanalítica Vienense – fundada por Freud –, embora, neste período, já houvesse divergências significativas entre ambos nos pontos de vista sobre neurose (CLONINGER, 1999, p. 72; Id., 2004, p. 105). Em 1911, as diferenças teóricas entre Adler e Freud tornaram- se inaceitáveis, culminando com o desligamento de Adler da Sociedade. As grandes divergências residiam essencialmente na ênfase de Adler à busca pela superioridade e não à sexualidade como motivação humana básica e também na importância atribuída ao ambiente social em detrimento dos processos inconscientes (FEIST; FEIST, 2006, p. 68).

A psicanálise de Freud foi um antecedente importante à Psicologia Individual, mais pelo compartilhamento de determinados pressupostos e conceitos do que pela convergência teórica entre ambas (ANSBACHER; ANSBACHER, 1956, p. 3-9). Embora já tivesse iniciado seu trabalho teórico antes do contato com Freud, Adler foi influenciado pela psicanálise no que diz respeito à importância das relações mãe-filho, ao papel do desenvolvimento psicológico nos primeiros anos de vida, à interpretação dos sintomas neuróticos e à análise de sonhos e recordações (CLONINGER, 1999, p. 73).

Após o desligamento da Sociedade Psicanalítica, Adler fundou a Associação de Psicologia Individual, em 1912, junto com outros nove membros desligados do grupo de Freud. O grupo de seguidores de Adler tinha especial interesse no campo da educação e na solução de

5 “The practice of medicine provided the teleological or purposive viewpoint which is necessary for the

problemas da infância, como a delinquência, por exemplo. Suas teorias enfatizavam o esforço individual consciente para melhoria da própria vida. Ofereciam treinamentos para os professores e orientavam crianças e famílias em centros estabelecidos em escolas públicas, com o objetivo de formação da mente e caráter dos jovens (CLONINGER, 1999, p. 73).

Durante a Primeira Guerra Mundial, Adler serviu em uma unidade neuropsiquiátrica do Exército Austro-Húngaro e os impactos da guerra também influenciaram sua teoria. Segundo Feist e Feist (2006, p. 68), Adler sugeriu, a partir de então, que o interesse social e a compaixão poderiam ser os pilares da motivação humana. Em torno do conceito de interesse social é que estão centrados os últimos escritos de Adler (CLONINGER, 1999, p. 77).

Cloninger (2004, p. 106) afirma que Adler escreveu extensivamente, publicando mais de 300 artigos e livros, e sua reputação espalhou-se internacionalmente. Em 1935, assim como outros europeus, mudou-se para os Estados Unidos, devido a problemas políticos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Lá, passou a trabalhar na Escola de Medicina de Long Island. Faleceu na Escócia, em 1937, vítima de problemas cardíacos, durante uma turnê de conferências na Europa.