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In document Industrigulv i betong (sider 107-117)

Weaver e Cotrell (2001) afirmam que, apesar da valorização do humor, de sua capacidade de minimizar tensões, do quão saudável e construtivo ele é, do que ele significa, de sua aceitabilidade, ou seu valor, o humor geralmente não é encontrado na sala de aula. E, da mesma forma, “não há muita pesquisa sobre o humor dedicada ao seu uso no cenário educacional, como na sala de aula” 246 .

Contudo, em uma pesquisa detalhada sobre o assunto, observa-se que, atualmente, já se podem encontrar algumas pesquisas centradas no uso do humor no ensino. Algumas são voltadas para o ensino de inglês como língua estrangeira em escola secundária (Vadillo, 1998; Trachtenberg, 1980); outras, para o ensino na graduação (Garner, 2005); outras para o ensino do inglês como língua materna (Smith, 2000); outras, para o ensino da Língua Portuguesa no Ensino Fundamental e Médio (Berti, 2002), ou só no Fundamental (Pavei, 2005); outras, para o ensino de Artes (Araújo, 2001); outras, para o ensino de Física (Pereira, 2003).

245 Ver apresentação da proposta na seção 2.4.2.2 do capítulo 2.

246 Tradução minha de “There isn’t a huge amount of research on humour available, and what there is of it, not much is dedicated to its use in an educational setting – such as the classroom”. Fonte: Analysis and presentation of contemporary

educational issue HUMOUR, sem autoria definida, divulgado na página http://uob-

Alguns/mas investigadores/as desenvolvem seus trabalhos focalizando gêneros do humor específicos; outros/as enfocam o uso do humor em geral no ensino. Trachtenberg (1980), Vadillo (1998) e Berti (2002), por exemplo, centram-se nas piadas; Smith (2000), nos cartuns; Pereira (2003), nas tiras; Pavei (2005), nas charges; Araújo (2001), nos cartuns e charges; Silva (2005), nas charges e tiras. Já Garner (2005), Kher, Molstad e Donahue (1999) e Powers (2005) argumentam em favor do humor em geral no ensino.

Infelizmente, poucos desses trabalhos voltados para a sala de aula foram efetivamente desenvolvidos nesse espaço. Muitos se constituem em propostas para que professores/as interessados/as venham a tentar aplicá-las e verificar suas funcionalidades. Dos citados acima, por exemplo, apenas os de Vadillo (op. cit.), Trachtenberg (op. cit.), Smith (op. cit.) e Pavei (op. cit.) foram desenvolvidos em sala de aula. Os de Powers (op. cit.) e de Berti (op. cit.) apresentam apenas propostas/sugestões; algumas interessantes, mas que sequer foram testadas na prática. Desse modo, a abordagem do humor ao ensino fica somente no plano teórico.

Mas, independente de serem desenvolvidas no contexto escolar ou não, as várias pesquisas realizadas sobre o humor no ensino mostram que a sua utilização como uma ferramenta pedagógica traz inúmeros benefícios, como: reduz a ansiedade, cria uma atmosfera mais positiva e aberta, tornando a aula mais interessante, mantém a atenção dos/as alunos/as, promove a interação e discussão em sala, ajuda os/as professores/as a se engajarem com os/as alunos/as e a estabelecerem uma boa relação com estes/as; ajuda os/as estudantes a assimilarem melhor o conteúdo e a reterem a informação, facilitando o processo e melhorando o nível de aprendizagem (Garner, op. cit.; Kher, Molstad e Donahue, op. cit.; Powers, op. cit.; Vadillo, op. cit.). Algumas pesquisas, ainda, como relatado na página eletrônica de Todd T. Holm, em humor e aprendizagem_arquivos\humor.html, têm mostrado uma relação entre o entendimento e apreciação de piadas e cartuns e o nível de inteligência e desenvolvimento cognitivo do/a leitor/a (Ziv, 1981). Além disso, conforme argumenta Holm (2006), ao contrário do que geralmente acontece na educação, o humor promove o pensamento divergente. Enquanto na educação em geral ensina-se o pensamento convergente, em que o/a professor/a ensina os/as alunos/as a procurarem ‘a’ resposta, por meio do humor, segundo este autor, somos encorajados a procurar ‘as possibilidades de respostas’ e não ‘a’ resposta.

Ademais, estudiosos/as destacam que “o humor promove a coesão do grupo, inicia relações interpessoais”247 (Robinson, 1991: 18); permite aos/as estudantes correr riscos, contribui para o diálogo em sala de aula sem ameaça à face (Chiasson, 2003); diminui o impacto de respostas equivocadas (Tauber & Mester, 1994); e é muitas vezes usado pelos/as professores/as para ‘ganhar o interesse dos alunos’ (Ziv, 1988).

