Fonte: SANTINO (2004).
Contribuem para a formação deste imaginário os relatos de viajantes, os meios de comunicação e até a geografia escolar, que durante muitos anos, enfatizou a descrição dos aspectos físico-naturais e nos famosos tipos regionais. De que outra maneira pode ser analisado o Pampa para entendê-lo como região sem cair exclusivamente na figura do gaúcho? Como avaliar a aplicabilidade do conceito de região no Pampa do século XXI sem cair nos cartões-postais do passado? Esse capítulo apresenta diversos tratamentos teóricos dados ao conceito de região e a sua aplicabilidade no caso do Pampa. Discute como a regionalização do Pampa é uma espacialidade criada, forjada por uma atividade em comum, a pecuária, e pela cultura gaúcha.
5.1. O CONCEITO DE REGIÃO
A origem etimológica do termo região estaria no termo regio, do latim, o qual se referia “à unidade político-territorial em que se dividia o Império Romano”. O fato de seu radical ser proveniente do verbo regere, governar, atribuiria à região “em sua concepção original, uma conotação eminentemente política” (CORRÊA, 2001). Para Gomes,
designar áreas que, ainda que dispusessem de uma administração local, estavam subordinadas às regras gerais e hegemônicas das magistraturas sediadas em Roma (GOMES, 1995).
Paul Vidal de La Blache (1921) pensava a região enquanto um “corpo vivo”, único. Gomes (2000) destaca que, para este autor, “a região é uma realidade concreta, física, ela existe como um quadro de referências para a população que aí vive”.
Haesbaert (1999) cita a La Blache, Sauer e Hartshorne como referenciais aos estudos de caráter regional em função de sua contribuição para a sistematização dos estudos que se propunham a analisar um espaço geográfico pela lógica zonal. O que deve ser considerado, entretanto, são os contextos específicos, os espaços e tempos próprios, em que produziram suas contribuições para o estudo da região.
Sempre segundo Haesbaert, Carl Sauer, “situa-se entre os grandes mestres que, pelo espírito crítico, criatividade, talento e liderança intelectual”, e consolidou novos rumos para a Geografia, a partir do seu legado com ênfase na geografia cultural. Sauer defendia que os estudos regionais deveriam promover a construção de uma “morfologia da paisagem”. Como lembra Amorim (2007) ao tentar apresentar uma outra possibilidade aos estudos geográficos, Sauer rompe com o que se fixou como “determinismo geográfico”, e publica em 1925 “The Morphology of Landscape”, onde define a Geografia como o estudo da diferenciação de áreas ou corologia; deste estudo surge também uma forte vertente da geografia cultural (CORRÊA, 2001).
Para Corrêa (2001, p. 267), o modo de estudar a paisagem geográfica de Sauer, por meio do que ele denominou de “método morfológico”, é similar ao que Vidal de La Blache estabeleceu para suas monografias regionais. A Geografia Regional seria, assim, “uma morfologia comparativa”.
Hartshorne também contribui para os estudos regionais, após os estudos de La Blache e Sauer. Para Hartshorne a região constituiria “um constructo intelectual e que, como tal, poderia variar em sua delimitação de acordo com os objetivos do pesquisador”. (HAESBAERT, 1999, p. 18).
Amorim (2007) salienta que um historiador que discute o conceito de região é Marcos Silva (1992), que considera a região como um universo de práticas vivenciadas pelos diversos grupos humanos que nela se inserem, que englobam o relevo, as relações pessoais, a memória familiar, as condições de trabalho, e a associação. A partir desta definição, pode- se pensar em extrapolar limites e fronteiras de ordem administrativa que, em geral, delimitam uma região, destaca Silva (idem). O regional torna-se, portanto, um conjunto de identidades não vinculado necessariamente aos limites formais estabelecidos.
regionalista de alguns grupos políticos, parte do pressuposto de que o critério de divisão regional surgiu simbolicamente e foi sendo reconhecido e legitimado a posteriori.
Bourdieu (1989) defende que a divisão regional não existe na realidade, pois esta mesma realidade é a representação que dela fazemos. Desta forma, a delimitação regional é estabelecida por quem nela vive e passa a compor o imaginário daqueles que a ela se referem. A identidade regional, por exemplo, é um produto da construção humana. Bordieu caracteriza os geógrafos como impositores de uma divisão arbitrária sobre uma ordem que guarda uma continuidade natural. Para Bourdieu, a região é uma construção do sujeito, que igualmente a delimita, a partir de padrões próprios, porém fundamentados na realidade existente. Para eles a região é um constructo feito a posteriori (AMORIM, 2007).
