As atividades desenvolvidas na oficina tiveram por objetivos centrais fazer com que os alunos tomassem ciência do contexto sócio-histórico no qual se desenvolve a trama da sitcom, refletissem sobre representação dos afro-americanos que habitava o bairro Bedford- Stuyvesant na década de 1980 e analisassem a construção dos personagens centrais, do enredo e do desfecho no episódio em evidência.
Foram propostos dois blocos de atividades na oficina. A primeira tarefa solicitava aos alunos que fizessem uma pesquisa, extraclasse, sobre os seguintes tópicos: o nome do autor da série e sua biografia; o grupo étnico predominante na região de Bedford-Stuyvesant e sua condição socioeconômica e a situação do negro nos E.U.A na década de 1980. O objetivo da pesquisa era contextualizar os estudantes acerca da caraterística autobiográfica da sitcom e do cenário social, econômico e cultural que ela retratava. O segundo grupo de atividades foi segmentado em uma fase de pré-leitura do episódio na qual os alunos compartilharam as informações que coletaram na pesquisa e outra composta por oito questões de compreensão que foram respondidas após a exibição do vídeo.
130 A seguir, analisaremos as respostas dos estudantes, registradas no diário de campo, para algumas questões propostas nas atividades de compreensão leitora. Serão analisados também o curta-metragem elaborado e a avaliação que estudantes fizeram sobre o programa no questionário aplicado no final do projeto de ensino.
Grande parte dos estudantes fez a tarefa extraclasse, isso demonstrou o interesse deles em estudar o seriado. Durante o compartilhamento das informações coletadas na pesquisa, a docente constatou que a turma possuía um conhecimento restrito a respeito da série. A maioria da turma desconhecia que Todo Mundo Odeia o Chris baseava-se nas experiências de seu autor Chris Rock e, apesar dos estudantes saberem que a trama se ambientava no Brooklyn – essa informação, como já dito, aparece no início de todo episódio –, ignoravam qual bairro do distrito nova-yorkino a sitcom reproduzia. Ademais, os aprendizes desconheciam o contexto socioeconômico que a série retratava. Um estudante, surpreso, perguntou à docente “então aquilo tudo que aconteceu o Chris era de verdade?”. Percebemos também que os alunos idealizavam os E.U.A como um país onde problemas como desigualdade social e conflito racial nunca existiram. A docente esclareceu a turma quanto à luta dos afro-americanos pela igualdade de direitos e pela abolição da segregação racial que perdurou no país até os anos 1960. Ela informou-lhes, também, os dados do Relatório de Desenvolvimento 2013, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), sobre o índice de desigualdade social nos Estados Unidos que aumentou 6,1% nas últimas décadas e sobre o número de indivíduos que vivem na pobreza que chegam a 50 milhões.
No decorrer da socialização dos tópicos pesquisados, a docente foi informando aos alunos quanto à data de criação do seriado, época e local que ele retratava etc. Após a contextualização da série, ela perguntou à classe quais temas eram reincidentes na sitcom e como os episódios terminavam. Para a primeira questão, houve respostas como “preconceito” e “bullying”. De fato, como afirma Andrade (2011), o confronto racial é uma constante nos episódios do seriado, embora essa questão não esteja tão acentuada no episódio estudado. Para a segunda pergunta, os alunos disseram, entre risos, que Chris “sempre acabava se dando mal”. A professora registrou as respostas dos alunos na lousa e solicitou-lhes que verificassem se o capítulo estudado apresentava as temáticas e o desfecho apontados por eles.
Alguns estudantes, à medida que se reconheciam em alguma fala ou situação ilustrada no episódio, teciam comentários. Um aprendiz, logo após a seguinte fala do narrador “ele pode não ter um pai, mas tem uma jaqueta de couro irada” disse que preferiria ter uma
131 jaqueta, visto que seu pai “não vale nada”. Durante passagem em que Julius propõe a Chris que trabalhe para conseguir comprar a jaqueta, muitos estudantes afirmaram passar pela mesma situação em casa. Por fim, na cena em que Julius espreme um tubo de creme de dental quase vazio para aproveitar ao máximo o produto uma estudante comentou rindo: “igualzinho meu pai”.
A primeira questão de leitura perguntou aos alunos se as hipóteses que formularam na etapa de pré-leitura do capítulo foram confirmadas ou não. A turma reconheceu que, embora o preconceito racial fosse um tema recorrente na série, no episódio analisado ele não foi posto em evidência. Já o desenlace do capítulo correspondeu à expectativa dos alunos, uma vez que Chris não conseguiu atingir seus objetivos ao comprar a jaqueta.
A quarta questão mostrou a dificuldade de alguns alunos em compreender a dinâmica narrativa do seriado. Ao serem questionados a respeito da identidade do narrador que fazia observações no decorrer da trama, uma parcela significativa da turma disse que voz seria o “pensamento de Chris”. A professora para fazer com que os alunos percebessem que se tratava do próprio personagem Chris, só que já adulto refletindo sobre sua adolescência, a professora exibiu algumas cenas em que o narrador revela detalhes oniscientes dos personagens e pediu que comparassem o tom de voz de Chris e do narrador.
Algumas respostas para o segundo item da quinta questão (“Por que, na sua opinião, no lugar e na época em que o narrador vivia ter uma jaqueta de couro era mais valorizado que ter um pai?”) surpreenderam a docente e revelaram o trauma que alguns aprendizes carregavam devido ao abandono paternal. No diário de campo, há registro das seguintes respostas: “por que pai você pode achar em qualquer lugar, não é tão importante e uma jaqueta faz você ficar bonito” e “dependo do pai ,não vale nada. Aí é melhor você ter uma jaqueta de couro e ficar na moda”. Os estudantes ignoraram que a pergunta solicitava que analisassem um contexto socioeconômico específico e valeram-se de suas vivências para responder a questão proposta. Percebemos nas falas a desvalorização da figura paternal em decorrência, possivelmente, da falta de assistência dos pais na vida desses adolescentes. A professora chamou a atenção dos alunos para a denúncia social feita pelo narrador de um problema que afligia a população negra que habitava uma região marginalizada do Brooklyn nos anos 1980.
O terceiro tópico da quinta questão perguntava aos alunos: “Com base na relação entre Chris e seu pai Julius, mostrada no episódio, responda: você acha que para Chris uma jaqueta de couro substituiria a presença de seu pai? Por quê?”. Todos os alunos que compartilharam
132 suas respostas afirmaram que “não”. As justificativas utilizadas por eles foram as seguintes: “Julius é um pai de verdade”, “Julius é legal” e “Julius ajuda Chris e mostra que gosta do seu filho”. Os estudantes perceberam que Chris rompia com os estereótipos impostos à comunidade a qual pertencia, pois possuía um pai presente que contribuía para sua educação e preocupava-se em manter com os filhos um vínculo afetivo.
A nona pergunta da atividade, por sua vez, instigou os alunos a avaliarem o desfecho do capítulo, qualificando-o como surpreendente ou previsível. Os estudantes começaram a debater entre si, visto que alguns classificaram o final como previsível e outros como surpreendente. Os que defendiam que o desfecho era clichê argumentaram que Chris, como acontece normalmente nos demais capítulos, não conseguiu o que desejava. Os que defendiam a originalidade do final do episódio alegaram que a situação vivenciada por Chris era inimaginável, logo ela os surpreendeu. Uma aluna comparou o desenlace de Todo Mundo Odeia Emprego Temporário ao de Malhação – Casa Cheia: “Se fosse Malhação o Chris teria comprado a Jaqueta na época certa e beijado a Keisha”.