O status do professor é também discutido em muitas dessas pesquisas, segundo as quais o uso do humor na sala de aula altera as relações de poder nesse espaço, minimizando o domínio do

professor. Uma outra razão apontada para o uso do humor em sala de aula é também a sua habilidade de transformar o negativo em positivo (Robinson, op. cit.). Assuntos considerados tabus, desconfortáveis de se tratar, tornam-se mais abordáveis quando o humor está envolvido na interação (Tauber & Mester, op. cit.).

Apesar de não ter feito pesquisa voltada para o uso do humor no ensino, Travaglia (1995: 49) também comenta sobre a importância do trabalho com textos humorísticos no ensino de língua materna. Segundo ele, “uma idéia importante que não se pode deixar de registrar é que dentro do trabalho de ensino de Língua Materna” no Ensino Fundamental e Médio,

os textos humorísticos são um recurso didático bastante interessante no desenvolvimento da competência comunicativa dos alunos enquanto receptores de textos, para deixar claro fatos fundamentais envolvidos na leitura (de textos orais ou escritos de qualquer tipo):

- que uma seqüência lingüística tomada como texto pode ter várias leituras (pode produzir mais de um efeito de sentido), conforme se variem as condições de produção da leitura;

- que certos efeitos de sentido são vistos como únicos porque privilegiados por condicionamentos da exterioridade sócio-histórica, cultural e ideológica, mas na verdade há outras possibilidades para além do discurso dominante;

ou seja, o texto humorístico é capaz de deixar evidente, de uma forma agradável, fatos importantes do funcionamento discursivo dos textos e dos recursos da língua, o que sem dúvida é interessante para a pesquisa lingüística que tem nos textos humorísticos evidências bastante explícitas de tais fatos.

Enfim, como se pôde ver, há uma série de razões que justificam por que o humor é um recurso eficaz na sala de aula.

Contudo, há também algumas razões apontadas por investigadores/as desse campo pelas quais o humor não deveria ser utilizado em sala de aula. Enquanto para uns/umas a minimização da assimetria de poder, em função do uso do humor na sala de aula, é considerado um ponto positivo, para outros/as é um ponto negativo, pois entendem, como Van Tassel (2003), que na prática os/as professores/as não querem perder o domínio do poder em sala de aula. De acordo com este autor, eles/as têm medo de os/as alunos/as não quererem aprender o que querem lhes apresentar, caso lhes seja dado mais poder e controle em sala de aula. Isso, na opinião de Bernard (1990), causa um impacto na luta de e pelo poder na hierarquia escolar, na qual educadores/as, tradicionalmente, têm o poder sobre os/as educandos/as.

Um outro fator negativo apontado para a utilização do humor no contexto educacional diz respeito às expectativas presumidas que o professor sente de seus superiores e parceiros dentro desse contexto. Como os outros professores, o diretor, os pais, colegas, etc reagem ao ver ou ouvir uma turma rindo na aula? Sabe-se que há ainda uma valorização do que se chama “tempo ocupado” (Howe Jr., 1991: 104), em que os/as estudantes ‘parecem’ estar aprendendo, em detrimento de uma aula cheia de risos, movimento, barulho, em que os/as alunos/as não aparentariam estar com esse “tempo

ocupado”. “O que os outros vão pensar de mim e de minhas aulas?” ainda é uma questão que incomoda e limita muitos/as educadores/as.

Além desses pontos negativos, outros são identificados na literatura. Primeiro, considera-se que os/as professores/as não sabem como usar o texto humorístico na sala de aula e, por isso, têm medo de que lhes possa causar embaraço, constrangimentos (Bauer, 1996). Aliado a isso, está a preocupação com o fato de que o humor pode dispersar o foco de aprendizagem (Ziegler, 1999). Outro ponto são os afetos negativos que podem ser direcionados aos outros se o humor for usado para “rir de” e não para “rir com”.

A questão da subjetividade também é levada em consideração por pesquisadores/as do humor direcionado ao ensino: o que é engraçado para um, não é para outro. Isso, na opinião de alguns/mas, como Loomans & Kolberg (1993), influencia negativamente na utilização do humor em sala de aula. Para esses dois autores, “há dois lados bem distintos do humor: o cômico e o trágico. O humor pode agir como um lubrificante social ou como um ‘retardador’ social no cenário educacional. Ele pode educar ou ‘desfigurar’”248.(idem, p. 14).

Não restam dúvidas de que os motivos apresentados para a não utilização do humor no ensino também me incomodaram, muitas vezes, no decorrer do desenvolvimento de minha pesquisa. Não posso dizer que, em alguns momentos, não fiquei preocupada com o movimento e o barulho em meus encontros com as turmas. Várias vezes também tive medo de me embaraçar no trabalho com o humor, pela inexperiência mesmo de usá-lo em sala. Tive ainda que lidar com a questão da subjetividade, pois era – e é - impossível escolher textos que agradem a todos/as. Mesmo assim, esses motivos não foram suficientes para me convencer de que não se deveria incentivar a leitura e análise crítica de gêneros do humor em sala de aula.

