Nesta pesquisa, utilizei diferentes métodos para coleta de dados, a saber: a observação participante, diários/relatos e notas de campo, a entrevista, o questionário e a produção de texto escrito por professoras e alunos/as quando da avaliação do trabalho desenvolvido. Como a aplicação desse questionário e a produção desse texto se deram será explicado na seção 2.4.2.
Segundo Denzin (1978: 183), a observação participante é “uma estratégia de campo que combina simultaneamente a análise documental, a entrevista de respondentes e informantes, a participação e a observação direta e a introspecção”.
O “observador como participante” é, segundo Lüdke e André (1986: 29), um papel em que a identidade do pesquisador e os objetivos do estudo são revelados ao grupo participante desde o início - isso é o que procurei fazer, como se pode ver mais adiante neste capítulo. No processo de observação, esse observador pode permanecer muito ou pouco tempo convivendo com um grupo, pois, de acordo com estes autores, a decisão sobre a extensão do período de observação depende, acima de tudo, do tipo de problema que está sendo estudado e do propósito do estudo. No caso de minha pesquisa, como explicito mais adiante, o período de estada no campo não foi curto, em função dos objetivos e de diferentes fatores contextuais. Porém, durante parte desse tempo estive na posição de observadora participante e durante outra boa parte passei a intervir diretamente na prática de sala de aula, assumindo o desenvolvimento de duas propostas de leitura de gêneros do humor: uma proposta piloto e uma final (ver subseções 2.4.2.2 e 2.4.2.3).
Um aspecto importante a se considerar nesse processo de observação é o conteúdo das observações. De acordo com Bodgan e Biklen (1982), esse conteúdo deve envolver uma parte descritiva e uma parte reflexiva. A primeira envolve um registro detalhado do que ocorre “no campo”, que inclui: descrição dos sujeitos, reconstrução de diálogos, descrição de locais, de eventos especiais, das atividades, das ações e conversas do observador com os participantes. Isso, geralmente, é feito em diário de campo. Já a parte reflexiva das anotações inclui as observações pessoais do pesquisador, feitas durante a fase de coleta: suas especulações, sentimentos, problemas, idéias, impressões, pré- concepções, dúvidas, incertezas, surpresas e decepções – o que constitui as notas de campo136.
O diário e as notas de campo foram por mim utilizados durante todo o trabalho de campo e constituíram um recurso muito importante na organização, reflexão e revisão constantes desse
trabalho.
Esse aspecto do conteúdo das observações está associado a uma das questões relacionadas ao debate metodológico recente, a qual diz respeito à etnografia como escritura. Ela tem sido focalizada por diferentes pesquisadores/as, como: Van Maanen (1988), Clifford e Marcus (eds., 1986), Atkinson (1992) e Chouliaraki (1994).
Pode-se dizer que uma das contribuições da obra de Van Maanen reside na discussão das diferentes maneiras de organizar e apresentar a pesquisa etnográfica. Considerando os diferentes leitores possíveis, Van Maanen (op. cit.) apresenta uma classificação das etnografias em 07 tipos137de escritos/relatos etnográficos, com as respectivas convenções narrativas que os definem: realista, confessional, impressionista, crítico, formal, literário, e o de autoria conjunta. Segundo o autor, eles são entendidos como modos de trabalhar, de contar, de escrever, de fazer etnografia. Vou me ater, contudo, apenas a dois desses tipos: o confessional e o crítico, que foram utilizados nesta pesquisa.
O relato etnográfico confessional, além de ser um relato das dificuldades enfrentadas pelo/a pesquisador/a no campo e do seu ponto de vista em relação aos fatos narrados, seu texto contém também os dizeres e os fazeres dos sujeitos envolvidos na pesquisa e observações sobre o cotidiano do grupo. De acordo com Van Maanen, esse tipo confessional se constitui em uma tentativa de explicitamente desmistificar o trabalho de campo ou a observação participante, ao mostrar como efetivamente se pratica essa técnica de observação e participação no campo. As suas características distintivas são: seus estilos altamente personalizados (autor(idade) personalizado/a), a presença do ponto de vista do/a pesquisador/a e a naturalidade. Já o relato crítico focaliza os aspectos políticos, sociais e ou econômicos da vida dos/as participantes e busca a perspectiva de grupos em desvantagem social. Nos relatos críticos, há uma preocupação com a reflexão e mesmo com a mudança de práticas
136 Berg (2001) e Wolfinger (2002) utilizam o termo notas de campo para se referir tanto à parte descritiva – diários – quanto à parte reflexiva – notas.
137 Realist, Confessional, Impressionist, Critical, Formal, Literary , and Jointly-told Tales. Van Maanen utiliza o termo ‘tales’ para jogar luz às qualidades de apresentação ou, mais propriamente, às qualidades representacionais de toda escrita do trabalho de campo. (p.8).
sociais discriminatórias, conforme destaca Magalhães (2000: 54) ao aproximar esse tipo de relato à teoria de Consciência Lingüística Crítica proposta por Clark et al. (1987) e Fairclough (ed., 1992).
Enfim, utilizo, fundamentalmente, alguns princípios da narrativa etnográfica confessional associados com a narrativa crítica, na produção de meu texto etnográfico, levando em consideração os/as diferentes leitores/as a que possa se destinar esta pesquisa, a necessidade de reflexão sobre a realidade investigada e de avaliação da mesma, e os propósitos de minha investigação.
Ao lado da observação participante, a entrevista138 representa um dos instrumentos básicos para a coleta de dados na pesquisa qualitativa. Ela é “um dos mais poderosos métodos qualitativos”, na visão de McCracken (1988: 9).
Durante meu trabalho de campo, realizei entrevistas semi-padronizadas (semi-estruturadas orientadas ou focalizadas), conforme classificação de Berg (2001: 68). Elas foram organizadas como sendo um instrumento mais flexível e aberto de pesquisa, e não uma receita. Para a realização das mesmas, elaborei algumas questões e tópicos especiais139; enfim, um roteiro, como sugerem Lüdke e André (1986: 36), para que me orientasse ao fazer as perguntas, procurando não direcioná-las (McCraken, op. cit.: p. 34) demais. Assim não fiquei presa ao que estava pré-elaborado apenas; no decorrer da interação, novos pontos foram surgindo para diálogo e, de uma pergunta, podiam surgir outras. A forma como isso aconteceu é melhor detalhada na seção 2.4.2.
No próximo tópico, discorro sobre a metodologia para análise dos dados.