O discurso ocupa uma posição central na constituição da/s identidade/s, uma vez que esta/s se constrói(oem) na linguagem e por meio dela, não existindo de maneira fixa e anterior a ela. Por estar sempre em evolução numa rede de relações que se cruzam e nos definem ou nos posicionam na realidade, conceituar identidade é considerado tarefa difícil.
Atualmente, a questão da identidade e da diferença está no centro da teoria social e da prática política, e a base da discussão sobre essa questão “está na tensão entre perspectivas essencialistas e perspectivas não-essencialistas sobre identidade” (Woodward, 2000: 12). Uma definição essencialista procura identificar nos grupos sociais aquilo que eles possuem de universal, de igual (a essência), aquilo que não se altera durante o tempo e que distingue um grupo de outro. Porém, em razão dos novos movimentos sociais, o caráter fixo da identidade tem sido questionado. Uma definição não- essencialista de identidade, por outro lado, relaciona esse conceito à questão da diferença, ou seja, nessa concepção, o que se enfatiza é que a identidade não é essência fixa, não é permanente e nem vale para todas as épocas. Ao contrário, é uma construção, um efeito, é instável ou fluida, é contraditória, inacabada e fragmentada (Silva, 2000).
Essa discussão sobre identidade está ligada à modernidade tardia, que tem afetado profundamente a identidade das pessoas e seus sentimentos pessoais. Há um “novo sentido de identidade”, um processo constante de busca de identificação do ‘eu’ marcado por “intervenções e transformações ativas” (Giddens, 1991: 12). Chouliaraki e Fairclough (1999) argumentam que a
modernidade tardia mina identidades individuais e coletivas; logo, lutas para a construção de identidades no discurso são um traço saliente da vida social nessa fase da modernidade.
Pode-se dizer que o processo amplo de mudanças em escala global pelo qual as sociedades têm passado abalou o indivíduo, causando-lhe um descentramento em sua identidade (Giddens, 1991, 1992, 2000). Da mesma forma, as antigas fontes de ancoragem da identidade dos sujeitos sociais estão em crise e novos grupos culturais estão se tornando visíveis na cena social, buscando afirmar suas identidades ou reafirmá-las, ao mesmo tempo em que questionam a posição privilegiada das identidades até então hegemônicas. Em contrapartida, a educação e a pedagogia, conforme Silva (2000), ainda se fundamentam na existência de um sujeito racional, unitário, o que tem acentuado cada vez mais a crise no ensino e nas relações interpessoais. Isso reafirma a necessidade de se desenvolver pesquisas que busquem romper com essa fundamentação indevida e problemática, e procurem investigar a construção de identidades nos diferentes gêneros discursivos com os quais os/as alunos/as têm contato, e a partir deles. Essa pesquisa procura, de certa forma, fazer isso.
É importante compreender, como Hall (2001:103), que a identidade é um ato performativo55 em que os indivíduos como sujeitos se constituem nos discursos e as identidades são construídas discursivamente nos eventos discursivos. Assim, a identidade não é um conceito essencialista e estável, mas, sim, relacional e instável, o qual permite aos indivíduos constituírem-se multiplamente. Portanto, compreender a identidade como um ato performativo é compreender os indivíduos não com base em alguma essência, mas como sujeitos que se constituem nos discursos, e as identidades como construídas dentro do discurso, e de forma múltipla, nos eventos discursivos (cf. Hall, op. cit.: p. 109). Quem nós somos depende dos eventos discursivos dos quais participamos. Então, segundo Hall, a identidade trata-se sempre de um “sujeito-em-processo”, uma constituição que nunca cessa, por isso há sempre possibilidade de quebra e de mudança nas representações discursivas, o que ocorre no discurso.
Nessa perspectiva, entende-se que as identidades se formam e são atravessadas pelas posições de sujeitos que são construídas historicamente nos discursos; elas são constituídas heterogeneamente através dos efeitos das diversas posições de sujeito (Chouliaraki e Fairclough, 1999: 25). Isso nos leva a entender que as mesmas pessoas, dependendo do lugar que ocupam nas práticas discursivas, posicionam-se de forma múltipla, através de identidades diferentes, fragmentadas, abertas e contraditórias (Silva, op. cit.; Hall, op. cit.). Somos, portanto, “uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis”; somos “produtos de várias histórias e culturas interconectadas” e pertencemos “a uma e ao mesmo tempo a várias casas” (Hall, op.cit., p.14). Nas palavras de Bhabha
55 A teoria da “performance” é de J. Butler (1999). Em sua teorização sobre as identidades de gênero, ela traz a noção de uma identidade não essencial e performática, a qual é compartilhada por Hall. Butler argumenta que o sexo, assim como o gênero, é materializado através de práticas discursivas, de normas regulatórias que não são nunca finalizadas, pois permanecem num processo constante de reafirmação. Ela propõe considerar o gênero social como performativo, pelo fato de ele não ser uma afirmação ou uma negação, mas sim uma construção que se dá através da repetição de atos que tenham alguma correspondência com as normas sociais e culturais. Nesse sentido, um gênero é um modo de subjetivação dos sujeitos; "o 'eu' surge apenas no interior de e como matriz das próprias relações de gênero. Como Hall (2001:109) destaca, mostrar a natureza da identidade como algo não essencial não diminui em nada a sua eficácia discursiva, material ou política.