Contudo, tenho clareza de que não se deve, de forma alguma, querer reduzir o trabalho com gêneros em sala de aula aos gêneros do humor. Isso seria uma grande tolice. Conforme adverte Powers (2005), os GHs, como qualquer outro objeto de ensino, deve ser usado com moderação. Mas, por outro lado, penso que, como outros diversos gêneros discursivos com os quais temos contato na nossa vida em sociedade, os gêneros do humor não podem ser excluídos do contexto de sala de aula.

Com relação a isso, alguns/mas estudiosos/as têm destacado alguns “cuidados” que consideram que os/as educadores/as devem tomar ao utilizar o humor no contexto educacional.

Kher, Molstad e Donahue (1999), por exemplo, acham que o/a professor/a deve evitar a referência à etnia, família, deficiência, aparência ou qualquer outro identificador que um/a estudante possa achar ofensivo no texto humorístico. Já Silva (2005), cuja pesquisa é sobre charges e tiras, salienta que os gêneros do humor escolhidos devem ser

248 Tradução minha de “There are two very distinct sides to the humour coin: the comic and the tragic. Humour can act as a social lubricant or a social retardant in the educational setting. It can educate or deface”.

como um instrumento de educação, formação moral, propaganda dos bons sentimentos e exaltação de virtudes sociais e individuais, valores que podem ser discutidos, mesmo que por meio de ironias e crítica. Sempre que possível, a charge deve exaltar o papel dos pais, dos professores, da escola, sem o sentimento de depreciação dos mesmos, mas como uma visão crítica, constituída de um discurso pedagógico.

Na sua opinião, o professor não deve levar para a sala de aula gêneros humorísticos que tragam mensagens ridicularizando qualquer raça ou religião, “pois o intuito do trabalho em sala de aula não é a ofensa, e sim, a possibilidade de por meio da ironia e do lúdico, permitir a discussão dos vários sentidos que estão em jogo na sociedade”. Para ela também, “a menção sobre defeitos físicos não deve ser colocada de maneira agressiva ou debochada, para evitar naturais constrangimentos”.

Não quero desmerecer essas considerações desses/as estudiosos/as, mas confesso que tenho dúvidas quanto a esses “cuidados” todos. Será que, ao contrário do que alguns/mas estudiosos/as preconizam, não deveríamos levar para a sala de aula esses “textos-problema” para questioná-los, discuti-los, desconstruí-los? Se fora da instituição de ensino muitos/as estudantes lêem esses textos, penso que devem, sim, ser trazidos para a sala de aula e lidos criticamente. Não é “fazendo de conta” que os problemas não existem que vamos resolvê-los. Penso que devemos enfrentá-los e procurar formas de minimizá-los, pelo menos. Nas propostas que compõem minha pesquisa, não priorizei “textos de humor bem comportados”. Ao contrário, lemos e discutimos gêneros do humor com temas diversos, como: raça, política, religião, homossexualismo, relação homem x mulher, etc.

Em síntese, como se pôde ver, apesar das razões apontadas por alguns/as pesquisadores/as, pelas quais o humor não deve ser utilizado na sala de aula, diversas investigações sobre o humor no ensino têm sido feitas, demonstrando que a utilização dos gêneros do humor na educação pode produzir muitos bons resultados. Entretanto, percebe-se que há ainda uma lacuna no que diz respeito à pesquisa científica direcionada para os diferentes gêneros do humor presentes em livros didáticos de Língua Portuguesa, de 7ª série, e de diferentes fontes, no ensino de Língua Portuguesa, na perspectiva da Análise de Discurso Crítica. Mais ainda, não há uma proposta de leitura dos gêneros do humor voltada para o Ensino Fundamental.

E, na minha opinião, caso não seja desenvolvido um trabalho de leitura na escola, em especial no Ensino fundamental, dos diferentes gêneros do humor que circulam na sociedade, numa perspectiva crítica, o humor estudado em sala de aula pode acabar reforçando as diferenças (entre raças, por ex.), reproduzindo estereótipos (os de ‘loira burra’ e ‘português burro’, por ex.), a discriminação e a ideologia dominante, e atuar negativamente na constituição das identificações. Esse é um dos motivos que me levou a investir em minha pesquisa.

Eu acredito que esse investimento nos gêneros do humor dentro da sala de aula pode trazer muitas contribuições não só no que diz respeito à formação de leitores/as e cidadãos/as críticos/as

como para minimizar problemas inerentes à rotina de sala de aula. Por isso, a pertinência e relevância de minha pesquisa.

Para finalizar esta seção, vou reproduzir as palavras de Lorenz (1969: 283) citadas por Minois (2003: 619):

Acredito que o humor exerce, sobre o comportamento social do homem, uma influência análoga à da responsabilidade moral: ele tende a fazer de nosso mundo um lugar mais honesto e melhor. Acho que essa influência aumenta, entrando cada vez mais em nossos processos de raciocínio, misturando-se intimamente a eles com efeitos mais próximos dos da moral.

Para Lorenz, humor e conhecimento são duas grandes esperanças da civilização.

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