Apesar da variedade de abordagens com defesa de procedimentos de análises diferentes em termos teóricos e empíricos, a região não é relegada ao esquecimento. Nigel Thrift faz parte de um grupo de autores citados por Haesbaert (2002) como responsáveis pela “ressurreição” do conceito de região.
No momento em que os processos de globalização/fragmentação dominam as discussões sobre recortar ou não o espaço geográfico para melhor entendê-lo, dominá-lo ou mesmo reproduzi-lo (IANNI, 1998), analisar o espaço regional do Pampa e a sua “fragmentação regional”, para lembrar Thrift, pode contribuir para desvendar a realidade. Como nos lembra Haesbaert (2002, p. 21), “não faltam, portanto, novas perspectivas para a análise regional, sejam na forma das antigas regiões-zona, ou na forma das regiões rede ou das redes regionais”.
5.2. O PAMPA GAÚCHO: UM PRODUTO DOS INTERESSES REGIONAIS?
Vainer (1995), citado por Amorim (2007), ao estudar os regionalismos no Brasil, questiona o uso do termo “interesses regionais”, e apresenta uma série de indagações a respeito desta expressão, defendendo a tese de que esses “interesses regionais” se relacionam a sujeitos ou grupos sociais específicos que têm o poder de promover regionalizações. Traduzindo essa análise para o caso de nosso estudo, o Rio Grande do Sul, por exemplo, teria exaltado a tradição e cultura gaúchas como uma maneira de se afirmar como uma região autônoma em relação ao restante do Brasil. Algo similar poderia ser dito do Uruguai, um país pequeno e sempre submetido às pressões de seus vizinhos muito maiores, que salienta suas tradições regionais como uma ferramenta de auto-afirmação e de independência.
tradicionais, no que concerne a relações e manifestações de poder político regional, não permite avaliar com clareza os novos discursos e movimentos que focalizam o território como elemento estratégico da efetivação de identidades sociais e de projetos políticos. O autor enfatiza que “as formas contemporâneas de manifestação dos interesses regionais, tanto quanto os grupos e coalizões que as sustentam, não respondem a um único padrão” (Idem).
O Pampa é multifacetado. Do ponto de vista da biogeografia ele abrange o Sul do Brasil, a totalidade da República Oriental do Uruguai e a totalidade do pampa úmido argentino (Província de Entre Rios, Sul da Província de Santa Fé, uma parte do Sul da Província de Córdoba, a quase totalidade da Província de Buenos Aires, com a exceção do Sul da localidade de Bahia Blanca e do extremo Oeste da Província de La Pampa). Entre os seus atributos geomorfológicos e funcionais, podemos mencionar:
- áreas de pastagens naturais em bom estado de conservação por baixa ou inexistente carga bovina;
- zonas de florestas autóctones; - lagoas;
- córregos.
O conjunto interativo desses ecossistemas funciona em escala sub-regional e não como um conjunto de ilhas ecológicas isoladas, desde o ponto de vista dos corredores de fauna, de migração de aves, da dinâmica hidrológica e das constantes climáticas.
5.3. O CAMINHO DO GAÚCHO
Do ponto de vista cultural, a região pampiana se caracteriza pela presença, histórica, mas ainda viva, da cultura do gaúcho. Se bem já esclarecemos que o nosso objetivo nesse capitulo é olhar para o Pampa moderno, de hoje, e não para o passado, devemos entender a história para identificar os seus símbolos vivos no presente. Quando em 1536 chegaram ao Rio da Prata os primeiros conquistadores espanhóis, foi introduzido na região o gado equino e bovino. A demora na organização da colônia e os ataques frequentes dos índios da região espalharam o gado, que se tornou “cimarron” ou selvagem, reproduzindo-se rapidamente nas férteis pastagens naturais. Logo nasceu a captura de gado para a produção de carne e couro bovino, assim como a de cavalos para o transporte.
Os cavalos selvagens era domados pelos tropeiros, que levavam o gado através de longas viagens através das planícies. Os tropeiros consolidaram as relações comerciais nos
extremos do Pampa, desde Laguna, no Estado de Santa Catarina, no Brasil, até os confins do bioma pampiano na Patagônia argentina (Mapa 3) criando caminhos e áreas de fornecimento de comida e hospedagem que mais tarde seriam chamadas de pulperias e
postas. Depois nasceriam as estâncias, onde o gado bovino seria reproduzido em currais.
Os tropeiros foram denominados genericamente de gaúchos (gaúchos no Brasil) e a subsistência de suas tradições ao longo do tempo e do espaço gerou uma das mais consolidadas culturas equestres do mundo.
Mapa 3. As rotas dos tropeiros propiciaram o surgimento de uma cultura rural