(1998), somos ‘indivíduos híbridos’, ou seja, pertencemos a dois ou mais mundos ao mesmo tempo. Assim, assumimos identidades diferentes transformadas continuamente.
Segundo Woodward (2000: 14), a identidade é marcada pela diferença e esta é sustentada pela exclusão. De acordo com a autora, é por meio da diferenciação social que as classificações da diferença são “vividas” nas relações sociais e é por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Enfim, os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar e todas as práticas de significação envolvem relações de poder.
A natureza da linguagem que usamos exerce implicações nos modos como as subjetividades são construídas e produzidas, acarretando novas formas de se perceber, de perceber o outro e de lidar com as diferenças. A identidade e a diferença, portanto, são produtos culturais e sociais, são criações lingüísticas e são constituídas por meio de atos de linguagem.
Ao usarmos a linguagem/discurso, não apenas reproduzimos as relações de poder; nós
podemos refletir posições de resistência ao poder, de emancipação, de diferenças, de vozes alheias que incorporamos de outros discursos e ideologias, ao mesmo tempo em que podemos também nos reposiciocionar, transformando nossas identidades, e podendo, assim, agir sobre a nossa realidade social.
Nessa dupla perspectiva de reprodução e resistência, considero que a identidade e diferença, mais do que respeitadas e toleradas, como proposto nos PCN (Brasil, 1998), devem ser questionadas e problematizadas (Silva, 2000). Nesse sentido, pode-se dizer que é indispensável uma abordagem crítica ao discurso humorístico, em que se investigue, analise e, principalmente, questione e problematize as diferentes identidades representadas em gêneros do humor usados em sala de aula e suas implicações na constituição das identidades dos sujeitos envolvidos no processo de ensino/aprendizagem. Como defendem Butt et al. (2000: 250), uma orientação crítica encoraja os/as alunos/as a explorar como os significados nos textos influenciam eles/as mesmos/as e os outros. Entender como o texto posiciona sua audiência e promove, ou torna invisível, pontos de vista particulares possibilita aos/às alunos/as avaliar os textos de outros e experimentar, em seus próprios textos, diferentes visões de mundo e significados reveladores e desafiadores.
Enfim, questões de luta pela identidade são parcialmente questões de discurso e compõem parte da agenda da ADC (Chouliaraki e Fairclough, 1999); por isso também, nesta pesquisa, serão analisadas.
Como nas intervenções realizadas em campo trabalhamos com gêneros com tema Relação homem x mulher e discutimos as relações de gênero, vou também tecer aqui breves considerações sobre a identidade de gênero.
Gênero é uma construção social na qual as mulheres, com freqüência, aparecem discriminadas numa relação desigual com os homens. Ambos ocupam papéis e posições diferentes que são sociocultural e ideologicamente estruturados e veiculados na sociedade à qual pertencem. Tais papéis
e posições são marcados por relações assimétricas nas quais as identidades são estruturadas, mantendo ou reproduzindo práticas sociais não questionadas, por estarem naturalizadas no grupo e vistas como relações pré-definidas, de senso comum e, portanto, imutáveis.
Isso é verificado em sala de aula, onde as diferenças são mantidas por professores e professoras e pelo grupo de alunos e alunas, segundo pesquisadores/as. Swann (1992), por exemplo, confirma que o discurso de sala de aula ainda é discriminatório; Lima (1997), por sua vez, mostra que o próprio material de leitura é carregado de imagens sexistas que realçam ou reproduzem desigualdades entre homens e mulheres. Na mesma perspectiva, em trabalho sobre linguagem e gênero, Graddol e Swann (1989) afirmam que as práticas discursivas constróem imagens estereotipadas de mulheres por meio de piadas, provérbios, e da literatura, provocando um tratamento preconceituoso contra as mulheres em casa, na escola e no trabalho.
Todavia, como o gênero é uma construção social veiculada por práticas discursivas, não se pode falar de relações de gênero estanques; elas são, sim, mutáveis. Como Fairclough afirma, é possível haver uma mudança nas relações de gênero e na construção das identidades, caso haja uma mudança discursiva. Esta mudança pode provocar ainda uma mudança social, transformando as práticas sociais no interior de uma sociedade.
De acordo com Cameron (1992: 38), as diferenças entre as identidades de gênero são, por um lado, produto das próprias atividades e valores das mulheres, ou, por outro lado, de sua opressão pelos homens. Segundo a autora, ao se estudar as diferenças e as formas pelas quais elas surgem, podemos chegar a um entendimento de como a linguagem se relaciona ao gênero social. Ela propõe olhar para como as diferenças de sexo na linguagem refletem, ou são ditas para refletir, as naturezas ou papéis ou
status de mulheres e homens.
Na análise dos dados, procuro também observar como essas diferenças são representadas discursiva e imageticamente.